Meus hábitos de leitura

8 07 2009

bookshelf 1

 

Bem no meio da semana de mudança de um apto para outro, arranjei de ficar gripada.  Então, com febre e sem energia para nada, está difícil entrar com algo interessante no blog.  Resolvi postar algo que preparei há algum tempo,  seguindo  o exemplo de Cadê o Revisor, das Carambolas Azuis, das Laranjinhas, de Pelvini e muitos outros, listando meus hábitos de leitura, ou melhor ainda, o meu relacionamento com o mundo dos livros.

 

Karen Cooper, (EUA)Amantes dispuestos, acrst, 50x75cm

Amantes Dispuestos, s/d

Karen Cooper (EUA- contemporânea)

Acrílica sobre tela,  50 x 75 cm

 

♦ Leio tudo.  Se tiver letras eu leio: anúncio nos outdoors, tabuleta de FRETE, etc  Quando morei na Argélia a maior dificuldade foi não conseguir ler nem os nomes das ruas, pois não tenho a menor idéia sobre o alfabeto árabe.  

♦ Comecei a ler antes de entrar na escola.

♦ Meus pais liam.  Ambos.  Eu imitava.

♦ Desde de criança que tive uma estante para os meus livros.

Sempre dou livros para as pessoas.  Até para aqueles que sei não terem o hábito de ler. Procuro algo que possa seduzir a pessoa, por exemplo, um fã de futebol: crônicas sobre o Flamengo de Nelson Rodrigues.

♦ Nunca ponho dedicatória no livro, mas num cartão acompanhando.

♦ Sou capaz de rir às gargalhadas ou de chorar lendo um livro em qualquer lugar que eu esteja.

♦ Não caio no sono sem ler.

♦ São raros os livros que releio.

 

Diana Ong

Leitora, s/d

Diana Ong ( EUA, 1940)

Gravura

 

♦ Sempre quero saber o que outros na rua, no metrô ou no ônibus estão lendo.

♦ Leio em qualquer transporte público.  

♦ Às vezes, compro livro pelas capas.

♦ Empresto livros com bastante facilidade, principalmente romances.  Não sou ciumenta dos meus livros.  Tenho prazer em saber que o meu livro pode estar dando prazer a outro.  Quanto mais gente ler o meu livro mais feliz eu fico.

♦ Incentivo a leitura naqueles que as vezes não lêem por falta de dinheiro: empresto pro porteiro, pro taxista, pra faxineira. 

♦ Quando adolescente gastava boa parte da minha mesada em livros, em sebos.

♦ Não escrevo a lápis nos meus livros.  Tomo notas num caderninho especial.

♦ Marco passagens interessantes com tirinhas de papel.  Se quando eu terminar o livro elas ainda forem interessantes, passo para um caderno com passagens interessantes.  Há dois anos este caderno não existe, é uma pasta no meu computador.

♦ Já tive um ex-libris.  Hoje acho isso uma interferência…

♦ Tenho livros em todos os cômodos da casa, exceto a cozinha.  Mas tenho uma biblioteca de livros de cozinha no quarto de empregada.

♦ Sou conhecida por colocar livros em ordem nas livrarias, colocar de volta nas prateleiras livros que pessoas deixaram nas mesas.   

Joesph_Alleman, reading

O companheiro, 2001

Joseph Alleman (EUA)

Aquarela,  75 x 55 cm

 

 

♦ Prefiro o silêncio quando leio.  Mas uma música instrumental baixinho às vezes pode rolar.

♦ Tenho pilhas de  livros no meu quarto.  São as próximas leituras.

♦ Tenho um bloquinho com a classificação de 1 a 5 estrelas dos livros lidos.

♦ Não empresto livros de referência.  Entre eles estão dicionários, é claro, os clássicos,  livros de historia, nem livros de arte. 

♦ Já escrevi um livro que nunca foi publicado. 

♦ Leio jornal todo dia. 

♦ Sempre leio o resumo da contra-capa.

♦ Pertenço a um grupo de leitura há mais de cinco anos, somos 12 mulheres, juntas já lemos mais de 65 livros.

♦ Leio no mínimo de 4 a 6 livros por mês.

♦ Leio alguns  jornais estrangeiros todos os dias na internet, dou preferência aos ingleses.

