Trova do esquecimento

8 02 2016

 

moça com chapéu sentada, buda,Fabius LorenziIlustração de Fabius Lorenzi.

 

 

Existem coisas na vida

Que não posso compreender:

— Como é que sendo esquecida,

Não te consigo esquecer!

 

 

(Maria Thereza de Andrade Cunha)





Domingo, poesia de Olavo Bilac

31 01 2016

 

 

BUSTAMANTE SÁ, Rubens Forte (1907 - 1988) - Figuras no cotidiano, o.s.t. - 46 x 56 cm.Figuras no cotidiano

Rubens Bustamante Sá (Brasil, 1907-1988)

óleo sobre tela, 46 x 56 cm

 

 

Domingo

 

Olavo Bilac

 

 

Domingo… Os sinos repicam

Na igreja, constantemente,

E todas as ruas ficam

Alegres, cheias de gente.

 

Todo um dia de ventura…

Como o domingo seduz!

O homem, cansado, procura

Ter paz, ter ar, e ter luz.

 

Paradas e sem trabalho,

Dormem na roça as enxadas;

Dormem a bigorna e o malho

Nas oficinas fechadas.

 

Também, meninos cansados,

Os vossos livro deixai!

Deixai lições e ditados!

Dormi! Sorride! Cantai!

 

Fechem-se as aulas! E o bando

Ruidoso das criancinhas

Livre se espalhe, voando,

Como um bando de andorinhas!

 

Deus, quando o mundo fazia,

Sete dias trabalhou,

E ao fim do sétimo dia

Do trabalho descansou…

 

 

Em: Poesias infantis, Olavo Bilac, Rio de Janeiro, Francisco Alves: 1949, 17 ª edição, pp- 47-8.





Trova dos livros

15 01 2016

 

 

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Janeiro, um ano de boas leituras.. à frente. WPA Projeto para Bibliotecas, estado de Illinois.

 

Na biblioteca há mil sábios

a nosso inteiro dispor.

Sem querer mover os lábios,

cada livro é um professor.

 

(A. A. de Assis)

 

 





Trova dos teus braços

5 01 2016

 

 

BEIJO ROUBADO, howard chandler christy, 1904Beijo roubado, ilustração de Howard Chandler Christy, 1904.

 

 

Fico em teus braços… Depois,

rogo a Deus, mais uma vez,

que o segredo de nós dois

fique só entre nós três.

 

(Cezário Brandi Filho)





Natal, poema de Heitor Moreira

19 12 2015

 

 

Tarsila do Amaral, 1940 - NatalNatal, 1940

Tarsila do Amaral (Brasil, 1886-1973)

 

 

Natal

 

Heitor Moreira

 

Era noite de gala. Nos silvedos
Rondavam pirilampos indiscretos.
E a luz desses notívagos insetos
Dançava iluminando os arvoredos.

 

Sonambulava a terra e os seus penedos,
Beijados por alíseos desinquietos,
Eram como castelos irriquietos
Pompeando a graça austera dos rochedos.

 

No estábulo da Fé, vagindo ao vento,
Nasce de ventre santo e imaculado
A afirmação cristã do pensamento…

 

E nascera Jesus, para as torturas
De sopesar, sustento desvairado,
As nossas irmanadas desventuras.

 

Em: Ritmos e Rimas, Heitor Moreira, Rio de Janeiro: 1950

 

Heitor Moreira

 

Obras:
Templos de Sonhos, poesia
Ritmos e Rimas, poesia, 1950





Trova dos meus ouvidos

10 12 2015

 

 

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São meus ouvidos dois ninhos

onde guardo, ao meu sabor,

um bando de passarinhos!

– Tuas mentiras de amor.

 

(Lilinha Fernandes)





Poema de Natal, Carlos Pena Filho

8 12 2015

 

 

sinos vermelhos, 1934Sinos, 1934.

 

 

Poema de Natal

 

Carlos Pena Filho

 

 

— Sino, claro sino,

tocas para quem?

— Para o Deus menino

que de longe vem.

 

— Pois se o encontrares

traze-o ao meu amor.

— E que lhe ofereces

velho pecador?

 

— Minha fé cansada,

meu vinho, meu pão,

meu silêncio limpo,

minha solidão.

 

 

Em: Melhores poemas, Carlos Pena Filho, Sel. Edilberto Coutinho, Editora Global:2000, 4ª edição, p.36.

 





Trova do nosso destino

4 12 2015

 

estrada, Stevan DohanosEstrada, ilustração de Stevan Dohanos, 1956.

 

Destino é força que esmaga…
Credor austero, tremendo:
– Manda a conta e a gente paga,
sem saber que está devendo.

 

(Barreto Coutinho)





Música Brasileira, soneto de Olavo Bilac

1 12 2015

 

 

Candido Portinari,Samba,1956,ost,BancoCentraldoBrasil, BrasiliaSamba, 1956

Cândido Portinari (Brasil, 1903-1962)

óleo sobre tela

Pinacoteca do Banco Central do Brasil, Brasília

 

 

Música Brasileira

 

Olavo Bilac

 

Tens, às vezes, o fogo soberano

Do amor: encerras a cadência, acesa

Em requebros e encantos de impureza,

Todo o feitiço do pecado humano.

 

Mas, sobre essa volúpia, erra a tristeza

Dos desertos, das matas e  do oceano:

Bárbara poracé, banzo africano,

E soluços de trova portuguesa.

 

És samba e jongo, xiba e fado, cujos

Acordes são desejos e orfandades

De selvagens, cativos e marujos:

 

E em nostalgias e paixões consistes,

Lasciva dor, beijo de três saudades,

Flor amorosa de três raças tristes.

 

Originalmente publicado em Tarde, Livraria Francisco Alves, RJ, 1919, p.p. 16-17. Aqui em: Antologia dos Poetas Brasileiros da Fase Parnasiana, ed. Manoel Bandeira, 3ª edição, Rio de Janeiro, Departamento da Imprensa Nacional:  1951. pp: 231.





Poetas na Arte, Os objetos, poesia de Odylo Costa Filho

25 11 2015

 

ray.jpg chardinNatureza morta com arraia, 1728

Jean-Baptiste-Siméon Chardin (França, 1699-1779)

óleo sobre tela, 114 x 146 cm

Museu do Louvre, Paris

 

 

Os objetos

 

Odylo Costa Filho

 

 

No fechado silêncio dos objetos

mais simples mora um toque de magia.

De um só tijolo nasce a casa: afetos,

barro, sol, água, mesa, moradia,

 

e a presença tenaz das mãos humanas

afeiçoando o mistério da existência

e dando às coisas mais cotidianas

senso de vida — e de sobrevivência.

 

Chardin, quando há dois séculos viveu,

uma arraia pintou, disforme, aberta

em sangue e dentes, agressiva e forte.

 

Veio o tempo e com ele emudeceu

muita moda que a glória julgou certa.

Aquela arraia sobrevive à morte.

 

 

Em: Boca da noite, Odylo Costa Filho, Rio de Janeiro, Salamandra: 1979, p. 47