Resenha: “Amor e memória” de Ayelet Waldman

14 01 2016

 

 

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Conny Lehmann (Alemanha, 1967)

aquarela sobre papel, 45 x 61 cm

 

Comprei esse livro porque achei a descrição da trama imperdível. Além disso, minha curiosidade havia sido instigada porque soube que a autora Ayelet Waldman participou da FLIP em 2015.  O eixo principal dessa história é o retorno ao seu próprio dono de um medalhão com o desenho de um pavão que havia sido roubado durante a Segunda Guerra Mundial. Este medalhão fazia parte de um grupo de objetos, que haviam sido confiscados pelos nazistas, das família judias.

Achei interessante a história que trazia um novo elemento para a ficção literária sobre a Segunda Guerra.  A guerra em si chegava ao fim em 1945 quando sabemos do trem repleto de tesouros  confiscados na Hungria.  Um dos soldados americanos  responsável pelo trem é o foco da narrativa na primeira parte do livro. Por uma série de peripécias, Jack, acaba sendo o guardião do medalhão. E, à beira da morte, pede à sua neta que descubra os verdadeiros donos da joia.

 

 

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A segunda parte se dedica à procura da pessoa ou de seus descendentes proprietários do medalhão: a melhor parte do livro.  E na terceira e última parte, vemos a história dos proprietários da peça.  Com essa estrutura o livro funciona como três contos diferentes, com leves ligações entre eles. São épocas, personagens e mistérios diferentes.  A terceira parte me pareceu entediante.  A razão é simples: no afã de ser precisa sobre a psicanálise,  Ayelet Waldman dedica muito texto ao processo de análise da neurastenia, em 1913.

 

 

ayelet aldemanAyelet Waldman

 

Aliás, já no início da trama, quando a ação ainda se passa em Salzburg, na Áustria, há diálogos cuja intenção é divulgar para o público em geral, os costumes e festividades judaicos. Isso contribuiu para diálogos forçados e aquém da realidade informal dos soldados americanos.  Há outras formas de se passar informações culturais ou de época que causam menor intervenção no texto.

Ao que eu saiba, este é o único livro da autora traduzido no Brasil. Difícil justificar então seu convite para participar da FLIP.  Não deve ter sido por esta obra.





Resenha: “A jornada de Felícia” de William Trevor

6 01 2016

 

 

90989e4a692cb10a65520b0405c0bd91Retrato de jovem, 1921

Mainie Jeller (Irlanda, 1897-1944)

óleo sobre tela

Museu Irlandês de Arte Moderna, Dublin

 

 

 

Quando criança levei anos para gostar de O Patinho Feio, porque não aceitava ver o pobrezinho repudiado pela família; chorei com as maldades da madrasta de João e Maria e com as desventuras relatadas pelo burrico da Condessa de Ségur. Hoje, ainda tenho aversão a maldades, a me familiarizar com os hábitos de monstros humanos. É difícil, então, ler uma obra de ficção em que há dois protagonistas: um assassino em série, tratado com quase benevolência e sua vítima, uma jovem de 17 anos, grávida, tratada com frieza. Nenhum dos dois consegue ter a minha simpatia. E é isso exatamente que Wiliam Trevor deseja, numa narrativa perturbadora. Ter lido A jornada de Felícia até o fim é surpreendente e um enorme elogio ao autor.

 

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O suspense psicológico dessa história é controlado. Mas não deixa de ser uma narrativa desconcertante por levar o leitor a habitar a cabeça de Mr. Hilditch, próximo ao desvelo pelo assassino. Paralelamente, outra surpresa: mesmo depois de conhecer o passado de Felícia, sua inocência, sua inexperiência, o leitor se encontra, assim como o autor, pronto para rejeitá-la. Esse é o poder da narrativa de William Trevor, um mestre, sem dúvida alguma, na arte literária. A jornada de Felícia, no entanto, é um livro desagradável, incômodo que subverte os parâmetros emocionais do leitor.