♦ Leio algumas revistas digitais, umas duas vezes por semana.

♦ Todos os dias leio a BBC e a Reuters digitais.

 

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♦ Acho que irei me adaptar aos livros digitais, apesar de não ter no momento nenhum kindle ou semelhante.  Mas leio com facilidade no computador.

♦ Acho que não me adaptarei a ler um livro no celular.

♦ Não gostei do livro, deixo de lado.  Há muitos outros e certamente não viverei anos suficientes na minha vida para ler todos.

♦ Não escrevo resenhas de livros de que não gosto.  

♦ Numa livraria, antes de comprar, se tenho dúvidas se devo ou não investir num livro ou autor desconhecido, leio a primeira página.  Se dá vontade de continuar, compro.

♦ Leio fluentemente em 3 línguas.  E leio sempre um livro em cada uma dessas línguas regularmente, para não perder o hábito com a língua.

♦ Quando viajo tento levar livros sobre aquele lugar que algum autor já publicou e comparo as minhas impressões com as dele.  Isso foi de grande efeito quando passeei algum tempo na Espanha, lendo Ibéria de James Michener.

♦ Não coleciono autógrafos.  Nem de autores de que gosto.  Não sou dada ao culto de celebridades, quaisquer que elas sejam. 

 

 

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♦ Já li autoajuda.

♦ Já li livros para melhorar a administração de carreira.

♦ Compro mais livros do que leio, porque gosto de saber que estão em meu poder e posso vir a lê-los a qualquer momento.

♦ Leio livros emprestados também.

♦ Leio livros de sebo assim como novos.  

♦ Desde que saí da casa de meus pais, para ter o meu próprio canto, tenho uma área da casa dedicada a livros.

♦ Conheci meu marido numa biblioteca.

♦ Gosto de visitar bibliotecas, mesmo quando sou turista.  

♦ Eu e as bibliotecas somos amigas do peito: sou produto de uma biblioteca municipal, no Rio de Janeiro, da biblioteca da escola pública que freqüentei, da biblioteca do Colégio Pedro II e por aí afora.  

♦ Leio livros de história, acadêmicos, como se fossem romances.

♦ Na internet sou bastante aventureira e passeio por portais de livrarias em alemão, em holandês, sueco, etc.  Acabo aprendendo um pouco.  É divertidíssimo.

♦ Minha biblioteca é um tanto bagunçada e segue uma organização genérica por assunto.

♦ Dou e dôo livros com freqüência.

♦ Não me interesso muito pela vida do autor.  O livro, sua obra, é o que me atrai.

♦ Não sou a pessoa que mais lê na minha casa.  Meu marido lê muito,  muito mais do que eu.





A locomotiva e o cavalo, fábula de Lachambeaudie e Paula Brito

7 07 2009

trem e cavalo

 

A locomotiva e o cavalo

 

Paula Brito

 

[ Fábula de Lachambeaudie]

 

 

Rival da Locomotiva

Um Cavalo buscou ser,

Supondo que mais do que ela

Ele podia correr.

 

Num caminho em que tomavam

Ambos igual direção,

Disse ao Vapor o Cavalo,

Brioso escarvando o chão.

 

Por mais que queiras não podes

A palma ter da vitória,

Nem fazer com que teu nome

Como o meu brilhe na história.

 

Do fogo que te alimentas

As línguas vejo sair:

É nesse arsenal de guerra,

Que tens que te consumir.

 

— “ Deveras, tu te apresentas

Como meu competidor?

Pretendes lutar?  — lutemos,

Disse ao Cavalo o Vapor.

 

Malgrado a desproporção

Entre um e outro querer,

Junto da Locomotiva

Põe-se o Cavalo a correr.

 

Um enche os ares de pó,

Outro de negra fumaça!

Não há triunfo entre os dois,

Pois um ao outro não passa.

 

Exausto, porém, de forças,

O Cavalo cai e morre;

Que faz a Locomotiva?

Com mais fogo ‘inda mais corre!

 

—–

 

Quando a proterva ignorância

Foge do século à luz

No abismo se precipita

A que seu erro a conduz.

 

Sempre que a velha rotina

Ao progresso der conselho,

Será bom que não te esqueça

De se mirar no espelho.

 

                     —–

 

Em: O Espelho, revista de literatura, modas, indústria e artes, 18 de setembro de 1859, página 8.

