Um alerta a tempo? Resenha: “Submissão”, Michel Houellebecq,

30 07 2015

 

Batalha de Poitiers, em outubro de 732, 1837, Charles de Steuben, (Alemanha, 1788-1856),ost, 542x465cm,Palacio de VersalhesOutubro de 732, Batalha de Poitiers, 1837

Charles de Steuben (Alemanha, 1788-1856)

óleo sobre tela, 542 x 465 cm

Palácio de Versalhes, França

 

 

Há livros que se lê pelo prazer da prosa, da trama, do suspense.  Submissão de Michel Houellebecq não é nenhum desses.  É um livro que força uma reflexão sobre o momento atual da Europa, da França, especificamente. É uma fantasia tão plausível, tão próxima da realidade, que o leitor se vê forçado a considerar possibilidades improváveis como quase certas, e o impensável torna-se realidade.  É chocante. O romance, passado por volta de 2022, ou seja meros 7 anos no futuro, de maneira racional, considera a possibilidade da eleição de um governo muçulmano na França.

Talvez o que seja mais desconcertante nessa narrativa é a lógica.  Por exemplo, quando Houellebecq menciona as forças armadas francesas necessitando de milhares de novos recrutas a cada ano e simultaneamente considera que a população tradicional francesa cada vez tem menos filhos, enquanto a muçulmana tem muitos, a lógica nos leva a admitir que em futuro próximo as forças armadas francesas serão em sua maioria muçulmanas. Esse é um aspecto da realidade francesa que nunca havia cruzado os meus pensamentos.

 

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Isso é complexo?  Estranho? Desagradável? É.  Por que?  Porque teocracias como as defendidas pelos regimes islâmicos estão diametralmente opostas à herança cultural do oeste.  Temos que considerar se é esse é o futuro que se quer ter.  É essa a guinada que queremos dar no nosso presente?  O que ganhamos com ela?  Como mulher criada no ocidente, com valores de autoconfiança, de respeito próprio, com dedicação a uma profissão, que vota, dirige, se veste como quer, que se acha no direito de escolher o parceiro de vida, não acredito que venha a me adaptar às limitações de qualquer  uma das variações das teocracias islâmicas.  E não estou exagerando. Basta lermos relatos que aparecem diariamente nos jornais, livros como Infiel de Ayaan Hirsi Ali, entre outros para saber que o conflito cultural seria ou será gigantesco.

 

Michel HouellebecqMichel Houellebecq

 

Submissão não é uma obra para ser julgada pelos seus méritos literários.  Em geral, romances que defendem uma causa têm a tendência a serem enjoados, porque explicações são necessárias e rapidamente diálogos se tornam solilóquios didáticos.  Ainda que Houellebecq flerte com esse pecado, sua habilidade em fazer paralelos entre o escritor Huysmans e a própria vida do professor universitário que narra o romance esvazia um tanto o dogmatismo inerente desse tipo de criação.  Mas há passagens bastante aborrecidas, principalmente para leitores não familiarizados com a obra do escritor, ensaísta, crítico de arte francês Joris-Karl Huysmans.

Apesar dessa reserva recomendo a leitura como uma obra que ajuda a compreender parte do dilema europeu deste século.  Que haverá um embate entre essas crenças e filosofias de vida parece inevitável.  Resta saber quando.





Minotauro, de Benjamin Tammuz, resenha

24 07 2015

 

labyrinthminatoaur2Teseu e a viagem a Creta: o Labirinto e o Minotauro, c. 1500-1525

[DETALHE]

Mestre dos Cassoni Campana

(pintor francês ou italiano, ativo em Florença)

óleo sobre painel de madeira, 69 x 155 cm

Museu Petit Palais, Avignon, França

 

 

Minotauro de Benjamin Tammuz não chega a ser um romance. São quatro histórias levemente interconectadas. A última, que leva o nome de Alexander Abramov é a mais completa, mais detalhada e interessante. E as que a antecedem revelam aspectos da trama nela retratada. Só aí, no final, é que encontramos o personagem que reconhecemos eventualmente como pertencendo à primeira história e conectado com as outras duas anteriores. Enfim, parece um romance inacabado, com um espaço oco no meio.

