Frutos — poema infantil de Eugênio de Andrade

2 11 2008

Tangerina no café da manhã © Ladyce West, Rio de Janeiro: 2006

 

FRUTOS

Eugênio de Andrade

Pêssegos, peras, laranjas,
morangos, cerejas, figos,
maçãs, melão, melancia,
ó música de meus sentidos,
pura delícia da língua;
deixai-me agora falar
do fruto que me fascina,
pelo sabor, pela cor, 
pelo aroma das sílabas:
tangerina, tangerina.

 

Eugênio de Andrade nasceu em  Póvoa da Atalaia, em Portugal. Viveu em Lisboa, em Coimbra e no Porto.  É considerado um dos maiores poetas portugueses contemporâneos.

Obras:

As Mãos e os Frutos,1948);
Os Amantes sem Dinheiro,1950;
As Palavras Interditas,1951;
Até Amanhã,1956;
Coração do Dia, 1958;
Mar de Setembro, 1961;

Ostinato Rigore
, 1964;
Antologia Breve, 1972;
Véspera de Água, 1973;
Limiar dos Pássaros,1976;
Memória de Outro Rio, 1978;

Rosto Precário,
1979;
Matéria Solar, 1980;
Branco no Branco, 1984;
Aquela Nuvem e Outras, 1986;
Vertentes do Olhar, 1987;
O Outro Nome da Terra, 1988;
Poesia e Prosa, 1940-1989;
Rente ao Dizer,
1992;
À Sombra da Memória, 1993;
Ofício de Paciência, 1994;
Trocar de Rosa / Poemas e Fragmentos de Safo, 1995;
O Sal da Língua,1995





Casa amarela, poesia de Marília Fairbanks Maciel para crianças

30 10 2008

Ilustração de Lívia

Casa Amarela

 

Em dias distantes,

Alegres, ruidosos,

Vivi nessa casa

Tão belos instantes!

Oh! Lembro-me bem

Da casa amarela,

Bem longa e comprida,

Em forma de trem.

E a gente, criança,

Correndo e gritando.

Um mundo de sonhos

Ficou na lembrança…

O som das risadas,

Dos choros também.

As flores colhidas,

Em fartas braçadas,

Deixaram perfumes

Gravados em mim.

Guardei borboletas,

Guardei vagalumes:

Lembranças queridas

Que eu trouxe de lá.

— Retalhos de sonhos,

Pedaços de vidas!

 

Mamãe nos chamando,

Com voz muito aflita.

As suas palavras

Estou escutando:

—  “Olá, criançada,

É hora da missa!”

— “É hora da escola!”

E a gente apressada,

Saía correndo,

Ouvindo o barulho

Do bonde que vinha

Nos trilhos, gemendo.

 

E agora, a saudade,

Em forma de um eco,

Vem, massa e distante,

Contar-me a verdade:

A casa amarela

Mudou de cor.

Perdeu seu encanto,

Não é mais aquela!

Mas dentro de mim,

A minha saudade

Em tom de balada

Cantando ficou:

— “A benção, mamãe!

A benção, papai

É tarde  eu já vou!”

Ai doce saudade

Da casa amarela!

Adeus, criançada!

É tarde… eu já vou!…

 

 

Marília Mendes Fairbanks Maciel ( Matão, SP 1924 – 2012), poeta, romancista, contista e artista plástica.

 

Obras:

 

Oferenda, 1962 – poesia

Momento sem tempo, 1970 — poesia

Tempo de saudade, 1971 — poesia

Janela Acesa, 1972, — poesia

O que o conto não conta, 1975 — contos

A semente, 1977 — romance

 

 





Os gostos de Briolanja — poesia infantil de José Jorge Letria

27 10 2008
Ilustração de Mauricio Sousa

Ilustração de Mauricio Sousa

 

Os gostos de Briolanja

A princesa Briolanja
gostava muito de canja
e de sumo de laranja.
No dia do casamento,
num estremecimento,
em vez de um palácio
pediu uma granja,
para nunca sentir falta
de sumo de laranja
nem do caldinho de canja,
coisa que na Corte
nem sempre se arranja.