 

paula brito, francisco 

 

Francisco de Paula Brito  ( RJ 1809 – RJ 1861) –  tipógrafo, editor, jornalista, escritor, poeta, dramaturgo, tradutor e letrista.   Foi aprendiz na Tipografia Nacional.   Trabalhou em seguida, em 1827 no Jornal do Comércio. Em 1831 passa a livreiro e editor com  Tipografia Fluminense de Brito & Cia.  Em 1833 lança o jornal O Homem de Cor, primeiro jornal brasileiro contra o preconceito racial.  É na sua editora que se forma a “Sociedade Petalógica”, grupo de poetas, compositores, atores, líderes da sociedade, ministros de governo, senadores, jornalistas e médicos que “constituíam movimento romântico de 1840-60”  Por outro lado, a tipografia de Paula Brito serviu também de ponto de encontro entre músicos populares [ Laurindo Rabello e Xisto Bahia, por exemplo] e poetas românticos.  A combinação produziu muitas parcerias musicais, principalmente no gênero das modinhas, que serviriam de embrião para a música popular urbana, popular no Rio de Janeiro nas primeiras décadas do século XX.

 Obras:

Anônimas, poesia, 1859

O triunfo dos indígenas, teatro, sd

Os sorvetes, teatro, sd

O fidalgo fanfarrão, teatro, sd

A revelação póstuma, conto, 1839

A mãe-irmã, conto, 1839

O Enjeitado, conto

A marmota na Corte, periódico humorístico, 1849  

A Maxambomba, teatro   

A mulher do Simplício, ou A fluminense  exaltada, periódico humorístico, 1832  

Ao dezenove de outubro de 1854, dia de S. Pedro de Alcântara, nome de S. M. o Sr. D. Pedro II, poesia   

Biblioteca das senhoras, 1859  

Elegia à morte de Evaristo Xavier da Veiga, poesia, 1837  

Fábulas de Esopo para uso da mocidade, arranjadas em quadrinhas, poesia, 1857  

Monumento à memória do brigadeiro Miguel de Frias Vasconcellos e de seu irmão Francisco de Paula, 1859  

Norma, teatro, 1844  

Oferenda aos brasileiros, sd   

Os Puritanos, teatro 1845  

Poesias de Francisco de Paula Brito, poesia, 1863  

 —–

Pierre Lachambeaudie (França, 1807 – 1872) foi um escritor de fábulas francês.





Imagem de leitura — Ikeda Terukata

6 07 2009

Ikeda Terukata (Japão 1883-1921) lady reading

 

Senhora lendo, s/d

Ikeda Terukata (Japão, 1883-1921)

Xilogravura policromada

 

Ikeda Terukata nasceu no Japão em 1883.  Foi aluno de Mizumo Toshikata e mais tarde de Kawai Gyokudo.  Expôs seus trabalhos em Benten,  Participou em 1901, com Kaburagi Kiyokata e Yamanaka Kodo da formação do grupo Ukokai cujo objetivo era melhorar a arte do ukiyo-e, que havia deteriorado numa arte com temas superficiais e de gênero. Suas xilogravuras que refletem o estilo contemporâneo ukiyo-e (retratos do mundo flutuante)  foram publicadas por Akiyama Beumon.  Suas gravuras relatando a guerra sino-japonesa tiveram publicação de Rukuda Kumajiro.  Recebeu inúmeros prêmios durante sua carreira e seu mais querido tema foram as bijin (mulheres lindas).  Teve trabalhos publicados postumamente em 1924, agrupados sob o título: Novas Belezas Ukiyo-e.





A cigarra e a formiga, em versos por Bocage

6 07 2009

A Cigarra bate à porta da formiga, no inverno

 

A cigarra e a formiga

 

Bocage

 

Tendo a cigarra em cantigas

Folgado todo o Verão

Achou-se em penúria extrema

Na tormentosa estação.

 

Não lhe restando migalha

Que trincasse, a tagarela

Foi valer-se da formiga,

Que morava perto dela.

 

Rogou-lhe que lhe emprestasse,

Pois tinha riqueza e brilho,

Algum grão com que manter-se

Té voltar o aceso Estio.

