Que tal escrever para adultos recém-alfabetizados?

4 06 2009

escritor de novo

Mickey, ilustração Walt Disney.

 

Um concurso literário vai distribuir R$ 90 mil em prêmios para oito escritores brasileiros e um autor de país africano de língua portuguesa que desenvolverem livros voltadas para alunos da educação de jovens e adultos (EJA). O Literatura para Todos, promovido pelo Ministério da Educação (MEC) tem como objetivo incentivar a produção de obras para o público adulto recém-alfabetizado.

Cada autor terá sua obra publicada, além de receber o prêmio de R$ 10 mil. As inscrições estão abertas até 20 de julho. A obra deve ser inédita e ter de 30 a 40 páginas. Podem concorrer textos nas modalidades: conto, novela, crônica, poesia, perfil biográfico, dramaturgia e textos da tradição oral.

O ministério ressalta que não serão aceitas obras com temas religiosos, que tratem de conduta moral ou com abordagens preconceituosas. O material deve ser enviado via Correios para o MEC. O edital está disponível na rede.

Também na área de EJA, encerra-se no dia 15 de junho o prazo para envio de propostas aos editais do Ministério da Educação para a área de educação de jovens e adultos. Os projetos devem ser voltados ao fomento à leitura, produção de materiais didáticos e formação de alfabetizadores e professores para essa modalidade. Estados, municípios, instituições públicas de ensino superior e entidades sem fins lucrativos podem participar da seleção. Mais informações no site do MEC.

Fonte: Agência Brasil





5 livros do romantismo III: Inocência

3 06 2009

joana liberal cunha, josé ferraz de almeida jr, 1892, ost pinacoteca est sp

D. Joana Liberal Cunha, 1892

José Ferraz de Almeida Júnior ( Brasil 1850-1899)

óleo sobre tela

Pinacoteca do Estado de São Paulo

Como postei no dia 3 de maio estou elaborando sobre as excelentes informações do ProfessoVanderlei Vicente  sobre os 5 livros do romantismo necessários para o vestibular, publicado no Portal Terra.  Meu objetivo é ajudar aqueles que precisam destas leituras não só a entenderem  um pouquinho mais do romantismo no Brasil, mas conseguirem se lembrar de alguns detalhes das obras mencionadas. e leitura essencial para quem está para fazer o vestibular.  O artigo original estará sempre em itálico azul.

Inocência (1872), de Visconde de Taunay – “Uma das mais exploradas temáticas do Romantismo é a do amor proibido. Essa é a tônica do romance Inocência, que explora a paixão entre os personagens Cirino, um falso médico que atendia no interior do Brasil; e Inocência, jovem prometida por seu pai a um morador da região, Manecão Doca. Num desfecho trágico, a morte de Cirino impede a consagração do amor e, provavelmente, serve como motivador para a morte da melancólica Inocência”.

Inocencia Capa_Original_de_Taunay

Inocência foi o segundo  romance publicado por Alfredo d’Escragnolle Taunay em 1872 e o terceiro livro.  Antes, ele havia publicado em francês, La Retraite de Lagune, em 1871, que foi mais tarde traduzido para o português por Salvador Mendonça em 1874.  A Retirada da Laguna: ocorrida entre 08 de Maio e 11 de Junho de 1867, durante a Guerra do Paraguai, teve início na fazenda Laguna, no Paraguai, e percorreu uma vasta área compreendida pelos actuais municípios de Bela Vista, Antônio João, Guia Lopes e Nioaque, no território do atual Estado do Mato Grosso do Sul.   Esta “reportagem” histórica por si só já teria garantido um lugar nas história das letras brasileiras ao futuro Visconde de Taunay, não tivesse ele outros e muitos atributos com os quais enriqueceu o panorama intelectual do Brasil.    O romance A Mocidade de Trajano, havia sido publicado em 1871, sob o pseudônimo Sílvio Dinarte, um de muitos pseudônimos que usou durante sua carreira literária.

O romance Inocência é justamente localizado no interior do Brasil, em região conhecida por Taunay nas suas  perambulações como engenheiro militar e oficial do exército na Campanha do Paraguai.  É uma história que se desentola na confluência dos Estados de Mato Grosso, Minas Gerais, Goiás e São Paulo.

