Uma professora dedicada, texto de Carmem L. Oliveira

30 10 2014

 

“Por toda noite Pintarroxa debateu. A aurora encontrou-a resolvida: não ia esmorecer à primeira dificuldade. Tinha fé no combate das idéias. Acreditava que a escola era o laboratório da cidadania. Reanimou-se a alma guerreira. Armou-se e saiu para o torvo crocitar do mundo.

Ao fim de três semanas, o número de alunos na sala de aula tinha triplicado. Pintarroxa os provocava, pedindo histórias sobre os animais do cerrado. Professora e alunos se deleitavam em romances de jaguatirica, tamanduá-mixirra, jaratataca. (Embora nada tivesse causado tanto alvoroço quanto a evolução do caso do elefante do circo que deixou em escombros a garagem de Nilo Romeiro.) Outras vezes era ela que apresentava retratos de maravilhas: a neve, a baleia. Tudo tinha nome, que ia para o quadro-negro e era copiado nas lousas individuais. Pintarroxa instituiu também a prática de as meninas corrigirem as lousas dos meninos e os meninos as das meninas. Era uma confusão dos diabos mas, pelo menos em Cupim, fortaleceu-se a crença da superioridade intelectual da mulher”.

Em: Trilhos e quintais, Carmen Lúcia de Oliveira, Rio de Janeiro, Rocco:1998.





Reminiscências da partida, texto de Oscar Negrão de Lima

14 10 2014

 

 

 

MAURO FERREIRA (1958). paisagem com Locomotiva e Riacho no Interior de Minas, óleo s tela, 46 X 75. Assinado e datado (2009)Paisagem com locomotiva e riacho no interior de Minas Gerais, 2009

Mauro Ferreira (Brasil, 1958)

óleo sobre tela, 46 x 75 cm

 

 

“Guardo lembranças e reminiscências… Quando parti, montava o meu cavalo Diplomata, assim chamado porque agitava constantemente a cabeça, a guisa de cumprimentar toda gente.  Acompanhava-me o coronel Almansor Silva, que furtivamente, no último momento da despedida, enxugara uma lágrima por conta da amizade que se firmara. Atrás de nós, montando um burro pachola, preto e empacador, vinha o meu camarada José Alicate, assim alcunhado por ter as pernas embodocadas, desde criança. Carregava a mala na cabeceira do arreio, por cima do rolo do poncho. Alcancei o trem da Leopoldina, na estação de Bicas, e, pela Leopoldina e pela Central do Brasil, bem batido pelos truques, com o nariz muito entupido de poeira, cansado mas cheio de esperanças, cheguei à capital do estado. Nesta bela cidade, tenho vivido até agora.”

 

Em: Taquaril, Oscar Negrão de Lima, Rio de Janeiro, José Olympio: 1961, p. 77

 

Oscar Negrão de Lima nasceu Lavras em Minas Gerais, em 1895. Formou-se na década de 1920 pela Universidade de Medicina do Rio de Janeiro. Como médico perambulou pelas cidades do interior de MG. Foi catedrático de Medicina Legal na Universidade de Minas Gerais.   Escritor memorialista. Faleceu em 1971.

 

Obras:

Taquaril, romance, 1961

Luz oblíqua, romance, 1967





1Q84 de Haruki Murakami, 1.280 páginas de sedução!

28 07 2014

 

 

1133271241496be8felGaleria labiríntica, 2008

Ai Suijyo (Japão, contemporâneo)

acrílica

 

 

1Q84 foi uma das mais envolventes leituras que fiz nos últimos tempos, uma experiência rica e extravagante, li 1280 páginas em 17 dias, e ainda me encontro sob seu feitiço. Boa literatura permite ser lida em diversos níveis e esta obra de Haruki Murakami não é exceção. É difícil rotular esse romance, é um thriller, mas é muito mais. Há fantasia e dimensões além da nossa realidade. Há mistérios por toda parte e os personagens têm que superar barreiras físicas e psicológicas para sobreviverem. Não é um romance distópico, como alguns caracterizaram, nem pertence ao mundo da ficção científica. Mas aborda a existência de realidades paralelas.  Os principais personagens têm que vir a termos com essa realidade paralela onde, se não tiverem cuidado poderão se perder por lá, para sempre. As aventuras e incessantes perseguições são envolventes e é fácil o leitor se identificar com os personagens sem se preocupar com as questões filosóficas levantadas pelo autor. A mais central pode ser delineada pela pergunta: quando uma ação “do mal” é ou pode ser justificada?