 

José Jorge Letria, Mão-Cheia de Rimas para Primos e Primas, Terramar, Lisboa, 1998.

 

José Jorge Alves Letria (n. Cascais, 8 de Junho de 1951) é um jornalista, político, poeta e escritor português.





Poema — Fernando Pessoa — para crianças

24 10 2008

 

Parati: lembrança do passado, 1958

Armando Viana (RJ 1897- RJ 1992)

óleo sobre tela, Coleção Particular

 

POEMA

Ó sino de minha aldeia,

Dolente na tarde calma,

Cada tua badalada

Soa dentro de minha alma.

 

E é tão lento o teu soar,

Tão como triste da vida,

Que já a primeira pancada

Tem o som de repetida.

 

Por mais que tanjas perto,

Quando passo sempre errante,

És para mim como um sonho,

Soas-me na alma distante.

 

A cada pancada tua,

Vibrante no céu aberto,

Sinto mais longe o passado,

Sinto saudade de perto.

 

 

Fernando Pessoa

 

Vocabulário: 

 

dolente – triste

me tanjas – me toques

errante – sem destino

 

 

Em:

Poemas para a infância: antologia escolar, Henriqueta Lisboa, Edições de Ouro:s/d, Rio de Janeiro

 

 

Fernando Antônio Nogueira Pessoa (Lisboa, 13 de Junho de 1888 — Lisboa, 30 de Novembro de 1935), mais conhecido como Fernando Pessoa, foi um poeta e escritor português.





O engenho do ovo… poesia infantil de Wilson W Rodrigues

22 10 2008
Engenho de açúcar, MEC

Engenho de açúcar, MEC

 

O Engenho do Ovo…

 

                        Wilson W Rodrigues

 

A madrinha era pobre,

tão pobre, que no batizado,

um ovo bem pequenino

deu de presente ao afilhado.

 

Do ovo nasceu uma pintinha,

que de pinta se fez franga,

e de franga se fez galinha

com olhinhos de sapiranga.

 

A galinha deu ninhada,

que encheu o galinheiro,

e vendendo essa ninhada

o rapaz ganhou dinheiro.

 

Com o dinheiro comprou um porco,

que matou para vender;

então comprou uma bezerra

que como ele estava a crescer.

 

A bezerra se fez vaca

e no rapaz a barba cresceu.

A vaca deu tanto filho,

que o rapaz enriqueceu.

 

E agora já bem taludo

dono de grande criação,

o rapaz comprou Engenho

como era sua ambição.

 

De um ovo de batizado,

dado com todo empenho,

um felizardo afilhado

acabou senhor de engenho.

 

Wilson R. Rodrigues

 

Vocabulário:

 

Olhos de sapiranga – olhos sem pestanas

Nunhada – todos os pintos que nascem de uma vez

Taludo – crescido, forte

Ambição – desejo

Empenho – boa vontade

Senhor – dono

 

Em:

 

Leituras Infantis, 2° livro, Theobaldo Miranda Santos, Agir:1962, Rio de Janeiro

 

Wilson Woodrow Rodrigues, nasceu em 1916 em Salvador, BA.  Foi poeta, folclorista e jornalista.

 

 

Obras:

 

A caveirinha do preá,  Arca ed.: s/d, Rio de Janeiro

Desnovelando, Arca ed., s/d, Rio de Janeiro

O galo da campina, Arca ed,: s/d, Rio de Janeiro

O pintainho, Arca ed.: s/d, Rio de Janeiro

Por que a onça ficou pintada, Arca ed:s/d, Rio de Janeiro

A rãzinha, Arca ed:s/d, Rio de Janeiro

Três potes, Arca ed:s/d, Rio de Janeiro

O bicho-folha, Arca ed:s/d, Rio de Janeiro

A carapuça vermelha, Arca ed:s/d, Rio de Janeiro

Bahia flor, 1948 (poesias)

Folclore Coreográfico do Brasil, 1953

Contos, s/d

Contos do Rei-sol, s/d

Contos dos caminhos, s/d

Pai João, 1952

 





Poeminha para crianças, Manoel de Barros

16 10 2008

 

O cachorro vira-lata

queria que queria

entrar dentro de um inseto.