 

«Amiga, diz a cigarra,

Prometo, à fé d’animal,

Pagar-vos antes d’Agosto

Os juros e o principal.»

 

A formiga nunca empresta,

Nunca dá, por isso junta.

«No Verão em que lidavas?»

À pedinte ela pergunta.

 

Responde a outra: «Eu cantava

Noite e dia, a toda a hora.»

«Oh! bravo!», torna a formiga.

– Cantavas? Pois dança agora!»

 

———-

 

bocage

Bocage

 

Manuel Maria de Barbosa l’Hedois du Bocage (Setúbal, 15 de Setembro de 1765 — Lisboa, 21 de Dezembro de 1805), Poeta português, possivelmente, o maior representante do arcadismo lusitano.  Árcade e pré-romântico, sonetista notável, um dos precursores da modernidade em seu país.





Livros decorativos, só?

4 07 2009

caixa economica

Caixa Econômica Federal, Rio de Janeiro.

 

A postagem de ontem a noite [ Sobre livros e decoração ] me fez pensar muitas vezes no Centro Cultural da Caixa Econômica aqui no Rio de Janeiro.  Este é um lugar que visito regularmente.  Tem grandes exposições e shows.  O último que vi lá foi de Dori Caymmi, no início do mês de junho.  Além do mais, está a uns passos da estação do metrô da Carioca.  Em suma: um lugar fácil de ir, com uma ótima programação.

 

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Hall de entrada do Centro Cultural da Caixa Econômica, RJ.

 

Este Centro Cultural fica no edifício-sede da Caixa na Avenida Almirante Barroso, no centro da cidade.  Sua arquitetura é muito interessante, um pouco grandiosa mas por outro lado o espaço tem mais de 6.000 metros quadrados, um teatro de arena, dois cinemas, três galerias de arte, uma cafeteria, uma bombonière, além de salas de oficinas e ensaios, como bem explica o Portal da Caixa.    Há detalhes de grande charme tais como a escadaria que leva ao mezanino e o grande painel de Bandeira de Mello ocupando boa parte da chegada a este mezanino.  

 

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Café e Livraria do Centro Cultural da Caixa Econômica, RJ.

 

Mas há algo de curioso, um quebra-cabeças sem igual, nesta organização: o Café e Livraria administrado pelo SENAC, no mezanino.  É um café.  Só café.  Não há nenhuma livraria.  Nem biblioteca.  Nem exposição de livros.  Os livros que vemos – e vemos de fato muitos livros nas paredes, são exclusivamente estampados de papel de parede.  Fica um charme sem dúvida, principalmente porque aquece, torna mais habitável uma arquitetura sem alma e sem calor humano, como este gigante saguão que percebemos pelas fotos acima e abaixo.  

 

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Café e Livraria do Centro Cultural da Caixa Econômica no Rio de Janeiro. 

 

Por que, então, o nome: Café e Livraria?   Como livraria?  Os livros não existem a não ser como tromp l’oeil!  É tudo falso.  Por quê?   

O Centro abriu ao público em 2006.  E é possível que originalmente tenham pensado num café/livraria como estava e ainda está tão em moda.  E é quase provável que  até hoje os administradores do CCCEF  não tenham tido a oportunidade de conquistar algum empresário, alguma companhia,  algum visionário que quisesse abrir uma livraria no local.  Não me surpreende.  Há muito pouco tráfico de visitantes e pedestres.  Não me parece um lugar de sucesso para uma livraria, principalmente porque com tantos centros culturais no Rio de Janeiro todos com livrarias quase morrendo de inanição e com o grande número de  portais na internet vendendo livros, há de ser muito difícil manter um negócio de venda de livros, neste lugar.  Mas então, por que manter a idiossincrasia?

 

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Papel de parede com desenho de estante elegante.

 

Porque livros transformam lugares.  Eles dão aconchego e fazem de qualquer ambiente local propício para a troca de idéias, para conversas variadas.  Os livros nos alimentam, suas idéias nos embriagam.  Assim, eles parecem, para as pessoas que deles se rodeiam, trazer um espírito de confraternização semelhante ao que vemos entre amigos depois de uma farta ceia, regada a um bom vinho.  Além disso, eles abafam os sons, tornando qualquer ambiente mais íntimo. 

