PAPA-LIVROS: Veronika Peters, O que cabe em duas malas

24 09 2009

Freira lendo no interior de igreja, Enrico Coleman (Itália 1846-1911)Freira lendo no interior de uma igreja, 1877.

Enrico Coleman (Itália, 1846 – 1911)

Aquarela,  54,25 cm x 36 cm

 

Milhares de pessoas, muitas das que temos entre nossos amigos, parecem estar sempre à procura de um significado maior em suas vidas, de uma paz espiritual que não encontram no dia a dia,  de uma comunhão, talvez, um encontro transcendental.  Alguns procuram esta espiritualidade nas filosofias orientais ou no estudo de conceitos metafísicos.  Tenho certeza grande parte do sucesso de muitas das obras do mago brasileiro, Paulo Coelho, se deve,  justamente, a esta procura por um significado maior do que os limites físicos de cada ser.  Poucas pessoas, no entanto, se entregam à esta procura na curiosa maneira em que a autora deste livro autobiográfico relata:  entrada para um convento. 

Considerando-se que Veronika Peters não havia sido educada dentro do catolicismo e que havia saído de casa ainda jovem adolescente de 14-15 anos, rebelde,  sua entrada num convento de freiras beneditinas aos 21 anos, já demonstra desde o início desta narrativa a ânsia de um significado maior em sua vida; a incrível sede de reflexão e auto-conhecimento que a absorvem; todas características que a levam a testar seus limites, seguidamente pelos 12 anos que permance no convento.   Inicialmente, a autora parece ciente do teste a que se submete:

O que vai acontecer se eu for privada de toda espécie de “distração”: sem rádio, sem televisão, sem telefone?  Vou enlouquecer, ou fazer alguma descoberta?  Seja como for, quero conhecer a experiência do silencio, quero sem me distrair, refletir sobre Deus, sobre a minha vida, sobre o mundo….  [pág.45]

Mas, a medida que a vida no convento continua, Veronika, ao contrário do que poderíamos esperar ou ao contrário do que ela mesma esperava, continua procurando por respostas e acalentando dúvidas quanto a sua permanência no local, sem se esquecer de que ainda há algo que lhe escapa. 

Vou bem aqui, é provável que ainda permaneça por algum tempo.  Um pequeno mundo próprio, onde não me sinto mais tão estranha como nos primeiros dias, espera aos poucos ser descoberto por mim.  Viver por algum tempo nesse lugar, com estas mulheres, em conformidade com esta idéia, parece-me ser a oportunidade para descobrir coisas, que em nenhum outro lugar serei capaz de aprender.  Algumas delas possuem algo que eu também gostaria de possuir. [pág 67-68, em carta a sua amiga Lina].

E assim passam-se doze anos no convento.  De noviça à freira, Veronika procura por respostas a perguntas que não sabe formular, mas que sente estarem presentes em sua vida.  Através desses anos, temos uma interessante visão da vida num convento moderno.   Para quem, como eu, que só conhece o interior dos conventos através de turismo histórico,  da leitura de Vida de Santa Teresa e de produções Hollywoodianas, foi uma verdadeira lição do modernismo católico.   Mas mesmo através destes estágios todos para total aceitação da vida como freira, Veronika se sente em descompasso com a comunidade e é frequentemente advertida por isso:

— Você está me ouvindo? Por que fica tão dura assim atrás do volante?

— Desculpe, eu ainda não me sinto muito à vontade no meu novo papel.

— Você não está representando papel nenhum.

— Ainda preciso me exercitar para ser o que represento com esta roupa.

— Isso todas nós precisamos.  [pág. 89]

 

veronika peters 1

A autora, Veronika Peters.

Eventualmente  Veronika sai do convento.  E escreve o livro sobre sua vida lá.   A popularidade deste romance,  (Was in zwei Koffer passt), foi um dos dez livros mais vendidos na Alemanha em 2007, onde permaneceu na lista da Der Spiegel por mais de seis meses, é um testemunho do grande número de pessoas se identificam com a procura espiritual.  E como o texto da editora mesmo diz, esse verdadeiro fenômeno editorial já demonstra um significativo sintoma social.  Um texto leve, de leitura muito rápida, que encoraja todos seus leitores a perseguirem os caminhos — mesmo que difíceis — na procura de sua própria espiritualidade.