MatoGrossodoSul_Municip_Inocencia_svg

Mapa do Estado do Mato Grosso do Sul.  Em vermelho a localização do atual munícipio de Inocência, que se diz localizado exatamente onde o romance do Visconde de Taunay se desenrola.

Abre-se com esse romance a literatura regionalista, também explorada por outros autores românticos, mas nunca com a riqueza e o detalhe lingüístico encontrados aqui.

A fascinação lingüística que permeou a vida intelectual de Taunay demonstra não só grande cultura literária mas principalmente sua grande contribuição às nossas letras, focando no tipo do sertanejo, com seus costumes, suas crendices, cultura, desconfiança e seu linguajar.    Foi de grande valia a atenção que Taunay deu a diferentes expressões regionais, ao linguajar do povo e até mesmo à invenção de novos termos, um pouco mais timidamente do que Guimarães Rosa, mas igualmente criterioso quanto ao “descobrir” de um novo  vocábulo com um significado bem específico.

tropeiros sertanejo a cavaloIlustração: Guilherme Valpeteris.

Também foi um grande observador da paisagem brasileira.  Provavelmente sua experiência artística — pois era um excelente pintor — muito lhe ajudou em transmitir, nas vívidas descrições das belezas locais, aquilo que via nas diversas regiões do país que visitou. Taunay escreveu sobre o que conhecera.  Aproveitou o interesse que tinha sobre a natureza para introduzir nesse romance a figura do cientista estrangeiro que vem ao Brasil à procura de fauna e flora exóticas.  O naturalista Meyer, alemão,  que serve de contraponto à cultura sertaneja de Pereira – pai de Inocência —  enquanto procura por borboletas exóticas ou desconhecidas dos livros de ciências europeus.  Sua presença no romance coloca em primeiro plano os opostos da vida rural e da vida urbana européia, sem nunca menosprezar os valores sertanejos.   Meyer acaba encontrando uma rara borboleta branca e a nomeia em homenagem a Inocência, jovem cuja beleza e pureza, o europeu aprecia.  Apesar de existirem algumas borboletas brancas na Mata Atlântica e outras nas densas  florestas brasileiras da região amazônica, a borboleta descrita e nomeada pelo naturalista alemão no romance Inocência é pura ficção.

Borboleta branca 2, caroline

Capítulo XXI

–  …………………

         Meyer, que estava sentado na soleira da porta com as compridas pernas encolhidas, ergueu-se precipitadamente  ao avistar Cirino e correu ao seu encontro.

        Trazia o coração no rosto, um coração cheio de alegria e triunfo.  

        — Oh! Sr. Doutor, exclamou todo risonho, venha ver uma preciosidade… uma descoberta… espécie nova… não há em parte alguma… Ouviu?  Coisa assim vale um tesouro… e fui eu que o descobri!… Nem sequer Juque me ajudou… pois estava deitado e dormindo… Não é verdade, Sr. Pereira?

        — Veja, murmurava o mineiro, que barulhada faz ele com o tal aniceto… Ao menos, se fosse um animal grande!

        — É uma espécie… nova… completamente nova!  Mas já tem nome… Batizei-a logo… Vou-lhe mostrar… Espere um instante…

        E entrando na sala, voltou sem demora com uma caixinha quadrada de folha-de-flandres, que trazia com toda reverência e cujo tampo abriu cuidadosamente.

        Da própria garganta saiu um grito de admiração, que Cirino acompanhou, embora com menos entusiasmo.

        Pregada em larga tábua de pita, via-se formosa e grande borboleta, com asas meio abertas, como que dispostas a tomar vôo.  

        Eram essas asas de maravilhoso colorido; as superiores do branco mais puro e  luzidio; as de baixo de um azul metálico de brilho vivíssimo.

        Dir-se-ia a combinação aprimorada dos dois mais belos lepidópteros das matas virgens do Rio de Janeiro, Laertes e Adônis, estes, azuis como cerúleo cantinho do céu, aqueles, alvinitentes como pétalas de magnólia recém-desabrochada.

