Meu dia de estrela!

23 07 2016

 

 

autografo 4Ilustração ©Maurício de Sousa.

 

 

Meu dia de estrela!

Hoje, estive no programa SÁBADO SHOW da Rádio Bandeirantes no RJ. Fui falar sobre o PAPA LIVROS e o AO PÉ DA LETRA, dois grupos de leitura, com 22 pessoas cada, que oriento. E deu para falar também do meu próximo projeto que é EU TAMBÉM LEIO, um grupo de leitura para adolescentes que gostam de ler. Explicar que a leitura é uma forma ecumênica de aprendizado é importante. Foi uma oportunidade única. Agradeço aos que puderam proporcionar esse momento.

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Resenha: “A maleta da Sra. Sinclair” de Louise Walters

16 07 2016

 

 

avião amareloIlustração de Hergé.

 

 

A maleta da Sra. Sinclair é uma história contada em dois tempos: nos dias de hoje, com foco em Roberta Pietrykowski, mulher que trabalha por onze anos na livraria e sebo Old & New, e Dorothy Sinclair, sua avó, que, morando nas proximidades de Lincolnshire, Inglaterra, viveu um romance fora do casamento com o piloto de guerra polonês Jan Pietrykowski.  Enquanto descobrimos as razões que levaram Dorothy a se apaixonar pelo piloto de guerra, descortinamos seu passado infeliz desde a infância, casamento e abandono pelo marido; também vamos aos poucos descobrindo a vida sem alegrias de Roberta que carrega uma  paixão encruada por Philip, proprietário da livraria,  sem qualquer possibilidade de reciprocidade. Roberta se  submetendo, por falta de melhores perspectivas, a um “affair” com homem casado, e simultaneamente trabalha para entender o segredo da vida de sua avó, cujas mentiras sobre a família, Roberta acabara de descobrir.

Apesar do roteiro melodramático, não há proximidade emocional suficiente do leitor com qualquer personagem para que a leitura chegue a germinar sentimentos mais fortes.  Nenhuma das duas mulheres, Roberta ou Dorothy, é retratada com vigor e dimensão; profundidade de caráter passa ao largo. Nenhuma tem perspectiva de melhorar a vida que leva.  São quase vítimas e não são heroínas.  Cada qual tem uma única preocupação ou desejo: Roberta persegue a história da família e deambula pelo cotidiano sem horizonte ou esperança.  Dorothy, submissa, aceita as consequências de uma escolha errada no casamento e a única coisa que deseja, a ponto de obsessão, é ser mãe. Falta a ambas maior complexidade. E um foco que supere as vidas amorosas frustradas.

 

 

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O foco na vida de mulheres durante a Segunda Guerra Mundial é muito bem-vindo.  Este é um assunto ainda por explorar na literatura.  Foi um período de grandes mudanças no papel da mulher. De repente com homens na linha do fronte aos milhares, espaço se abriu para um papel mais dinâmico, profissional e essencial das mulheres na sobrevivência dos países envolvidos.  Mulheres tornaram-se bombeiros, eletricistas, enfermeiras, mecânicas.  Foram em massa ao trabalho nas fábricas do mundo todo. Dorothy, no entanto, não se junta a essa grupo de mulheres da guerra.  Ao contrário, ela se encolhe incapaz de ultrapassar os limites impostos pelos bisbilhoteiros do vilarejo  que a cerca.  Tal avó, tal neta.  Nos anos 2000, Roberta também se auto destrói num romance sem futuro com um homem vinte e dois anos mais velho, cujo ponto culminante é um ato de ciúmes da esposa traída, à maneira do século XIX. Ou seja, ambas as personagens parecem ter comportamentos incongruentes com a época em que vivem.

Louise Walters é dona de um estilo narrativo claro, leve que não se perde em figuras de linguagem ou outros preciosismos. Conseguiu que eu levasse a leitura até o fim, um feito que muitos livros não atingem. E a trama interessante  sugere ao leitor ponderações sobre as diferenças de comportamento entre os que viviam nos anos 30 do século passado e setenta anos mais tarde, na primeira década deste século.  O que faltou ao romance foi um bom editor. Um editor à moda antiga, que questionasse a autora sobre a necessidade de alguns personagens ou até mesmo de algumas reviravoltas na trama.  Menos é mais, com frequência; porque nos dá a chance de aprofundar a caracterização de época, de ambiente ou de personagem, enquanto uma linguagem um pouco mais variada traria, sem negligenciar  a clareza, um vigor penetrante ao texto.

 

 

louise waltersLouise Walters

 

Desde O nome da rosa, de Umberto Eco em 1980,  A sombra do vento  de Carlos Luiz Zafón (2001),  da série de Harry Potter, anos 2000; e de filmes como Mensagem para você (1998), Um lugar chamado Notting Hill (1999), e dezenas de outras obras, que livrarias e bibliotecas têm sido ambiente ou até mesmo personagem de histórias populares escritas ou filmadas.  Digamos que é fruto do Zeitgeist (‘Espírito da época’). Gente que lê e que escreve em geral tem simpatia por bibliotecas ou livrarias.  Mas, justamente porque é uma assunto corrente, me pareceu um excesso da trama ter Roberta Pietrykowski trabalhando numa livraria.  Com poucas modificações, ela poderia trabalhar num açougue ou numa agência de banco.  A mim, me pareceram nulas as conexões dos livros citados por ela e variações na trama. Teria sido apenas um atrativo para o leitor que se delicia com referências a autores ou listas de obras interessantes?