Nas revistas de decoração estrangeiras eles aparecem com freqüência.  Por que será que por aqui eles só aparecem em números ímpares, casados com outros elementos decorativos, como mencionei anteriormente?   Será que ainda mantemos, no fundo, no fundo, aquela desconfiança da palavra escrita que prevaleceu durante a Inquisição?  Será que continuamos a tradição católica que desconfiava da Reforma de Lutero porque ele pedia que se lesse a Bíblia?  Será que ainda não nos liberamos desta desconfiança sobre a palavra escrita que foi um componente decisivo da nossa história durante a colonização portuguesa no Brasil?





Imagem de Leitura: Silvana Cimieri

30 06 2009

silvana cimieri (Italia 1964) O livro Azul, 1994,ost,70x50cm

O livro azul, 1994

Silvana Cimieri ( Itália, 1964)

Óleo sobre tela, 50 x 70 cm

 

Silvana Cimieri tornou-se  assistente e aluna de Lorenzo Alessandri em1987.  Em 1991 participou de sua primeira exposição, uma coletiva na Galeria La Telaccia em Torino.   Dois anos mais tarde, em 1993, Silvana Cimieri passou a estudar com Antonio Nunziante.   Desde então produz regularmente e em suas obras pode-se definir influências e aproximação estética de outros artistas italianos contemporâneos: Aldo Salvatori e Américo Mazzota.  Dona de um estilo próprio Silvana Cimieri continua trabalhando e expondo regularmente.





O menor esforço — poema infantil de Giuseppe Artidoro Ghiaroni

27 06 2009

 trabalho, pantera cor de rosa

 Pantera cor-de-rosa. Ilustração Freleng e DePatiee.

 

 

 O Menor Esforço
                                                      Guiuseppe Artidoro Ghiaroni

Ferreiro e filho de ferreiro,
um dia visitei meu vizinho carpinteiro.
E ao ver quanto a madeira era macia
em relação ao ferro que eu batia,
deixei de ser ferreiro.

 Tornei-me carpinteiro e, vendo o oleiro
modelando o seu barro molemente,
cobicei seu oficio de indolente
e larguei meu formão de carpinteiro.

Mas fui depois a casa do barbeiro,
que alisava uns cabelos de menina.
E achando aquela profissão mais fina,
deixei de ser oleiro.

Um dia, em minha casa de barbeiro
entrou um poeta de cabelo ao vento.
E ao ver quanto era livre e sobranceiro,
troquei minha navalha e meu dinheiro
por sua profissão de encantamento…

Meu Deus! Por que deixei de ser ferreiro ?

 

Giuseppe Artidoro Ghiaroni — Nasceu em Paraíba Do Sul, (RJ), no dia 22 de fevereiro de 1919. Jornalista, poeta, redator e tradutor;  Depois de ter sido ferreiro, “office-boy” e caixeiro, passou a redator do “Suplemento juvenil ” iniciando-se assim no jornalismo de onde passou para o Rádio distinguindo-se como cronista e novelista.  Faleceu em 2008 aos 89 anos.

Obras:

O Dia da Existência, 1941

A Graça de Deus, 1945

Canção do Vagabundo, 1948

A Máquina de Escrever, 1997





Imagem de leitura — Lucília Fraga

25 06 2009

LuciliaFRaga(1895-1979)Leitura,osm,62x46

Leitura, s/d

Lucília Fraga ( Brasil, 1895 – 1979)

Óleo sobre madeira  62 x 46 cm

 

Lucília Fraga (BA, 1895 — SP, 1979) professora, desenhista e pintora brasileira, de estilo figurativo.

 Nascida em Caetité, na Serra Geral, alto sertão da Bahia, mudou-se com a família para Jaú e depois para São Paulo.

 Começou sua formação artística, com Henrique Bernadelli, no Rio de Janeiro e com Pedro Alexandrino e Antônio Rocco, em São Paulo . Suas irmãs Anita e Helena também foram artistas plásticas. Suas obras podem ser encontradas em coleções particulares, alcançando boa cotação no mercado. O Centro Cultural São Paulo e a Pinacoteca do Estado de São Paulo possuem obras suas em seus respectivos acervos.

Sua última exposição foi em Santos, em 1970. Dentre seus ex-alunos destacam-se as artistas Ernestina Karman e Colette Pujol.





