Partir é quase morrer.
É deixar na despedida
um pouco do próprio ser
e muito da própria vida…
(Izo Goldman)
Partir é quase morrer.
É deixar na despedida
um pouco do próprio ser
e muito da própria vida…
(Izo Goldman)
O casamento, [A boda], 1792
Francisco de Goya (Espanha, 1746 -1828)
óleo sobre tela, 269 x 396 cm
Museu do Prado
Reynaldo Valinho Alvarez
Diante de Goya, no Museu do Prado,
vejo sombras que as sombras circundantes
parecem reencarnar. Voltando à rua,
vou para o centro velho. Nestes rostos
que me fitam ou não, há retrarados
do mesmo Goya. Sombras tão goyescas
quanto as sombras que vi entre outras sombras.
Assombra-me o prodígio ao sol ardente
de uma Espanha estival. Que liame estreita
os vínculos dos tempos num só tempo?
Que força une as cadeias com que Cronos
ligou as mãos de tantos entre os séculos?
Agora encaro a praça e vou contando,
como os níqueis do bolso, tantos Goyas.
Em: A faca pelo fio: poemas reunidos, Reynaldo Valinho Alvarez, Rio de Janeiro, Imago: 1999, p.59
NOTA: esta postagem é uma homenagem a Reynaldo Valinho Alvarez que faleceu esta semana, aos noventa anos. Um dos poetas contemporâneos de que mais gosto, com provam as diversas poesias de alguns de seus livros que possuo.
Jardim
Henriqueta Lisboa
— Menina faceira
de laço de fita
não vás tão bonita
sozinha ao jardim.
Se pensar Beija-Flor
que teu laço é flor,
pelos ares levará
um anel dos teus cabelos.
— Mamãe, não tenha cuidado,
eu sei dar laço bem dado.
— Menina trigueira
de faces vermelhas
no jardim sem teu irmão
não fiques, não.
Se Beija-Flor imagina
que teu rosto é flor,
menina, minha menina,
de certo um beijo te dá.
— Quando ele me der um beijo,
nas minhas mãos estará.
Em: O menino poeta, Henriqueta Lisboa, (Edição ampliada) Imprensa Oficial de Belo Horizonte, Governo do Estado de Minas Gerais: 1975, pp 65-66
Telefonei-te, outro dia
e ninguém me respondeu.
Confundi-me, que ironia!
— Teu telefone era o meu.
(Alberto Lima)
A. Isaias Ramires
Vão-se os dois, de braços dados,
felizes, os namorados,
pelos caminhos, sorrindo…
Permita Deus, entretanto,
que jamais um desencanto
desperte um sonho tão lindo!
A vida só tem encanto
para quem vive sorrindo!…
Em: Cascalhos: sonetos, poemas, trovas, A. Isaias Ramires, Rio de Janeiro: 1986, p. 38
Lembranças, quem não cultiva ?
Afinal, a nossa mente,
faz questão de manter viva,
além do fruto, a semente…
(Nélio Bessant dos Santos)
Um pelo outro, passamos,
com os olhos fitos no chão…
_ Mas, com que ardor nos olhamos
com os olhos do coração!
(Lilinha Fernandes)
Noite escura!… De repente,
dois faróis surgem na estrada…
E a escuridão sai da frente
como quem foge, assustada.
(Durval Mendonça)
Helena Lima
Era uma vez a Lua.
Ela tinha medo do escuro.
Era uma vez o Céu.
Ele também tinha medo do escuro.
A Lua pedia emprestada a luz do Sol.
Ele emprestava, às vezes.
O Céu pedia para a Lua acender.
Ela acendia quando podia.
Se o Sol estivesse de bom humor,
a Lua ganhava luminosidade em trezentos e sessenta graus.
Mas quando o mar não estava para peixes e o Sol não estava para estrelas,
não emprestava nada.
Nadinha.
E o Céu ficava escuro.
Escurinho.
A Lua sentia calafrios.
O Céu sentia solidão.
O medo da Lua era de cair e morrer no mar.
O medo do Céu era de fechar e não voltar a clarear.
Um dia, Céu e Lua decidiram:
“Pra acabar com o escuro e a solidão, a gente vai se casar”.
Desde então, os dois passam o dia inteirinho
contando os minutos para o Sol se retirar.
Em: Amores virados pra cá, Helena Lima e Isabelle Borges, Rio de Janeiro, Lago Baikal: 2019, p. 130