O oficial dos casamentos, de Anthony Capella: as muitas formas de sedução

17 05 2011

Ilustração de capa de revista, Coby Whitmore (EUA, 1913-1988)

O oficial dos casamentos, de Anthony Capella [Record: 2011] em primeira leitura parece mais um livro feito para as férias, para ser lido na praia, sob a sombra de uma barraca, maresia salgando a pele e um copo de mate gelado na mão.  Parece leve, cheio de humor, quase inconseqüente.  Sua narrativa é rápida, ritmada e transporta o leitor facilmente pelos aromas da culinária italiana [um perigo ler esse livro se você está de dieta], e também evoca com facilidade a paisagem napolitana, assim como o charme e a beleza das mulheres nativas. Chega perto de poder ser lido, simplesmente assim, sem compromisso.  Afinal, o tema central, parece ser o romance entre a italiana Lívia Pertini e o oficial inglês James Gould.  

A narrativa faz jus à tradição literária inglesa iniciada no século XVIII em que o narrador descreve as observações de um estranho quer na cidade de Londres, quer num país até então desconhecido.  Suas observações do povo local, dos costumes e hábitos que lhes são caros, interpretados pela perspectiva do visitante são fonte de grande entretenimento, humor e surpresa quanto aos costumes locais levados a sério pela população.   Um dos mais radicais exemplos desse gênero literário está exemplificado nas Viagens de Gulliver do irlandês Jonathan Swift, cuja primeira publicação data de 1726.  

 

No texto de Anthony Capella, acompanhamos as observações de James Gould sobre a Itália, a vida em Nápoles, os costumes locais.  Membro das forças inglesas que lutavam com os aliados contra os nazistas no sul da Itália, James Gould se encontra subitamente responsável pelas entrevistas que permitiriam ou não a oficiais ingleses se casarem com italianas.  A necessidade dessa função surge do enorme número de oficiais britânicos que se enamoram das belas italianas e pedem permissão para casar.  Por sua vez, as autoridades inglesas não vêem com bons olhos esses casamentos por acharem que um homem casado não iria lutar com o mesmo empenho que um solteiro. 

Eis que a viúva e maître de cozinha, Lívia Pertini entra em sua vida, como cozinheira de James.  E suas delícias culinárias, os aromas de sua comida, a textura de sua massa, a excentricidade de suas bebidas abrem, para ele, as portas de um mundo novo e inebriante onde todos os sentidos parecem se imiscuir em uma única e plena experiência sensual.  Nessa aventura culinária ecos de outro escritor inglês setecentista, Henry Fielding com seu A História de Tom Jones publicado em 1749 vêm à mente nas cenas em que Lívia ensina James a comer ervilhas ou escargots.

Mas, há uma mudança de tom e uma mudança de atmosfera mais ou menos a três quartos do fim.  Até então tudo parece uma comédia romântica.  De um momento para o outro, como aconteceu na vida real, com a explosão do Vesúvio, o romance dá uma virada, deixa de ser tão bem humorado.  A guerra chega ao primeiro plano e com ela vêm outras seduções.  Talvez melhor descritas como o lado negro, o reverso do que até então se apresentara.  E aparece a sedução pela exploração, a sedução por extorsão, a sedução como arma de guerra.

Anthony Capella

Não é surpresa saber que esse romance já está a caminho de se tornar um filme.  De fato, por ser uma história passada na guerra, por seu alto astral e bom humor, tudo nela lembra os filmes dos anos 40 do século passado – também de guerra – com Katherine Hepburn, Cary Grant e outras estrelas Hollywoodianas das telas em preto e branco, em que romances bem humorados com fox-trot na vitrola, aconteciam inesperadamente.   Há quem possa comparar esse livro a dois outros romances, também ingleses, da década de 90, O bandolim de Corelli, de Louis de Bernières, publicado em 1994  [no Brasil, Record:1998] e de Chocolate, de Joanne Harris, publicado em 1999 [ no Brasil, Record: 2001],  que também viraram filmes.  Mas acho essas comparações superficiais.  Porque nenhum desses dois títulos parece ter o cuidado de um subtexto como o que transparece no romance de Capella.

O Oficial de casamentos examina o tema da sedução de diversos pontos de vista e se torna até mesmo um curioso quebra-cabeças para o leitor atento diferenciar todos os tipos de sedução retratados no romance, tal como nos distraímos quando temos em frente de nós um desenho com a pergunta: quantos triângulos você vê na figura acima?   Este é um bom romance, de fácil leitura.  Bom entretenimento.  E a gente ainda aprende uma ou duas coisas sobre a história da Segunda Guerra na Itália.   Bem documentado.  Para maiores detalhes o autor também colocou documentos na sua página na web. [ www.anthonycapella.com]  Recomendo.





Para ler: Os diários de pedra, de Carol Shields

31 07 2010
Jardim com lago, ilustração de revista de 1923.

Tenho  muito prazer em ler biografias, memórias, diários de pessoas comuns.  Cito a propósito de ilustração dois exemplos deste tipo de leitura:  The memoirs of Gluckel of Hameln, Schocken Books:1977 [ As memórias de Gluckel de Hameln – não traduzido para o português–] – um diário começado em 1690 por uma mulher alemã, judia, que retrata suas preocupações diárias e A família de Guizos: história e memórias, de Ivna Thaumaturgo, [Civilização Brasileira: 1997] composto das memórias de uma carioca sobre a vida no Rio de Janeiro da 1ª metade do século XX.  Diferentes em proposta e em desenlace, esses dois livros me enriqueceram, tanto quanto muitos outros no gênero que fui coletando ao longo dos anos.