O cavalo e o burro, fábula, texto de Monteiro Lobato

25 06 2009

horsedonkeybarlow_400O Cavalo e o burro, ilustração de Frances Barlow, metade do século XVII.

 

O cavalo e o burro

                                                                                              Monteiro Lobato

O cavalo e o burro seguiam juntos para a cidade.  O cavalo contente da vida, folgando com uma carga de quatro arrobas apenas, e o burro — coitado!  gemendo sob o peso de oito.  Em certo ponto, o burro parou e disse:

— Não posso mais!  Esta carga excede às minhas forças e o remédio é repartirmos o peso irmãmente, seis arrobas para cada um.

O cavalo deu um pinote e relichou uma gargalhada.

— Ingênuo!  Quer então que eu arque com seis arrobas quando posso tão bem continuar com as quatro?  Tenho cara de tolo?

O burro gemeu:

— Egoísta,  Lembre-se que se eu morrer você terá que seguir com a carga de quatro arrobas e mais a minha.

O cavalo pilheriou de novo e a coisa ficou por isso.  Logo adiante, porém, o burro tropica, vem ao chão e rebenta.

Chegam os tropeiros, maldizem a sorte e sem demora arrumam com as oito arrobas do burro sobre as quatro do cavalo egoísta.  E como o cavalo refuga, dão-lhe de chicote em cima, sem dó nem piedade.

— Bem feito!  exclamou o papagaio.  Quem mandou ser mais burro que o pobre burro e não compreender que o verdadeiro egoísmo era aliviá-lo da carga em excesso?  Tome!  Gema dobrado agora…

***

Em:  Criança Brasileira, Theobaldo Miranda Santos, Quarto Livro de Leitura: de acordo com os novos programas do ensino primário.  Rio de Janeiro, Agir: 1949.

VOCABULÁRIO:

Folgando: descansando, alegrando-se; excede: ultrapassa; arque: aguente; tropica: tropeça; maldizem: lamentam; refuga: rejeita.

José Bento Monteiro Lobato, (Taubaté, SP, 1882 – 1948).  Escritor, contista; dedicou-se à literatura infantil. Foi um dos fundadores da Companhia Editora Nacional. Chamava-se José Renato Monteiro Lobato e alterou o nome posteriormente para José Bento.

Obras:

