Suícidio ou assassinato de Cláudio Manoel da Costa?

4 07 2008
Maysa de Castro

Mariana, MG — foto: Maysa de Castro

 

Hoje é aniversário de morte  — 219 anos — de Cláudio Manoel da Costa, (Mariana, MG, 5/6/1729 — Ouro Preto, MG, 4/7/1789),  poeta brasileiro e inconfidente.  Nasceu nos arredores da cidade de Mariana, no Sítio de Vargem do Itacolomi, em Ribeirão do Carmo. Fez os primeiros estudos em Vila Rica; veio depois para o Rio de Janeiro, onde cursou Filosofia no Colégio dos Jesuítas.  Aos 20 anos, foi estudar em Portugal, na Universidade de Coimbra, onde se diplomou em Cânones, em 1753.   Exerceu a advocacia, tornando-se excelente jurista, bastante renomado e abastado fazendeiro, senhor de três fazendas.  Foi juiz medidor de terras da Câmara de Vila Rica.  Exerceu o cargo de procurador da Coroa e desembargador.  Por incumbência da Câmara de Ouro Preto elaborou “carta topográfica de Vila Rica e seu termo” em 1758. Foi secretário do Conde de Bobadela, Gomes Freire de Andrade, ( Alentejo, 1685 — Rio de Janeiro, 1763), militar português e governador de Minas Gerais.  Cláudio Manoel da Costa, também escreveu sob o cognome de Glauceste Satúrnnio, nome árcade, que adotou depois de fundar a Arcádia Ultramarina.  Membro da Conspiração Mineira, que pregava a independência de Minas Gerais do domínio português, acusado pela Devassa, foi preso e interrogado uma só vez pelos juizes de Alçada, no dia 2 de julho de 1789.   Morreu na prisão, na Casa de Contos, em Vila Rica hoje, Ouro Preto.  Se foi assassinado ou se realmente cometeu o suicídio aos 60 anos enforcando-se na cadeia, ainda é um assunto debatido por historiadores até os dias de hoje.   Excelente poeta, Cláudio Manoel da Costa, mantém  a tradição de Luiz Vaz de Camões na poesia, mas serve de conexão entre a poesia Barroca brasileira e o Arcadismo.

 

É o patrono da Cadeira n. 8, na Academia Brasileira de Letras,  por escolha do fundador Alberto de Oliveira.

Morreu solteiro.  Deixou filhos naturais.

TRÊS SONETOS 

 

 

LXXX

 

Quando cheios de gosto, e de alegria

Estes campos diviso florescentes,

Então me vêm as lágrimas ardentes

Com mais ânsia, mais dor, mais agonia.

 

Aquele mesmo objeto, que desvia

Do humano peito as mágoas inclementes,

Esse mesmo em imagens diferentes

Toda a minha tristeza desafia.

 

Se das flores a bela contextura

Esmalta o campo na melhor fragrância,

Para dar uma idéia da ventura;

 

Como, ó Céus, para os ver terei constância,

Se cada flor me lembra a formosura

Da bela causadora de minha ânsia?

 

Cláudio Manuel da Costa

 

 

 

XXXIII

 

Aqui sobre esta pedra, áspera, e dura,

Teu nome hei de estampar, ó Francelisa,

A ver, se o bruto mármore eterniza

A tua, mais que ingrata, formosura.

 

Já cintilam teus olhos: a figura

Avultando já vai; quanto indecisa

Pasmou na efígie a idéia, se divisa

No engraçado relevo da escultura.

 

Teu rosto aqui se mostra; eu não duvido,

Acuses meu delírio, quando trato

De deixar nesta pedra o vulto erguido;

 

É tosca a prata, o ouro é menos grato;

Contemplo o teu rigor: oh que advertido!

Só me dá esta penha o teu retrato!

 

Cláudio Manuel da Costa

VII

 

Onde estou? Este sítio desconheço:

Quem fez tão diferente aquele prado?

Tudo outra natureza tem tomado;

E em contemplá-lo tímido esmoreço.

 

Uma fonte aqui houve; eu não me esqueço

De estar a ela um dia reclinado:

Ali em vale um monte está mudado:

Quanto pode dos anos o progresso!