Árvore, texto de Coelho Neto, para celebrar a primavera!

23 09 2009

cavalinhos, 1940

Ilustração Paul Bransom (1885-1979), copyrighted 1940.

A árvore

Coelho Neto

A árvore não é só o enfeite da terra; ora em flor, ora em fruto,  ela é a purificadora do ar que respiramos, a garantidora do manancial que jorra para nossa sede e para rega das lavouras.  Movendo docemente os seus ramos, trabalha como fiandeira do sol:  recebendo na copa os raios ardentíssimos, desfia-os em brando calor, agasalhando assim os que se chegam à sua sombra.

Ela é medicina e é beleza frondejando à beira da nossa morada, e ainda  é confidente dos nossos pezares e alegrias, quando, sob seus galhos, recordamos saudades ou edificamos no sonho.

Assim é a árvore viva.

Morta, ela é tudo — o princípio e o fim: berço e esquife, e, entre esses dois polos, tudo é árvore — a casa e o templo, o leito e o altar, o carro que roda nas terras lavradas, o navio que sulca os mares, o cabo da enxada, a haste da lança, e tantos outros utensílios da vida.  Matar a árvore é estancar uma fonte.  Onde se devastam as florestas estende-se o deserto estéril — resseca-se o terreno, os rios minguam, somem-se os animais.  Assim, a árvore, sendo beleza, é ao mesmo tempo, a fiadora da vida.

*****

Em: Apologia da árvore, de Leonam de Azeredo Penna,  Rio de Janeiro, IBDF: 1973.





Imagem de leitura — Mary Ethel Young Hunter

23 09 2009

MaryEthelHunter (Inglaterra, 1878-1936), Era Uma Vez,1909,oleosobretela, 28x36inchesEra uma vez…, 1909

Mary Ethel Young Hunter ( Inglaterra, 1878-1936)

Óleo sobre tela, 70 x 90 cm

Mary Ethel Young Hunter ( Inglaterra, 1878-1936) foi além de uma pintora inglesa do final da Era Vitoriana e da época Eduardiana, uma ilustradora de livros para crianças.  Pouquíssimo existe sobre sua biografia.  Tudo o que sei vem de um leilão da Southeby’s quando este quadro foi vendido.  Quem tiver informações, por favor, me mande, com as respectivas fontes.  Agradeço.





Literatura do absurdo melhora habilidades cerebrais!

20 09 2009

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Uma recente pesquisa, publicada na revista Psychological Science indica que a literatura do absurdo estimula o nosso cérebro.

Travis Proulx [Univ. da Califórnia, Santa Bárbara] e Steven Heine [Univ. da British Columbia], psicólogos, descobriram que a nossa habilidade de encontrar semelhanças e sentido é estimulada quando nos absorvemos na literatura do absurdo.  E mais interessante ainda: habilitando-se essa capacidade, ela reaparece aprimorada para resolver outras tarefas ou problemas fora do campo da leitura.

Essa descoberta é o resultado de uma pesquisa que inclui dois testes diferentes.  No primeiro 40 participantes canadenses, universitários, leram uma de duas versões diferentes da história de Franz Kafka:  O médico do interior.  Numa das versões, que foi um pouco modificada do original, “a narrativa começa a ser cortada, gradativamente, acabando abruptamente depois de uma série de trechos desordenados” disseram os pesquisadores.  Foram incluídas também, junto com o texto, ilustrações bizarras que nada tinham a ver com a história.  

 

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Na segunda versão, a história foi submetida a revisões: retiraram as partes sem conexão; colocaram uma narrativa convencional e acompanharam o texto com ilustrações relevantes ao sentido do mesmo.

Mais tarde, todos os participantes viram algumas séries de 45 letras, e foram instruídos a copiá-las.  Foram também informados que essas séries, de 6 a 9 letras cada, continham um padrão dificilmente decifrável.

Depois ainda, os participantes foram apresentados a novas séries, algumas das quais seguiam os padrões anteriores, enquanto que outras não.  E, foram instruídos a marcar as séries que seguiam o mesmo padrão.