O mundo de Murakami, em qualquer dimensão, relativiza a questão da moralidade. Todos os retratados têm aspectos de retidão e ética, mas ficamos ambivalentes porque todos eles, sem exceção, agem de maneira questionável. O leitor se encontra em um dilema: identifica-se com todos eles, porque são retratados como pessoas que entendemos, que conhecemos intimamente, com falhas e qualidades, muitas delas semelhantes às nossas. Mas há um viés do mal em cada um deles, mesmo nos mais angélicos. As perguntas sobre ética se proliferam à medida que a história se desenvolve: planejar um assassinato é justificável desde que a vítima seja uma pessoa perversa? Há ocasiões em que participar, com pleno conhecimento, de uma fraude pode ser perdoado? Qual é exatamente o ponto em que a cobrança de uma dívida deixa de ser cobrança e passa a ser perigosa perseguição e assédio? Pode uma crença religiosa abonar a prática do incesto? Há outras perguntas relevantes, cada qual acompanhando um personagem diferente.

Essas perguntas adquirem urgência quando se busca soluções à medida que a trama se abre, como um leque oriental mostrando, em cada varinha uma vida, um drama pessoal. Em todas nos perguntamos, à maneira de Malcolm Gladwell, qual é o “Ponto de Virada”, como e em que circunstâncias isso ou aquilo pode ser aceito? Há no capítulo 15, vol. 1,  por exemplo, um excelente diálogo entre Aomame, a personagem feminina  principal e sua empregadora, onde Murakami claramente faz um alerta sobre o perigo da arrogância, quando imaginamos que certas de nossas ações podem ser justificadas, já que nossos sentimentos são puros.  É por isso que aceitamos pagamento, para nos enraizarmos na realidade. Fato é que ninguém em 1Q84 passou pela vida incólume, sem ter à flor da pele as cicatrizes dos maus-tratos infringidos por progenitores, por família, por suicídios, por abandono, por maridos, por orfandade, por fanatismo religioso e pobreza.  E, no entanto, nenhuma dessas perguntas é respondida. Fica para o leitor a procura da resposta e a ponderação sobre a diferença das éticas entre as realidades de 1Q84 e 1984.  Isso poderia ser expandido em um ensaio muito maior, envolvendo até mesmo a obra de George Orwell.  Murakami nos deixa refletir, menciona a Ética a Nicômaco de Aristóteles, no capítulo 11 do primeiro volume, em uma longa passagem de página e meia, mas não impõe uma resposta, exceto pelo vago aceno à espiritualidade nas páginas finais do romance. Murakami organiza o livro com referências éticas no primeiro e no terceiro volumes, salpicando observações sobre as diferença entre o bem e o mal através de toda a obra.

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1Q84 é um romance de poucos personagens, retratados a fundo. Nos dois primeiros volumes a história é alternadamente contada pelo cotidiano de Aomame e Tengo, que formam o casal romântico da trilogia. No terceiro volume mais um personagem, Ushikawa, um detetive, passa a ter nossa atenção, somos guiados a conhecê-los todos a fundo. É justamente através desses personagens que nos envolvemos em questões de ética. Tamaru, o chefe de segurança da Senhora, coreano e gay, fala por Murakami. É com ele que percebemos a visão do autor, principalmente no terceiro volume. Ele é sábio. Conhece a vida e conta histórias que a fazem relevante. Ele é o ponto de equilíbrio e quem soluciona os problemas. Personagem importante, que não ganha capítulos com seu nome, mas sua presença e poder de decisão são essenciais. Tem muitas características do herói. Eu certamente me apaixonei por ele, mas nem ele é um exemplo de ética. Todos, como nós, têm seus calcanhares de Aquiles.

