O que se escuta numa velha caixa de música, poesia de Martins Fontes

15 09 2014

 

 

Carolus-Duran_-_Le_BaiserO beijo, 1868

Carolus Duran (França, 1837-1917)

óleo sobre tela

Museu de Belas Artes, Lille

 

 

O que se escuta numa velha caixa de música

 

Martins Fontes

 

Nunca roubei um beijo. O beijo dá-se,

ou permuta-se, mas naturalmente.

Em seu sabor seria diferente

se, em vez de ser trocado, se furtasse.

 

Todo beijo de amor, longo ou fugace,

deve ser um prazer que a ambos contente.

Quando, encantado, o coração consente,

beija-se a boca, não se beija a face.

 

Não toquemos na flor maravilhosa,

seja qual for a sedução do ensejo,

vendo-a ofertar-se, fácil e formosa.

 

Como os árabes, loucos de desejo,

amemos a roseira, olhando a rosa,

roubemos a mulher e não o beijo.

 

(A Flauta Encantada)

 

Em: Nossos Clássicos: Martins Fontes,poesia, Rio de Janeiro, Agir: 1959, p. 53





Hábitos que se foram, memórias a partir de “Utz” livro de Bruce Chatwin

14 09 2014

 

 

american-art-artist-paintings-prints-by-louis-moeller-the-connoisseurs-1890-approximate-original-size-18x24Os especialistas [Connoisseurs], 1890

Louis Moeller (EUA, 1855-1930)

óleo sobre tela, 46 x 62 cm

 

 

Há anos me recomendaram a leitura de Utz, um livrinho pequeno de 135 páginas, publicado pela Cia das Letras em 1990, de autoria do inglês Bruce Chatwin (1940-1989).  Recentemente, tive a oportunidade de lê-lo.  É a história de um colecionador de porcelanas Meissen, vivendo em Praga, ainda na época da Cortina de Ferro, que protege a todo custo as delicadas estatuetas das mãos do governo comunista que vê no luxo desnecessário desse passatempo um sinal da decadência da vida no ocidente e da aristocracia checa.  Apesar de interessante a trama me pareceu datada, retratando muito de leve as restrições do governo da República Checa [naquela época Checoslováquia]. A história, portanto, se restringe ao retrato do personagem Utz, um apaixonado colecionador de porcelanas e de cantoras de ópera. É um conto. Não chega a ser um romance.

Mas aqueles que dizem que na leitura estamos sempre nos retratando, admito que à medida que eu avançava no texto, memórias de um tempo antes dos meu dez anos, me rondaram e com elas uma apreciação de como as maneiras e as preocupações mudaram nas últimas décadas do século XX.  O personagem Utz, homem refinado, que aprecia as belíssimas porcelanas Meissen, que passa temporadas na estação de águas em Vichy, na França, e que tenta sozinho manter o brilho da aristocracia checa, lembrou-me um tipo de homem que, se não desapareceu por completo, hoje eu não encontro nos meus círculos.

Meu avô era um homem de muitos amigos e conhecidos.  Advogado, professor, intelectual, escritor e cronista para um diário carioca, cultivou muitas amizades que o visitavam regularmente. Dentre eles havia um que se chamava Prof. Eugênio. Sua figura, que me lembro dos meus oito anos, era a de um homem imponente, alto —  mais alto que vovô, o que, diga-se, não era grande vantagem — sempre bem apresentado em ternos de três peças. Afetava uma bengala.  E quando consultava o relógio de bolso, puxando a longa corrente de ouro,  entre as tragadas de charutos finos e perfumados, mostrava belas abotoaduras mais caprichadas do que os simples quadrados de ouro fosco e brilhante usadas por vovô.   Prof. Eugênio era muito sério e não sucumbia facilmente ao charme da netinha que, encantada com o vovô, insistia em perambular pelo jardim-de-inverno, local preferido para as visitas dos amigos. Foi a figura do Prof. Eugênio que se reacendeu, no corredor das memórias infantis, preenchendo a imagem de Utz, o principal personagem desse romance.

 

Vintage 1930 Prince and Princess Fairy Tale Story Illustration Print by Margaret Evans PricePríncipe e princesa, 1930 ilustração de um conto de fadas de Margaret Evans Price.