Esse livro me foi apresentado com dois perfis: uma história de amor e uma história de espionagem. Mas não é uma história de amor, nem uma história de espionagem. Em lugar do amor, temos uma obsessão, uma condição psicológica que tenta, e nesse caso é bem sucedida, captar uma presa, possuí-la e por ela ser possuído. O próprio autor nos avisa dos complexos sentimentos explorados por ele, quando declara que “a vítima apega-se ao seu assassino e se apaixona por ele” [95].

benjamin tammuz minotauro

Alexander Abramov, o Minotauro, era filho do judeu Abram Alexandrovich que partiu da Ucrânia, “sólido e saudável como um touro jovem” [115] e da alemã não-judia, Ingeborg Von Hase. Muito rico, o casal Alexandrovich se estabelece em terras que no futuro formarão parte do Estado de Israel. Como Minotauro, Abramov se encontrará prisioneiro de um labirinto musical na sua imaginação [146]. Ele imagina que poderá ser salvo de sua vida agonizante pela mão de uma donzela, como ele observou na gravura que decorava o seu quarto de criança [125]. E essa donzela, ele decide, no dia de seu 41º aniversário é Téa, uma jovem adolescente que não desconfia do destino que Abramov moldará para ela.

Téa é vítima de uma obsessão que cerceará sua vida cotidiana e seu destino. Testemunhamos o controle obcecado de Abramov sobre os movimentos de Téa. Aprendemos também a maneira como ele consegue interferir na vida da jovem, eliminando sistematicamente qualquer competição que possa ter de outros homens. Seu comportamento é tão fora da norma quanto havia sido o comportamento de sua mãe que sofria de um profundo desequilíbrio emocional, razão de sua morte prematura.

 

Benjamin-Tammuz1Benjamin Tammuz

 

A espionagem, a que esse romance alude tem duas facetas: é a última profissão de Abramov, e é também o modo pelo qual ele resolve viver seu grande amor, o amor de uma pessoa doentia, insana. Existe uma expressão em inglês que melhor descreve essa ação, “to stalk someone”, como um lobo caça uma lebre, ação, é bom lembrar, considerada crime nos Estados Unidos. Talvez seja por isso que a primeira das quatro partes deste romance, titulada Agente Secreto, tenha sido de leitura fascinante, mas desconfortável. Abramov faz uma escolha aleatória ao focar o seu amor. A presa, Téa, uma moça que ele vê por acaso em um ônibus, mais de vinte anos mais nova, será daí em diante, fruto de sua obsessão. Cartas e mais cartas anônimas estabelecem contato entre os dois. Ela inicialmente curiosa, ingênua, lisonjeada responde inocentemente ao interlocutor, sem perceber que entreabria assim a porta para o assédio. Daí por diante ela não terá paz. Envolve-se emocionalmente, e será incapaz de se esquivar do futuro que Abramov projeta para os dois. É uma luta desequilibrada, perversa, saturniana, antropófaga.

O desfecho é inevitável e anunciado. Paralelos com tragédias gregas são inevitáveis, ainda mais porque elas são citadas através do texto. Mas no final esse foi um romance que não se resolveu completamente, que não passou de quatro excelentes partes sem grande contextualização que as envolvesse.





Amigos e inimigos, texto de Benjamin Tammuz

23 07 2015

 

 

MarktJaffaGustavBauernfeind1887Porto de Jafa, 1888

Gustav Bauernfeind (Alemanha, 1848-1904)

óleo sobre tela, 148 x 281 cm

 

 

“Aqueles árabes que eu, na prática, maltrato, porque caíram nas minhas mãos algemados e derrotados, quem são eles se não aqueles árabes que foram trabalhadores no pátio de nossa casa, aqueles mesmos árabes com os quais persegui lebres; aqueles árabes cujas mães trabalhadoras me seguravam secretamente sob a sombra do galpão e cobriam o meu rosto de beijos; as primeiras mulheres de quem ouvi, quando estava com cinco anos, que eu era bonito, que queriam me raptar e me levar para casa delas. E agora eu coloco os filhos delas sentados sob uma lâmpada elétrica e, em troca das alegrias da infância que conheci com elas e do amor de suas mães, os retribuo com medos mortais.