Muitas críticas a essa obra falam de repetição e do final fraco. Não achei repetitivo. Cada vez que voltávamos a um assunto ele era expandido e novas camadas de conhecimento adquiridas. A cada repetição mais se firmaram os pontos importantes.  O final não poderia ser diferente. De fato, ainda no primeiro volume, Murakami, no capítulo 14, ao descrever como o mundo da ficção se tornara relevante para Tengo adolescente, estabelece que ela, a ficção, não acha soluções para a vida real, no máximo ela pode apontar para o caminho a ser tomado. Assim como aceitamos os elementos fantásticos da trama, sem questioná-los devemos aceitar também o seu abandono. De fato, é o estilo de Murakami que mais contribui para essa aceitação do que não é comum na nossa realidade. Ele estabelece o misterioso, o fantástico com uma precisão tão eloquente que não nos deixa espaço para dúvida. Tanto que nos momentos mais aterrorizantes sentimos com os personagens o terror que eles sentem. Confesso que em alguns momentos tive reações físicas à narrativa: pés e mãos gelados, aumento do batimento cardíaco. Se isso não é um sinal de uma prosa convincente e admirável, não sei o que é.

Murakami, HarukiHaruki Murakami

Só consigo me lembrar de duas ocasiões em que tive semelhante dedicação a uma leitura. Foram livros bem escritos e de aventuras. Aos quatorze anos passei pela primeira vez uma noite em claro para não parar de ler As minas do rei Salomão, de H. Rider Haggard, publicado em 1885, em brilhante tradução de Eça de Queiroz. Uns dez anos depois o mesmo aconteceu com The Once and Future King, de T.H. White, originalmente publicado em 1958. Li na edição de bolso, avidamente, mais de 600 páginas que não couberam em uma única sentada, precisando de uma noite e mais um dia. Com 1Q84 fiquei acordada algumas noites até as quatro da manhã, ignorando o trabalho que me esperava nas manhãs seguintes… Falta de juízo. Isso não é costumeiro… Por que? Por que esse livro? Esse autor? Porque é uma obra espantosa, brilhante e inesperada.





Uma família de matemáticos… texto de Leonard Mlodinow

10 07 2014

 

 

2-the-great-comet-of-1556-science-source xiloXilogravura alemã de 1556 em livro científico retratando a passagem de um cometa.

 

“…E numa outra noite de céu limpo, na porção de terra chamada Basileia, na Suíça, outro homem destinado à grandeza também estava prestando atenção. Era um jovem teólogo que, fitando a cauda brilhante e nebulosa do cometa, deu-se conta de que queria dedicar sua vida à matemática, e não à Igreja. Dessa decisão nasceu não apenas uma nova carreira para Jakob Bernoulli, como também o que se tornaria a maior árvore genealógica na história da matemática: nos 150 anos entre o nascimento de Jakob e o ano de 1800, a família Bernoulli gerou muitos filhos, dos quais aproximadamente a metade foi brilhante — entre eles, oito matemáticos notáveis, dos quais três (Jakob, seu irmão mais moço Johann, e o filho de Johann, Daniel) são tidos atualmente como alguns dos maiores matemáticos de todos os tempos.

 

Em: O andar do bêbado: como o acaso determina nossas vidas, Leonard Mlodinow, tradução Diego Alfaro, Rio de Janeiro, Zahar: 2009, p. 118

 





Dia 3: Espelho, desafio da escrita, #PHpoemaday

3 06 2014

 

 

 

 

Aldemir Martins - Pássaro. Acrílica sobre tela, 60x81 cm, 1986,Pássaro, 1986

Aldemir Martins (Brasil,1922 – 2006)

acrílica sobre tela, 60 x 81 cm

 

Espelho

Espelho urbano na poça da calçada. Prédios ensolarados, pós-tormenta, alinham-se nas beiradas. O céu é puro azul. Tranquilidade efêmera. Uma lavadeira-mascarada vem banhar-se e perturba a superfície cristalina da imagem. Bom prenúncio: a cidade volta à sua rotina.