O que todos têm em comum é a preservação de um momento passageiro, de uma idéia, preocupação ou emoção que em geral achamos difícil associar ao legado material que nos resta de outras gerações.  Quem, por exemplo, subindo os degraus para o átrio de alguma igreja antiga, vendo na pedra o desnível em lugares específicos  que estabelecem os milhares de pés que se apoiaram exatamente no mesmo lugar ao subir aquela escadaria,  não pensou nessas pessoas invisíveis cuja única recordação de que existiram está justamente na corrosão de um pedaço de pedra?  Esta observação chega a ser lugar comum para quem costuma visitar sítios históricos, no entanto ela demonstra a nossa realização da grandeza de um passado evanescente. 

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Para mim, a leitura de diários de pessoas comuns, de um passado próximo ou distante, me faz testemunha de uma era que não vivi.  Ao longo do caminho, tenho a oportunidade de apreciar aqueles cujas vidas nos trouxeram aos nossos dias e saber como pensavam e com que se preocupavam.  Mesmo que o anotado sejam questões corriqueiras, que se apliquem, por exemplo, à quantidade de farinha necessária para assar mais broas numa taverna ou onde melhor esconder dos bandidos de estrada, numa viagem entre cidades, a cavalo, a única moeda de prata que se traz na algibeira?  A leitura desses diários, dessas memórias, me presenteia e enriquece porque eles fazem o passado mais rico e inteligível.  Mais presente.  E trazem consigo a sabedoria de séculos, a sabedoria popular que pode e, com freqüência,  é esquecida nas gerações seguintes.  E como sabemos: quem não conhece a história está condenado a repetir seus erros.

É justamente isso que o romance da escritora canadense Carol Shields (1935-2003), explora em  Os diários de pedra, [Record: 1996], trabalho que recebeu dois grandes prêmios de literatura, tanto o Pulitzer como o National Book Critics Circle em 1995.  E por minha conta parecem prêmios muito merecidos.  Esse romance é uma testemunha do poder da imaginação, porque conta a história de uma mulher comum de classe média — como milhões de outras pessoas que conhecemos e que nos precederam —  cujas vidas parecem não ter nenhum grande evento ou nenhuma grande manifestação além daquela de ter, criar e educar filhos e acima de tudo sobreviver com dignidade até os últimos dias.

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Carol Shields

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Ora narrado na primeira pessoa, ora por outro narrador, cuja escolha às vezes parece deixada ao acaso, limitada talvez, pela falta de testemunhas num passado comum, Os diários de pedra, contam a vida de Daisy Stone Goodwill, uma dona de casa — filha, mãe e avó — que “fazia um delicioso bolo de carne, que sabia como replantar uma figueira-da-Índia,  que sabia o que fazer com uma carta de trunfo”.  Seguimos Daisy do nascimento em 1905 nos Estados Unidos à sua vida no Canadá e finalmente à sua morte na Flórida, com mais de 80 anos.  Carol Shields faz mágica com esse texto.  Ela reconstrói a vida de Daisy  com diários, relatos de testemunhas desse ou daquele evento em que Daisy era uma participante.  Ela traz à tona bilhetes deixados por amigas, uma lista de enxoval, uma carta dobrada na gaveta de uma cômoda e até mesmo uma seleção de fotografias que representam alguns dos membros da família.  Com um punhado de “provas” da existência desse personagem, ela constrói uma colcha de retalhos encantadora, sensível e espessa.  E ao longo do caminho ela também desvenda a vida de alguns de seus companheiros de viagem, do pai às amigas e aos filhos, mostrando  também seus motivos e até suas excentricidades, perfeitamente naturais e em sintonia com os tempos.

O resultado é fascinante: ao juntar todos esses pequenos documentos que testemunham, muitas vezes obliquamente, a existência de um personagem e fazem-no real, parecendo ter existido além dos limites da imaginação da autora, Carol Shields deixa ao longo do caminho espaço suficiente para pequenas considerações sobre o magnífico milagre que é a sobrevivência de cada um; que é a superação das tragédias corriqueiras, das perdas e ganhos, que podem até parecer pequenos mas que para cada um de nós podem vir a ser gigantescas batalhas. Esse livro é um hino de alegria, um elogio ao ser humano que na sua pequenice, na sua vida comum, sem medalhas de mérito, sem prêmios de interpretação, consegue se superar e manter uma dignidade condizente com sua personalidade.  Esse romance está impregnado  com o maravilhoso prazer de viver, com o contentamento, o júbilo de uma vida imperfeita, frustrante e ainda assim significativa.   É leitura obrigatória para o enriquecimento da alma. 





Mariette em êxtase, de Ron Hansen

2 05 2010

 

 

Santa Teresa em êxtase, 1645-1652       [DETALHE]

Gian Lorenzo Bernini ( Itália, 1598-1680)

Escultura em mármore

Capela Cornaro, Igreja de Santa Maria della Vittoria, Roma.