Não estou pedindo desculpa. Eles nos odeiam mortalmente e eu faço exatamente o que é possível e é preciso fazer. Mas isso não altera o fato de que, pela amizade de um árabe, eu daria dez amigos norte-americanos, ingleses ou franceses. Com um homem europeu eu posso tomar uísque, fazer negócios e chegar a um acordo de que o Estado de Israel é na prática uma extensão da Europa no Oriente. Mas com um árabe posso voltar a rolar na poeira no meio da plantação, respirar o cheiro de esterco queimado de bodes, colher e mascar segurelha, correr em direção ao horizonte e encontrar ali a minha infância e talvez encontrar também um sentido na vida — que agora quase não tem propósito — no local em que se encontra também a colina dos dias da minha infância.”

 

Em: Minotauro, Benjamin Tammuz, tradução de Nancy Rozenchan, Rio de Janeiro, Rádio Londres: 2015, pp, 179-180.

 





“Te tratarei como uma rainha”, de Rosa Montero: resenha

20 11 2014

 

_70026996_saturday_night_1993Jack Vettriano's Another Saturday Night is one of many paintings which explore the power of sexOutro sábado à noite, 1993

Jack Vettriano (Escócia, 1951)

 

 

Antes de mais nada friso que, há algum tempo, sou fã de Rosa Montero. Desde que me conquistou com a História do Rei Transparente, a escritora se tornou única no meu horizonte de ficcionistas: não só consegue se metamorfosear, como não tem me decepcionado a cada nova obra.

Te tratarei como uma rainha (originalmente publicado em 1983) em tom e temática se alinha com Instruções para salvar o mundo (2008). Vinte e cinco anos os separam. E ainda que as histórias sejam muito diferentes, há alguns paralelos significativos: as vidas pequeninas dos frequentadores de bares sórdidos; as decepções não mitigáveis das pessoas comuns; a solidariedade inesperada e quase aleatória entre os que sofrem; a vida à beira do abismo emocional de todos na trama. Estamos no mundo Montero, um mundo quase real, sem firulas e sem grandiosidade. Não há heróis. Sobreviver é um ato de determinação e rendição ao destino.

 

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Adaptar-se à realidade dos sonhos desfalecidos, aos sofrimentos inesperados é um ato de coragem, nem sempre bem sucedido, quase sempre doloroso, principalmente para aqueles que descobrem que os anos passaram. Um dia acordam, veem seus ansejos escorridos nos ralos, desintegrados no esgoto emocional da sobrevivência: pobres, feios, gordos, velhos, drogados, desiludidos. Sós. Explorados pelos espertos, refugiados em seus ninhos baratos, sem aconchego, menosprezados, segurando-se aos poucos fios que ainda os mantêm com algum amor-próprio. Por fim, se encontram nos bares à noite, com um vago senso de comunidade. A decadência lhes é conhecida. Reconforta. Esta é a vida moderna no mundo de Rosa Montero.

E, no entanto a prosa se adequa ao realismo, perfeitamente objetiva. Não derramamos uma lágrima. A nós cabe contribuir com os sentimentos. Testemunhamos silenciosamente as limitações desses heróis do cotidiano. Acende-se a compaixão. Mas não há exploração emocional. Não fazemos parte de uma produção hollywoodiana que atrela sentimentalismo à narrativa. Ficamos conhecendo a dor do desapontamento, a frustração dos pequenos desejos insatisfeitos e o desespero que leva a acreditar naquela última e bem-vinda chance de realização. Um raio de esperança, um futuro um pouco mais benevolente. Todos esses sentimentos encontram eco em nosso âmago. Também já passamos por situações semelhantes. Quem nunca? Os personagens se humanizam e nós também.

 

author_rosa_monteroRosa Montero

Não há dúvida de que Rosa Montero se preocupa com a condição da mulher. É considerada uma escritora essencialmente feminista. E a consistência de seu anseio com a índole das mulheres que retratou em suas obras justifica esse rótulo. Não é diferente neste texto. O que agoniza é vermos que nada mudou nos mais de 30 anos desde que Te tratarei como uma rainha foi escrito. São três, as principais mulheres delineadas no romance. Cada uma representante de diferentes inquietações, todas, no entanto, na expectativa de realização através de uma ligação amorosa: a maturidade de Bela, a virgindade de Antonia e a procura por segurança de Vanessa. E elas sofrem. No fundo são ingênuas, mesmo as mais experientes. E acreditam. Acreditam nos homens que as cercam. Mas eles também são figuras tristes. E mesmo que sejam causadores, de fato, de muito sofrimento, são por sua vez merecedores da nossa compaixão: são limitados, têm a mente estreita e a braguilha perpetuamente aberta. São patéticos.