©Ladyce West, Rio de Janeiro, 2014.





Dia 2: O céu de hoje, desafio da escrita, #PHpoemaday

2 06 2014

 

 

 

TúlioMugnaini (Brasil, 1895-1975), Ipanema, sd,Óleo sobre tela, 54x 72cmColeção ParticularIpanema, s.d.

Túlio Mugnaini (Brasil, 1895-1975)

Óleo sobre tela, 54x 72 cm

Coleção Particular

 

O céu de hoje

 

Leblon. Fim de madrugada. Manhã escura de outono. O sol às minhas costas acorda preguiçoso. De onde estou não distingo nem mar, nem céu. Só escuridão. Diversos tons de cinza me envolvem. O horizonte se apaga na distância. Resta a sombra assustadora, enegrecida e fria, soturna e altaneira do penhasco Dois Irmãos. Será um belo dia, céu limpo. E, no entanto, quando a luz se faz brilhar, não consigo esquecer a impávida presença da pedra fria, fatídica, nefasta, molhada, sinistra e escarpada, guardiã eterna do meu paraíso.

Nem tudo é festa no Rio de Janeiro.

 

©Ladyce West, Rio de Janeiro: 2014





A boa literatura de além-mar

18 03 2014

OLYMPUS DIGITAL CAMERALeitora e flores, 2004

Márcio Melo (Brasil, contemporâneo)

acrílica sobre tela, 76 x 61 cm

www.marciomelo.com

Nos dias de hoje tenho mais prazer com a literatura lusitana do que com a produzida no Brasil.  São raros os escritores brasileiros cuja ficção me dá prazer. Acontece com a literatura, o que acontece com o cinema, estamos em pontos opostos sobre a percepção do que é qualidade. A produção nacional não me seduz. Nos dois casos me parece que escritores e diretores falam para seus colegas, escrevem e filmam obras para que seus colegas leiam ou assistam e não para um público, como eu (e são muitos de nós nesse barco) sedento por uma boa história, contada de maneira criativa mas sem didatismo político para que aceitemos goela abaixo essa ou aquela nova moda. A história bem contada, bem narrada, que aquece a alma do leitor existe nas exceções brasileiras, e as resenhas nesse blog mostram os nomes de autores brasileiros que aprecio.  Por aqui, no entanto, estamos fortemente dominados pela teoria de que a arte resolve problemas sociológicos. Não é o caso e nunca foi.  Literatura ou cinema com agenda política é  coisa adolescente e entediante. Com o passar dos anos se perde, é encafifada com teias de aranha, esquecida nas prateleiras inalcançáveis das bibliotecas até ser tema de alguma dissertação para um estudante de doutorado.

Deve ser por isso que a literatura produzida nas duas últimas décadas, em outras versões da minha língua materna, me atrai tanto.  Não falo só de Portugal, mas dos países de língua portuguesa do continente africano.  Com eles não me sinto lendo tratados sociológicos sobre personagens que trilham a periferia da sociedade. O encantamento que tenho com Miguel Sousa Tavares, Dulce Maria Cardoso, Ondjaki, Saramago, Agualusa, Felipa Melo, Gonçalo M. Tavares, Germano Almeida, Mia Couto entre outros raramente encontra eco dentro de mim pelo que é produzido deste lado do Atlântico.

Hoje isso acontece ainda uma vez mais. Hoje, estou cantando, enrolando a língua no prazer de pronunciar as palavras que conheço, mas que me vêm com conotações diferenciadas, com usos criativos.  Estou degustando a prosa de José Luís Peixoto.  O que me agrada? A linguagem entre o coloquial e o clássico; a maneira econômica e pausada de narrar; a inversão de imagens que surpreende a narrativa [como no texto abaixo quando diz:  “Os barulhos faziam-lhe perguntas…”] Uma escrita quase poética, com elipses que deixam espaço para a nossa imaginação.  O livro chama-se Livro.

“(1960)

O comboio era incompreendido pelo Galopim.