 

Árvores aqui vi tão florescentes,

Que faziam perpétua a primavera:

Nem troncos vejo agora decadentes.

 

Eu me engano: a região esta não era:

Mas que venho a estranhar, se estão presentes

Meus males, com que tudo degenera!

 

Cláudio Manuel da Costa

 





É fácil escrever para crianças?

3 07 2008
Um idéia brilhante, Walt Disney!

Um idéia brilhante! Ilustração, Walt Disney

Desde o sucesso da série Harry Potter, de JK Rowling que o mercado de livros infantis parece ter esquentado nos EUA apesar dos livreiros naquele país estarem com as vendas de livros infantis estacionadas há três anos.   Mas poucos aspirantes a escritores do gênero reconhecem esta situação.  E acreditam que para eles milhões e milhões de dólares estão só à sua espera.  O caminho seria as idéias que tiveram para histórias infantis.  Foi como se de repente centenas de pessoas se lembrassem de que havia um nicho ainda não explorado.   A procura por editoras especializadas no gênero aumentou, mas com um mercado sem expansão é difícil para um autor conseguir publicar seus livros.  Só os menos avisados acreditam que publicar um livro para crianças deve ser muito fácil.

 

Autores que já são conhecidos, autores que lutaram muito para que seus livros fossem publicados,  se encontram hoje entediados, saturados mesmo com o número de pessoas que lhes contata, dizendo terem uma ótima idéia para um livro infantil.

 

Baseado nestes dados entedemos bem a anedota recontada há quase um ano, em setembro de 2007, na revista Ed Magazine: the magazine of the Harvard School of Education.  Num artigo sobre a popularidade dos livros infantis, e  o número de autores em potencial que surgiu,  Mary Tamer menciona a ocasião em que Bill Roorbach,  conhecido autor infantil, do livro Big Bend,  foi abordado por um neurocirurgião que havia acabado de assistir a uma palestra que o escritor dera no estado de Maine.  O neurocirurgião, muito feliz de poder se encontrar com um escritor de sucesso, assim que congratulou Bill Roorbach disse:  Foi sensacional ouvir  sua palestra.  Planejo no momento tirar uma licença de seis meses e escrever um livro infantil.”   Após um breve pausa, Roobarch respondeu:  Mas isto é tão estranho, eu também estava pensando em tirar seis meses de licença, para me tornar um neurocirurgião. 

 

Não é fácil escrever um livro.  E só porque o livro é para crianças, e nós contamos histórias para nossos filhos, netos, sobrinhos e vizinhos, não quer dizer que saibamos escrever um livro que interesse e faça a imaginação dos pequerruchos se engajar.  Crianças e adolescentes são freqüentemente mais exigentes do que imaginamos.

 

 





O Grande Caramanchão da Casa de Rui Barbosa

2 07 2008

 

 

Casa de Rui Barbosa, Jardim, vista com caramanchão e banco

 

Os jardins da Casa de Rui Barbosa na rua São Clemente em Botafogo estão na minha longa lista de lugares favoritos para flanar no Rio de Janeiro.   A casa por si só já é espetacular o suficiente,  mas visito com muito mais freqüência seus jardins,  uma tentadora ilha de  tranqüilidade dentro do populoso bairro de Botafogo.   O jardim é tentador  em seus diversos recantos, laguinhos, falsas ilhas e sobretudo pelo fabuloso caramanchão feito com estrutura de metal, coberto por parreiras que dá um aconchego ao lugar irresistível.  Ele por si só é a razão de minhas freqüentes visitas, principalmente depois que a estação Metro-Botafogo pode deixar o visitante a menos de 300 metros do local.  São  9.000 metros quadrados de um jardim calmo e muito bem cuidado.   A maior parte do jardim está nos fundos da casa.  

 

 

Caramanchão da Casa de Rui Barbosa

 

 

A casa foi construída em 1850 para o Barão da Lagoa.  No estilo neo-clássico tem todas as suas portas e janelas com portais em granito e na frente há quatro esculturas representando os quatro continentes da época.  Tem quatro andares.  Rui Barbosa, que a comprou em 1895 das mãos de um inglês John Roscoe Allen,  morou ali por 28 anos.  Antes  de John Roscoe Allen  a casa teria pertencido ao Comendador Albino D’Oliveira Guimarães.  

