Trova do ciúmes

14 01 2021

Morena de olhos castanhos,

teu encanto é a minha pena;

quem dera que olhos estranhos

te achassem feia, morena!     

 

(Bastos Tigre)





Despedida, poesia de Maria Braga Horta

11 01 2021

À luz de lampião, 1890

Harriet Backler (Noruega 1845-1932)

óleo sobre tela, 55 x 66 cm

 

Despedida

 

Maria Braga Horta

 

Não levarei comigo nada meu

nem de ninguém.

Devolvo a todos o quinhão da vida

que viveram comigo e por mim

e os liberto

do ritual das flores no jazigo

que nada mais (depois) contém

que os vestígios de um corpo

que em verdade jamais me pertenceu.

 

 

Simples sombra (invisível) chegarei

diante do espelho

em que foi o meu tempo refletido

e inserido em gradações de forma e cores.

 

 

Do que era teu em mim –

separados os lados –

sepultarás o morto.

 

 

O vivo ficará perdido

nos teus olhos

procurando o infinito.

 

Em: Caminho de Estrelas, Maria Braga Horta, São Paulo,  Massao Ohno Editor: 1996, p. 122





Trova das árvores

29 12 2020

Paisagem

Edgar Walter (Brasil, 1917- 1994)

óleo sobre tela, 65 x 82 cm

 

 

O arvoredo se arrepia,
amante dos mais sensíveis,
quando a brisa o acaricia
com seus dedos invisíveis.

(Soares da Cunha)

 

 





Mãe, poema de Stella Leonardos

22 12 2020

Maternidade

Aurélio d’Alincourt (Brasil, 1919 – 1990)

óleo sobre placa, 41x 33 cm

 

Mãe

 

Stella Leonardos

 

Tudo que há na fonte pura

Vem da mina de onde brota

E do fundo da espessura

Nasce a sombra de uma grota.

Todo verdor de uma planta

Deve à terra seu verdor.

Todo pássaro que canta

Herdou raça de cantor.

Qualquer gesto bom que eu tenha,

Toda vez que eu ficar triste,

Todo sonho que me venha,

Tudo que em mim houve e existe

Será teu, Mãe. Porque és água,

Pedra e chão, rama e raiz

De meu mundo: quer na mágoa

Quer no momento feliz.

 

Em: Pedra no Lago, Stella Leonardos, Rio de Janeiro, Livraria São José:1956, p. 45

 





Trova de Natal

9 12 2020
Ilustração de B. Midderigh Bokhorst

 

 

Que saudades dos folguedos

dos meus Natais mais risonhos…

em que singelos brinquedos

amanheciam meus sonhos!

 

João Freire Filho





A lebre e a tartaruga — La Fontaine, trad. Curvo Semedo

3 12 2020
Ilustração, desconheço a autoria.

A lebre e a tartaruga

“Apostemos, disse à lebre

A tartaruga matreira,

Que eu chego primeiro ao alvo

Do que tu, que és tão ligeira!”

Dado o sinal da partida,

Estando as duas a par,

A tartaruga começa

Lentamente a caminhar.

A lebre, tendo vergonha

De correr diante dela,

Tratando uma tal vitória

De peta ou bagatela,

Deita-se e dorme o seu pouco;

Ergue-se e põe-se a observar

De que parte sopra o vento,

E depois entra a pastar;

Eis deita uma vista d’olhos

Sobre a caminhante sorna,

Inda a vê longe da meta,

E a pastar de novo torna.

Olha; e depois a vê perto,

Começa a sua carreira;

Mas então apressa os passos

A tartaruga matreira.

À meta chega primeiro

Apanha o prêmio apressada,

Pregando a lebre vencida

Uma grande surriada.

Não basta só haver posses

Para obter o que intentamos;

É preciso por-lhe os meios,

Quando não atrás ficamos.

O contendor não desprezes

Por fraco, se te investir;

Porque um anão acordado

Mata um gigante a dormir.





“Lundu de Dona Sinhá”, Wilson W. Rodrigues

24 11 2020

Batucada, 1935

Armando Vianna (Brasil, 1897 – 1992)

óleo sobre tela, 37 x 46 cm

 

Lundu de Dona Sinhá

 

Wilson W. Rodrigues

 

Tanta brancura na pele,

tanta negrura nos olhos,

tanta risada sonora

no mundo não há

fora do colo macio,

dos olhos tão envolventes,

da boquinha tão vermelha

de dona Sinhá.