É difícil acreditar que 198 páginas concisas possam despertar a complexidade de considerações sobre a sobrevivência emocional no ser humano. Acredito que o mundo de hoje não seja nem um pouco diferente do de nossos antepassados. Os sofrimentos parecem ser semelhantes. Somos violentos com aqueles a quem mais amamos, esperamos mais da vida do que muitas vezes ela pode dar, limitamos nossas possibilidades às regras extrínsecas ao nosso bem-estar. É desolador perceber que pouco muda. Mas são histórias como essa que nos fazem pensar e quem sabe dar um passo a frente para que haja, no futuro, um maior equilíbrio entre sonho e realidade. Definitivamente um livro para ler. E ponderar.





A Inveja em texto de Teolinda Gersão

11 09 2014

 

 

Talbot Hughes - The New DressO vestido novo, s/d

Talbot Hughes (Inglaterra, 1869-1942)

óleo sobre tela, 57 x 41 cm

 

 

“Por sorte, logo no início tinha havido um acaso que viera dar força à versão que lhe convinha: Dora Flávia mandara-lhe coser um pedaço da bainha de um vestido, no lugar onde o fio rebentara. Era já tarde e ela tinha perguntado se podia fazer esse trabalho em casa. Dora encolhera os ombros, era-lhe indiferente, não precisava do vestido agora.

Assim, levara-o consigo, deixara-o toda a semana pendurado no quarto da costura. E no meio das provas, mencionava sempre que tinha que acabá-lo, antes de quarta-feira. Era da dona da casa no Sommershild.

Em geral nem sequer era ela a puxar a conversa. O vestido falava por si, atraía logo os olhos das freguesas.

Deixara-o ali como um talismã que a livrasse, e ela do mundo dos armazéns baratos d’ A Feira ou do Lorenzo Marques Mercantil, na rua dos Irmãos Roby. Como se o vestido, suspenso da cruzeta, fosse o sinal exterior de uma mudança.

Só na terça-feira seguinte, à noite, lhe coseu a bainha. Difícil, porque a mousselina parecia desfazer-se nas mãos. Mas era também um prazer tocar-lhe — suave, leve, se havia tecido vaporoso era aquele.

Vestiu-o da própria depois de pronto. Um corpo tão parecido, as medidas iguais, ficava-lhe até melhor a ela, achava-se tão mais bonita do que Dora. Mas os vestidos pertenciam a umas, e não a outras mulheres. Mesmo quando uma mulher os talhava e cosia com as suas mãos eles pertenciam a outra. As vidas não se trocavam.

Dora nunca lhe pagaria o preço justo por nada, soube. Ninguém lhe pagaria. Nem ela poderia explicar. Se tentasse, neste caso, enumerar os problemas em volta do vestido, falaria da textura tão leve que parecia areia movediça, onde os alfinetes e a agulha escorregavam sempre, e Dora assentaria, distraída, com um movimento de cabeça, julgando que ela queria justificar um acréscimo no preço por esse trabalho extra,  diria, sim, sim, impaciente, sem ouvir, porque tanto lhe fazia pagar um pouco menos ou um pouco mais, e no fundo essa conversa aborrecia. Nunca poderia dizer-lhe que o problema não tinha sido o trabalho, mas aquele nó na garganta, como uma mão de ferro, que a deixava sem ar.

Podia fazer um vestido assim, pensou ainda, rodando levemente sobre si própria no espelho. Saberia fazê-lo, tal e qual, nem um ponto a menos. Mas o que parecia uma coisa próxima, concreta, era ao mesmo tempo impossível, irreal.  Mesmo que houvesse ali à venda aquele tecido e ela tivesse dinheiro para comprá-lo (duas coisas já de si improváveis), nunca teria ocasião de vesti-lo, porque não tinha acesso aos lugares onde esse tipo de roupa se usava.

Despiu-se devagar, no espelho. Como pudera, alguma vez, ter-se alegrado,  com as idas a  Sommershild, com o que dentro de si, na euforia do primeiro momento, chamara “a época do Sommershild”. Como pudera ser tão louca. Acreditar que uma mudança acontece só porque alguém passa a ir regularmente a um lugar.”