Não sei exatamente porque escolhi recentemente a leitura  de Mariette em êxtase, [Editora Objetiva: 1996] romance do escritor americano Ron Hansen, um livro que já fazia moradia na minha estante há alguns anos.  Não sei tampouco como esse livro  “apareceu aqui em casa” tendo um perfil tão diferente do que costumo comprar.  Mas estou grata às circunstâncias que me levaram a ele, pois essa foi uma leitura cativante, rica e inesperadamente marcante.

A história se passa no início do século XX, no convento das  freiras Irmãs da Crucificação, no interior do estado de Nova York.  Mariette, uma bela jovem de dezessete anos, filha de um médico local, decide entrar para esse convento, o mesmo escolhido anos antes por sua irmã mais velha, também chamada para a vida monástica.  Mariette é uma jovem devota, extremamente espiritual, dada a sonhos e transes, que se realiza na vida doméstica e regrada das religiosas.  Com essa abertura, seria difícil imaginar que o cotidiano de um convento, com rotinas de orações, horas para meditação, jantares em silêncio seria evocado de tal maneira que ler o texto até o final poderia tornar-se uma obsessão tão aguda quanto se essa história fosse um conto de espionagem.

E é.  Foi assim que me senti.  Acho que esta é de fato uma história de quase espionagem, uma história de mistério.  Não da espionagem como a entendemos entre nações rivais, companhias multinacionais roubando novas idéias umas das outras.  Nem mesmo uma história de mistério com algum crime por resolver.  Mas há  semelhanças com a espionagem porque depois de seis meses de vida conventual Mariette recebe sinais de que suas preces e sua devoção são respondidas.  Sua fé talvez esteja sendo agraciada por poderes espirituais desconhecidos por meros mortais.   Agraciada por quem?  Como ela conseguiu esse canal de comunicação com o mundo espiritual?  Porque não qualquer outra freira do convento?  Fervorosa nas suas orações, zelosa ao manter suas penitências, obstinadamente dedicada à sua crença, Mariette é arrebatada por eventos fora de seu controle:  estigmas que aparecem em suas mãos, sangue que jorra de feridas no seu corpo.   Esse é o mistério que a abraça, que a faz diferente das outras irmãs. 

 

A natureza da diferença de Mariette em  relação às suas companheiras é o fator de divisão nessa pequena comunidade.  Devemos acreditar ou não nos sinais de fé da Mariette?  São verdadeiros ou forjados?   Logo, logo o convento se divide.  O mistério invocado pelos estigmas é onipresente,  devastador.  Nesse aspecto, o romance chegou a me lembrar do filme O anjo exterminador de Luís Buñuel (1962).  Não que haja perigo de morte para os habitantes do convento, mas a presença do mistério, do indescritível poder de uma força diferente, exterior, alienígena leva a revelações íntimas sobre as próprias freiras.  As conseqüências são as dúvidas sobre o próprio mistério, são a inveja, são as inseguranças de cada membro afloradas.  Tudo isso me lembrou forçosamente da parede invisível que condena os convidados de um jantar a uma clausura indefinível do filme mexicano.

O sucesso dessa narrativa deve-se principalmente à magnífica prosa de Ron Hansen, — em grande parte deixada intacta pela excelente tradução de Marcos Santarrita —  que não usa uma palavra a mais do que o necessário; que mantém até o final o enigma dos mistérios testemunhados pelos personagens e pelo leitor.  O ritmo da narrativa é fundamental nesse romance.  Determinado a não se acomodar a soluções fáceis e a dar ao leitor a opção de solucionar o que se passa por si mesmo, Ron Hansen consegue produzir uma pequena obra prima que nos leva a considerar a natureza da fé e do milagroso.  Esse é um livro fascinante.  De leitura rápida e bem ritmada, sua história fica na nossa imaginação sendo revivida de diversas formas, sendo aludida com freqüência.  Uma ótima leitura.

Ron Hansen





Papa-livros: O tigre branco de Aravind Adiga

19 04 2010

Andando de riquixá, 2003

J. Hossain

aquarela em preto e branco  — 35 x 55 cm

http://www.bengalartgallery.com

Passamos a semana em discussões sobre a possibilidade de os países do grupo BRIC – Brasil, Rússia, Índia e China  — formarem um acordo para juntos negociarem com os gigantes do primeiro mundo.  Isso me lembrou que em fevereiro deste ano, o meu grupo de leitura se dedicou ao romance vencedor do prêmio Man Booker em 2008:   O tigre branco de Aravind Adiga.  Como emprestei o livro imediatamente após a leitura, com forte recomendação, retardei sua resenha por dois meses, até poder reler algumas passagens.

Esse é um romance que se esbalda no humor negro e sarcasmo.  Retratada de início ao fim  está a história de Balram Halwai, que toma para si a incumbência de explicar através de longas cartas e com muita ironia —  para o Primeiro Ministro da China, que está com visita à Índia marcada para uma data próxima — “o mundo como ele é”, na Índia.  Não é nada bonita a realidade que Balram nos passa e da qual se intitula justo representante.  Esse homem, que fez de tudo, incluindo assassinar sem empregador para poder subir na vida, se apresenta como o verdadeiro indiano, produto de um sistema social arcaico, extremamente injusto e feito mais corrupto ainda depois da ocidentalização do país através do colonialismo inglês.  Nascido nas camadas sociais mais carentes – habitando um mundo quase invisível para os dirigentes do país, um lugar a que ele chama Escuridão–  ele explica como desde o dia em que veio ao mundo estava, assim como milhões de outros exatamente como ele, predestinado ao fracasso, subordinado às máfias locais, à corrupção dos dirigentes.