 

 

Jardim, vista geral, Casa de Rui Barbosa

 

 

É impressionante como se pode desfrutar de um recanto com tanta paz, cujos únicos sons são os cantos dos pássaros e o rufar de asas dos pombos, quando se está tão próximo de uma rua muito movimentada. A natureza é uma excelente barreira de som.

 

 

Vista com Quiosque, casa de Rui Barbosa

 

 

Este jardim tem uma variedade muito grande de vegetação tropical, palmeiras e árvores frutíferas que deixam a imaginação do visitante voltar aos meados do século XIX com facilidade.  É fácil percorrer as alamedas deste espaço, sentar num banco de jardim e abrir um livro de Alencar, de Machado ou Taunay e imaginar nossos heróis e heroínas populando o espaço com roupas de época, nos saraus das noites cariocas.

Jardim da Casa de Rui Barbosa com 1 dos laguinhos





Você conhece os 10 mais importantes intelectuais de 2008?

2 07 2008

 

A revista inglesa Prospect, fundada em 1995, tem feito jus ao seu slogan: “a conversa inteligente da Grã-Bretanha”.  Sempre apresenta uma faceta diferente da visão mundial e gosto de seguir suas reportagens.  Junto com a revista Foreign Policy, a Prospect  faz de tempos em tempos uma enquête para descobrir quem seus leitores consideram ser os 100 maiores pensadores da atualidade.  A última tomada de pulso foi em 2005 quando Noam Chomsky, professor de Linguística  no MIT, foi o primeiro colocado.  Seguido de Umberto Eco, escritor, crítico e professor de semiótica em segundo lugar e por Richard Dawkins, eminente zoólogo, professor da Universidade de Oxford.  Seguiram-se Vaclav Havel, escritor e dramaturgo, Christopher Hitchens,  jornalista e crítico literário, Paul Krugman, economista e jornalista,  Jürgen Habermas, filósofo e sociólogo,  Amartya Sen, economista laureado com o Nobel, Jared Diamond,  biólogo evolucionário, fisiologista, biogeógrafo e Salman Rushdie, escritor.  Estes foram os dez primeiros colocados há três anos. 

 

Quando a revista fez a mesma enquête este ano, ficou surpresa ao receber mais de meio milhão de votos, e mais ainda com o resultado da pesquisa.  A lista publicada agora, no mês de julho, mostra que os nomes dos 10 mais votados são todos de intelectuais muçulmanos.   Os organizadores logo procuraram saber se havia um hacker atrás da votação, e que tipo de campanhas haviam sido montadas e para que nomes.   E é claro que o vencedor deste ano, Fethullah Güllen, escritor, pensador e filósofo Suni, teve uma grande campanha por votos dentro da Turquia, a partir de maio quando Zaman o jornal de maior circulação no país e associado ao movimento de Güllen, publicou que havia esta competição para pensadores influentes.   Como explica Tom Nuttal em uns dos artigos deste mês na revista, antes de publicarem a lista, Prospect e Foreign Policy se certificaram da validade dos votos e das campanhas existentes.

 

 

  

 

 

 

 

 

 

Fethullah Güllen

Veja: 

https://peregrinacultural.wordpress.com/2008/07/16/fethullah-gulen-%E2%80%93-quem-e-o-intelectual-n%C2%B0-1-do-mundo/

 

https://peregrinacultural.wordpress.com/2008/08/12/muhammad-yunus-quem-e-segundo-mais-votado-intelectual/

 

  

 

Houve campanhas a favor de Mario Vargas Llosa, de Al Gore, Gary Gasparov, para dar alguns nomes, mas nenhuma delas vingou.  Provavelmente porque nenhuma destas campanhas teve a disciplina entre seus seguidores de manter o interesse pela votação vivo e a disciplina de arrecadar votos, que os seguidores de Güllen tiveram.  Cada eleitor poderia sugerir 5 nomes.  Mesmo assim, como é amplamente explicado em considerações sobre a lista, nenhuma campanha, poderia justificar o posicionamento de 10 muçulmanos entre os maiores e mais influentes pensadores do momento. 