 

william trevorWilliam Trevor

 

Felícia e Mr. Hilditch são duas pessoas muito diversas que se encontram por um capricho do acaso. Ela grávida, seduzida por um rapaz de sua pequena cidade que nunca teve a intenção de levá-la a sério. Ele, Joseph Ambrose Hilditch, um homem gordo, com óculos de fundo de garrafa, com um bom temperamento, sólido trabalhador, em um serviço de catering. Os sentimentos mais recônditos de cada um deles aparecem para o leitor numa cadência determinada, sutil e enervante. William Trevor não deixa de mostrar também o lado mais cruel da vida dos que não têm dinheiro, casa ou comida. Com ele o leitor passeia pelo mundo desconhecido e sombrio da rua. À beira do abismo foi o meu sentimento através dessas páginas, 275 delas. Quando? O quê acontecerá? Haverá um golpe final? O desfecho, assim como a obra não tem uma solução clara. Há frustração. Há, como na vida, falta de solução. Não há fada madrinha, não há obra do acaso para redimir a vida desses personagens. Mas talvez, quem sabe, esse seja o único final possível.

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Uma narrativa sublime. Escrita com precisão cirúrgica. Difícil de recomendar. O risco é seu.





Resenha: “O livro secreto” de Grégory Samak

31 12 2015

 

 

jogo de xadrez com a morteJogo de xadrez com a morte, 1480

Albertus Pictor (1440-1507)

pintura mural

Igreja em Täby, Suécia

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O livro secreto é uma fábula. Partindo da premissa que estamos à beira de esquecer o passado, Samak pondera sobre as lições no nazismo. E, concluindo que continuamos a puxar para debaixo do tapete a magnitude do que aconteceu durante a Segunda Guerra, podemos repetir o erro e contribuir para um novo “genocídio de todos os indesejáveis — fossem eles comunistas, judeus, ciganos, homossexuais, enfermos” (109). Esta é uma obra de alerta.

É um conto fantástico sobre um livro sagrado onde estão escritos todos os detalhes das vidas dos seres humanos, desde seu nascimento até a morte. O livro chega às mãos de Elias Ein, um senhor aposentado, que trabalhara com seguros, austríaco, sem família, que se muda para uma pequena cidade às margens do rio Inn, para aproveitar os últimos anos de vida. Elias percebe que além da lista dos seres humanos, esse livro também lhe dá o poder de viajar no tempo. Ele já se encontrava pessimista com os rumos da humanidade:

“Guiada pela culpa, a pós-modernidade europeia, a do século de Elias, se emaranhava na obsessão neurótica pelo esquecimento, uma vontade de “virar a página”, que era nada mais do que a página do seu fracasso moral.

Elias via a memória do antigo mundo se apagar, o mundo de seus pais e de seu velho legado, abrindo a porta para uma nova era de perigos semelhantes aos do passado…”(89)

Elias pensa então: já que pode visitar o passado, por que não mudá-lo?

Apesar de ser um livro de 170 páginas, Grégory Samak constrói uma trama com diversas referências culturais que servem para honrar todos os que morreram nas mãos assassinas do nazismo. Ele nos dá a chave desse entendimento ao dividir a obra em três partes e nomeá-las em latim: Rex, TremendaeMajestatis, uma referência musical.

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Réquiem é uma composição musical fúnebre de oração aos mortos. É triste. É uma lamentação que começa com as palavras “requiem aeternam” que querem dizer: repouso eterno. Em 1791, o austríaco Wolfgang Amadeus Mozart se dedicou à composição de um Réquiem, hoje conhecido como “O Réquiem em ré menor“, que foi, possivelmente, sua última composição e, hoje, uma das mais conhecidas. Uma das partes deste Réquiem, chama-se: Rex tremendae majestatis. [Rex tremendae majestatis/qui salvandos salva gratis/salva me, fons pietatis.   Tradução: Ó rei de tremenda soberania/que salva os escolhidos livremente/salva-me, ó fonte de piedade]

É dessa maneira então que Grégory Samak nos avisa que se trata de uma obra de queixume. É uma lamentação, uma elegia. Assim como o Livro das Lamentações do Velho Testamento chora pela destruição do primeiro templo em Jerusalém, O livro secreto é um livro de lamúrias, de lástima e queixa sobre o rumo da civilização europeia após a Segunda Guerra.

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E quem melhor para desfiar seus clamores numa melancólica meditação do que Elias Ein, que fica conhecido como Elias, o sábio, homem que leva o nome do profeta bíblico, numa referência direta ao milagre de ressuscitar os mortos?  Elias que trouxe o fogo dos céus e que foi levado aos céus numa carruagem em chamas?  Ele, o profeta que retornará antes que venha o grande e assustador dia do Senhor? Não é a toa que ele está nessa obra, liderando a repulsa quanto aos caminhos tomados pela civilização ocidental.