O grande trunfo desse romance, seu motor, está na narrativa.  O uso da primeira pessoa permite que desde o início os leitores se identifiquem com Balram, afinal, vemos o mundo através de seus olhos e mesmo que as ações, os valores descritos se mostrem desprezíveis, seu tom, a ingenuidade, a candura com que mostra seus mais deploráveis sentimentos, no deixa presos entre a simpatia e o desprezo.   No final, a narrativa é cativante:  ela seduz pela solidariedade. Não podemos evitá-la ao contemplarmos as sórdidas condições de vida de Balram; mas é uma narrativa que nos diverte também quando sua visão simplória do mundo nos mostra um outro ângulo: aquele das necessidades da sobrevivência.  Com essa mistura de pontos de vista somos obrigados a perpetuamente reconsiderar o que sabemos, não só sobre a realidade da Índia, mas temos que checar os nossos valores morais.  Há razão para assumirmos que eles são ou devem ser universais?

A ironia é mestra nessa narrativa.  A imensa pobreza incomoda e a naturalidade com que somos obrigados a aceitá-la machuca.   Mas é uma história de vitória, de sobrevivência, em termos diferentes daqueles que estamos acostumados a considerar, a ver, a aplaudir por exemplo no cinema americano.  Somos colocados diante dos mesmos paradigmas das histórias de menino pobre que chega a mega empresário apesar de todas as dificuldades que lhes são impostas. Mas o protótipo dessas histórias não é válido para essa realidade, a história de Balram é diferente, e temos que julgá-la e julgar os nossos preceitos, os nossos preconceitos e valores, apesar de, no final, os resultados serem muito semelhantes aos que conhecemos dos heróis cinematográficos. 

Aravind Adiga

Esse é um livro para ler e pensar.  Recomendo sem restrições.  Um dos melhores livros lidos recentemente.  Não perca tempo, abra suas páginas e garanto que a  leitura será inesquecível.





Eu a amava, de Anna Gavalda

17 02 2010

Nunca cheguei a ser uma boa jogadora de Bridge, apesar de gostar do jogo.  Mas joguei o suficiente para aprender a respeitar qualquer adversário capaz de finesse sua mão.  Esta expressão, vinda do francês, mas usada no mundo inteiro no jogo de Bridge,  se refere à maneira como um jogador consegue se livrar de cartas perigosas sem que seus parceiros o percebam.  Depois que aprendi a expressão e entendi a combinação de destreza e sutileza imbuídas no vocábulo, já a usei tantas vezes, em contextos tão diferentes, que acho inacreditável que não exista em português um verbo que expresse no todo a astúcia e finura de gesto, que combinadas dão peso à palavra.

É natural então que essa expressão francesa seja a que me vem à mente no fim da leitura do livro Eu a amava, da autora Anna Gavalda [Record:2002], nascida em Boulogne-Billancourt, em Île de France.  Isso porque sua prosa demonstra uma habilidade de escrever carregada de grande sutileza, que consegue retratar o mais corriqueiro dos temas – histórias de amor que não deram certo – com astúcia e perícia.  Seu retrato dos sentimentos mais corriqueiros, mundanos, pequenos, acabrunhantes,  que nos afligem na hora da perda de um amor é composta de maneira tão singular, bem humorada e livre de sentimentalismos, que merece grande admiração.  E mais, seu romance oferece um penso para almas feridas, um curativo para a emoção exposta do amor não correspondido. 

O enredo é tão simples quanto a linguagem usada: uma mulher, abandonada pelo marido, vai com suas duas filhas e o sogro, Pierre Dippel, para a casa de campo deste.  Traída, sofrida, com o coração em pedaços, Chloé deixa à mostra toda sua infelicidade e revolta.  Seu estado de espírito pode ser resumido na frase: O perigo é pensar que temos o direito de ser felizes.   Pierre Dippel que até então havia se mostrado um homem reservado, aparentemente insensível, revela, para surpresa da nora, uma grande história de amor na qual foi um dos personagens principais.  E com essa lembrança de um amor perdido, Pierre Dippel acalenta a nora e a si próprio, tranqüiliza-a sobre o futuro, consola-a com o exemplo, serena seus sentimentos, nutre suas esperanças, alimenta sua alma.  No todo são 170 páginas, quase todas de diálogos que formam esta leitura comovente, às vezes irônica, bastante sutil.  Não é a toa que, com esse romance, Anna Gavalda tenha conquistado os leitores franceses; surpresa é que sua obra não tenha ainda sido “descoberta” pelos leitores brasileiros, que ainda não a abraçaram na proporção gigantesca com que foi recebida e aplaudida na França.