        Era sem contestação lindíssimo espécime, verdadeiro capricho da esplêndida natureza daqueles paramos.  Também Meyer não tinha mão em si de contente.

        — Este inseto, prelecionou ele como se o ouvissem dois profissionais da matéria, pertence à falange das Helicônias.  Denominei-a logo, Papilo Innocentia, em honra à filha do Sr. Pereira, de quem tenho recebido tão bom tratamento.  Tributo todo o respeito ao grande sábio Linneu – e Meyer levou a mão ao chapéu – mas a sua classificação já está um pouco velha.  A classe é, pois, Diurna; a falange, Helicônia; o gênero, Papilio e a espécie, Innocentia, espécie minha e cuja glória ninguém mais me pode tirar…  Daqui vou hoje mesmo, oficiar ao secretário perpétuo da Sociedade Entomológica de Magdeburgo, participando-lhe fato tão importante para mim e para a sábia Germânia.

–  ………………

Inocência foi um romance que atingiu uma enorme popularidade.  Não só aqui, na sua terra natal.  Mas foi traduzidos para muitas línguas: francês, alemão, italiano, dinamarquês, sueco, polonês, espanhol e japonês.  Foi publicado na maioria dos países como folhetim , em leitura diária de jornais.  Taunay com esse romance atingiu um público universal que seguiu passo a passo a história de amor infeliz, a paisagem exótica, os costumes sertanejos.  Até os dias de hoje Inocência é considerado um dos mais belos romances brasileiros.

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taunay_interna[1]

Alfredo Maria Adriano d’Escragnolle Taunay, Visconde com grandeza de Taunay, (Rio de Janeiro, 22 de fevereiro de 1843 — Rio de Janeiro, 25 de janeiro de 1899), nasceu em uma família aristocrática de origem francesa no Rio de Janeiro. Foi professor, engenheiro militar e político, historiador, pintor e romancista. Freqüentou o Colégio Pedro II onde se bacharelou em Letras, em 1858, aos 15 anos de idade.  Logo depois estudou Física e Matemática na Escola Militar, no Rio de Janeiro, tornando-se bacharel em Matemática e Ciências Naturais em 1863.   Em 1862, iniciou o curso de engenharia militar.   Combateu na Guerra do Paraguai como engenheiro militar, de 1864 a 1870. Após seu retorno ao Rio de Janeiro, lecionou no Colégio Militar e iniciou simultaneamente sua carreira como político do Segundo Império. Atingiu o posto de major em 1875. Foi eleito para a Câmara dos Deputados pela província de Goiás em 1872, cargo para o qual seria reeleito em 1875.   Foi presidente da província de Santa Catarina, nomeado em 26 de abril de 1876. Assumiu o cargo de 7 de junho de 1876 a 2 de janeiro de 1877, quando o passou ao vice-presidente Hermínio Francisco do Espírito Santo, que o concluiu em 3 de janeiro de 1877.  Retirou-se da vida política em 1878, inconformado com a queda do Partido Conservador, saindo do país para estudar na Europa, retornando em 1880. Em 1881 foi eleito deputado pelo estado de Santa Catarina, e em 1885 foi nomeado presidente da província do Paraná, exercendo o cargo de 29 de setembro de 1885 a 3 de maio de 1886. Em 1886 torna a ser deputado, novamente pela província de Santa Catarina. Foi feito Visconde de Taunay por D. Pedro II em 6 de setembro de 1889.

Concluiu o monumento aos heróis catarinenses da Guerra do Paraguai, que inaugurou em 1 de janeiro de 1877, no Largo do Palácio, atual Praça Quinze de Novembro.   Foi ainda Deputado Geral por Goiás, de 1876 a 1878, e também por Santa Catarina, de 1882 a 1884. Foi Senador por Santa Catarina, escolhido de uma lista tríplice pelo Imperador em 6 de setembro de 1886, sucedendo Jesuíno Lamego da Costa.

Taunay foi um autor prolífico, produzindo ficção, sociologia, música (compondo e tocando), história e outros assuntos mais. Na ficção é considerado pelos críticos o Inocência como seu melhor livro. Com a proclamação da república em 1889, Taunay deixou a política para sempre. Faleceu diabético no dia 25 de janeiro de 1899.