Para um pequeno livro, essa é uma grande mensagem.  Um texto rápido, corrido, de pequeníssimos capítulos, cheios de referências que o alargam, o engrandecem e o fazem relevante. É uma meditação em forma de fábula e como esta nos dá um questionamento moral.

Leitura muito recomendada.





Resenha: Nora Webster, de Colm Tóibín

27 12 2015

 

 

1543387xlDias de vitrola

Steve Henderson (EUA, contemporâneo)

óleo sobre painel de madeira,  60 x 50 cm

 

Nora Webster é um livro que retrata de maneira perspicaz o momento de passagem imposto, à revelia de quem o enfrenta, pela morte inesperada de um consorte. A narrativa se concentra na protagonista que dá nome ao livro, resoluta viúva de quarenta anos, com quatro filhos, dois ainda crianças.  Nora passa por um processo de auto-conhecimento após a morte de Maurice Webster, seu marido, professor do ensino médio.  Esse processo revela a ela e a seus familiares e conhecidos aspectos de sua personalidade que inexistiam, ou melhor, que haviam permanecidos dormentes nos anos do casamento.

Vivendo numa pequena cidade ao sul da Irlanda, Nora tem vida circunscrita. Não só pelo casamento, mas também pelo comportamento dos habitantes de Enniscorthy, cidade onde mora que, como na maioria de pequenos centros urbanos, tomam conta e observam os hábitos de todos que ali moram.  Esse constante vigiar das ações dos outros só aumenta após a viuvez de Nora, e ela se cansa dos cuidados que seus vizinhos e conhecidos dispensam.  Sente-se tolhida por tanta comiseração. Além da vida na pequena cidade controlar o comportamento dos moradores, outras forças sociais estão presentes: a pressão da igreja católica, o movimento sindicalista dos trabalhadores e as escaramuças armadas entre a Irlanda do Norte e a Irlanda que culminaram no final da década de 1960, chamadas de The Troubles, (Na Trioblóidí) que se prolongariam por três décadas.  Todos aspectos que iriam dar forma aos rebeldes anos da década de 1960, anos de grandes movimentos sociais e, de quebra, com hábitos e costumes do passado, no ocidente.

 

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Aos poucos, à medida que os três anos cobertos no livro se passam, Nora Webster  descobre que encontrar seu próprio caminho pode não ser fácil.  Depois de duas décadas casada, Nora se conscientiza de que muitas de suas opiniões sobre a vida, pessoas conhecidas, eventos políticos e até hábitos do dia a dia que haviam sido estabelecidos e adotados pelo casal, refletiam em grande parte a opinião de Maurice, seu marido, e  não necessariamente sua opinião.  Essa descoberta não vem de um momento de “Eureca!” mas em relâmpagos de constatação, quando pequenas ou grandes decisões exigem que sua opinião seja firme. No meio de um diálogo sobre política, no julgamento sobre ações de vizinhos ou colegas de trabalho, Nora Webster se pega sabendo o que Maurice diria.  Até nos detalhes da vida familiar a onipresença de Maurice se faz sentir.  Este é o caso da surpresa no prazer que Nora tem com a música, arte que havia sido ignorada pelo marido, e consequentemente por ela através de sua vida em comum.

Sutil é a palavra que define o desenvolvimento de Nora Webster. É pela sutileza que entendemos o processo de contínuo auto-descobrimento da protagonista, ainda que a tradição a condenasse a parâmetros que não aceita, mas em que a sociedade teima em enquadrá-la. Nora Webster não é a heroína ostensivamente combativa que poderíamos esperar para os anos 60 do século passado. É uma revolucionária só em sua própria vida, uma mulher introvertida, cheia de dúvidas, mas que não se apequena diante de decisões difíceis. Aos poucos descobre seus novos limites, uma vida diferente.