Anna Gavalda

Este não é o primeiro livro de Anna Gavalda que leio.  Há uns poucos anos li  Enfim, juntos [Rocco: 2006], um volume que corrobora a insinuante prosa da autora.  Há, no entanto, uma característica entre esses dois romances: a troca de experiências entre diferentes gerações, que me parece um motivo, um padrão freqüente nas criações francesas mais recentes.  Essa troca de experiências entre pessoas e gerações distintas está presente também nos filmes:  Um lugar na platéia, 2006, [Fauteuils d’orchestre] de Danièle Thompson; O fabuloso destino de Amélie Poulain, 2001, [Le fabuleux destin d’Amélie Poulain] de Jean-Pierre Jeunet; e também no romance, A elegância do ouriço [Cia das Letras: 2008] de Muriel Barbery.  É claro que a minha mostra é pequena e provavelmente irrelevante, no entanto fica aqui o registro de que além da apurada sensibilidade que se estende por muitos dos romances franceses atuais, — e aqui ainda posso adicionar Casas de família de Denis Tillinac [A Girafa: 2005] e  Um toque na estrela de Benoîte Groult [Record: 2008]–  há um tema ímpar, único e inexistente nos romances de outros países: o retrato benfazejo da comunicação entre diferentes gerações, o relacionamento positivo entre jovens e pessoas de uma ou duas gerações mais velhas.  Esse tema parece trazer uma nova perspectiva na produção literária e cinematográfica da França atual.  Um tema bem-vindo, positivo, confiante, útil, que muito enriquece textos e leitores.  Uma atitude diametralmente oposta ao eterno conflito de gerações, representado com grande minúcia nas literaturas norte-americana e brasileira, entre outras, que chega às vezes a um retrato narcisista e vaidoso de jovem escritores.  Essa troca de experiências, no romance de Anna Gavalda, é apurada e escrupulosa, retratada com vigor e entusiasmo. Vale a leitura de Eu a amava.

 

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Nota sobre a edição brasileira:  Li este livro novo.  Nenhum outro leitor havia ainda manuseado o volume.  No entanto, ao final da leitura, tive em mãos um livro cujas páginas se soltaram, cujo dorso teimou em querer se descolar e cujos pontos de alinhavo pareceram feitos em linha muito grossa, incompatível com o peso do papel em que foi impresso.  As páginas mostraram o desejo de voarem para fora do volume, sendo picotadas pelo cordão que as segurava ao dorso.   O livro foi  composto na tipologia Aldine 721 em corpo 12/26 e impresso em papel off-set 90g/m² no Sistema Cameron da Divisão Gráfica da Distribuidora Record.  Tive que colar de volta diversas páginas do livro.  É inacreditável que uma editora, tão grande como a Record, não tenha se esforçado para manter um mínimo de controle de qualidade.  Fica aqui o meu protesto pelo desprezo que a companhia demonstrou pelo leitor e pela autora.





As fogueiras do rei, romance histórico de Pedro Casals

8 02 2010

O tribunal da inquisição, 1812-1814

Francisco Goya (Espanha, 1746-1828)

Museu da Real Academia de São Fernando, Madri

 

Como estudante de mestrado em história da arte participei de um seminário sobre Goya.  Foi o meu primeiro grande contato com a  cultura espanhola.  Naquela época, para trabalhar com a iconografia desse pintor, li  diversos clássicos da literatura espanhola, uma das mais ricas em textos do século XVI ao XVII, os séculos de ouro.  Mas, depois dessa época, só ultimamente tive  a oportunidade  de  rever  e de conhecer alguns clássicos daquele país.

Foi com grande prazer, então, que me entretive com o livro de espionagem de Pedro Casals, intitulado As fogueiras do rei, [Record: 1990].  Apesar de ter sido publicado há vinte anos é um livro que, por ser um romance histórico, não perdeu a atualidade.  Ao que eu saiba, é o único romance do escritor publicado no Brasil, ainda que com o livro La Jerenguilla Casals tenha sido finalista para o prêmio Planeta de 1986 e em 1989 com este  romance aqui discutido.  Em 1992 ganhou o prêmio Ateneu de Sevilha, com o livro: El infante de la noche.

 

As fogueiras do rei  não é só um romance histórico, mas um romance de intriga palaciana, numa época crucial da cultura espanhola.  Uma época importante, simultaneamente para a Inglaterra,  Portugal e até mesmo o Brasil, porque além de tratar da Inquisição, retrata também o período anterior à invasão holandesa no Brasil, ou seja anterior à coroa de Portugal passar para as mãos espanholas.  Desse modo podemos entender com maior clareza  a interdependência dos países europeus, através das ligações matrimoniais  entre diversas famílias reais.  A história se passa no final do século XVI durante o reinado de Felipe II (1527-1598).

Princesa de Éboli, desconheço a autoria.

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Sinceramente, eu não sabia muito a respeito de Felipe II.  Lembrava-me de um retrato dele feito por Ticiano. [Essa é uma das falhas do historiador da arte, às vezes só conhecemos a história por causa das pinturas de época]!   Mas, corrigindo qualquer falha anterior, aprendi, com esse romance um pouco mais sobre Felipe II.  Familiarizei-me com sua vida, suas preocupações e suas conquistas amorosas.   E, principalmente, com a Princesa de Éboli, Doña Ana Mendoza y de La Cerda, uma das grandes aventuras amorosas do rei, que deve ter sido uma mulher fascinante: mesmo tendo tido um ferimento no olhos direito e obrigada a usar uma venda ,  Ana de Mendoza era de uma beleza a que poucos podiam resistir.  Teve dez filhos e uma enormidade de amantes.  É verdade, que para ajudá-la havia muito poder e grande fortuna já que era a  única herdeira de uma poderosa casa nobre da Espanha   E ela é uma das  personagens centrais na trama que se desenrola em As fogueiras do rei.