A Barca de Gleyre, 1944

A Caçada da Onça, 1924

A ceia dos acusados, 1936

A Chave do Tamanho, 1942

A Correspondência entre Monteiro Lobato e Lima Barreto, 1955

A Epopéia Americana, 1940

A Menina do Narizinho Arrebitado, 1924

Alice no País do Espelho, 1933

América, 1932

Aritmética da Emília, 1935

As caçadas de Pedrinho, 1933

Aventuras de Hans Staden, 1927

Caçada da Onça, 1925

Cidades Mortas, 1919

Contos Leves, 1935

Contos Pesados, 1940

Conversa entre Amigos, 1986

D. Quixote das crianças, 1936

Emília no País da Gramática, 1934

Escândalo do Petróleo, 1936

Fábulas, 1922

Fábulas de Narizinho, 1923

Ferro, 1931

Filosofia da vida, 1937

Formação da mentalidade, 1940

Geografia de Dona Benta, 1935

História da civilização, 1946

História da filosofia, 1935

História da literatura mundial, 1941

História das Invenções, 1935

História do Mundo para crianças, 1933

Histórias de Tia Nastácia, 1937

How Henry Ford is Regarded in Brazil, 1926

Idéias de Jeca Tatu, 1919

Jeca-Tatuzinho, 1925

Lucia, ou a Menina de Narizinho Arrebitado, 1921

Memórias de Emília, 1936

Mister Slang e o Brasil, 1927

Mundo da Lua, 1923

Na Antevéspera, 1933

Narizinho Arrebitado, 1923

Negrinha, 1920

Novas Reinações de Narizinho, 1933

O Choque das Raças ou O Presidente Negro, 1926

O Garimpeiro do Rio das Garças, 1930

O livro da jangal, 1941

O Macaco que Se Fez Homem, 1923

O Marquês de Rabicó, 1922

O Minotauro, 1939

O pequeno César, 1935

O Picapau Amarelo, 1939

O pó de pirlimpimpim, 1931

O Poço do Visconde, 1937

O presidente negro, 1926

O Saci, 1918

Onda Verde, 1923

Os Doze Trabalhos de Hércules,  1944

Os grandes pensadores, 1939

Os Negros, 1924

Prefácios e Entrevistas, 1946

Problema Vital, 1918

Reforma da Natureza, 1941

Reinações de Narizinho, 1931

Serões de Dona Benta,  1937

Urupês, 1918

Viagem ao Céu, 1932

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Francis Barlow ( Inglaterra, 1626? – 1704) Pintor, gravador e ilustrador.  Seu primeiro trabalho foi como ilustrador do livro Theophila, de Edward Benlowe, publicado em 1652.  Em 1666 ilustrou e publicou uma edição das Fábulas de Esopo, que mais tarde, em 1687 foi republicada e depois mais uma vez em 1668.  A versão de 1687 aparece com várias outras fábulas e ilustrações adicionais.    Barlow trabalhou em Londres a partir de 1653 como pintor de animais , pássaros e da vida campestre.   Tudo indica que morreu na pobreza.  Foi sepultado em   11 de agosto de 1704, mas não se sabe ao certo a data de seu falecimento.

Esta fábula de Monteiro Lobato é uma das centenas de variações feitas através dos séculos da fábulas de Esopo, escritor grego, que viveu no século VI AC.  Suas fábulas foram reunidas e atribuídas a ele, por Demétrius em 325 AC.  Desde então tornaram-se clássicos da cultura ocidental e muitos escritores como Monteiro Lobato, re-escreveram e ficaram famosos por recriarem estas histórias, o que mostra a universalidade dos textos, das emoções descritas e da moral neles exemplificada.  Entre os mais famosos escritores que recriaram as Fábulas de Esopo estão Fedro e La Fontaine.  Nota, interessante sobre este texto especificamente:  na fábula grega o incidente ocorre entre uma mula e um burro.





Cão, poema de Alexandre O’Neill

22 06 2009

cachorro azul, ilustração de Maurício de Sousa

Ilustração de Maurício de Sousa.

 

Cão

 

                                   Alexandre O’Neill

 

 

Cão passageiro, cão estrito

Cão rasteiro cor de luva amarela,

Apara-lápis, fraldiqueiro,

Cão liquefeito, cão estafado

Cão de gravata pendente,

Cão de orelhas engomadas,

de remexido rabo ausente,

Cão ululante, cão coruscante,

Cão magro, tétrico, maldito,

a desfazer-se num ganido,

a refazer-se num latido,

cão disparado: cão aqui,

cão ali, e sempre cão.

Cão marrado, preso a um fio de cheiro,

cão a esburgar o osso

essencial do dia a dia,

cão estouvado de alegria,

cão formal de poesia,

cão-soneto de ão-ão bem martelado,

cão moído de pancada

e condoído do dono,

cão: esfera do sono,

cão de pura invenção,

cão pré-fabricado,

cão espelho, cão cinzeiro, cão botija,

cão de olhos que afligem,

cão problema…

Sai depressa, ó cão, deste poema!

 

Em: Abandono Vigiado, Lisboa, Guimarães: 1960

alexandreoneillAlexandre O’Neill

 

Alexandre O’Neill – (Portugal 1924-1986) poeta português. Frequentou a Escola Náutica (Curso de Pilotagem), trabalhou na Previdência, no ramo dos seguros, nas bibliotecas itinerantes da Fundação Gulbenkian, e foi técnico de publicidade. Durante algum tempo, publicou uma crônica semanal no Diário de Lisboa.

 

 

Obras:

 

Tempo de Fantasmas, poesia, 1951

No Reino da Dinamarca, poesia, 1958

Abandono Vigiado, poesia, 1960

Poemas com Endereço, poesia, 1962

Feira Cabisbaixa, poesia, 1965

De Ombro na Ombreira, poesia, 1969

Entre a Cortina e a Vidraça, poesia, 1972

A Saca de Orelhas, poesia, 1979

As Horas Já de Números Vestidas, poeisa, 1981

Dezenove Poemas, poesia, 1983

O Princípio da Utopia, poesia, 1986

Poesias Completas, 1951-1983, 1984

As Andorinhas não têm restaurante, prosa, 1970

Uma Coisa em Forma de Assim, crônicas, 1980