 

Em: A árvore das palavras, Teolinda Gersão, São Paulo, Planeta: 2004, pp 86-87.

 

 





O virador de páginas de David Leavitt – Resenha

4 09 2014

 

 

caillebotte-gustave-jovem tocando piano, 1876, ost, col partJovem tocando piano, 1876

Gustave Caillebotte (França, 1848-1894 )

óleo sobre tela

Coleção Particular

 

Nas mãos de Guy de Maupassant esse romance teria sido exemplar. Levaria todas as cinco estrelas que tenho direito a dar. Digo isso porque há algo de Maupassant na leveza com que a narrativa se desenrola e na intenção sócio-realista. Infelizmente falta a David Leavitt o cuidado com a estrutura da trama e com os diálogos, características em que o escritor francês se esmerava. Assim como está, esse romance dá a impressão de uma obra feita às pressas, na coxa, sem finesse. Por vezes a narrativa muda de ponto de vista abruptamente e ênfase é dada a personagens secundários em detrimento de um aprofundamento nas emoções e nas razões do comportamento dos que identificamos como principais. Por que certos detalhes são acentuados roubando o vigor à história? Toda a narrativa, da estrutura ao diálogo, do ritmo ao desfecho – e este é inconcluso — poderia ter sido trabalhada e como resultado O virador de páginas seria uma obra de impacto. Falta conteúdo psicológico e emocional.

 

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David Leavitt é um desses nomes que aparecem em conversas literárias aqui e ali, um nome com peso social, amplamente divulgado nos círculos gays e literários. É possível que eu tenha escolhido para minha apresentação ao autor um de seus livros mais fracos. Pena, porque vou custar a abrir outra publicação dele.

Os temas, os assuntos, são de primeira linha. Todos são temas universais, tratando das dificuldades por que passam os seres humanos. Em primeiro plano: a difícil, frustrante, aniquiladora descoberta das nossas limitações. Saber que sonhos afagados por anos, por uma vida inteira, não poderão jamais se concretizar, porque sonhamos além das nossas habilidades. Em segundo: a apresentação, quando ainda se é muito jovem, aos desencontros amorosos, para os quais a vida parece ser terreno fértil — o dar-se a quem não merece, a quem não dá valor; e o ser desejado por quem não temos atração; assunto explorado por muitos e tão sucintamente colocado no esplêndido poema Quadrilha de Carlos Drummond de Andrade. Esses dois temas recheiam o que há de melhor na produção literária há séculos e permanecem em pauta porque falam de condições inerentes ao ser humano. Falam da paixão.

 

118David Leavitt

As ideias centrais em O virador de páginas são boas, mas pobremente executadas. Como está, o livro é medíocre. Sérgio Viotti que fez a tradução, escreve na orelha: “Ouvido de uma precisão teatral, que suas cenas dialogadas podem facilmente ser diálogos para ver e escutar…” Infelizmente Viotti numa tentativa de exaltar o romance, se concentrou justamente no que achei de mais leviano na obra. Os diálogos são sim, como falamos. E nossa fala é repetitiva, muitas vezes vazia, sem qualquer intenção de criatividade. Obrigar o leitor a ler diálogos que não levam a nada é desmerecer a atenção que o leitor lhe dá. Não é estofo para uma obra literária. Vamos a um exemplo de muitos:

“– Alô?
— Alden?
— Não, Paul.
— Paul, aqui é Joseph Mansourian. Como vai?
— Estou bem. – Sentando-se, Paul tirou o som da televisão, ajeitou o cabelo para trás, com a mão.” [p.156]

Sinto não poder recomendar O virador de paginas. Sei que em breve o terei esquecido, porque ainda há obras literárias que merecem o  cuidado da minha atenção.





Quando éramos órfãos, de Kazuo Ishiguro

31 08 2014

 

Mortimer L. Menpes (Austtrália, 1855-1938)A Tea House, Shanghai, circa 1909,Gouache,oil on board,32 x 40 cmCasa de chá em Xangai, c. 1909

Mortimer L. Menpes (Austrália, 1855-1938)

Guache e óleo sobre placa, 32 x 40 cm

 

 

Já faz dias desde que terminei a leitura de Quando éramos órfãos e reluto em resenhá-lo: o livro é mais complexo do que a princípio lhe dei crédito. Quanto mais tento focar em alguma ideias, mais descubro sobre o que é importante; sinal de que é um livro rico em questionamentos. Voltei ao texto duas outras vezes e hoje sei que é um romance muito melhor do que minha primeira impressão.