Felipe II da Espanha e de Portugal,  c. 1550

Ticiano  Vecellio, dito Ticiano  (Itália, c. 1490-1576)

Óleo sobre tela, 185 x 103 cm

Sala da Ilíada,  Palácio Pitti,  Florença

Um auto da fé é a cena em torno da qual a história se desenrola.  Assistindo às punições dos hereges,  está um grupo de especialistas em espionagem e contra-espionagem representando diversos interesses da política interna e externa do reinado.  O leitor acompanha as intrigas e  tentativas mais variadas para a subida ao poder desde a coroa da Inglaterra,  ao meio-irmão de Felipe II, filho bastardo de Carlos V,  D. João da Áustria.  Mas mais interessante ainda do que essa intriga palaciana é o entendimento com que saímos, após a leitura do livro, não só dos judeu-portugueses, dos marranos, dos cristão-novos, mas  suas preocupações e meios de sobrevivência.  E acima de tudo, nos enfronhamos na Inquisição na Espanha para desvendar que ela não foi só uma maneira de estabelecer  o domínio da Igreja Católica contra a religião muçulmano, ou contra os judeus, mas foi, também, uma maneira de evitar o crescimento dos ensinamentos de Lutero, que ameaçavam  tornarem-se populares.  Além disso, fica claro o modo da Inquisição, com suas práticas subjetivas,  deter a subida da burguesia,  um interesse da realeza que o Vaticano protegia das ameaças que a nobreza considerava perigosas, nos exemplos vindos dos Países Baixos, onde a burguesia subia e tomava conta do poder.  Essa  era a preocupação da nobreza, era um futuro, que sem os ensinamentos da Igreja Católica,  poderia vir a acontecer e derrubar o poder das grandes casas nobiliárquicas, mesmo que, na Península Ibérica, estas tivessem muito sangue judeu.

Pedro Casals

Curioso, também,  foi saber que apesar de haver muitos hábitos e costumes considerados desrespeitosos à Igreja,  esses mesmos costumes eram praticados pela realeza e pela classe dominante: astrologia, leituras dos textos de Erasmo,  simpatias as mais diversas oriundas de crendices ligadas às bruxarias.   E aos poucos podemos fazer uma pequena lista das obras impressas, que preenchiam os gabinetes de leitura da nobreza e que eram proibidas pela Santa Inquisição, só para perceber que elas incluem os grandes clássicos da literatura não só espanhola como da portuguesa:  Amadis de Gaula, Palmerim de Inglaterra, Obras de Teresa d’Ávila, Lazarillo de Tormes, A Celestina: tragicomédia de Calixto e Malibeia,  Elogio da Loucura de Erasmo de Roterdão, e assim por diante.

Mais do que um romance de espionagem, As fogueiras do rei é um excelente romance histórico, que leva o leitor a considerar os acontecimentos do século XVI na Espanha sob um novo olhar, um olhar de dentro.   Quem está à procura de um romance que vai além de uma mera distração,  um romance que enriquece o leitor com os detalhes históricos coletados, Pedro Casals oferece bastante conteúdo para um aprendizado rápido e compreensivo.





A solidão dos números primos, de Paolo Giordano

3 02 2010

 

Há tempos eu não lia compulsivamente.  Em geral leio de dois a três livros simultaneamente, mas confesso que no mês de janeiro houve duas narrativas, completamente distantes uma da outra que não me deixaram dividir meu tempo livre com qualquer outra história.  Foram leituras sedutoras do início ao fim e que pediram e ganharam a minha total atenção enquanto leitora:  O tigre branco, de Aravind Adiga [Nova Fronteira: 2008] e A solidão dos números primos de Paolo Giordano [Rocco: 2008].  Hoje vou me concentrar no livro italiano.

Eu não teria acreditado, se me dissessem, que eu iria me interessar, que iria ler apaixonadamente, um romance que tratasse das vidas de pessoas muito complexas,  que carregavam traumas da infância.  Pessoas que cresceram no meio de famílias ineptas, que não conseguiam lhes dar atenção.  Famílias, pais, que  não notam  as  carências dos filhos, que os deixam sofrer distúrbios emocionais.  Essa descrição dos dois principais personagens de A solidão dos números primos, Alice e Mattia, teria simplesmente feito com que eu fechasse o livro e dito: Não sei se me encontro num momento emocional para ler sobre este tipo de tragédia Ando a procura de uma história mais branda…  Que erro eu teria cometido!  Porque não teria sido apresentada a esta história maravilhosa, a este livro sedutor.

Mas aí entra a arte deste recém descoberto escritor, Paolo Giordano.  Sua primeira profissão é a física. É formado em Física pela Universidade de Turim, onde ganhou uma bolsa de doutoramento em Física de Partículas. A segunda profissão, só agora começada, é a de escritor.  Não sei se uma tomará a frente da outra.  Numa entrevista à revista Elle, o escritor, que foi agraciado com o maior prêmio literário da Itália, o Prêmio Strega, em 2008,  por este primeiro romance, com o qual também recebeu uma menção honrosa do Prêmio Campiello no mesmo ano,  garante que gosta mais de escrever.  Espero que sim, pois revelou uma voz única e bem sucedida. 