 

 Colm Tóibín, © Heathcliff O’malley

 

Mesmo em meio a personagens importantes na história, dos filhos às irmãs, tia ou colegas de trabalho, é a ex-freira transformada em descobridora de talentos que abre para Nora a porta da vida futura. “Todos nós temos muitas vidas, mas existem limites. Nunca sabemos quais eles são.” [260]. A partir daí Nora passa a explorar novas vidas, suas vidas, ciente de que há muitas outras opções na vida do que aquelas que lhe haviam sido apresentadas. Nora passa a pressionar os acontecimentos até saber seus limites. Luta sozinha pela classificação de um dos filhos na escola; arranja novas acomodações numa viagem à Espanha, decide pintar o teto da sala por si só. São pequenos atos de exploração que podem ou não trazer resultados positivos, mas é justamente do testar sua potencialidade no dia a dia, que Nora ganha confiança de viver como bem entende.

Colm Tóibín trabalha vagarosamente descortinando o mundo de Nora Webster como ela o vê. Seu cuidado com detalhes permite que conheçamos o dia a dia, os pensamentos dessa heroína dos acontecimentos diários. Mas ele também é cuidadoso em não revelar tudo. Ao final temos a certeza de que há muito mais em Nora Webster do que sabemos. Há um lado que ficará para sempre inexplorado, guardado nas sombras de um casamento, no potencial imaginário de Nora, facetas que fazem dela um personagem esquivo, imponderável. Inesquecível.





Resenha: “Meio sol amarelo” de Chimamanda Ngozi Adichie

8 11 2015

 

 

biafraGuerra de Biafra
Muraina Oyelami (Nigéria,1940)
Óleo sobre papel colado em painel, 75 x 183 cm

 

 

Chimamanda Ngozi Adichie parece determinada a abordar temas complexos e comentá-los com a visão da vida comum, do dia a dia de quem os enfrenta. Assim foi com Americanah, livro pelo qual conheci a autora nigeriana, onde as nuances do racismo, de todas as cores e aspectos dentro e fora do território nigeriano, foram exploradas. O mesmo processo foi usado em Meio Sol Amarelo, um trabalho anterior, retratando a guerra pela independência do sudeste da Nigéria, ocupado pela cultura Ibo, que tentava estabelecer a República de Biafra. O título por si só telegrafa o período mais importante em que a história se desenvolve, os três anos da guerra de 1967 a 1970 pois a bandeira do futuro estado independente de Biafra tinha no centro meio sol amarelo com onze raios, cada um representando as onze regiões do território Ibo.

Sem se deter em muitos detalhes políticos ou culturais para a guerra da independência, Chimamanda Ngozi Adichie retrata como diferentes pessoas reagem quando o conflito começa. A guerra é, portanto, mostrada através do efeito que ela tem sobre os membros da sociedade Ibo. O texto dá ao leitor a oportunidade de entender aqueles que fogem para a Grã-Bretanha; aqueles que ficam e conseguem tirar proveito da guerra; os que a ela se dedicam com fervorosa coragem; e a grande maioria, quase indiferente, inocente, ignorante e cativa dos processos governamentais, para quem a sobrevivência é o que importa. Adichie consegue retratar todas essas pessoas sem crítica, com um olhar independente, ainda que a grande saga se encontre entre os idealistas revolucionários que seguimos com observação cautelosa e ímpar. Concentrada no retrato de uma família da classe média alta, nigeriana de origem Ibo, afluente, educada, intelectualizada, parte do estabelecimento pré-guerra, mas com membros revolucionários, que se encontram no coração do conflito, a narrativa passa por todas as possíveis e diversas reações que cada um desenvolve ao conflito.

 

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A Guerra da Independência de Biafra foi a primeira guerra televisionada no mundo, mas nem por isso bem compreendida. A Nigéria, como a maioria dos países no continente africano, teve seu território desenhado por europeus – britânicos nesse caso – que ao colonizarem o país juntaram indiscriminadamente três grupos culturais (Hauçá, Ioruba e Ibo) com línguas, modos de governo e religiões diversas sob uma única bandeira. Impuseram o sistema político e a língua inglesa. À medida que o poder britânico se enfraqueceu depois da Segunda Guerra Mundial conflitos entre as diferentes etnias dentro da mesma fronteira se acentuaram. A tentativa de independência do povo Ibo foi uma consequência natural do processo. No entanto, o resto do país, auxiliado pelos ingleses, fez um cerco ao território de Biafra impedindo a independência dos Ibos. O território era rico em petróleo e não poderia passar para as mãos de outro governo. Para isso proibiram até mesmo a entrada de gêneros alimentícios e produtos de primeira necessidade ao território rebelde. O mundo ocidental teve então a oportunidade de ver quase que em tempo real, através da televisão, fotos e imagens da fome, do desespero dos refugiados, no conforto de sua própria casa pela primeira vez. Foi um abalo geral. Chimamanda Ngozi Adichie não se concentra nessas imagens ainda que elas façam parte integral da narrativa. A solução brilhante que conseguiu para retratar a guerra foi a multiplicidade de narrativas. Cada pessoa de uma mesma família e de seus dependentes tem a oportunidade de reagir à desumanização do conflito.  E o faz de diferentes maneiras. Até mesmo um “comentarista” inglês consegue ser inserido na narrativa, nesse núcleo familiar, dando ao leitor de hoje, uma visão simultânea de fora e de dentro do campo de batalha.