Obras:

A Campanha da Cordilheira, 1869

La Retraite de Laguna, 1871 (em francês, traduzido como “A retirada da Laguna”)

A Retirada da Laguna

Inocência, romance, 1872

Lágrimas do Coração: manuscrito de uma mulher, romance, 1873

Histórias brasileiras, 1874

Ouro sobre Azul, romance, 1875

Narrativas militares, 1878

Estudos críticos, 2 vols., 1881 e 1883

Céus e terras do Brasil, 1882

Amélia Smith, drama, 1886

No Declínio, romance, 1889

O Encilhamento, romance, 1894

Reminiscências, memórias, 1908 (póstumo)

O romance Inocência encontra-se em domínio público.  Para acessá-lo clique AQUI.





Imagem de leitura: Arturo Gordon Vargas

31 05 2009

arturo vargas gordon (Chile 1883-1944)

Hora de leitura, s/d

Arturo Gordon Vargas ( Chile, 1883-1944)

Óleo sobre tela

 

Arturo Gordon Vargas, nasceu em Casablanca, nos arredores de Valparaíso em 7 de agosto de 1883.   Primeiro quis estudar arquitetura e se matriculou na Escola de Arquitetura da Universidade do Chile.  Mas logo, até mesmo seus professores o aconselharam a passar para o curso de Bela Artes, onde começou a estudar em 1903.  Foi aluno de Cosame San Martin, Pedro Lira, Álvarez de Sotomayor  e de Juan Francisco González.  Em 1912 fez o curso de muralista com José Backhaus.   Participou da chamada Geração dos Treze.  Especializou-se nas pinturas de gênero, em cenas e costumes urbanos, no retrato de festas populares e religiosas.  Foi professor da Academia de Belas Artes em Viña del Mar  de 1936 a 1944.  Faleceu em Santiago a 27 de outubro do mesmo ano.





Lembranças da infância: dois poemas

29 05 2009

Menino correndo cachorrinho

 

        Uma boa parte dos leitores deste blog é de professores dos cursos básico e médio que procuram poesias adequadas à sala de aula.  Grande ênfase tem sido dada aos pequenos poemas, com trocadilhos e uma atitude jocosa nas rimas ou ritmos.  Há na verdade ótimos poetas brasileiros e portugueses que se enquadram exatamente nessa tendência, chamada “para crianças”.  Mas não muito tempo atrás, já bem na segunda metade do século XX a poesia para crianças era — com exceção de uns poucos autores entre eles os nomes clássico como Olavo Bilac, Zalina Rolim – a poesia que autores escreviam para um público geral e que era selecionada para uso escolar, por causa da temática e do linguajar de mais fácil compreensão.  Daí o sucesso de antologias de poesias para a infância, tais como aquelas organizadas e selecionadas por Henriqueta Lisboa, ela mesma uma excelente poeta brasileira.  Quisera eu me lembrar do nome do organizador da antologia de textos e poesias brasileiras em cujo volume estudei na escola municipal do Rio de Janeiro onde completei os meus primeiros anos escolares… Mas não me lembro.

 

        Lembro-me, no entanto, que decorávamos poesias, na sala de aula, a turma inteira, éramos 30, lendo o texto em conjunto, como faríamos se regidos numa missa à cultura brasileira. Vez por outra, íamos, um a um, para perto da professora, lá na frente, e declamávamos – por bem ou por mal – um ou outro poema, lendo de nosso livro de textos.  Tive sorte, agradeço à minha professora, Dona Yolanda, algumas boas memórias.  Entre elas está o poema Meus oito anos, de Casimiro de Abreu, que por ser muito longo – e o líamos inteiro – foi recitado em conjunto, em sala de aula, como se declamássemos uma tabuada de versos, e depois, cada estrofe, era lida por uma criança, em cadeia perpétua: quem lia a última estrofe era seguido por quem lia a primeira estrofe de novo, como num rondó, interminável.    É um poema que sei de cor até hoje.  Em parte, porque eu conseguia me ver naquele menino de oito anos “correndo pelas campinas, à roda das cachoeiras, atrás das asas ligeiras das borboletas…”  Não havia campinas no Rio de Janeiro, não havia cachoeiras perto de minha casa e muito menos borboletas azuis.  Mas eu sabia que deveria haver um local assim, à sombra das bananeiras.   