Os que leram a história absurda selecionaram um maior número de séries consistente com o padrão.  Mas, ainda de maior relevância, “tiveram maior acuidade na identificação de séries de letras que teriam genuinamente seguido o padrão”, disseram os psicólogos.   Isso sugere que “os mecanismos cognitivos que são responsáveis pelo aprendizado instintivo da regularidade estatística” se aprimoram quando lutamos para achar significado numa narrativa fragmentada.

 

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Num segundo experimento, pediu-se aos participantes que se lembrassem de ocasiões em que eles se comportaram de maneiras diversas. Foram, então, instruídos a considerar a idéia de que “tinham duas pessoas diferentes habitando o mesmo corpo”. Este teste,  também obteve resultados semelhantes: quem havia seguido a literatura do absurdo, conseguiu melhores resultados em achar as séries das letras. Melhor do que outros membros do grupo de estudo.  “A divisão no desenrolar de um argumento com as diferentes unidade de ser  pareceram motivar as pessoas a acharem novas e diferentes associações em séries”.

Os psicólogos, Proulx e Heine, acreditam que essas experiências demonstram a necessidade humana de impor ordem no que nos atinge, criando parâmetros de significado.  Qualquer aparente ameaça a esse processo parece “ativar uma válvula que procura por um significado, que quando é ativado se lembra de qualquer outro tipo de associações a fim de restaurar um significado”.

 

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Então tudo indica que o filósofo Viktor Frankl estava correto quando enunciou: O homem está perpetuamente a procura de significado.  E se um romance de absurdo, à maneira de Kafka, parece estranho na superfície, pelo menos ele garante que nossos cérebros se acendam e procurem intensmente um significado num padrão aparentemente invisível.  Isso é, de fato, muito melhor do que acordarmos uma manhã para descobrirmos que nos tornamos numa barata gigante. 

 

FONTE:  Miller-Mccune





Imagem de leitura — Eduardo Feitosa

20 09 2009

Eduardo [de sá] Feitosa, (santo andre,sp, 1957) Ensinando a ler, ost,50 x 60Ensinando a ler, s/d

Eduardo Feitosa ( Brasil, 1957)

Óleo sobre tela,  50 x 60 cm

EduardoFeitosa (Santo André, SP, 1957)  freqüentou o curso de bacharelado em matemática na Universidade Fundação Santo André.  Autodidata.  Desde jovem se interessou por desenho artístico, ilustração em quadrinhos e criação de logotipos publicitários.  Tornou-se pintor em 1990, quando realizou sua primeira exposição. Especializou-se no hiper-realismo.  Já participou de exposições individuais e coletivas, no Brasil, nos Estados Unidos e em vários países europeus.





Imagem de leitura — Winslow Homer

16 09 2009

the_new_novel-by-winslow-homer (EUA 1836-1910) 1877, aquarela sobre papel, Museum of Fine arts, Springfield, MassO novo romance, 1877

Winslow Homer (EUA 1836-1910)

Aquarela sobre papel.

Museu de Belas Artes Michele e Donald D’Amour

Springfield, Massachusetts, EUA

 

Winslow Homer (EUA, 1836 – 1910) uma dos grandes pintores e gravuristas dos Estados Unidos.  Começou a carreira de pintor trabalhando primeiro como ilustrador comercial, persistindo no ramo gráfico por vinte anos.  Trabalhava nesse período, à parte, num estúdio, com a pintura a óleo e a aquarela.  Estudou na  Academia Nacional de Desenho, em Nova York até 1863. Na década de 1870 retira-se da metrópole, indo morar num farol.  Daí  pintou uma série de obras sobre pescadores e cenas litorâneas que o fazem famoso até hoje. No início da década de 1880 viveu na Inglaterra, pintando cenas de genero e paisagens.  Em 1883, reestabelece residência nos EUA, voltando a pintar marinhas. Nos anos seguintes visita a Flórida, Cuba e as Bahamas.  O resultado dessas viagens é o uso de cores vivas em aquarelas de grande impacto.  Talvez tenha sido o maior aquarelista dos EUA no século XIX.