 

O que estamos testemunhando, como diz Tom Nuttal, é a emergência de um novo tipo de intelectual, aquele que tem uma grande corrente de amigos e seguidores, que podem ser facilmente mobilizados.  Entre os nomes que apareceram entre os 10 mais votados estão também Yusuf al-Qaradawi, Amr Khaled .  Yusuf al-Qaradawi que já tinha aparecido na lista em 2005, subindo da posição 56 para a 3ª colocação e  Amr Khaled religioso muçulmano e produtor de programas televisos, que entrou na lista este ano, obtendo a 6ª posição.  Ambos seguidores próximos de Güllen com campanhas angariando votos, bem organizadas no Facebook.  Muhammad Yunus, economista e banqueiro em Bangladesh e Shirin Ebadi, advogada e ativista sobre direitos humanos no Iran, foram ambos agraciados com o Nobel da Paz e também tiveram bastante sucesso.

 

Os outros nomes entre os 10 mais votados em 2008 são: o escritor Orhan Pamuk;  Aitzaz Ahsan, advogado, membro da Suprema Corte do Paquistão e ativista em direitos humanos;  Abdolkarim Soroush o filósofo,  Rumi estudioso; Tariq Ramadan professor universitário e pensador muçulmano e Mahmood Mamdani, antropólogo e sociólogo,

 

A lista completa dos 100 mais votados se encontra aqui.  Em parênteses a colocação de cada um na enquête de 2005.  Asterisco significa que esta é a primeira vez que esta pessoa está sendo citada. 

 

 

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Ernest Hemingway um favorito das americanas

1 07 2008

 

Uma pesquisa em 2002 pelo National Endowment for the Arts, descobriu que nos EUA 80%  dos leitores de ficção são mulheres.  E que as mulheres lêem mais que os homens em todos os gêneros com exceção de história e de biografia.  Nestes dois gêneros os homens ultrapassam as mulheres.  No entanto, mais meninos leram a série de livros do Harry Potter  de J. K. Rowling do que meninas. 

 

Estes números não significam que mulheres só lêem o que é chamado chick-lit ou seja literatura para mulherezinhas.  Não, não, não…  Ernest Hemingway está entre os escritores de ficção mais lidos por mulheres.

 

Um dado interessante também encontrado pela mesma pesquisa é que mulheres compreendem o maior numero de bloguistas sobre leitura e literatura.  Uma diferença mais ressaltada ainda quando consideramos que os velhos e respeitados papas da crítica literária e da literatura são em sua maioria homens.

 

Uma mulher nos EUA lê em média nove livros por anos.  Um homem menos que a metade: quatro.  

Madame Min prepara o jantar. Walt Disney.





Mulheres lêem mais do que os homens

1 07 2008

 

José Ferraz de Almeida Jr (Brasil,1850-1899) Moça com livro, 1879, MASP

 

 

 

 

José Ferraz de Almeida Jr. (Brasil, 1850-1899) Moça com livro, 1879, óleo sobre tela, Museu de Arte de São Paulo

 

Hoje li pela segunda vez o relatório Retratos da Leitura no Brasil, do Instituto Pró-livro, uma pesquisa feita sobre os hábitos de leitura no Brasil, incluindo o perfil do leitor brasileiro.  Não fiquei surpresa ao saber que no Brasil, assim como no resto do mundo, as mulheres lêem mais que os homens.  Aqui, a nossa percentagem é de 55% de leitoras mulheres para 45% de leitores homens.  

 

Na verdade esta diferença entre leitores e leitoras é tão conhecida que o escritor inglês Ian McEwan  se sobressaiu numa entrevista publicada no jornal The Guardian, de Londres, em 2000, quando sabendo-se conhecedor  destes números e sendo avisado que as mulheres lêem mais ficção do que os homens, declarou: A conclusão inevitável é que no dia que as mulheres deixarem de ler, o romance terá desaparecido.

 

Este tipo de pesquisa, estes tipos de números são sempre fonte para muita especulação.  Muitos estudos ainda virão a ser feitos, muitas teses de doutoramento e pesquisas similares para justificar esta diferença.  Há as explicações biológicas, comparando os cérebros entre os dois sexos e há também aqueles que acreditam que isto se deve às meninas em geral serem alfabetizadas e apresentadas à leitura numa idade mais tenra do que os meninos.  