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Parte do sucesso dessa narrativa vem da revelação, muito bem descrita, dos sentimentos de inadequação dos adolescentes, sentimentos que serão permanentes em cada um dos protagonistas.  Alice e Mattia têm essa inadequação elevadíssima: conseqüência do sofrimento físico ou psicológico sofrido por cada um na infância.  Vivem em extrema solidão, mesmo sendo membros de famílias confortavelmente estabelecidas na classe média.  Acompanhamos suas vidas de 1983 a 2007.  Enquanto Mattia, que tem o perfil de um gênio, se refugia na matemática, onde consegue se realizar – porque nela sentimentos não são necessários; Alice encontra abrigo na anorexia, onde se sente confortável emocionalmente, habituada que está à ausência dos alimentos emotivos de que sua alma, seu espírito, precisa.  Ambos são ímpares em seus respectivos casulos emocionais e é exatamente isso o que os aproxima e o que nos aproxima dos personagens. 

Fato é que  conhecemos estes personagens.  Se não são nossos filhos, irmãos, primos ou sobrinhos, estão no círculo de amigos, amigos de amigos, filhos de amigos, companheiros com quem nos relacionamos.  Reconhecemos alguém próximo e com a narrativa sedutora, rápida e contemporânea de Paolo Giordano seria difícil não nos aproximarmos emocionalmente, não acharmos Alice e Mattia fascinantes.

Paolo Giordano

Dizer que a matemática tem poesia é lugar comum.  Mostrá-la é único!  Neste livro a matemática é usada como metáfora, magistralmente: Os números primos são divisíveis apenas por um e por si mesmos.  Estão em seus lugares na série infinita dos números naturais, comprimidos entre dois, como todos, mas um passo adiante em relação aos outros.  São números suspeitos e solitários, e por isso Mattia os achava maravilhosos.  E nas mãos hábeis de Paolo Giordano, nós também achamos os números primos maravilhosos. 

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Leia.  Não se arrependerá!





Cabine para mulheres, Anita Nair

5 01 2010

Início de ano prolongado…  Estou aproveitando o tempo para limpar o escritório e colocar coisas em ordem.  Assim, antes de descartar algumas resenhas que foram feitas para outros fins, que não o blog, venho aqui postá-las para não perder de todo o controle do que li, e das minhas reações a certas leituras.

Este foi um livro fascinante que li recentemente.  Excelente!  Tem uma narrativa apoiada no entrelaçamento de seis histórias diferentes.  Todas elas envolvem mulheres e apresentam o perfil de cada uma delas com suas limitações, esperanças, preocupações e dão uma idéia, não explícita mas clara, de seus desejos. 

A história de Akhila, uma mulher de 45 anos, que procura um pouco de felicidade na vida, é o fio que nos leva de uma a outra mulher.  Ela nos direciona pela mão através do livro e, de fato, curiosos de seu destino, sabendo que ela terá que tomar decisões difíceis, vamos até o fim do romance.   O denominador comum entre todas as histórias que desvendamos é o universo das experiências femininas.

Através do texto somos convidados a considerar se diferenças culturais ou regionais não são de fato só um cosmético, só uma desculpa talvez para considerarmos as experiências dos outros diferentes das nossas.   O que descobrimos, — e que certamente já era conhecido por nossa intuição – é que quer essa mulher quer seja Akhila, na Índia, Nicole na França, Mary Ann nos Estados Unidos ou  Teresa no Brasil, elas todas têm histórias que se assemelham, e diferenças que se apagam ao considerarmos o todo. 

O título do livro se refere a um costume indiano que foi abolido em 1998 que segregava balcões especiais para mulheres, para a 3ª idade e para as pessoas com necessidades especiais nas estações de trem da Índia.  Nos trens com viagens que atravessavam a noite, vagões especiais na segunda classe eram reservados para mulheres.   Baseado neste espaço reservado às mulheres, a história lembra desta prática de dar às mulheres um espaço reservado longe dos olhos masculinos, como hoje em dia foi instalado no metrô do Rio de Janeiro.    Este vagão para mulheres abria a possibilidade delas falarem a respeito de seus casamentos, de suas vidas, longed a observação de seus maridos.  A artimanha de contar suas histórias começa exatamente quando Akhila, sobre num desses vagões e se prepara para uma longa viagem.  Aos poucos vamos conhecendo a vida das passageiras.

Anita Nair

 

Este é um livro repleto de mulheres fortes que pegaram as rédeas de suas vidas com as próprias mãos e saíram para conquistar seu lugar, por menor que ele fosse.   Mesmo pequenino esse espaço conquistado foi uma vitória, talvez até nem tão grande quanto elas tivessem sonhado, talvez até muito pequeninos por padrões de outras vidas, mas cada qual ganhou mais poder sobre sua própria existência.  Elas sofrem as consequencias desta liberação,  muitas vezes consequencias que nos parecem injustas, mas mais importante que isso, elas VIVERAM! 

Este livro liberta a alma feminina.  Cinco estrelas.

24/02/2006





Alguém para correr comigo, de David Grossman

4 01 2010

Ilustração, Eva Furnari.

Início de ano prolongado…  Estou aproveitando o tempo para limpar o escritório e colocar coisas em ordem.  Assim, antes de descartar algumas resenhas que foram feitas para outros fins, que não o blog, venho aqui postá-las para não perder de todo o controle do que li, e das minhas reações a certas leituras.