 

        Não é difícil imaginar a influência que esse poeta teve no Brasil e principalmente a influência desse poema especificamente: ENORME!  Achei que poderíamos nos lembrar de Meus oito anos, aqui no blog, pois ontem, virando as páginas de alguns livros de poesia, achei uma outra jóia, influenciada por Casimiro de Abreu e que também pode ser usada na sala de aula.  Em,  Cheiro de chuva, do poeta norte rio-grandense José Lucas de Barros, sentimos claramente a influência de Casimiro de Abreu, no ritmo, no tema escolhidos.  No entanto, é um poema que se destaca por si só, seu valor independe de Meus oito anos.  Colocarei aqui os dois textos, para uma bela e saudável comparação.  Em ambos há um retorno à infância e um retrato da natureza como imaginamos, que hoje, depois da abertura da nossa conscientização sobre o meio-ambiente, a natureza deva ser ou possa voltar a ser.  É claro que há uma idealização mas uma idealização que só sublinha ainda mais enfaticamente a necessidade que temos de que a nossa terra e o nosso planeta voltem a nos dar prazeres semelhantes aos descritos nos dois poemas.  Bom proveito!

 

chuva no sertão fotgrafia de Pedro Cavalcante, Flickr

Chuva no sertão, fotografia Pedro Cavalcante/Flickr.

 

Cheiro de chuva

 

                                   José Lucas de Barros

 

Deus, que saudosa manhã,

Em que ouço a melodia

Do canto da saparia

E o grito da jaçanã!

Ai! Quem conhece esse encanto

No meu sertão grato e santo

Esquecer não poderá.

O que há de bom nesta vida,

Pode passar de corrida,

A saudade deixará.

 

Vendo d’água a terra cheia,

Eu sinto a doce lembrança

De meu tempo de criança,

Dos meus açudes de areia;

A corrente do regato,

O cheiro de flor do mato

Das caatingas do sertão,

Tudo são gratas memórias

Que vêm cavar mil histórias

Plantadas no coração.

 

Nada mais belo e atraente

Do que, no rio revolto,

Pelejar de braço solto

De encontro à bruta corrente.

Lembro-me bem, no Espinharas,

Em manhãs boas e claras,

Após noite de trovão

A gente afogava as mágoas,

Cortando o peito nas águas

Como simples diversão.

 

Depois de ver-se na terra

Fartura d’água rolando,

O relâmpago faiscando,

O trovão quebrando a serra,

O gemer das cachoeiras,

Nas madrugadas fagueiras

Dá testemunho aos ateus

De que toda essa grandeza

É a própria Natureza

Cantando a glória de Deus.

 

 NOTA:  Espinharas, nome de um rio no estado da Paraíba.

 

Em:  Panorama da poesia norte-riograndense, Rômulo C. Wanderley, Rio de Janeiro, Edições do Val: 1965, prefácio de Luís da Câmara Cascudo. 

 Cicero_dias_MeninoCajue recife ao fundo, 1970s, ost,70x63

Menino, caju e Recife ao fundo, década de 1970

Cícero Dias ( Brasil 1907-2003)

Óleo sobre tela,  70 x 63 cm

 

 

Meus Oito Anos

                                               

                                                 Casimiro de Abreu

 

 

Oh! que saudades que tenho

Da aurora da minha vida,

Da minha infância querida

Que os anos não trazem mais!

Que amor, que sonhos, que flores,

Naquelas tardes fagueiras

À sombra das bananeiras,

Debaixo dos laranjais!

 

Como são belos os dias

Do despontar da existência!

– Respira a alma inocência

Como perfumes a flor;

O mar – é lago sereno,

O céu – um manto azulado,

O mundo – um sonho dourado,

A vida – um hino d’amor!

 

Que aurora, que sol, que vida,

Que noites de melodia

Naquela doce alegria,

Naquele ingênuo folgar!