 

Mas não deixa de me trazer um sorriso irônico nos lábios ao constatar que esta diferença também existe no Brasil.  Porque até bem pouco tempo as mulheres não eram nem consideradas para a alfabetização.  Lembrei-me disso quando ontem à noite, passando uma vista d’olhos no romance de Ana Miranda intitulado O retrato do rei, uma passagem prendeu minha atenção.  Uma passagem que ilustra as raízes culturais que levaram em parte ao atraso na alfabetização das mulheres brasileiras, e a uma perda cultural imensa para a nós.  Ana Miranda assim descreve nossa heroína, vivendo em 1707, no Rio de Janeiro.

 

 

Tarsila do Amaral (Brasil 1890-1973) Beatriz lendo, 1965, óleo sobre tela.

Ainda menina, Mariana recebera, uma noite, ordem de seu pai, dom Afonso, para que fosse à sala de livraria. Ela entrara, assustada. Sempre que o pai tinha uma repreensão ou castigo para as filhas chamava-as a tal lugar. O barão, em pé, diante da mesa, parecera-lhe um gigante. Batendo ritmadamente o chicote na mão, perguntara se ela estava pretendendo aprender a ler. Apontara com o chicote para um volume sobre a mesa, uma cartilha das primeiras letras. Mariana abaixara os olhos, sentindo o sangue tomar-lhe o rosto. Dom Afonso pegara o livro e aproximara-o da chama da vela. A cartilha demorou a pegar fogo e lentamente foi-se consumindo. “Cuida-te com os teus desejos”, o pai dissera. “Se eles te tomam, e não tu a eles, vais arder no fogo do inferno.” Em seu quarto a velha aia Sofia a esperava, com uma vara na mão. “Tira a roupa”, dissera a alemã. “Essas meninas da colônia são educadas como vacas. Que mal há em saber ler? As freiras não aprendem nos conventos? Na minha terra todas as mulheres sabem letras.” “Sabeis ler, dona Sofia?” “Cala-te, menina. Tira a roupa.” Mariana, nua, curvada sobre o baú, esperara. “Trata de gritar bem alto para que teu pai ouça”, Sofia sussurrara. E aplicara, sem nenhuma força, vinte vergastadas nas costas de Mariana, para cumprir a ordem do pai.

 

O retrato do rei, Ana Miranda, Companhia das Letras: 1991, São Paulo, páginas 23-24

 

ACIMA:  Tarsila do Amaral ( Brasil, 1890-1973), Beatriz lendo, 1965, óleo sobre tela.

 

Mariana não era uma qualquer.  Mariana era prima do governador da capitania do Rio de Janeiro.  Em outras palavras, ela não era analfabeta por não ter dinheiro, meios de se educar.  Era analfabeta porque era mulher.

 

Antes que se conclua que isto acontecia só no século XVIII, o que não é verdade, pode mos saltar no tempo e ler um livro também de ficção, do escritor gaúcho Luiz Antonio de Assis Brasil, retratando um caso parecido.  Em seu romance Concerto campestre, situado no século XIX, a filha de um fazendeiro, rico o suficiente para contratar um músico com o intuito de formar uma orquestra, é mantida analfabeta por razões semelhantes às expressadas no livro de Ana Miranda.

 

Concerto Campestre, Luiz Antonio de Assis Brasil, LP&M:1997, Porto Alegre.

O que seria dos nossos escritores, dos nossos editores e das nossas livrarias, dos nossos filhos, se não tivéssemos mudado de valores?  Haveria uma literatura brasileira? 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 





Passarinhos — um poema de Zalina Rolim

1 07 2008

paisagem

 

A um passarinho que andava

Cantando pelo jardim,

Foi perguntar Elisinha

  Quem é que te cuida assim?

 

Onde achas doce alimento,

Coisas nutritivas, sãs?

— Tenho bichinhos gostosos

Figos, laranjas, romãs.

 

— E quando estás fatigado,

Onde é que vais descansar?

— Qual de nós não tem seu ninho?