Quando lemos Alguém para correr comigo, no nosso grupo de leitura, esperávamos um outro tipo de livro de David Grossman.  Esperávamos, com certeza, algo mais político, dadas as informações que tínhamos sobre o autor.  De modo que todos ficamos surpresos de nos encontrarmos envolvidos numa aventura moderna, liderados pelo faro de uma cachorro adorável, o personagem principal deste livro, que peregrina através dos capítulos, unindo dois adolescentes, que em circunstâncias normais jamais teriam se encontrado.

 

No início, é um pouco difícil seguir a narrativa, porque os capítulos parecem, desde o início, não ter nada a ver um com outro.  De um rapazinho com um cachorro, passamos a uma adolescente que obviamente faz parte de uma missão que não entendemos.   Os períodos no tempo também são diferentes.  Então, David Grossman confia no seu taco de escritor e pede ao leitor, que confie no seu estilo de narrativa, que o acompanhe numa aventura que não sabemos onde nos levará, da mesma forma que nosso jovem herói, segue os caminhos tortuosos da cidade, escolhidos pelo cachorro, atrás de sua verdadeira dona.  

Há nessa história uma gama grande e  bem caracterizada de personagens de apoio, que dão ao leitor um melhor compreensão do contexto das vidas desses adolescentes retratados; e também conseguimos facilmente conhecer a maneira como nossos jovens heróis pensam.  David Grossman certamente conhece adolescentes.  Sabe o que eles pensam de suas famílias, de seus grupos, e como conseguem ser criativos quando precisam encarar um mundo incompreensível,  perigoso e aterrorizador.

David Grossman

 

Outro ponto de interesse na narrativa foi descobrirmos a vida diária em Jerusalém, coisa que às vezes esquecemos que ocorre normalmente, regular e previsível, quando todo o nosso maior contato com a cidade, vem dos noticiários de guerras, que cobrem ações de terrorismo, e homens-bomba. 

Apesar de todos nós no grupo de leitura termos gostado do livro, ainda acredito que este livro seria melhor apreciado por jovens leitores e adolescentes.

02/03/2006  — postada na Amazon.





Travessuras da menina má, de Llosa

4 01 2010

Café em Montparnasse, Paris

David Azuz ( Israel, 1942)

Lito

Início de ano prolongado…  Estou aproveitando o tempo para limpar o escritório e colocar coisas em ordem.  Assim, antes de descartar algumas resenhas que foram feitas para outros fins, que não o blog, venho aqui postá-las para não perder de todo o controle do que li, e das minhas reações a certas leituras.

Travessuras da menina má não foi o meu primeiro romance de Mário Vargas Llosa.  Através dos anos eu já me apaixonei por Tia Júlia e o Escrevinhador, — minha apresentação ao autor –, por Conversas na Catedral, Palomino Molero e alguns outros títulos.   Travessuras da menina má mostrou logo, desde o início, os bons dotes de narrativa de Llosa, já conhecidos, que fazem seus livros fáceis de serem lidos de uma ponta à outra.  Ele tem um ritmo fascinante, que também é característico dos trabalhos que conheço, um ritmo que não deixa o leitor se cansar do assunto ou até mesmo do personagem.  Na verdade, Llosa é tão suave na narrativa que seduz o leitor desde a primeira página.

 

No entanto, neste livro os personagens principais  me incomodaram.  Porque a menina má é muito má. E o nosso herói, ou talvez eu deva dizer o nosso anti-herói, Ricardo, é um mosca-morta, não tem punho, vontade própria ou orgulho.    Assim, com um par de personagens com os quais eu não me importava, levei algum tempo para chegar a ter prazer com a leitura desse texto, cuja questão principal é:  o que é o amor?  Como ele se manifesta?  E as perguntas que produzem o nosso diálogo com esta história, só podem começar com esta questão central.  O que é o amor?

O amor é algo que necessite da dedicação, da subjugo de um ego ao outro?   É o amor algo que precise ser tão total, que nos leve a ir contra a nossa própria  sobrevivência?  São perguntas que nos perseguem,  os seres humanos, desde que nos conhecemos.  Perguntas que são de interesse nosso, e que valem a pena serem respondidas.

Mario Vargas Llosa

 

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Cheguei a ver, em outros lugares e na internet reclamações sobre a reconstituição das diferentes décadas da segunda metade do século XX em que a história se passa.  Dizem que há erros de localização, de datas específicas como: “quando esta moda foi sucesso em Londres”;  “se este ou aquele restaurante estava corretamente localizado em Paris”.  A preciosidade dessas perguntas é coisa de intelectual da torre de marfim, quase que um jogo de perguntas e respostas admirado por estudantes de pós-graduação.   Mario Vargas Llosa não está escrevendo História.  Não há nenhum aviso: “ esta reconstituição de Paris, nos anos… é absolutamente verídica e documentada”.  A um escritor como ele, um romancista, temos que dar maior espaço;  no todo acho que ele foi além do necessário para trazer às nossas mentes o espírito das épocas, das diversas décadas,  em que nossos personagens viveram.

Por causa da importância das perguntas tecidas no texto, sobre o amor e suas conseqüências, sobre as diferenças entre o amor e a paixão, entre a paixão e obsessão, creio que este livro, assim como muitos de seus outros romances, será letura obrigatória para aqueles que interessados em questões pertinentes à  nossa existência.

01/12/2006