Ilustração de Fabius Lorenzi.
Existem coisas na vida
Que não posso compreender:
— Como é que sendo esquecida,
Não te consigo esquecer!
(Maria Thereza de Andrade Cunha)
Ilustração de Fabius Lorenzi.
Existem coisas na vida
Que não posso compreender:
— Como é que sendo esquecida,
Não te consigo esquecer!
(Maria Thereza de Andrade Cunha)
Rubens Bustamante Sá (Brasil, 1907-1988)
óleo sobre tela, 46 x 56 cm
Olavo Bilac
Domingo… Os sinos repicam
Na igreja, constantemente,
E todas as ruas ficam
Alegres, cheias de gente.
Todo um dia de ventura…
Como o domingo seduz!
O homem, cansado, procura
Ter paz, ter ar, e ter luz.
Paradas e sem trabalho,
Dormem na roça as enxadas;
Dormem a bigorna e o malho
Nas oficinas fechadas.
Também, meninos cansados,
Os vossos livro deixai!
Deixai lições e ditados!
Dormi! Sorride! Cantai!
Fechem-se as aulas! E o bando
Ruidoso das criancinhas
Livre se espalhe, voando,
Como um bando de andorinhas!
Deus, quando o mundo fazia,
Sete dias trabalhou,
E ao fim do sétimo dia
Do trabalho descansou…
Em: Poesias infantis, Olavo Bilac, Rio de Janeiro, Francisco Alves: 1949, 17 ª edição, pp- 47-8.

Na biblioteca há mil sábios
a nosso inteiro dispor.
Sem querer mover os lábios,
cada livro é um professor.
(A. A. de Assis)
Beijo roubado, ilustração de Howard Chandler Christy, 1904.
Fico em teus braços… Depois,
rogo a Deus, mais uma vez,
que o segredo de nós dois
fique só entre nós três.
(Cezário Brandi Filho)
Tarsila do Amaral (Brasil, 1886-1973)
Heitor Moreira
Era noite de gala. Nos silvedos
Rondavam pirilampos indiscretos.
E a luz desses notívagos insetos
Dançava iluminando os arvoredos.
Sonambulava a terra e os seus penedos,
Beijados por alíseos desinquietos,
Eram como castelos irriquietos
Pompeando a graça austera dos rochedos.
No estábulo da Fé, vagindo ao vento,
Nasce de ventre santo e imaculado
A afirmação cristã do pensamento…
E nascera Jesus, para as torturas
De sopesar, sustento desvairado,
As nossas irmanadas desventuras.
Em: Ritmos e Rimas, Heitor Moreira, Rio de Janeiro: 1950
Heitor Moreira
Obras:
Templos de Sonhos, poesia
Ritmos e Rimas, poesia, 1950
São meus ouvidos dois ninhos
onde guardo, ao meu sabor,
um bando de passarinhos!
– Tuas mentiras de amor.
(Lilinha Fernandes)
Sinos, 1934.
Carlos Pena Filho
— Sino, claro sino,
tocas para quem?
— Para o Deus menino
que de longe vem.
— Pois se o encontrares
traze-o ao meu amor.
— E que lhe ofereces
velho pecador?
— Minha fé cansada,
meu vinho, meu pão,
meu silêncio limpo,
minha solidão.
Em: Melhores poemas, Carlos Pena Filho, Sel. Edilberto Coutinho, Editora Global:2000, 4ª edição, p.36.
Cândido Portinari (Brasil, 1903-1962)
óleo sobre tela
Pinacoteca do Banco Central do Brasil, Brasília
Olavo Bilac
Tens, às vezes, o fogo soberano
Do amor: encerras a cadência, acesa
Em requebros e encantos de impureza,
Todo o feitiço do pecado humano.
Mas, sobre essa volúpia, erra a tristeza
Dos desertos, das matas e do oceano:
Bárbara poracé, banzo africano,
E soluços de trova portuguesa.
És samba e jongo, xiba e fado, cujos
Acordes são desejos e orfandades
De selvagens, cativos e marujos:
E em nostalgias e paixões consistes,
Lasciva dor, beijo de três saudades,
Flor amorosa de três raças tristes.
Originalmente publicado em Tarde, Livraria Francisco Alves, RJ, 1919, p.p. 16-17. Aqui em: Antologia dos Poetas Brasileiros da Fase Parnasiana, ed. Manoel Bandeira, 3ª edição, Rio de Janeiro, Departamento da Imprensa Nacional: 1951. pp: 231.
Natureza morta com arraia, 1728
Jean-Baptiste-Siméon Chardin (França, 1699-1779)
óleo sobre tela, 114 x 146 cm
Museu do Louvre, Paris
Odylo Costa Filho
No fechado silêncio dos objetos
mais simples mora um toque de magia.
De um só tijolo nasce a casa: afetos,
barro, sol, água, mesa, moradia,
e a presença tenaz das mãos humanas
afeiçoando o mistério da existência
e dando às coisas mais cotidianas
senso de vida — e de sobrevivência.
Chardin, quando há dois séculos viveu,
uma arraia pintou, disforme, aberta
em sangue e dentes, agressiva e forte.
Veio o tempo e com ele emudeceu
muita moda que a glória julgou certa.
Aquela arraia sobrevive à morte.
Em: Boca da noite, Odylo Costa Filho, Rio de Janeiro, Salamandra: 1979, p. 47