 

Pegar com jeito no leque,

fazer mesura na valsa,

dizer adeus com o lenço

no mundo não há

como o jeito delicado,

o sapatinho de seda,

a mãozinha tão alva

de dona Sinhá.

 

Rezar, na igreja, sonhando,

dizer “não”, sempre sorrindo,

prometer tanto em silêncio

no mundo não há

como a reza mais sincera,

os lábios enganadores

e as promessas escondidas

de dona Sinhá.

 

Fingir chilique de choro,

zombar do próprio marido

e trair o próprio amante

no mundo não há

como as lágrimas fingidas,

os carinhos mentirosos

e os amores levianos

de dona Sinhá.

 

Em: Bahia Flor: poemas, Wilson W. Rodrigues, Rio de Janeiro, Editora Publicitan: 1949, pp. 51-55

 

 

Wilson Woodrow Rodrigues (São Salvador, BA, 1916 – ?), poeta, jornalista, folcorista, escritor, professor.

Obras

    A caveirinha do preá, s/d

    Desnovelando, s/d

    O galo da campina,s/d

    O pintainho, s/d

    Por que a onça ficou pintada, s/d

    A rãzinha,s/d

    Três potes, s/d

    O bicho-folha,s/d

    A carapuça vermelha,s/d

    Bahia flor, poesia, (1949)

    Folclore Coreográfico do Brasil, (1953)

    Contos, s/d

    Contos do Rei-sol, s/d

    Contos dos caminhos, s/d

    Pai João, (1952)

    Sombra de Deus, s/d

    Lendas do Brasil, s/d





O ovo do coelho, Paulo Leminski

16 11 2020

Ilustração Pauli Ebner.

Ovo do coelho

 

Paulo Leminski

 

Coelho não bota ovo,

quem bota ovo é galinha.

Mas eu conheço um coelho

que é mesmo uma maravilha.

 

Os ovos que ele bota,

você nem imagina.

São ovos de chocolate

ou ovos de baunilha.

 

Por isso, nosso coelho

foi expulso da família.

O pai dele disse: – Meu filho,

isso é coisa de galinha.

 

O coelho respondeu rapidamente:

– Meu pai eu não tenho culpa,

botar ovo é meu destino.

Se não posso botar ovos em casa,

prefiro botar sozinho.

 

E foi assim que o coelho

saiu de casa para a rua,

botando ovo na Páscoa,

no sonho de todo mundo.





“Esse cão”, poesia de Vera Lúcia de Oliveira

9 11 2020

Galgo, 2010

Aguiar Santana (Brasil, contemporâneo)

óleo sobre tela, 30 x 30 cm

 

 

 

 

[Sem título]

 

Vera Lúcia de Oliveira

 

esse cão que me segue

é minha família, minha vida

ele tem frio mas não late nem pede

ele sabe que o que tenho

divido com ele, o que eu não tenho

também divido com ele

ele é meu irmão

ele é que é meu dono

 

 

Em: Cintilações da Sombra 2: antologia poética, coordenação Victor Oliveira Mateus, Fafe, Portugal, Labirinto e Núcleo de Artes e Letras de Fafe: s.d., p. 85





O tempo passa, soneto de Maria Braga Horta

31 10 2020
Ilustração, Clara M. Burd
         V

 

Maria Braga Horta

 

O tempo passa.  E passam sol e lua

tantas vezes no céu, que perco a conta

do tempo que, passando, se insinua

na vida que a velhice hoje defronta.

 

O tempo passa, a história continua.

É uma história de amor que se reconta.

Uma história de amor que perpetua

a vida: ora uma acaba, outra desponta.

 

Venho outra vez com bruxas e dragões

e princesas e príncipes e anões

para o mundo irreal dos dois netinhos.

 

Vejo em seus olhos sempre o mesmo brilho

que pairava no olhar de cada filho

…e ainda vão passando os carneirinhos…

 

Brasília, 28-2-1968

 

 

Em: Caminho de Estrelas, Maria Braga Horta, São Paulo,  Massao Ohno Editor: 1996, p. 239