Nosso ninho é o nosso lar.

 

— E sede não sentes nunca?

— Tenho rio e ribeirão,

E gotinhas de sereno,

Que as folhas verdes me dão.

 

— E no inverno não te falta

Agasalho contra o frio?

— Tenho penas que me cobrem,

Tenho agasalho macio.

 

— E quando não há bichinhos,

Grãos e frutinhas não há?

— Há uma boa criancinha

Que pão e alpiste me dá.

 

 

Passarinhos, de Zalina Rolim  (Brasil, 1869-1961)

 

 

Zalina Rolim

Maria Zalina Rolim Xavier de Toledo nasceu em Botucatu (SP), em 20 de julho de 1869.
Professora alfabetizadora, transferiu-se com a família para São Paulo em 1893.
Educadora, entre 1896 e 1897, exerceu o cargo de vice-inspetora, do Jardim da Infância anexo à Escola Normal Caetano de Campos, em São Paulo.
Escreveu para diversas revistas femininas e jornais como A Mensageira, O Itapetininga, Correio Paulistano e A Província de São Paulo.
Faleceu em São Paulo, em 24 de junho de 1961.

Obras:

1893 – O coração
1897 – Livro das Crianças
1903 – Livro da saudade (organizado nesta data para publicação póstuma)

 

 

 





BUZZ e A louca da casa — o marketing boca a boca

30 06 2008

A louca da casa de Rosa Montero

Recentemente tive a oportunidade de presenciar um exemplo típico do marketing chamado de “boca a boca”.  O assunto era a leitura do livro A louca da casa.  Boca a boca é considerado o melhor tipo de promoção.  Algo que quando temos um ponto comercial, em qualquer ramo, consideramos um dos maiores sucessos de uma companhia, de um comércio. Porque é o cliente entusiasmado que sozinho faz sua propaganda.  A promoção mais poderosa de todas: o burburinho de quem foi lá, comprou e saiu satisfeito.  É a palavra do amigo, do parente, do amigo do amigo.  

 

Este vírus oral — recomendações passadas sem nenhuma intenção comercial, comunicadas simplesmente pela vontade de que o outro acerte — ainda não está muito bem conscientizado no gerenciamento do pequeno comércio no Rio de Janeiro.  Diferente dos EUA, aqui vai-se a uma pequena loja e nunca somos perguntados como ouvimos falar daquela loja, como chegamos até lá.  Esta curiosidade, que parece regular no comércio americano, está ligada ao tipo de propaganda usado e ao gerenciamento de recursos para propaganda.  Infelizmente o pequeno comerciante no Rio de Janeiro, apesar de ter muita concorrência, qualquer que seja seu campo de especialização, ainda não descobriu a vantagem de treinar seus vendedores a fazerem estas perguntas, para que ele possa saber como a clientela chega ao seu endereço. 

 

A súbita procura pelo livro A louca da casa, de Rosa Montero, foi um exemplo típico da promoção boca a boca, ou do BUZZ através da internet.  A notícia de que era um livro imperdível foi passada de chat em chat, principalmente nos locais da internet freqüentados por pessoas ligadas à leitura, às artes, à educação e à literatura.   Rosa Montero já havia causado surpresa na imprensa cobrindo a Feira Internacional de Parati de 2004, quando se mostrou muito mais popular do que o imaginado, sendo abordada por fãs a procura de fotos e de autógrafos, em todo lugar, durante sua estadia.   A fama de Rosa Montero entre leitores exigentes vem de seu trabalho ímpar: artes, literatura, imaginação e a condição feminina.  Com esta agenda, livros tais como: A filha do canibal, A história do rei transparente, se tornaram leituras obrigatórias para a leitora brasileira. 

