Música Brasileira, soneto de Olavo Bilac

1 12 2015

 

 

Candido Portinari,Samba,1956,ost,BancoCentraldoBrasil, BrasiliaSamba, 1956

Cândido Portinari (Brasil, 1903-1962)

óleo sobre tela

Pinacoteca do Banco Central do Brasil, Brasília

 

 

Música Brasileira

 

Olavo Bilac

 

Tens, às vezes, o fogo soberano

Do amor: encerras a cadência, acesa

Em requebros e encantos de impureza,

Todo o feitiço do pecado humano.

 

Mas, sobre essa volúpia, erra a tristeza

Dos desertos, das matas e  do oceano:

Bárbara poracé, banzo africano,

E soluços de trova portuguesa.

 

És samba e jongo, xiba e fado, cujos

Acordes são desejos e orfandades

De selvagens, cativos e marujos:

 

E em nostalgias e paixões consistes,

Lasciva dor, beijo de três saudades,

Flor amorosa de três raças tristes.

 

Originalmente publicado em Tarde, Livraria Francisco Alves, RJ, 1919, p.p. 16-17. Aqui em: Antologia dos Poetas Brasileiros da Fase Parnasiana, ed. Manoel Bandeira, 3ª edição, Rio de Janeiro, Departamento da Imprensa Nacional:  1951. pp: 231.





Paralelos

28 11 2015

 

Thomas CoutureJovem cosendo, c. 1870

Thomas Couture (França, 1815-1879)

óleo sobre tela, 92 x 73 cm

Coleção Particular

 

 

 

“Pegando da costura à luz da claraboia,
Põe na ponta do dedo em feitio de adorno,
O seu lindo dedal com pretensão de joia.”

 

 

Em: Rústica, de Francisca Júlia (Brasil, 1874-1920) Esfinges, São Paulo, Monteiro Lobato & Cia, s/d, pp. 39-40





Poetas na Arte, Os objetos, poesia de Odylo Costa Filho

25 11 2015

 

ray.jpg chardinNatureza morta com arraia, 1728

Jean-Baptiste-Siméon Chardin (França, 1699-1779)

óleo sobre tela, 114 x 146 cm

Museu do Louvre, Paris

 

 

Os objetos

 

Odylo Costa Filho

 

 

No fechado silêncio dos objetos

mais simples mora um toque de magia.

De um só tijolo nasce a casa: afetos,

barro, sol, água, mesa, moradia,

 

e a presença tenaz das mãos humanas

afeiçoando o mistério da existência

e dando às coisas mais cotidianas

senso de vida — e de sobrevivência.

 

Chardin, quando há dois séculos viveu,

uma arraia pintou, disforme, aberta

em sangue e dentes, agressiva e forte.

 

Veio o tempo e com ele emudeceu

muita moda que a glória julgou certa.

Aquela arraia sobrevive à morte.

 

 

Em: Boca da noite, Odylo Costa Filho, Rio de Janeiro, Salamandra: 1979, p. 47

 





Trova humorística do recruta

22 11 2015

 

soldado, 1926, ruth egerIlustração Ruth Eger, 1926.

 

 

Ao recruta João Leal

indaga o cirurgião:

– Onde é que te sentes mal?

Diz ele: – No batalhão!

 

(Severino Uchôa)





Trova das mentiras

19 11 2015

 

mulher de chapéuDesconheço a autoria da ilustração.

 

Do dia a dia na cena

a verdade não prefiras,

que a vida só vale a pena

por suas lindas mentiras.

 

 

(Gilka Machado)

 





Amendoeiras, poesia de J. G. de Araújo Jorge

17 11 2015

 

praça paris, sandra nunesPraça Paris, Rio de Janeiro, 2008

Sandra Nunes (Brasil, contemporânea)

óleo sobre tela,  40 x 90 cm

www.sandranunes.com

 

 

 

Amendoeiras

 

J. G. de Araújo Jorge

 

 

No mês de julho, todo ano, as amendoeiras da minha rua

mudam de roupa.

 

Despojam-se de repente das velhas folhas

enferrujadas

e abrem outras tão verdes como se o criador acabasse de

tocá-las…

 

 

Em: A outra face, J. G. de Araújo Jorge, Rio de Janeiro, Vecchi:1958, 2ª edição, p. 141





Sei um ninho, poema de Miguel Torga

9 11 2015

 

perecastor-coucou-ill-illustrated by Feodor Stepanovich Rojankovsky, Rojan.Ilustração de um dos livros “Père Castor”, com ilustração provável de Feodor Stepanovich Rojankovsky, conhecido como Rojan.

 

 

Sei um ninho

 

Miguel Torga

 

 

Sei um ninho.

E o ninho tem um ovo.

E o ovo, redondinho,

Tem lá dentro um passarinho Novo.

Mas escusam de me atentar:

Nem o tiro, nem o ensino.

 

Quero ser um bom menino

E guardar

Este segredo comigo.

E ter depois um amigo

Que faça o pino

A voar…





Trova das horas contadas

3 11 2015

 

 

moça à noite, Ilustração F Cayley RobinsonMoça à noite, ilustração de F. Cayley Robinson.

 

 

Nos dedos eu conto as horas,

não sei contar diferente,

mas, hoje, sei que demoras

bem mais do que antigamente.

 

(Amália Max)





Caixinha mágica, poesia infantil de Roseana Murray

2 11 2015

 

 

presente jose luis merino, presenteIlustração de José Luís Merino.

 

 

Caixinha mágica

Roseana Murray

 

Fabrico uma caixa mágica
para guardar o que não cabe
em nenhum lugar:
a minha sombra
em dias de muito sol,
o amarelo que sobra
do girassol,
um suspiro de beija-flor,
invisíveis lágrimas de amor.

 

Fabrico a caixa com vento,
palavras e desequilíbrio,
e para fechá-la
com tudo o que leva dentro,
basta uma gota de tempo.

 

O que é que você quer
esconder na minha caixa?

 

Em: Fábrica de poesia, Roseana Murray, São Paulo, Scipione: 2008





Noiva, poesia de Gonçalves Crespo

30 10 2015

 

Gabriel_Charles Deneux_The_WeddingGabriel Charles Deneux - Gabriel Charles Deneux The Wedding Painting

O cortejo nupcial, 1920

Gabriel Charles Deneux (França, 1856-1926)

óleo sobre tela, 139 x 177 cm

Coleção Particular

 

 

A noiva

 

Gonçalves Crespo

 

A noiva passa rindo

De rosas coroada,

Como um botão surgindo

À luz da madrugada.

 

Na fronte imaculada

O véu lhe desce lindo,

E a brisa enamorada

Lhe furta um beijo infindo…

 

Ante o altar se inclina

A noiva, e purpurina

Murmura a medo: “Sim”.

 

Agora é noite; a lua

No céu azul flutua,

E o noivo diz: “Enfim!”

 

(1870)

 

Em: Obras Completas, Gonçalves Crespo, Livros de Portugal, s/d, Rio de Janeiro, p. 75.