Mas a lata não deu inteira

dentro do inseto.

O rabo ficou de fora.

 

Em: Cantigas por um passarinho à toa, Manoel de Barros, Ed. Record:2003, Rio de Janeiro.

 

Manoel Wenceslau Leite de Barros, (Cuiabá, MT 1916) é advogado, fazendeiro e poeta.

 

 

 

Obras

 

1937 — Poemas concebidos sem pecado

1942 — Face imóvel

1956 — Poesias

1960 — Compêndio para uso dos pássaros

1966 — Gramática expositiva do chão

1974 — Matéria de poesia

1982 — Arranjos para assobio

1985 — Livro de pré-coisas (Ilustração da capa: Martha Barros)

1989 — O guardador  das águas

1990 — Poesia quase toda

1991 — Concerto a céu aberto para solos de aves

1993 — O livro das ignorãças

1996 — Livro sobre nada (Ilustrações de Wega Nery)

1998 — Retrato do artista quando coisa (Ilustrações de Millôr Fernandes)

1999 — Exercícios de ser criança

2000 — Ensaios fotográficos

2001 — O fazedor de amanhecer

2001 — Poeminhas pescados numa fala de João

2001 — Tratado geral das grandezas do ínfimo (Ilustrações de Martha Barros)

2003 — Memórias inventadas – A infância (Ilustrações de Martha Barros)

2003 — Cantigas para um passarinho à toa

2004 — Poemas rupestres (Ilustrações de Martha Barros)

 





COMPENSAÇÃO — poema de Cyra de Queiroz Barbosa

13 10 2008

 

COMPENSAÇÃO

 

Cyra de Queiroz Barbosa

 

Ao meu irmão Celso

 

 

Couve mineira

picada fininha

me lembra Vovó.

Sentada no mocho

de saia cobertos

só a ponta se via

dos pés pequeninos.

As mãos enrugadas

cortavam cortavam

a couve fininha.

 

Colhida na horta

que antes plantara

a couve verdinha

que agora picava

iria pra mesa

em travessa esmaltada.

Comida sadia

de gente mineira

arroz com feijão

que era tropeiro

torresmos sequinhos

lingüiça de lombo

farinha torrada

com ovos mexidos.

 

“Menina gulosa

tira a mão do torresmo!

Só quer escolher

o mais tenro e carnudo

aquele que o Celso

mais gosta e aprecia!”

— Couve mineira

picada fininha

me lembra a Vovó.

 

Café ralo e bem doce

com leite e farinha

que era de milho

torrada em fogão.

 Os netos gostavam

e ela sorria,

pra todos, é certo

mas um era neto

a quem mais queria.

 

— Só filhas criara

E nele beijava

o filho menino

que sempre sonhara.

 

Em: Moenda:painéis e poemas interiorizados, Cyra de Queiroz Barbosa, Rocco:1980, Rio de Janeiro





A Primavera — poema de P. de Petrus

12 10 2008

Ilustração de Rebecca Peed

A primavera

 

P. de Petrus

 

 

Primavera!  A Natureza,

Agora em nova roupagem,

Traz às plantas mais beleza,

Deita perfumes na aragem.

 

A colina é uma princesa

Dentro da mata selvagem.

Já não existe a tristeza

No sorriso da paisagem.

 

O sol, dourando o horizonte,

Cobre de beijos a fonte

E também a flor que o espera…

 

E o cantar dos passarinhos,

Quebrando a calma dos ninhos

Vem saudar a Primavera.

 

Pedro Bandettini, cognome P. de Petrus (SP 1920 – SP 1999)

 

Obras:

 

Paisagens Poéticas, 1970

Pensamentos Poéticos , 1975

Meu Canteiro de Trovas, 1984





Os periquitos — poema de Osório Dutra

10 10 2008

Os Periquitos

 

 

Osório Dutra

 

 

No leque verde dos coqueiros

Que ornam a margem dos caminhos,

Os periquitos galhofeiros

Zombam dos outros passarinhos.