Aqui estão alguns dos livros citados: Jane Eyre de Charlotte Bronte, Madame Bovary de Gustave Flaubert, A morte do coração de Elizabeth Bowen, Narciso Negro de Rumer Godden – O deus das pequenas coisas, de Arundhati Roy, A Bouquet of Barbed Wire, Andrea Newman, Os homens são de marte e as mulheres de Vênus, de John Grey,  Circle of Friends de Maeve Binchy. E um livro de Agatha Christie que agora me foge o nome.

A maleta da Sra. Sinclair é um livro leve, de leitura fácil que satisfará quem procura por passatempo de fim de semana e que não espera de suas leituras mais do que o texto lhes dá. Entretenimento.

 

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Imagem de leitura — Dimitrie Berea

13 07 2016

 

 

Dimitrie Berea, The Orange Museum, Vichy France, Oil Painting contemporary-paintingsMuseu de l’Orangerie, 1951

Dimitrie Berea (Romênia, 1908-1975)

óleo sobre tela,  63 x 53 cm





Do silêncio, texto de José Eduardo Agualusa

12 07 2016

 

329px-Lucien_Lévy-Dhurmer_-_Le_Silence_-_Google_Art_ProjectO silêncio, 1895

Lucien Lévy-Dhurmer (França, 1865-1953)

Pastel, 59 x 29 cm

Musée d’Orsay

 

 

 

“O Silêncio.

Não, os silêncios.

Poderia escrever um breve ensaio sobre o silêncio. Ou antes, um catálogo de silêncios para a boa ilustração dos surdos.

1 – O silêncio que precede as emboscadas;

2 – O silêncio no instante do pênalti;

3 – O silêncio de uma marcha fúnebre;

4 – O silêncio de girassóis;

5 – O silêncio de Deus depois dos massacres;

6 – O silêncio de uma baleia agonizando na praia;

7 – O silêncio das manhãs de domingo numa pequena aldeia do interior do Alentejo;

8 – O silêncio da picareta que matou Trotsky;

9 – O silêncio da noiva antes do sim.

Etc.

Há silêncios plácidos e outros convulsos. Silêncios alegres e outros dramáticos. Há aqueles que cheiram a incenso, e os que tresandam a estrume. Há os que sabem intensamente a goiabas maduras; os que se guardam no bolso interior do casaco, juntamente à fotografia do filho morto; os que andam nus pelas ruas; os silêncios arrogantes e os que pedem esmola.”

 

 

Em: As mulheres do meu pai, de José Eduardo Agualusa, Rio de Janeiro, Língua Geral: 2012, p.82-3.





Imagem de leitura — Jacques Chapiro

11 07 2016

 

 

Jacques Chapiro (Belarusian, 1887-1972),femme lisant,Mulher lendo

Jacques Chapiro (Belarússia, 1887-1972)

óleo sobre tela





Palavras para lembrar — Stendhal

10 07 2016

 

 

Isaac Grünewald (Suécia, 1889 - 1946) LendoLendo

Isaac Grünewald (Suécia, 1889 – 1946)

óleo sobre tela

 

 

“Um romance é como um arco, a caixa do violino que lhe dá os sons é a alma do leitor.”

 

 

Stendhal

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Os retratos de Fatita de Matos, texto de José Eduardo Agualusa

9 07 2016

 

Pintura de Di Cavalcanti menina lendo, ost, 1970Menina lendo, 1970

Di Cavalcanti (Brasil, 1897-1976)

óleo sobre teça

 

 

Fatita de Matos, a amante infeliz

 

Na ampla sala de visitas de Fatita de Matos, Mana Fatita, como é mais conhecida, na Restinga do Lobito há cinco retratos a  óleo, com um metro por 1,5 metro. Em todos eles Fatita de Matos está sentada no mesmo cadeirão de verga, quase em idêntica posição, com um livro no regaço. A primeira tela foi pintada em 1946. Fatita tem vinte anos, ainda é virgem, e está a ler Amor de perdição, de Camilo Castelo Branco. Na segunda tem trinta anos, quatro filhos ilegítimos, e está a ler Amor de perdição. Na terceira tem quarenta anos, veste de preto pela morte do filho mais novo, e está a ler Amor de perdição.  Na quarta tela tem cinquenta anos, sete netos, e continua a ler Amor de perdição. Finalmente na quinta tela, tem sessenta anos, 12 netos, três bisnetos, e está a ler Cem anos de solidão, de Gabriel Garcia Márquez. Todas as telas são de sua autoria.

 

Em: As mulheres do meu pai, de José Eduardo Agualusa, Rio de Janeiro, Língua Geral: 2012, p.71

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Imagem de leitura — Andrei Belichenko

8 07 2016

 

 

Andrei-Belichenko (Casaquistãao, 1974)-05Jovem na paisagem

Andrei Belichenko (Rússia, 1974)

óleo sobre tela, 100 x 65 cm





De leitura e raça, texto de José Eduardo Agualusa

4 07 2016

 

 

Henry Lee Battle (American) Girl reading, 2002Menina lendo, 2002

Henry Lee Battle (EUA, contemporâneo)

www.henryleebattle.com

 

 

“Esta deveria ser a questão central: por que não há mais negros nas plateias? A verdade é que continua a existir uma linha de cor separando aqueles que no Brasil têm acesso ao livro e a vasta maioria da população. Para formar escritores é preciso primeiro formar grandes leitores. Se queremos formar bons escritores negros teremos primeiro de formar muitos milhões de leitores negros.”

 

Em: “O arraial da branca atitude”, José Eduardo Agualusa, O Globo, 04/07/2016, 2º caderno, página 2.

 

O arraial da branca atitude.

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Imagem de leitura — Alexander Averin

3 07 2016

 

 

Alexander Averin27GCena de praia no Mar Negro, com a filha do pintor como modelo sentada

Alexander Averin (Rússia, 1952)

óleo sobre tela, 60 x 90 cm