 

chimamandaChimamanda Ngozi Adichie

 

Meio Sol Amarelo é uma tentativa de recuperação do passado. A autora lembra a importância de se manter a memória da guerra, do ideal de independência, do sacrifício da geração de seus pais, da tentativa de extermínio de uma etnia, do sofrimento do povo Ibo. E com isso mantém também os parâmetros da identidade cultural. Até hoje, os conflitos étnicos e religiosos da Nigéria não foram resolvidos. A recente onda de ataques de extremistas muçulmanos no país trazem a tona mais uma vez a fragilidade da coesão nigeriana. Por isso mesmo uma narrativa com o escopo e qualidade encontrados nesse livro chega na hora certa. Uma obra ambiciosa e muito bem executada.

 

 





Resenha: “A noite do Mi’raj” de Zoë Ferraris

13 10 2015

 

 

tania beaumont (GB, 1949) veiled womanMulher com burca

Tania Beaumont (GB, 1949)

Desenho sobre papel

 

Este livro é uma história detetivesca passada na Arábia Saudita. Um crime ocorre e algumas pessoas ligadas à família da vítima se dispõem a descobrir o que aconteceu. Mas a verdadeira intenção da autora é mostrar a vida naquele país, o dia a dia na vida dos habitantes numa teocracia baseada na interpretação dos textos muçulmanos. E por mais que a autora se esforce para mostrar as razões das restrições sobre homens e mulheres o cerceamento de suas liberdades básicas é ressaltado.

Recomendo o livro a quem queira conhecer melhor uma sociedade com regras muito restritas às mulheres. Morei por um ano em um país muçulmano. Não tão liberal quanto a Turquia, nem tão restrito quanto a Arábia Saudita. Saí de lá convencida de que qualquer mulher que tivesse nascido no mundo ocidental não conseguiria se adaptar às regras que lhe são impostas. Este não é um mundo em que as mulheres podem florescer. A Arábia Saudita não é a exceção, as regras aplicadas por lá são mais ou menos seguidas por outras sociedades afins.

 

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A noite do Mi’raj tem como personagem principal um devoto guia palestino, Nayir ash-Sharqi, que é tão puro e tão religioso que não consegue olhar para uma mulher sem pecar. Enquanto esta pureza pode ter algum charme, ela na verdade denota um preconceito tão grande, que torna Nayir ash-Sharqi numa caricatura, ainda que homens como ele existam mais numerosos e frequentes do que imaginamos. Na verdade as mulheres, para esses religiosos, são tão perigosas que a pureza de espírito de um homem é ofendida por sua mera presença.

 

Zoe_FerrarisZoë Ferraris

 

Este livro foi premiado duas vezes: 2009, Alex Award e 2008, Los Angeles Times Book Prize — Primeiro Livro de Ficção. Para mim sua melhor faceta é descrição da vida na Arábia Saudita. A trama de suspense com a resolução do crime só começou a me cativar da metade do livro em diante.  Uma leitura de puro entretenimento. Três estrelas de cinco como o máximo.





Resenha: “O leitor do trem das 6h 27” de Jean-Paul Didierlaurent

8 10 2015

 

Aliberto BARONI (Brasil, 1911-1994) - Figuras no bonde - OST -CIE - 50 x 70 cm.Figuras no bonde

Aliberto Baroni (Brasil, 1911-1994)

óleo sobre tela, 50 x 70 cm

 

Amantes da leitura em geral têm um fraco por histórias, romances, novelas em que livros são protagonistas ou fazem parte essencial da trama.  O leitor do trem das 6h 27 de Jean-Paul Didierlaurent já pelo título nos prepara para um deleite do gênero.  E é.   No entanto, essa é uma história cuja tema central talvez não seja livros mas o cultivo da amizade e do amor através da palavra escrita.