 

Numa algazarra delirante,

Batendo as asas irisadas,

Cantam a terra e o céu distante,

Glorificando as alvoradas.

 

Porque se julguem muito ricos

Donos do espaço e das alturas,

Fogem dos pobres tico-ticos,

Trocando afetos e ternuras.

 

Unidos contra aos caçadores,

Andam ariscos e assustados:

Temem os ventos destruidores

E a poeira azul dos descampados.

 

São tão alegres, tão ruidosos,

Que a gente ao vê-los avalia

Que sejam todos venturosos,

Brincando ao sol de cada dia.

 

Não param nunca os mais tranqüilos.

Pulam, febris, de galho em galho.

Com que prazer, para segui-los,

Deixo de lado o meu trabalho!

 

Passam a vida saltitando

E é cada qual mais tagarela.

Onde vai um, lá vai o bando,

Cortando o azul na tarde bela.

 

Ordena um deles a partida

Em busca de outros horizontes.

Depois é a volta…  E que corrida

Vertiginosa sobre os montes!

 

E quando, à noite, escuto os gritos

De mil insetos bandoleiros,

Dormem, sonhando, os periquitos

No leque aberto dos coqueiros.

 

Osório Hermogênio Dutra, Vassouras, Estado do Rio, (1889 -1968). Diplomata brasileiro e poeta.

Obras:

 

O país do deuses (crônicas sobre o Japão)

Terra Bendita, 1923 (poesia)

Castelos de Marfim e  Céu Tropical (poesia), 1930

Inquietação, 1933 (poesia)

Dentro da noite Azul, 1934

Silêncio doce silêncio, 1936 (poesia)

O gênio poético de Martins Fontes, 1938

Mundo sem alma, 1943

Terra da gente, 1944 (poesia)

Emoção, 1945

Tempo perdido, 1946

Elas e nós, 1955, (poesia)

 

 

Vocabulário para uso escolar:

 

Ornar = decorar, enfeitar

Galhofeiro = brincalhão

Irisada = furta-cor

Venturoso = feliz

Bandoleiros =  errante, sem paradeiro





PRIMAVERA, poema infantil de Francisca Júlia e Júlio César da Silva

8 10 2008
Ilustração Mauricio de Sousa

Ilustração Maurício de Sousa

 

PRIMAVERA

 

Francisca Júlia e Júlio César da Silva

 

Bem cedo, mal rompe o dia,

já estão gorjeando as aves

os seus pipilos suaves

em desusada alegria.

 

Vasto, o campo se descobre,

ondula, se estende e perde,

todo verde, todo verde

da nova relva que o cobre.

 

De toda banda invadidos

e cheios estão os ares

do perfume dos pomares

e dos jardins florescidos.

 

A ave eriça a pluma,

Varre os ares e os refresca

O sopro da brisa fresca

Que tudo beija e perfuma.

 

A natureza se esmera

Em galas e enfeites novos;

Ri o sol, brotam renovos…

É a risonha primavera

 

que bem cedo acorda os ninhos,

as flores perfuma, enfolha

as árvores, folha a folha,

onde cantam os passarinhos.

 

 

 

 

Vocabulário:

 

gorjeando = cantando

desusada = incomum

eriça = levanta

galas = belezas

renovos = ramos novos

 

 

Encontrado em:

 

Poemas para a infância: antologia escolar, Henriqueta Lisboa, Ediouro: s/d, Rio de Janeiro

 

Francisca Júlia da Silva Munster (SP 1871 – SP 1920)  Poetisa brasileira.

  

Obras:

 

 

1895 – Mármores

1899 – Livro da Infância

1903 – Esfinges

1908 – A Feitiçaria Sob o Ponto de Vista Científico (discurso)

1912 – Alma Infantil (com Júlio César da Silva)

1921 – Esfinges – 2º ed. (ampliada)

——

A VOZ DOS ANIMAIS  é uma outra poesia de Francisca Júlia publicada neste blog.