Encostado à janela, de boca aberta via os campos a passarem e sentia o barulho do comboio no encosto, no rabo sentado, nos pés dentro dos sapatos. As nuvens afastavam-se mais devagar do que as árvores, que passavam a zunir.  Olha um rapaz lá além a guardar meia dúzia de ovelhas. Galopim apontava para a janela, mas os outros rapazes da sua idade pouco ligavam. Usava um fato cinzento que lhe tinha sido oferecido por uma viúva. É uma boa vantagem terem o mesmo tamanho, disse a viúva. Mas não tinham. O Galopim era encorpado, mas o falecido, velho grande, era mais encorpado ainda. As calças presas por um cinto, faziam foles na zona da cintura. As mangas do casaco chegavam-lhe quase às pontas dos dedos. A viúva também disse que era uma boa vantagem calçarem o mesmo número, mas também não calçavam. Os sapatos iam seguros por palmilhas de cartão, ásperas.

A cidade, os olhos de Galopim rebolavam-se pela cidade. Os barulhos faziam-lhe perguntas a que não sabia responder. As casas levantavam-se diante dele.  Os pombos acalmavam-no em voos sobre praças e avenidas. Ao longo dos passeios, evitando e ultrapassando pessoas desconhecidas, o Galopim seguia os outros rapazes de sua idade.  E entraram numa porta aberta, subiram por umas escadas estreitas, degraus de madeira gasta, que cheiravam a musgo seco e que escureciam.

O Galopim continuou a segurar a maleta quase vazia. Estava ligeiramente despenteado. Tentou escutar com muita atenção aquilo que foi dito pelo rapaz da sua idade, muito sério, e pela mulher do peito para cima, que estava sentada atrás de um balcão.

Somos oito.

Mas havia um gato, peludo, que passava pelas pernas dos outros rapazes da sua idade, pelas suas, e que, com um pulo, chegou a subir para cima do balcão. O Galopim deixou de escutar a conversa para seguir os movimentos do bicho. A mulher não se interessou quando estendeu a chave ao rapaz com quem tinha estado a falar. No fundo de um corredor, atrás de uma porta, estava o quarto: meia dúzia de beliches de ferro, um canto do teto desmoronado, nuvens negras de umidade nas paredes, uma mesa pequena e velha. Os rapazes da idade do Galopim estavam alegres. No dia seguinte, iam às sortes. Aos olhos deles, a cidade parecia azeite de fritar. Era quase de noite.”

Mais tarde o capítulo seguinte começa encantador:

“(1964)

As paredes estavam mais resignadas que os pombos.

Era uma hora prateada. O fim da tarde atravessava o tempo e entrava pela porta aberta do quintal. O fim da tarde atravessava o vento. Ouvia-se o restolhar das folhas das árvores, ao longe, mas ouvia-se também as asas dos pombos a riscarem o ar, gemidos cortados, mas ouvia-se também o lume a arder, as chamas a fazerem estalar o madeiro, mas ouvia-se também a água”.

Ou o início da segunda parte deste capítulo:

“O Mondego tinha excelentes margens para vomitar.”

Em: Livro, José Luís Peixoto, São Paulo, Cia das Letras: 2012, pp: 71-72; 75, 76.

A narrativa surpreende não só pelo conteúdo mas pela maneira como é mostrado.  Ainda não acabei de ler o livro, mas já antecipo uma leitura que terá me satisfeito quando chegar ao final.





Uma descrição primorosa na obra de Hilary Mantel

2 03 2014

William Kay BlacklockEnsinando a irmã a coser ou A lição, s.d.