Sim, há um leitor que lê em voz alta páginas soltas de livros diversos, para uma plateia no trem da manhã. Muitos de seus ouvintes se encantam com as passagens escolhidas ao acaso: elas fazem a imaginação borbulhar, trazem excitação ao dia a dia e são capazes de preencher vidas que de outro modo poderiam ser alienadas. Um por um, cada ouvinte encontra sua verdade, sua história, na interpretação dos trechos de ficções  narrados pelo leitor do trem. É o que acontece com as irmãs Delacôte que eventualmente convidam o leitor do trem para sessões de leitura e entretenimento, para elas e amigos.

 

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Nesse pequeno romance de Jean-Paul Didierlaurent as palavras escritas são mágicas.  Elas são a chave do amor e da amizade.  Elas saram, purificam e restabelecem. Garantem companheirismo e fraternidade, benevolência e apego.  Os gestos de ternura, de simpatia, entre o leitor e seu colega Giuseppe, vítima de um acidente no trabalho,  são verdadeiras odes à mágica da palavra impressa. Até mesmo o leitor do trem, que solitário cultiva a companhia de um peixinho de aquário, eventualmente sucumbe à magia da palavra escrita e  por ela encontra o amor.

 

didierlaurentJean-Paul Didierlaurent

 

O mundo de Guylain Vignolles, funcionário de uma companhia de desencalhe de livros, parece inicialmente sem esperança, abjeto, rude e descortês.  Mas aos poucos testemunhamos os pequenos milagres, aqueles que acontecem quando prestamos atenção nas palavras impressas. E… surpresa!  Quase tudo se resolve. Hábil contador de histórias, Didierlaurent escreveu um conto de fadas para a nossa época. Há monstro, vilão, mágica, boas ações, madrinhas, princesa e final feliz. Que mais podemos querer para cultivar um bom astral?





Resenha: “Tirza” de Arnon Grunberg

1 10 2015

 

Leonid Afremov, The Gateway to Amsterdam, 2000s, oil on canvas, [no dimensions], Private CollectionPorta de entrada para Amsterdã, 2000

Leonid Afremov (Bielorússia/Israel, 1955)

óleo sobre tela

Coleção Particular

 

 

Há muito tempo não leio um autor que demonstra tamanho domínio de seu texto como Arnon Grunberg. Ele brinca com o leitor sem que este o perceba. Ele nos envolve, nos seduz, nos puxa pela mão, mostra o que quer, esconde o que não precisa ser contado. Brinca. Cria. Joga xadrez conosco. Não percebemos a manipulação. Muito pelo contrário, queremos mais. Queremos mais de tudo, e as páginas são lidas com sofreguidão. O que as embala é uma sensação de que algo está para acontecer, algo será revelado a qualquer momento. A tensão é semelhante a de um filme de Alfred Hitchcock. Não se trata de uma história de uma centena de páginas. São 464 páginas em que o autor constrói aos poucos, deliberadamente, detalhes das personalidades envolvidas na narrativa, fazendo-nos íntimos dos membros da família Hofmeester. Ficamos familiarizados principalmente com Jörgen Hofmeester, pai de duas meninas, marido de uma artista plástica que entra e sai de sua vida à vontade, editor de ficção estrangeira de uma casa editorial em Amsterdã, homem em idade próxima à da aposentadoria, que mora num bairro da cidade de fazer inveja aos amigos, que possui uma casa de veraneio, que junta economias e as investe na Suíça, um homem, que tenta, porque tenta, sem colocar quaisquer barreiras, fazer aquilo que é certo e esperado dele. E, no entanto, há uma tensão imensa dentro desse pai de família. Tudo nele é quase obsessivo, mas sob controle. A perfeição é sua meta quer na cozinha, onde aprende a cozinhar quando sua mulher o deixa para “se encontrar”, quer no controle financeiro de sua vida, com a intenção de deixar um patrimônio sólido para as filhas.