A prosa aqui é deliberada. O texto é seco e sutil, qualidades que sempre me atraíram em seus romances. Ishiguro é preciso, escolhe a palavra exata e nenhuma outra. Por isso mesmo não se pode ignorar as pequenas deixas que semeia na narrativa. Toda atenção é pouca. Como João e Maria, vamos seguindo as migalhas deixadas na narrativa e se alguma é ignorada, perdida, comida com desatenção, podemos nos perder. Além disso, Ishiguro trabalha as elipses com mestria. E nesta obra chega a mesmerizar com sua habilidade de justificá-las. Para isso usa os desvios da memória de um narrador impreciso.

Memórias são pensamentos subjetivos e inexplicáveis, que se adaptam com frequência às necessidades de quem as recolhe. Não é incomum observarmos duas pessoas que tendo tido uma mesma experiência, lembrem-se de eventos de maneiras diferentes. É justamente por isso que o narrador dessa história, Christopher Banks, que se descreve como um grande detetive em Londres, tendo vivido na Inglaterra por mais de duas décadas retorna a Xangai, onde havia passado sua primeira infância, antes do desaparecimento de seus pais aos oito anos de idade, oferece um enorme leque de possibilidades para a difusão das dúvidas no leitor.

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A evolução do mistério que envolve o desaparecimento dos pais do menino surpreende o leitor e o próprio Christopher Banks. Mas as ruas de Xangai são tão labirínticas quanto as aléias e becos sem saída das memórias de infância. Caminhos escuros percorridos por riquixás improváveis, o bairro dos estrangeiros à beira do campo de batalha durante a guerra sino-japonesa, o tráfico do ópio, tudo leva a mais dúvidas do que a fatos e assim como Christopher saímos dessa Xangai sem a certeza das poucas memórias que nos pertencem.

PD*6200385Kazuo Ishiguro

 

Não tive, no entanto, grande empatia pelo personagem principal que se mantém distante. Suas emoções estão guardadas e ele nos surpreende até mesmo quando se envolve amorosamente. Talvez por sentir que não pertence a lugar algum Christopher Banks mantém um verdadeiro vácuo emocional à sua volta. E nós leitores estamos excluídos por essa mesma distância, apesar de conscientes de seus pensamentos. Há um desconforto emocional.

No final este é um livro que marca, apesar da falta de empatia com o personagem principal. Mas é estupendo pela fabulosa habilidade de Kazuo Ishiguro ao liderar a narrativa através dos descaminhos da memória.





Aguapés, de Jhumpa Lahiri, sem prumo

31 07 2014

paul olson. providence riProvidence, RI

Paul Olson (EUA, contemporâneo)

 

 

Aguapés é um romance de leitura fácil, mais ou menos engajante, com uma história de pouco interesse e completamente sem prumo.  É chocho. Quem escreveu a sinopse que aparece no site da editora Biblioteca Azul, selo da Editora Globo, não leu o livro que eu li. É a história de um homem e sua família, indiano, radicado em Providence, no estado de Rhode Island (EUA), engenheiro ambiental . Sua vida é tão comum quanto a de qualquer um: sem grandes eventos, sem grandes emoções, exceto pela sua retidão de caráter.

É sim, uma história de dois irmãos próximos, de temperamentos diferentes. Dois irmãos muito diferentes: Udayan é um revolucionário maoísta, ativo em Calcutá, nos anos 60. Subhash seu irmão mais velho nada tem a ver com política, sai da Índia para os EUA. Mas, apesar de vidas diversas, não há um embate, onde temperamentos opostos se confrontem. Subhash, por sair da Índia, parece, no início, se revoltar contra as tradições ancestrais. Enquanto Udayan, ainda morando na casa dos pais, dá a impressão de ser aquele mais perto do ideal familiar. Um dia seus destinos se unem por imprevisto inevitável. A partir daí, Subhash, cuja vida acompanhamos até os 70 anos, se transforma no mantenedor da família, reformulando todos e quaisquer objetivos e gols em sua existência em favor da próxima geração. Seu sacrifício é imenso. Abnegação total. O dever sempre falando mais alto.