Imagem de leitura: George Goodwin Kilburne

10 09 2009

George Goodwin Kilburne (Grã Bretanha - 1839-1924) Mother and daughterHora de leitura, s/d

George Goodwin Kilburne (Grã-Bretanha, 1829-1924)

óleo sobre tela

 

George Goodwin Kilburne, (Grã-Bretanha, 1839 – 1924) pintor de gênero, trbalhando em Londres, especializado em interiors com pessoas.  Preferia trabalhar com aquarelas ainda que tenha muitas pinturas a óleo, desenhos a carvão e até mesmo muitas litos.   Foi aluno dos irmãos Dalziel, casando-se mais tarde com a filha de Robert Dalziel, Jenny.  Conhecido pela riqueza de detalhes em suas pinturas, característica que levou da arte da gravura em metal para a pintura.  Foi um dos pintores preferidos das classes altas inglesas de quem fazia retratos com delicadeza e cuidado com muita atenção a todos os ricos interiores.





Brasileiro, onde está a tua Pátria?, poema de Ronald de Carvalho para o dia 7 de setembro

7 09 2009

bandeira, Morandini, designer, de seu blogBandeira do Brasil

Morandini, designer ( de seu blog: http://blog.morandini.com.br/ )

Técnica mista com folhas de árvores

Brasileiro, onde está a tua Pátria?

Ronald de Carvalho

Tua Pátria não está somente no torrão em que nasceste!

tua Pátria não se levanta num simples relevo geográfico.

O solo em que pisas,

as águas em que te refletes,

o céu que te alumia,

as árvores que te dão vozes, fruto e sombras,

as fontes que te dessedentam,

o ar que respiras,

recebeste, em partilha, com todos os homens sobre a terra.

Tua pátria não é um acidente geográfico!

Brasileiro,

se te perguntarem: Onde está a tua Pátria?

responde:

— Minha Pátria está na geografia ideal que os meus

Grandes Mortos me gravaram no coração;

no sangue com que temperaram a minha energia;

na essência misteriosa que transfundiram no meu caráter;

na herança de sacrifícios que me transmitiram;

na herança cunhada a fogo;

no ferro, no bronze, no aço das Bandeiras, dos Guararapes, das Minas da Inconfidência, da Confederação do Equador, do Ipiranga e do Paraguai.

Minha Pátria está na consciência que tenho de sua grandeza moral e nessa lição de ternura humana que a sua imensidade me oferece, como um símbolo perene da tolerância desmedida e infinita generosidade.

Minha Pátria está em ti, Minha Mãe! No orgulho comovido com que arrancaste das entranhas do meu ser a mais bela das palavras, o nome supremo: — BRASIL!

Em: Criança Brasileira: quinto livro de leitura [admissão e quinta-série], Theobaldo Miranda Santos, Rio de Janeiro, Agir: 1949

ronald-de-carvalho

 

Ronald de Carvalho (RJ, 1893 — RJ, 1935), foi um poeta e político brasileiro. Nasceu a 16 de março de 1893, no Rio de Janeiro. Formou-se em Direito e ingressou no serviço diplomático. Participou ativamente do movimento modernista e da Semana de Arte Moderna, em São Paulo,  em 1922.  Em concurso realizado pelo Diário de Notícias, em 1935, foi eleito Príncipe dos Prosadores Brasileiros, em substituição a Coelho Neto. Faleceu vítima de um acidente automobilístico em 1935.

Obras:

Luz Gloriosa, 1913

Pequena História da Literatura Brasileira, 1919

Poemas e Sonetos, 1919

Afirmações: um ágape de intelectuais, 1921

Epigramas Irônicos e Sentimentais, 1922

O espelho de Ariel, 1923

Estudos Brasileiros, 1924

Jogos pueris, 1926

Toda a América, 1926

Imagens do México, 1929

Caderno de Imagens da Europa, 1935

Itinerário: Antilhas, Estados Unidos, México, 1935





Poetas no museu: Ladyce West

6 09 2009

Bez Batti, FLORAÇÂOFloração

João Bez Batti (RS, Brasil, contemporâneo)

 

 

 

Presença Invisível                

 

 

                                      Ao contemplar a obra  de João Bez Batti

                                      no Instituto Moreira Sales, RJ,  Novembro de 2006

 

 

 

Senti a presença invisível

De mãos grossas, calejadas,

Que acariciaram a pedra, 

O basalto negro

Ou vermelho,

Ou até mesmo o mármore.

 

Constatei mesmerizada

Que trouxeram à superfície

A essência;

Que libertaram, a Michelangelo,

A forma presa no seixo,

O orgânico escondido,

Inerte,

Meio-solto,

Quase-aprisionado.