 

Provavelmente minha memória, muito vívida, de algumas dessas visitas pode estar enraizada no fato de que as conversas entre eles, quando minha avó não estava junto, eram em francês.  Vovô havia vivido por algum tempo na Suíça, a trabalho,  falava francês fluentemente.  Na verdade é possível que tenha sido escalado para a Suíça, porque falasse francês, já que em seu diário, que está em minhas mãos, usa o francês desde cedo, para as passagens menos públicas, digamos, um pouco mais apimentadas.  Por toda essa vivência e a pluralidade das tarefas que preenchiam o seu tempo, vovô tinha grande variedade de amigos, que o visitavam à noite, após o jantar, num hábito de entretenimento que já desapareceu.  Passei muitos dias na casa de meus avós.  Não só era a neta mais velha da família, como eles também eram meus padrinhos. Com eles aproveitei muito, viajei pelas cidades serranas no estado, pelas cidades das águas de Minas Gerais, visitei São Paulo, duas vezes. Assim estava sempre incluída na rotina de suas vidas, pelo menos era assim que me sentia.

No entanto, a razão principal de me lembrar do Prof. Eugênio era que além dessa figura toda, desse ar diferente dos homens que eu conhecia, da língua francesa ser murmurada como código secreto, além disso tudo, Prof. Eugênio era um príncipe.  Sim, príncipe.  Era brasileiro, mas depois da Segunda Guerra Mundial, no final dos anos cinquenta ele havia comprado o título de príncipe de uma família nobre europeia que precisava de alguns bons trocados.  É claro que, para a criança que já lia os contos de fadas de Grimm, Prof. Eugênio não lembrava nem de longe os príncipes que eu trazia na imaginação. E, me lembro da minha surpresa ao descobrir, não sei como ou quando, que ele possuía esse título.  Prof. Eugênio e Utz são ambos feitos da mesma estopa.  São figuras totalmente anacrônicas que me deixam mesmerizada; o mundo em que viviam já havia se dissipado há muito tempo e mesmo assim eles insistiam em manter pelo menos algumas de suas fantasias. Talvez suas fantasias fossem tudo o que lhes restava.





A hora precisa do nascimento do Impressionismo

7 09 2014

 

la-sci-sn-impressionism-monet-astronomy-201409-001Impressão, nascer do sol, 1872

Claude Monet (França, 1840-1926)

óleo sobre tela,  48 x 63 cm

Museu Marmottan Monet, Paris

 

 

A grande surpresa da semana foi saber a hora precisa em que Claude Monet pintou o quadro que deu o nome ao movimento artístico mais popular do final do século XIX: o impressionismo.  É fato conhecido que, o responsável pelo batismo do movimento que surgia, foi o crítico de arte Louis Leroy.  Sua reação negativa à obra, no jornal satírico Le Charivari,  quando comentava a arte mostrada no Salão dos Independentes de 1874, se utilizava do título do quadro de Claude Monet, reproduzido acima,  com a intenção de debochar do que estava sendo exposto. De nada adiantou a crítica de Leroy, pois o movimento que se iniciava, ainda sem proposta clara e sem destino previsível, tornou-se o mais popular entre os amantes  da arte nas gerações seguintes.

O impressionismo continua até hoje a maneira de pintar que mais consegue novos adeptos, quer apreciadores da arte, quer pintores amadores ou profissionais. Prova do interesse sobre os impressionistas pode ser obtida na preocupação do físico Donald Olson, da Universidade do Estado do Texas, em São Marcos, que não só descobriu o lugar preciso de onde Monet havia pintado a cena acima [da janela de seu hotel no Le Havre], como observando e estudando centenas de  fotografias e mapas, comparando-as com a imagem representada por Monet, e ajustando matematicamente suas contas, levando em consideração, inclusive,  as horas de distanciamento de Le Havre do meridiano de Greenwich, conseguiu precisar a localização de Monet e a hora em que o sol estava como na tela: 15 de novembro de 1872, à 7: 35 da manhã.

Para saber o processo pelo qual o Prof. Olson chegou a essa conclusão é uma boa ideia ler o texto do artigo: Physicist puts time on timeless Monet painting, no Los Angeles Times, de 3 de Setembro de 2014.