 

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Mas a figura central do romance não é nenhum dos irmãos. Eles são a moldura. A força motora é a enigmática esposa de Subhash cujo comportamento inimaginável permeia toda trama. Uma figura sem qualquer carisma que acaba ditando a vida de todos à sua volta.

O período de setenta anos cobertos nesse romance passa superficialmente pelos marcos da época, no ocidente. Uma ou outra menção ao presidente do EUA é o que situa a passagem de tempo. Há muita coisa que não é necessária nessa história e muita coisa que deveria aparecer e não está lá. Todos os personagens, talvez por serem tratados superficialmente, são incompreensíveis e não ganham a simpatia do leitor. Há foco demorado no que não é importante – como o “affair” de Subhash com uma americana – ou o final passado na Irlanda, que me pareceu “product placement” [anúncio] da agência de turismo do país.

 

lahiri portraitJhumpa Lahiri

 

Fraco. Não recomendo. Foi a escolha do meu grupo de leitura para este mês em homenagem a autora que participa da FLIP [Festa Literária Internacional de Paraty] agora em julho. Pena.





De volta aos anos 60 com Hilary Mantel em “Um experimento amoroso”

10 03 2014

Charles Blackman (Austrália, 1928) Schoolgirls 1954. Esmalte sobe papel colado em placa,98 x 130Meninas de escola, 1954

Charles Blackman (Austrália, 1928)

Esmalte sobre papel colado em placa,  98 x 130 cm

O inglês é uma língua prática e precisa.  À maneira do português do Brasil incorpora expressões estrangeiras com facilidade mas, diferente da nossa língua, cada palavra adquirida recebe um significado bem preciso, específico.  Sinto essas diferenças diariamente em conversa  com meu marido, que além de ter o inglês como língua nativa e ser professor de literatura americana,  ao tentar se expressar em português considera o que falamos extraordinariamente vago; enrola-se com os nossos sujeitos ocultos e com as diferenças  que umas poucas letras no final das palavras podem fazer — letras que qualquer americano ignoraria num diálogo informal. Falo dos femininos e masculinos,  da conjugação verbal que permite a ocultação do pronome pessoal [porque este já está incorporado na conjugação] e assim por diante.  Acabo de me lembrar mais uma vez desse contraste entre as duas línguas,  quando procurei usar a palavra ‘proustiana’.  Com a manha de quem passou a vida entre as duas línguas decidi ir ao dicionário para ver o significado em português.  Aqui ‘proustiano’ tem unicamente a ver com a “capacidade de se recuperar fato retidos na memória à maneira de Proust”, enquanto que em inglês ‘proustiano’  já deixou de lado sua simbiose com o escritor francês,  e passou a significar uma memória involuntária qualquer.  Demonstração exemplar das diferenças entre essas línguas.  ‘Proustiana‘, como memória involuntária é a maneira de narrar usada por Hilary Mantel em Um experimento amoroso [Record: 1999].

O romance narra vida de Carmel McBain e de sua vizinha, Karina, nem sempre amiga, mas sempre colega dos bancos escolares, meninas que nasceram no norte da Inglaterra, na região próxima a Manchester, no seio de famílias da classe média baixa, pobre, operária e católica.  Famílias que se sacrificam, cada qual à sua maneira, para educar as filhas e lhes dar meios de uma ascensão social mais veloz. De maneira proustiana, desordenada, ora na adolescência, ora na primeira infância,  acompanhamos Carmel desde os primeiros anos escolares até o amadurecimento da fase adulta.  Hilary Mantel é escritora de palavra precisa, texto sucinto, e uma enorme capacidade de escolher o detalhe certo para com ele traçar um mundo de inferências que dão profundidade ao texto e empurram a narrativa para frente. Não dá vontade de se deixar de lado a história, relutantemente apaga-se a luz antes de dormir; por outro lado, leva-se o livro na bolsa para aproveitar os 20 minutos no transporte público.

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Romances de amadurecimento em geral são menos complexos do que este.  Tradicionalmente, essas histórias têm como personagem principal um jovem adolescente, O apanhador no campo de centeio, de Salinger vem à mente. Mas, na última década, tive o prazer de ver essa produção literária centrada em meninas adolescentes, na literatura para adultos.  [Outro romance que aborda esse tema, já resenhado aqui é obra do escritor peruano Alonso Cueto: O sussurro da mulher baleia]. Hilary Mantel no entanto não se detém em uma única experiência de ritos de passagem, já que acompanha a vida de Carmel desde os primeiros dias na escola.  Por isso mesmo, quando finalmente nos deparamos com climax  narrativo dessas memórias nossa surpresa, que foi cuidadosamente elaborada, traz a profundidade de anos de conhecimento da vida através dos olhos de nossa heroína.