William Kay Blacklock (Inglaterra, 1872-1922)

aquarela e guache sobre papel

Nem todos os escritores se dedicam a uma boa descrição.  Hilary Mantel é uma extraordinária artesã no texto descritivo.  Fiquei particularmente fascinada com a caracterização que ela faz de uma mulher — a mãe da narradora do romance Um experimento amoroso.  São dois parágrafos sucintos, mas de grande riqueza. Ao final dessa leitura, conhecemos a personagem descrita.  Vejam:

“Meu pai era escriturário; eu soube desde muito cedo em minha vida, por causa do hábito de minha mãe de me dizer: “seu pai não é apenas um escriturário, sabe.” Toda noite ele fazia um jogo de palavras cruzadas. De vez em quando minha mãe lia livros da biblioteca ou folheava revistas, que também chamava de “livros”, mas mais fequentemente fazia tricô ou costurava, a cabeça inclinada sob a lâmpada do abajur. O trabalho dela era requintado: a tapeçaria, o trabalho de bainha aberta. Nossas fronhas eram bordadas, branco sobre branco, com rosas esparramadas de talos longos, com ramalhetes em cestas trançadas, com laços em guirlandas de nós graciosos. Meu pai tinha um blusão de lã tricotado diferente para cada dia da semana, se quisesse usar. Todas as minhas, cortadas e feitas por ela, tinham babados de renda na bainha e – e também na bainha do lado esquerdo – um bordado com o mesmo tema representando a inocência: um botão-de-ouro,por exemplo, ou um gatinho.

Posso ver que minha mãe,  como pessoa, não era nada requintada. Tinha o queixo firme e uma voz alta, ressonante. O cabelo estava ficando grisalho e era rebelde, preso por pregadores de mola. Quando franzia o cenho, uma nuvem passava sobre a rua. Quando erguia as sobrancelhas – como fazia com frequência, espantada a cada hora pelo que Deus esperava que ela suportasse –, um sistema de trilhos de bonde de cidade pequena surgia em sua testa. Ela era brigona, dogmática e esperta; sua maneira de falar era assustadoramente franca, ou então desnorteadamente cheia de rodeios. Os olhos eram grandes e alertas, verdes como vidro verde, sem nada de amarelo ou amêndoa neles; sem nenhum dos compromissos que as pessoas têm quando se trata de olhos verdes. Quando ria, ela raramente sabia porque, e quando chorava, sabia menos ainda. Suas mãos eram grandes, nodosas e cheias de calos, feitas para segurar um rifle, não uma agulha”.

Em: Um experimento amoroso, Hilary Mantel, tradução de Ana Deiró, Rio de Janeiro, Record: 1999, pp. 14-15





Os três talismãs, texto de Teodoro de Morais

4 11 2013

pai e filhosIlustração sem autoria, do livro “At Work and Play”, Merton-McCall Readers: 1937.

Os três talismãs

Teodoro de Moraes

“– Que é preciso para aprender? perguntou um filho ao pai.

– Para aprender, para saber e para vencer, respondeu o pai, é preciso buscar os três talismãs: a alavanca, a chave e o facho.

– E onde encontrá-los? interroga o filho.

– Dentro de ti mesmo, explica o pai. Os três talismãs estão em teu poder e serás poderoso, se quiseres fazer uso deles.

– Não compreendo, diz o filho, cada vez mais intrigado. Que alavanca é essa?

– A tua vontade. É preciso querer, é preciso remover obstáculos para aprender.

– E a chave?

– O teu trabalho. É preciso esforço para dar volta à chave e abrir o palácio do saber.

– E o facho?

– A tua atenção. É preciso luz, muita luz, para iluminar o palácio. Só assim poderás ver com clareza e descobrir a verdade, que vence a ignorância.”

 

[Exemplo de conversação no texto]

Em: Flor do Lácio,[antologia]  Cleófano Lopes de Oliveira, São Paulo, Saraiva: 1964; 7ª edição. (Explicação de textos e Guia de Composição Literária para uso dos cursos normais e secundário)p. 158.

Theodoro Jeronymo Rodrigues de Moraes (Brasil, 1877-1956)Professor paulista. Formado pela Escola Normal Secundária de São Paulo, em 1906.