Palavras para lembrar — Joseph Conrad

17 08 2014

 

 

Ernst Witkamp( Holanda, 1854 – 1897) mulher lendo em interior, aquarela,  33 x 22 cmMulher lendo em interior

Ernst Witkamp (Holanda, 1854-1897)

aquarela, 33 x 22 cm

 

 

“O autor escreve apenas metade de um livro. A outra metade fica por conta do leitor.”

Joseph Conrad





Cuidado, quebra! Par de garrafas, século XIX

25 07 2014

 

paire_de_bouteilles_en_opaline_blanche_la_partie-227-1Par de garrafas em opalina branca com as partes superiores do bojo e pescoço esmaltadas em policromia. Ornadas por flores de muitas pétalas  em lóbulos, motivos florais estilizados, final do século XIX, com 26 cm de altura, Beykoz Turquia.





Dia 14: “tudo que eu gostaria de ter dito”, desafio da escrita, #PHpoemaday

14 06 2014

 

 

Edmund Charles Tarbell, (EUA 1862-1938), Mary lendo, 1933, ost, 31x27Mary lendo, 1933

Edmond Charles Tarbell (EUA, 1862-1938)

óleo sobre tela, 31 x 27 cm

 

Tema: Tudo que eu gostaria de ter dito 

 

É tempo de recomeçar

 

 

Faz hoje um ano.
Só agora sei o que deveria ter dito.
Por que sempre se pensa melhor
Quando as emoções já se abrandaram?
De que adianta agora saber a resposta perfeita?
De que adianta escrever todas as razões,
As pontuações? As causas e condições?
Se o tempo já passou, se a vida já mudou,
e o passado não volta mais?
Visão perfeita é sempre a do espelho retrovisor,
mas não andamos para trás, a não ser na sexta dimensão.
Assim, escrevo aqui tudo o que deveria ter dito, há um ano,
Pego um fósforo e torno em cinzas a mágoa pelo que não fiz.
É tempo de recomeçar.


©Ladyce West, Rio de Janeiro, 2014

 

 





Prelúdios, poesia de J. Dantas de Sousa

25 05 2014

 

 

margetson-william-henry-1861-a lady of qualityUma jovem de classe, s.d.
William Henry Margetson (Inglaterra, 1861-1940)
Aquarela e lápis sobre papel

 

Prelúdios

J. Dantas de Sousa

 

Por que em tua face angélica,

Meiga donzela formosa,

A cor purpúrea da rosa

Foi gratamente pairar

Quando outro dia eu em dúvida

Junto de ti quase a medo

Fui de minh’alma um segredo

Em segredo te falar?

 

Com sorriso terno e cândido,

No seio a fronte pendida,

Dizes não saber, querida,

Porque mudas-te de cor;

Pois eu sei:  — mimosa, ingênua,

Tu coraste, feiticeira,

Por essa a vez primeira

Que ouvias falar d’ amor.

 

Dize agora: se os meus lábios

Abrasados de desejos

Aos teus furtarem mil beijos

Hás de corar como então?…

Ai, não respondes; mas, lânguidos,

Dizem teus olhos brejeiros

Que hás de corar…aos primeiros:

Mas aos segundos — já não…

 

(Setembro de 1859)

 

Em:  O Espelho: revista de literatura, modas, indústria e artes, n. 17,  23 de outubro de 1859, p.11. da edição em facsímile, Rio de Janeiro, MEC:2008, p. 107.





Imagem de leitura — Madeleine Jeanne Lemaire

25 05 2014

 

 

 

Madeleine Jeanne Lemaire (1845 – 1928, French)girl-with-dogMenina com cachorro

Madeleine Jeanne Lemaire (França, 1845-1928)

óleo sobre tela





Imagem de leitura — Édouard Manet

6 05 2014

 

 

Edouard_Manet_005A leitura, 1865-1873 (sem data)
Édouard Manet (França, 1832-1883)
Óleo sobre tela, 61 x 73 cm
Museu d’Orsay, Paris





Primeiro de maio, óleo de Pieter Bruegel, o jóvem

1 05 2014

 

 

 

Pieter the Elder Bruegel -The Dance around the May Pole

1º de maio, dança à volta do “poste de maio”, 1634

Pieter Bruegel, o jovem (Bélgica,1564-1636)

óleo sobre madeira

Museu de Arte e História, Genebra, Suíça