 

TIRZA

 

Tirza é o nome da filha caçula de Jörgen Hofmeester, sua filha preferida, aquela que completa 18 anos e está pronta para entrar na universidade. Para comemorar essa passagem decide viajar pela África, e uma festa colocará o ponto final na vida anterior e marcará o início de sua nova aventura. Seu pai prepara a festa com cuidado, fazendo, ele mesmo, os quitutes, arranjando as bebidas. Durante esses preparativos aprendemos sobre a família. Sobre a mãe, as meninas, Ibi, a irmã que já não mora na Holanda e, sobretudo, conhecemos Jörgen. Apesar de um tanto fora da norma, nossa identificação com ele é inevitável. Conhecemos seus desejos, seus desapontamentos. Sua absoluta solidão. Há humor nessa narrativa, muito humor, porque entendemos sua visão do absurdo. Ocasionalmente a vida parece caótica e surreal, mas o humor vem mesmo das situações cotidianas, daquelas pequenas decisões que não dão certo, das expectativas frustradas,de sua inépcia social.

 

 

Arnon+Grunberg+©+RingelGoslinga+2013+-+RV+smallArnon Grunberg

 

Mas, há sempre a sensação de algo oculto. Há uma expectativa subjacente. Uma perturbação que nos deixa alerta. Há a sensação de que algo já aconteceu, mas não sabemos o que, há um ponto cego: incesto? Violência no casamento? O que? É como se tivéssemos sido as rãs numa panela com a água quente e não percebemos que a água ferveu. Esse mistério, essa dúvida só se esclarece nas últimas páginas. E é surpreendente. Um final estarrecedor. Imprevisível. Vale todas as horas dedicadas à leitura.

Este está, para mim, entre os melhores livros lidos neste ano e tem tudo para estar entre os meus favoritos de todos os tempos. É impossível discuti-lo sem revelar mais do que deveria. Mas recomendo sem constrangimento sua leitura para todos os leitores.





Resenha: “Norwegian Wood” de Haruki Murakami

20 09 2015

 

 

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Ian Ramsey (GB, contemporâneo)

aquarela, 48 x 50 cm

Ian Ramsey

 

 

Toru é um herói como qualquer outro rapaz vivendo no final da década de 1960. Bom menino, educado, respeitador dos mais velhos. Vivendo pela primeira vez fora de casa, está aberto à experimentação. A história se passa no final da década de 1960. Tudo está em mudança da França, aos Estados Unidos, ao Japão. Experimento de vida nada tem a ver com radicalismo. Mas com a vontade de explorar as possibilidades. E é assim que encontramos Toru Watanabe pela primeira vez. Sua independência, sua busca, passa pela vida num dormitório, pelas novas amizades de rapazes que como ele procuram um caminho. Tem o ímpeto de dedicar-se às matérias que provavelmente serão úteis no teatro, carreira na qual imagina o seu futuro, mas procura acima de tudo o amor. Sair da casa paterna teve seu peso, mas a vida deixou de ser segura e previsível para ele desde a morte de seu melhor amigo Kizuki. Com ele e a namorada dele, Naoko formavam um trio de amigos inseparáveis. No entanto, Kizuki se suicida e Toru acaba se apaixonando pela namorada do amigo.

Para crescer emocionalmente e finalmente tornar-se o adulto que almeja ser há de fazer escolhas. Para isso precisa experimentar. Como Nagasawa, um amigo do dormitório explica: “Se você só lê o mesmo que todo mundo lê, acaba pensando o mesmo que todo mundo pensa” [43]. E Toru experimenta, não só novas amizades masculinas, pessoas com quem jamais imaginara pudesse se relacionar, como com garotas nos bares, numa incessante procura de satisfação sexual. Não leva muito tempo para descobrir que pelo menos essa busca deixa o sexo insosso e sem sentido. À medida que se abre para conhecer novas pessoas Toru desenvolve seu próprio julgamento.

 

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Mais do que um romance de passagem da adolescência para a vida adulta Haruki Murakami retrata uma era. Talvez a melhor representação do período que eu já encontrei na literatura contemporânea. Não importa que seja situada no Japão. Este é um retrato de uma geração inteira, chamada no ocidente de baby-boomers, que chegou à idade adulta antes de 1974, do final da Guerra do Vietnã. E o título, referência à música dos Beatles do mesmo nome, não é coincidência. A letra de “Norwegian Wood” é um paralelo bem feito à trama – ou falta dela – no romance.