O céu bordado d’estrelas,

A terra de aromas cheia

As ondas beijando a areia

E a lua beijando o mar!

 

Oh! dias da minha infância!

Oh! meu céu de primavera!

Que doce a vida não era

Nessa risonha manhã!

Em vez das mágoas de agora,

Eu tinha nessas delícias

De minha mãe as carícias

E beijos de minhã irmã!

 

Livre filho das montanhas,

Eu ia bem satisfeito,

Da camisa aberta o peito,

– Pés descalços, braços nus –

Correndo pelas campinas

A roda das cachoeiras,

Atrás das asas ligeiras

Das borboletas azuis!

 

Naqueles tempos ditosos

Ia colher as pitangas,

Trepava a tirar as mangas,

Brincava à beira do mar;

Rezava às Ave-Marias,

Achava o céu sempre lindo.

Adormecia sorrindo

E despertava a cantar!

 

Oh! que saudades que tenho

Da aurora da minha vida,

Da minha infância querida

Que os anos não trazem mais!

– Que amor, que sonhos, que flores,

Naquelas tardes fagueiras

À sombra das bananeiras

Debaixo dos laranjais!

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José Lucas de Barros, (original da PB, registrado em Serra Negra do Norte, RN,  1934) professor, advogado, poeta, trovador e pesquisador da literatura popular.  Vice- presidente da Academia de Trovas do Rio Grande do Norte, presidente da Associação Estadual de Poetas Populares – RN e membro da União Brasileira de Trovadores, seção de Natal/RN. 

 

Obras:

 

Cantigas de meu destino, trovas

Repentes e desafios, ensaio e pesquisa

Caminhada, poesias

 

 

Casimiro José Marques de Abreu (Barra de São João, 4 de janeiro de 1839 — Nova Friburgo, 18 de outubro de 1860) poeta brasileiro da segunda geração romântica.  Foi a Portugal com seu pai em 1853, onde permaneceu até 1857.  Morreu aos 21 anos de idade de tuberculose.  Deixou um único livro de poesias publicado em 1859, Primaveras, mas foi o suficiente  para se tornar um dos mais populares poetas brasileiros de todos os tempos.

 

Obras:

 

Teatro:

Camões e o Jaú , 1856

 

Poesia:

Primaveras, 1859

 

Romances:

 

Carolina, 1856

Camila, romance inacabado, 1856

A virgem loura,

Páginas do coração, prosa poética,1857





Imagem de leitura: Henri Lebasque

28 05 2009

Henri Lebasque (1865-1937) França, Jeune filles lisant au parc, ost,

Meninas lendo no parque, s/d

Henri Lebasque ( França, 1865-1937)

Óleo sobre tela

 

 

Henri Lebasque, ( 1865-1937) nasceu em Champigné (Maine-et-Loire).  Estudou na Escola de Belas Artes de Anders, mudando-se depois para Paris em 1886, onde estudou com Léon Bonnat.  Pissarro e Renoir foram pintores com quem cultivou amizade e que o influenciaram bastante.  Mas foram os pintores mais jovens, os Nabis – Edouard Vuillard e Pierre Bonnard– como Lebasque  pintores intimistas, com quem finalmente Henri Lebasque encontrou grande afinidade artística.   Por isso mesmo é considerado um pintor pós-impressionista.  Lebasque, morreu em Cannet, Alpes Maritimes, em 1937.





Imagem de leitura: Honório Esteves do Sacramento

26 05 2009

H Esteves, menina que lê, 1904, Rio de Janeiro, desenho

 

Menina que lê, 1904

[Uma página interessante]

Honório Esteves do Sacramento ( Brasil,1860-1933)

Desenho a carvão.

Assinado e datado, Rio, julho de ´04. [1904]

 

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Honório Esteves do Sacramento (Santo Antônio do Leite, Ouro Preto, 1860 —  Mariana, MG, 1933) pintor brasileiro, generalista, de paisagens, retratos e alegorias executados a óleo.  Assim como de pintura de gênero,  com o registro de cenas cotidianas, em pastel e desenho a carvão. Também exerceu a  atividade de pintor muralista e painelista. Artista romântico, mestre de técnica formal, mesclada com um pouco de trabalho gestual.