 

Eis que no grupo do ORKUT chamado Livro Errante dedicado à leitura de livros que são passados de leitor em leitor numa cadeia, cobrindo o Brasil inteiro das grandes cidades a remotas localizações, a curiosidade sobre Rosa Montero foi atiçada no início deste ano, quando alguns de seus livros começaram a circular e a serem lidos e discutidos pelos trezentos e poucos brasileiros que compõem a comunidade.   De repente, Rosa Montero havia se tornado um nome corriqueiro, uma pessoa familiar, conhecida.  Seus livros já publicados no Brasil foram procurados mais insistentemente.  Assim, A louca da casa, um livro sobre a imaginação e o processo criativo, publicado pela Ediouro em 2004, passou a ser uma obsessão do grupo.  Apesar de ser um livro recente está esgotado e de acordo com a editora sem perspectivas de nova tiragem ou edição.   Constatou-se também que este era um livro difícil, quase impossível, de ser achado em sebos.  Tudo contribuiu para o crescimento do BUZZ na internet, para a NECESSIDADE IMEDIATA de se ler o livro.  

Escritora Rosa Montero

 

É a velha história da oferta e da procura.  Havia muita procura e nenhuma oferta.  O Livro Errante abriu então um tópico dentro da comunidade para que se localizasse um volume que pudesse ser emprestado.   Telefonemas foram feitos para se descobrir em sebos no Recife, no Rio de Janeiro, Porto Alegre e São Paulo.  O site Estante Virtual, recebeu alguns pedidos.  Finalmente quando um volume apareceu imediatamente 25 pessoas se comprometeram a ler o livro.  Este volume agora passeia pelo Brasil e está sendo lido por muito mais do que estas 25 pessoas, porque cada leitor satisfeito ainda o passa entre amigos, para que seja desfrutado, antes do livro ir embora se encontrar com outros leitores.

 

O ponto de desequilíbrio de Malcolm Gladwell, autor do também muito aclamado Blink,  ambos livros publicados pela editora Rocco, tenta estudar e justificar justamente este fenômeno de marketing, ou seja aquele ponto em que um objeto, um aparelho, um modismo, deixa de ser simplesmente mais um no estoque de um comerciante e passa a ser o item quente, o procurado por todos.  Este momento, que Gladwell chama de ponto de desequilíbrio é o que todos almejam ter quando são fabricantes, produtores, comerciantes, escritores e até mesmo editores de livros.    

 

Infelizmente, nem todas as companhias brasileiras estão ligadas ao poder econômico do burburinho virtual.  Ou o que é pior, ainda não aprenderam o valor e o poder do boca a boca através da internet.  Além disso, se mostram indiferentes à clientela.  Quando alguns dos membros da comunidade Livro Errante escreveram e-mails para a editora Ediouro perguntando sobre a possibilidade de uma nova impressão ou de uma nova edição do livro de Rosa Montero, todos receberam um e-mail automático da companhia, generalizado, sem qualquer atenção específica ao livro ou aquele leitor em potencial.  Esta falta de maleabilidade no trato com o consumidor, não é porque a companhia é muito grande.  Tanto a Amazon.com, como a Ebay.com, assim como o Submarino.com.br, apresentam maneiras com que um cliente possa ter seus e-mails respondidos por alguém além de uma máquina. 

 

Ao que tudo indica há empreendedores brasileiros que ainda acreditam que dinheiro gasto em propaganda e marketing é dinheiro posto fora.  Torna-se dinheiro posto fora  quando eles mesmos não se dispõem a avaliar o marketing que fazem.  No caso do livro A louca da casa, a companhia parecia achar que a culpa era destes leitores que não haviam comprado o livro assim que publicado, em 2004.  Mas não é.  A culpa é da companhia: neste caso ela não conseguiu entregar o produto para o qual um grande marketing boca a boca se desenvolveu naturalmente.  O BUZZ havia cumprido a sua função.  A falha foi no planejamento a longo prazo.   Uma pena!

 

 





Alphonse Karr estava certo, nada muda

29 06 2008

Escutem só, Mickey, Walt Disney

 

Ilustração: Mickey, © Disney

 

 

 

 

 

Quanto mais isso muda, mais fica a mesma coisa. [Plus ça change, plus c’est la même chose.]  –  quem já não ouviu esta famosa frase?  Seu autor, Jean-Baptiste Alphonse Karr, (França, 1808-1890), foi escritor, crítico, jornalista e editor do jornal Le Figaro a partir de 1839, conhecido também por seus epigramas usados em diversas línguas até hoje.  A razão de Alphonse Karr não ser esquecido é que suas observações,  expressas de maneira tão clara e freqüentemente mordaz são de grande valia até o presente.  Se não, vejamos porque me lembrei esta tarde desta famosa frase com que abri o parágrafo?  