 

Mãos que revelaram os escravos encapsulados,

Seres encarcerados no mesozóico,

Como se, conhecendo o desastre de Pompéia

Depois do escarro fulminante do Vesúvio,

Soubessem encontrar:

O cactos florescente, o cágado,

A abóbora moranga.  

Caracóis.

E bólidos petrificados.

 

Estas mãos, que brincam

Sedutoramente

Com o poder divino,

Conhecem o conteúdo,

A alma invisível da pedra.

Descobrem o cascalho gaúcho,

Chocam os grandes ovos de rio,

E parem os seres cativos nas  pedras,

Como Eva o tinha sido na costela de Adão.

 

E o que surpreende: estas mãos,

Que revelam o coração do basalto

Regurgitado  pela Terra,

Lixado pelas águas,

Rolado, burilado e aveludado pelo tempo,

São humanas.

Mãos peãs.

Agraciadas pela arte da divinação,

Que brincando de Deus,

Mostram o divino em todos nós.

 

 

© Ladyce West, 2006, Rio de Janeiro





Poetas no museu: Raquel Naveira

29 08 2009

venus_velazquez

Vênus do espelho, 1650  [Também conhecida como Vênus Rockeby]

Diego Velázquez  (Espanha 1599-1660)

Óleo sobre tela,  122,5 x 177 cm

National Gallery, Londres.

 

 

Vênus ao espelho

 

[inspirado num quadro de Velazquez]

                       

                                       Raquel Naveira

 

 

Nua,

Reclinada sobre musgo de veludo,

Vênus mira-se ao espelho,

Quadro de cristal polido,

Seguro por Cupido.

 

Adorna os cabelos com violetas singelas,

Morde maçã

E canela,

Acaricia os seios

Que brilham como luas.

 

Toda ela é úmida:

Anêmona de primavera,

Espuma marinha,

Rosa encharcada;

A umidade é o princípio que gera

E fecunda

Criaturas nacaradas.

 

Momento de banho,

De repouso,

De idéia clara;

Contemplar-se

É seu gozo.

Tão atraente,

Tão fora de qualquer limite,

Como vencer essa força dissolvente?

Quem não seria seduzido por ela?

Quem quebraria esse espelho ardente?

Que mortal,

Que divindade defenderia a honra

E a arte? 

 

 

 

 

Em: Stella Maia e outros poemas, Campo Grande, MS; Editora UCDB:2001

 

raquel naveira

 

Raquel Naveira (Campo Grande, MS 1957) Poetisa, ensaísta, graduada em Letras e Direito, professora no Curso de Letras da Universidade Católica Dom Bosco de Campo Grande (MS), mestranda em Comunicação e Letras, na Universidade Presbiteriana Mackienzie (SP), e empresária de turismo (Pousada Dom Aquino, em Campo Grande – MS), Raquel Naveira destaca-se por seu talento e engajamento nas atividades culturais do centro-oeste brasileiro.  A escritora tem recebido reconhecimento nacional através de inúmeras premiações e várias indicações para prêmios. Em sua obra, são constantes a religiosidade, o misticismo e os temas épicos.

 Obra:

Via Sacra, poesia, 1989

Fonte luminosa, poesia, 1990

Nunca Te-vi, poesia, 1991

Fiandeira, ensaios, 1992

Guerra entre irmãos, poesia, 1993

Canção dos mistérios, poesia, 1994

Sob os cedros do Senhor, poesia, 1994

Abadia, poesia, 1995

Mulher Samaritana, 1996

Maria Madalena, prosa poética, 1996

Caraguatá, poesia, 1996

Pele de jambo, infanto-juvenil, 1996

O arado e a estrela, poesia, 1997

Intimidades transvistas, 1997

Rute e a sogra Noemi, prosa poética, 1998

A casa da Tecla, poesia, 1998

Senhora, poesia, 1999

Stella Maia e outros poemas, 2001

Casa e castelo, poesia, 2002

Maria Egipcíaca, poesia, 2002

Tecelã de tramas: ensaios sobre interdisciplinaridade, ensaios, 2004

Portão de ferro, poesia, 2006

Literatura e Drogas e outros ensaios, crítica literária, 2007