 

Iniciou seu aprendizado em 1871, com o professor italiano Chenotti em Ouro Preto, enquanto trabalhava como ajudante do pintor Cardoso Resende.  Passou a estudar no  Liceu Mineiro, em 1874 e em 1880 teve seu talento reconhecido recebendo uma bolsa de Dom Pedro II para a Academia Imperial de Belas Artes no Rio de Janeiro.  Lá estudou com Victor Meirelles e Pedro Américo.  Foi premiado do Salão de Belas Artes do Rio em 1904 e 1905.





Eu sei ler, poesia infantil de Martins D’ Alvarez

22 05 2009

escola, ilustração de Diva de Val GolfieriEscola: pintura à óleo de Diva do Val Golfieri (Brasil, contemporânea)

 

Eu sei ler

                                         Martins D’ Alvarez

 

Eu sei ler corretamente,

faço contas de somar,

sou batuta em dividir,

gosto de multiplicar.

 

Quando a professora escreve

no quadro-negro da escola,

leio até de olhos fechados:

“Paulo corre atrás da bola.”

 

Pra somar uma banana

com mais duas e mais três,

vou comendo e vou somando

1 mais 2 mais 3 são 6.

 

Pra dividir três pães

comigo e com meu irmão?

Eu sou o maior, ganho dois.

Para ele basta um pão.

 

Se mamãe me dá um doce

na hora de merendar,

acabo comendo três.

Como eu sei multiplicar!

 

Em: Vamos estudar? – cartilha — de Theobaldo Miranda Santos, Rio de Janeiro, Agir: 1961 [Para a aprendizagem simultânea da leitura e da escrita].

 

José Martins D’Alvarez   (CE 1904)  Poeta, romancista, jornalista, diplomado em Farmacia e Odontologia, professor, membro da Academia Cearense de Letras. Nasceu na cidade de Barbalha, Estado do Ceara, em 14 de setembro de 1904.  Filho de Antonio Martins de Jesus a de Antonia Leite da Cruz Martins. Fez os estudos primários na sua cidade natal, os secundários, no Liceu do Ceará.  Depois de formado em Odontologia. Transferiu em 1938 sua residência para o Rio de Janeiro, onde exerceu, além de atividades na imprensa, atividades no magistério superior.

 

 

 

Obras:

 

“Choro verde: a ronda das horas verdes”, 1930 (versos).

“Quarta-feira de cinzas”, 1932 (novela).

 “Vitral”, 1934 (poemas).

“Morro do moinho” 1937 (romance)

“O Norte Canta”, 1941 (poesia popular).

“No Mundo da Lua”, 1942 (poesia para crianças).

“Chama infinita, 1949 (poesias)

“O nordeste que o sul não conhece 1953 (ensaio)

“Ritmos e legendas” 1959 (poesias escolhidas)

“Roteiro sentimental: geopolítica do Brasil” 1967 (poesias escolhidas)

“Poesia do cotidiano”, 1977 (poesias)

 

 

 

 

 

Outros poemas de Martins d’Alvarez neste blog:

 

 

ANJO BOM ; AMIGOS ; JOÃO E MARIA ; SÚPLICA





Imagem de leitura: Albert Gustaf Aristides Edelfelt

20 05 2009

edelfelt-good friends, retrato de sua irmã, Bertha, 1881, osm, 41 x 31,5cm Hermitage, Sao Peterburgo

 

Bons Amigos, 1881

[Retrato de Bertha Edelfelt, irmã do pintor]

Albert Gustaf Aristides Edelfelt ( Finlândia, 1854-1905)

Óleo sobre madeira, 41 x 31,5 cm

Museu Hermintage, São Petersburgo

Rússia

 

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Albert Gustaf Aristides Edelfelt, nasceu em Kiiala, Finlândia em 1854.  Faleceu em 1905.  Foi um importante pintor finlandês de origem sueca.  Deixou cerca de 1400 pinturas, entre elas retratos de senhoras, paisagens, pintura de gênero, mostrando a vida da alta sociedade de sua época que hoje são considerados verdadeiros clássicos.  Mas viveu boa parte de sua vida em Paris,  voltando para a Finlândia em 1875, onde colocou sua técnica e visão do mundo à disposição do mundo da arte local.