Diferente de muitos não achei a história deprimente, nostálgica, nem achei as cenas de sexo despropositadas. Fiquei encantada ao ler os capítulos sobre o retiro nas montanhas. Só ali deu para perceber o que Murakami iria eventualmente desenvolver até chegar à sua extraordinária obra 1Q84.

 

haruki-murakamiHaruki Murakami

 

Eu poderia dar a minha interpretação aqui sobre as três mulheres da vida de Toru. Mas não quero me alongar para não revelar mais do que o necessário. Mas são três as mulheres importantes em sua vida: uma – um sonho inatingível; outra contato com a realidade, uma união com a terra, com o sólido e seguro. E a terceira um sopro de vida, fértil de possibilidades. Ele faz a escolha certa.

Maravilhoso.





Resenha: “Na Praia”, de Ian McEwan

15 09 2015

 

(c) Roger Gilmore Ward; Supplied by The Public Catalogue FoundationPraia Chesil, no inverno, Dorset

Philip Leslie Moffat Ward (GB, 1888-1978)

óleo sobre placa, 46 x 61 cm

Russell-Cotes Art Gallery & Museum

 

 

Quanta impaciência! Quanta falta de comunicação! Quanta dor! Na praia aborda o processo de encantamento de dois jovens de 22 anos, vivendo no início da década de 1960. O período é anterior ao assassinato de John F. Kennedy nos EUA (1963) e na Inglaterra, onde a história se desenvolve, Harold MacMillan é o primeiro ministro. São esses os parâmetros políticos que enquadram o período de alguma insatisfação sociopolítica que resulta no encontro das duas pessoas que provavelmente jamais se encontrariam em circunstâncias normais, não fosse uma demonstração política: Florence, a violinista e Edward, o historiador, sem rumo certo. A paixão toma conta dos dois. Eles indubitavelmente se amam. E se casam.

Ambos mantêm diversos aspectos de suas vidas sob véus de discrição. Edward tem um espírito volátil. Entra em brigas físicas com facilidade, o que lhe causa alívio e vergonha. Este é um homem que se mantém em permanente tensão. O namoro com Florence retrata a tensão sexual a que se submete, numa época em que o sexo pré-nupcial não é aceitável. Florence por outro lado é uma mulher com uma grande paixão, a música. E aos 22 anos ainda não conseguiu expressar paixão fora do ambiente musical. Na verdade tem uma grande aversão ao sexo. É possível que tenha havido um caso de abuso quando ela tinha doze para treze anos, mas isso não fica claro. No dia de seu casamento, no entanto, ainda não conseguiu dominar o asco que sente sobre todo o processo do amor físico. Por não conversarem. Por não conseguirem se abrir sobre esses problemas, a surpresa na noite de núpcias, quando Na praia inicia, tem consequências imprevisíveis.

 

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Quer uma pessoa tenha experiência ou não, o primeiro encontro sexual, repleto de emoções quando os parceiros já se amam, pode ser um momento de grande sensibilidade, e pode revelar mais do que cada um imagina. No caso de Florence e Edward, ambos virgens, essa sensibilidade é levada a um grau muito elevado, e ambos, sem saberem como se comportar nesse momento de rendição total, acabam por levar as conseqüências dessa noite a extremos que eles mesmos não poderiam ter antecipado. Há para o leitor do século XXI uma experiência de catarse, de alívio, ao reconhecer que muitos dos entraves a que esses dois personagens se submetem não existem mais, há barreiras sociais que hoje são impensáveis. Não fosse a mestria de narrativa de Ian McEwan, ao demonstrar as sensibilidades, as nuances da vida de cada um dos personagens, os fatos que precedem esse momento, no pequenino romance de 130 páginas, não seriam compreendidos pelo leitor moderno.

 

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Este romance não trata só dos hábitos diferentes, costumes de outras eras. Retrata a impaciência da juventude, decisões e atitudes que presumem mais do que devem. O desencontro é inevitável, pois nenhum dos personagens é honesto. E consequências acabam também sendo passionais, com uma virada de ponta-cabeça. Tudo isso maravilhosamente narrado em detalhe, de maneira elegante e fria, por um mestre da insinuação, da meia-palavra. Vale uma tarde de leitura que certamente se tornará inesquecível para o leitor.