Crescer, amadurecer emocionalmente, não é fácil. O mundo não é aconchegante, a vida é cheia de decepções. Famílias com boas intenções nem sempre se sensibilizam às dificuldades do crescimento, principalmente quando estão vivendo no limite, trabalhando horas exageradas, economizando todos os centavos.  Além disso, há as barreiras que cada sociedade  impõe: classe social, religião, origem, sotaques.  Diferenças que para alguém de fora podem parecer irrelevantes, para quem vive rodeada desses valores parece muito difícil libertar-se deles. Carmel e Karina têm que se submeter aos desejos de seus pais.  Karina é obrigada a ajudar em casa, sua mãe trabalha dois turnos. A Carmel, por outro lado, não é permitido o trabalho doméstico. A pressão é para que estude. Ambas sofrem. Exclusão, buling, anomalias alimentares, tudo está presente nesses anos. Tudo isso e a religião católica, que para essas meninas não ajuda.  A história se passa na década de 1960, quando a pílula já estava disseminada na Inglaterra e há liberdade sexual para as jovens mulheres.  Como cada uma resolve seus sentimentos em relação ao sexo e à religião, acaba por demonstrar os valores que permaneceram no amadurecimento.

Hilary-Mantel-001Hilary Mantel

O título, Um experimento amoroso, que parece tão abstrato, aplica-se aos diversos tipos de amor por que os personagens passam, do amor maternal ao sexual.  Hilary Mantel narra com um ritmo pulsante até o final, mesmo com as idas e vindas ao passado próximo e ao passado longínquo.  Algumas decisões de Carmel, que parecem insignificantes, no final nos levam ao retrato detalhado da personalidade da jovem. Esse é também um bom retrato da Inglaterra dos anos 60 do século passado, assim como do distanciamento natural entre pais e filhos. As dúvidas de Carmel e de suas amigas nos lembram das grandes mudanças nos últimos 5o anos.  Para melhor, sem dúvida. Mas essas mudanças podem ter sido simplesmente externas.  Os seres humanos me parece que permaneceram os mesmos.  Recomendo sem restrições esse romance reflexivo, intenso e sedutor.





Bibliotecas públicas no Rio: livros mais procurados

4 03 2014

Fabricio Fontolan,(Paraná, Brasil)  Reading, 2005, oil on canvasLendo, 2005

Fabrício Fontolan (Brasil, contemporâneo)

óleo sobre tela, 40 x 50 cm

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Neste fim de semana de Carnaval o jornal O Globo publicou os resultados de uma pesquisa entre as bibliotecas públicas municipais e estaduais no Rio de Janeiro que listava os livros mais requisitados e emprestados ao público [Ranking de leitura, estrangeiros no topo]. Foi constatado que leitores preferem os livros das listas dos mais vendidos e mais falados.  Livros que na maioria são escritos por  autores estrangeiros.  Não importa onde essas bibliotecas estejam localizadas, se em bairro de classe média, rica ou pobre o interesse pelos campeões de venda é o mesmo.

Não fiquei surpresa. Acho natural que todos queiram estar a par  dos assuntos nas conversas nos cafés, nas escolas e na internet.  Principalmente os adolescentes e jovens adultos, que sabem muito  bem os livros que andam fazendo sucesso em outros países.  Esse costume brasileiro de querermos ler o que é escrito no exterior não é de hoje.  No século XIX  até meados do século XX era a França que ditava o que os brasileiros liam. Nem por isso deixamos de ter um Machado de Assis.

O importante é que nossas bibliotecas públicas tenham para emprestar os livros que as pessoas queiram ou precisem ler. É uma maneira simples de garantir a leitura.  Ler é o mais importante. De longe.  Depois que a leitura se estabelece como um hábito, o leitor por si mesmo irá se encaminhando para outros livros, para outros horizontes.

Os autores Nicholas Sparks e J. K. Rowling lideram os empréstimos dessas bibliotecas.