A Bailarina, poema infantil de Cecília Meireles

17 05 2009
Bailarina, ilustração de Yuri Dyatlov.

Bailarina, ilustração de Yuri Dyatlov.

 

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A bailarina

                                                        Cecília Meireles

Esta menina

tão pequenina

quer ser bailarina.

Não conhece nem dó nem ré

mas sabe ficar na ponta do pé.

Não conhece nem mi nem fá

Mas inclina o corpo para cá e para lá.

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Não conhece nem lá nem si,

mas fecha os olhos e sorri.

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Roda, roda, roda, com os bracinhos no ar

e não fica tonta nem sai do lugar.

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Põe no cabelo uma estrela e um véu

e diz que caiu do céu.

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Esta menina

tão pequenina

quer ser bailarina.

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Mas depois esquece todas as danças,

e também quer dormir como as outras crianças.

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Ouça este poema na voz do grande ator brasileiro Paulo Autran:

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 Cecília Meireles

 

 

 

Cecília Benevides de Carvalho Meireles (RJ 1901 – RJ 1964) poeta brasileira, professora e jornalista brasileira.

Obras:

Espectros, 1919

Criança, meu amor, 1923

Nunca mais…, 1924

Poema dos Poemas, 1923

Baladas para El-Rei, 1925

O Espírito Vitorioso, 1935

Viagem, 1939

Vaga Música, 1942

Poetas Novos de Portugal, 1944

Mar Absoluto, 1945

Rute e Alberto, 1945

Rui — Pequena História de uma Grande Vida, 1948

Retrato Natural, 1949

Problemas de Literatura Infantil, 1950

Amor em Leonoreta, 1952

12 Noturnos de Holanda e o Aeronauta, 1952

Romanceiro da Inconfidência, 1953

Poemas Escritos na Índia, 1953

Batuque, 1953

Pequeno Oratório de Santa Clara, 1955

Pistóia, Cemitério Militar Brasileiro, 1955

Panorama Folclórico de Açores, 1955

Canções, 1956

Giroflê, Giroflá, 1956

Romance de Santa Cecília, 1957

A Bíblia na Literatura Brasileira, 1957

A Rosa, 1957

Obra Poética,1958

Metal Rosicler, 1960

Antologia Poética, 1963

História de bem-te-vis, 1963

Solombra, 1963

Ou Isto ou Aquilo, 1964

Escolha o Seu Sonho, 1964

Crônica Trovada da Cidade de San Sebastian do Rio de Janeiro, 1965

O Menino Atrasado, 1966

Poésie (versão francesa), 1967

Obra em Prosa – 6 Volumes – Rio de Janeiro, 1998

Inscrição na areia

Doze noturnos de holanda e o aeronauta 1952

Motivo

Canção

1º motivo da rosa





Imagem de leitura: Harry Herman Roseland

13 05 2009

Harry Herman Roseland (EUA 1868-1950) The Writing Lesson

Aprendendo a escrever, s/d

Harry Herman Roseland (EUA, 1866-1950)

óleo sobre tela,  46 x 62 cm

 

Harry Herman Roseland nasceu no Brooklin, New York em 1866 e continuou residindo no local até o final da sua vida.   Ao contrário de seus contemporâneos ele não quis viajar para a Europa.  Apesar de ter estudado pintura com J B Whitaker, no Brooklin,  Harry Roseland foi principalmente um auto-didata.  Sempre contrário aos modismos da época ele trilhou seu próprio caminho e tendo bastante sucesso.  Numa época em que a pintura se tornva cada vez mais abstrata, Harry Roseland escolheu pintar o que via e como via, tornando-se um excelente pintor de gênero documentando a vida diária das pessoas que conhecia, no meio de suas ações cotidianas.  Seu charme, tanto na época em que viveu, quanto hoje, está justamente nesta documentação suave e gentil da vida no final do século XIX e na primeira metade do século XX.