Obras:

A leitura analítica, 1909

Como ensinar leitura e linguagem nos diversos anos do curso preliminar, 1911

 Meu livro: primeiras leituras de acordo com o método analítico, 1909

 Meu livro: segundas leituras de acordo com o método analítico, 1910

Cartilha do operário: para o ensino da leitura…, 1918 e 1924

 Sei ler: leituras intermediárias, 1928

 Sei ler: primeiro livro, 1928

Sei ler: segundo livro , 1930





Uma manhã, texto de Pardal Mallet

28 10 2013

ELISEU VISCONTI, LEITURA OST, 1917, 56X46 COL PARTLeitura, 1917

Eliseu Visconti (Itália, 1866 – Brasil,1944)

óleo sobre tela, 56 x 46 cm

Coleção Particular

“Como no relógio da parede soassem quatro horas, Nenê, num movimento de desânimo, deixou escorregar-lhe pelo corpo abaixo o jornal que estava a ler distraidamente. Algum pensamento triste acabrunhava-a. Tanto que por sob as madeixas sedosas da franja adivinham-se umas rugazinhas pequeninas a franzir-lhe a testa, aproximando-lhe os sobrolhos levemente arqueados. Veio-lhe um gesto grande de inquietação e com o pezinho delicado batia febrilmente no assoalho. Depois o braço torneado e alvadio, nas curvaturas graciosas fortemente desenhado pela manga estreita do casaco, apoiou-se ao encosto da cadeira de balanço para suster mais comodamente a cabeça gentil dos traços finos numa pureza ideal de Juno. E dali seus olhos verde-azulados — imensos lagos de ternura a desafiar os pescadores do amor, volveram-se languidamente, absortos na contemplação daquele quadro holandês todo feito com a mansuetude da vida caseira.

A luz viva de um sol, que ao termo da viagem galopava ligeiro com pressas de pernoitar na grande hospedaria do ocaso, entrava francamente pelas janelas abertas clareando aquele salão de gosto antigo, de uma grande prodigalidade de madeiras severas e embaciadas, sem o falso brilho dos vernizes. No fundo escuro paredes forradas em imitação de grandes panos de carvalho embutidos em largos caixilhos de mogno; e a harmonizar-se com elas uma pesada mobília Luís XIV de altos espaldares cheios de obras de entalhe. Apenas como nota vibrante e alegre — o refrangir dos cristais e dos serviços de eletro-prata a rebrilhar no grande armário envidraçado; e no centro da casa a mesa elástica já convenientemente preparada para o jantar com a toalha alvejante e o branco luzidio dos pratos dentre os quais se erguia, a tocar quase no lustre bronzeado, a fruteira de bacará — pirâmide alaranjada que se terminava floridamente num grande ramo de crótons.

No meio deste espetáculo, como a imagem da vida, sonolenta nas paixões, petrificada em sua impassibilidade, o vulto nobre e altivo de d. Augusta. Sentada junto à janela oposta, em uma cadeira baixa a contrastar com a uniformidade da mobília, tendo junto a si uma pequena mesa de costura sobre a qual repousava uma cestinha de vime, entretinha-se em alinhavar umas camisinhas de criança que ia jogando no chão à medida que as aprontava. Suas mãos longas e delicadas de aristocrata moviam-se em grande volubilidade. E por sobre tudo isto a sua cabeça de velha que atravessou uma existência calma, nua de desgostos, conservando a sua pele acetinada, tendo apenas branqueado os cabelos ao suceder dos anos.

Uns cabelos formosos e bastos que penteava em grandes bandos por cima das orelhas às quais se suspendiam uns compridos brincos de charão.

E Nenê esquecia-se do tempo. Achava aquilo tão bonito. Vinha-lhe uma sensação boa de felicidade a beijar-lhe o colo quase nu sob o rendilhado do casaco. Encolhe-se toda na cadeira num gesto elegante de gata friorenta e deixou que o seu olhar boiasse a flux do lago de mansidões. Para que incomodar-se? Ela sentia-se tão bem naquele descanso do organismo inteiro. Demais não estava com fome. Não valia a pena inquietar-se por tão pouco. O jantar podia muito bem ser demorado um bocadinho. E deixou que a embalasse o oscilar da cadeira, seu pezinho delicado surgindo de entre as saias a desenhar-lhe os contornos sensuais da perna”

[Prim-

Em: O Hóspede, Pardal Mallet, Rio de Janeiro:1887, primeiro capítulo, EM DOMÍNIO PÚBLICO