 

Estava dando uma arrumada nos meus livros.  Esta é sempre uma maneira perfeita de voltar a tocar em certos assuntos de importância para mim.  E encontrei um livrinho delicioso, primeiramente publicado no Rio de Janeiro em 1855, A carteira do meu tio.  Seu autor, Joaquim Manuel de Macedo (Brasil, 1820-1882),  ficou famoso por um dos mais charmosos romances brasileiros, seu primeiro a ser publicado, A Moreninha, (1844), onde Carolina, personagem principal se destaca entre as adolescentes por sua impagável língua ferina.   

 

Na verdade, Joaquim Manuel de Macedo foi um cronista fenomenal dos hábitos e costumes da corte carioca e da vida urbana na capital.  Seus romances sempre aparentam grande leveza para o leitor incauto que vira suas páginas sem perceber a irônica e muitas vezes mordaz apreciação dos costumes da época.  Vejamos a passagem que tenho marcada na introdução deste romance:

 

A pátria é uma enorme e excelente garopa: os ministros de estado a quem ela está confiada, e que sabem tudo muito, mas principalmente gramática e conta de repartir, dividem toda nação em um grupo, séqüito e multidão: o grupo é formado por eles mesmos e por seus compadres, e se chama – nós -; o séqüito, um pouco mais numeroso, se compõe dos seus afilhados, e se chama – vós -; e a multidão, que compreende uma coisa chamada oposição e o resto do povo, se denomina – eles -; ora aqui vai a teoria do eu: os ministros repartem a garopa em algumas postas grandes, e muitas mais pequenas, e dizem eloqüentemente: “as postas grandes são para nós, as mais pequenas são para vós” e finalmente jogam ao meio da rua as espinhas, que são para eles.  O resultado é que todo o povo anda sempre engasgado com a pátria, enquanto o grupo e o séqüito passam às mil maravilhas à custa dela!

 

 

Assim lembrei-me de Alphonse Karr.  Afinal de contas uma coisa leva a outra.

 

 

 

(Texto em: A carteira do meu tio, Joaquim Manuel de Macedo,  Porto Alegre: LP&M, 2001.)





À beleza negra — Luiz de Camões

29 06 2008

 

Bela, s.d., de Michele Cammarano (Itália, 1835-1920), o/t Col. Part.

Bela s/d

Michele Cammarano

(Itália, 1835-1920)

Óleo sobre tela

Coleção Particular

Freddie Booker Carson & Simon Carson

 

A leitura do livro de Agualusa, Um estranho em Goa, mencionado na postagem anterior, lembrou-me que o autor cita, uma parte de um dos mais belos poemas de Luiz de Camões, uma redondilha de sua Obra Lírica.  Aproveito para reproduzir aqui e relembrá-lo com os meus amigos.  Mais conhecido por seu primeiro verso,  Aquela Cativa,  foi feito para Bárbara, uma escrava em Goa.

 

 

 

 

 

Aquela cativa

 

Luiz Vaz de Camões

 

 

Aquela cativa

Que me tem cativo,

Porque nela vivo

Já não quer que viva.

Eu nunca vi rosa

Em suaves molhos,

Que pera meus olhos

Fosse mais fermosa.

 

Nem no campo flores,

Nem no céu estrelas

Me parecem belas

Como os meus amores.

Rosto singular,

Olhos sossegados,

Pretos e cansados,

Mas não de matar.

 

Ũa graça viva,

Que neles lhe mora,

Pera ser senhora

De quem é cativa.

Pretos os cabelos,

Onde o povo vão

Perde opinião

Que os louros são belos.

 

Pretidão de Amor,

Tão doce a figura,

Que a neve lhe jura

Que trocara a cor.

Leda mansidão,

Que o siso acompanha;

Bem parece estranha,

Mas bárbara não.

 

Presença serena

Que a tormenta amansa;

Nela, enfim, descansa

Toda a minha pena.

Esta é a cativa

Que me tem cativo;

E, pois nela vivo,

É força que viva.

 

 

Aquela cativa  (1595 – redondilha 106)