Concerto campestre: Luiz Antonio de Assis Brasil

13 07 2008

 

Kiko Medeiros (RS, Brasil 1955) Músicos, A/T

Kiko Medeiros (RS, Brasil 1955) Músicos, A/T

 

Concerto Campestre é um livro sedutor que permanece na nossa imaginação por muito tempo depois de termos acabado sua leitura.  É uma história que cobre duas das maiores paixões brasileiras:  música e o amor proibido.  Luiz Antonio de Assis Brasil mostra como o preconceito racial funcionava no século XIX;  também retrata eloqüentemente  o vazio da vida levada pelas mulheres da época,  que nascidas e criadas nas fazendas, eram em geral analfabetas.   Elas tinham muito pouco com que se distrair, e como herdeiras de terras, não pertencendo à classe trabalhadora,  não lhes era permitido dedicarem-se a trabalho nenhum.

 

Assis Brasil mostra crenças e preconceitos arraigados no interior, no Rio Grande do Sul rural do século retrasado.   O estado, terra dos gaúchos, solo fértil da grama alta e florida dos pampas, da criação de gado e de grandes fazendeiros — famosos por sua rebeldia e independência — é mostrado com acuidade e poesia nestas páginas, mesmo que vejamos o retrato da educação quase nula, não existente mesmo, rude,  dos donos da terra; e nos familiarizamos com a mentalidade estreita e as regras das tênues diferenças de classes sociais, não só na região austral do país mas também vivenciadas na maior parte do interior do país.

 

A história gira em torno de um senhor da terra que decide ter uma pequena orquestra para concertos ao ar livre.  Ele contrata um conhecido maestro, mulato, que após se estabelecer na fazenda começa a organizar um grupo de músicos, com o objetivo de construir a tão sonhada pequena orquestra do fazendeiro.    Este maestro seduz não só a burguesia do local com sua música, surpreendendo todos os fazendeiros vizinhos, mas também conquista e é conquistado pela filha de seu patrão.    Ela é inteligente, apesar de analfabeta.  E está ciente da vida estéril que a espera, no casamento arranjado pelos pais com o filho de um fazendeiro local.  Ela percebe este casamento como uma das piores coisas que poderiam lhe acontecer.  E aceita o amor do maestro com gosto e reciprocidade.  

 

A história é narrada com muita leveza: o que não é dito pode ser mais importante do que o que se encontra no papel.  É uma história quase escrita nas entrelinhas.  As elipses que ocorrem são não só preocupantes como eloqüentes.  Assim, Assis Brasil mostra a mão do bom escritor que é; controlando ambos texto e história,  sem hesitação.  Este é um romance pequeno, de apenas 176 páginas, que vai muito longe.  É  uma janela descortinando o inconsciente brasileiro.  Certamente sobreviverá no tempo, tornando-se um clássico, porque fala da alma brasileira.

 

 

 

Concerto campestre, Luiz Antonio de Assis Brasil, L&PM: 1997, Porto Alegre

 

 

 

Este texto apareceu primeiro em inglês, há dois anos, no portal: living in the postcard.

Luiz Antonio de Assis Brasil
Luiz Antonio de Assis Brasil





Vozes dos animais, poema de Pedro Diniz

13 07 2008
Animais da fazenda, ilustração de Steve Morrison

Animais da fazenda, ilustração de Steve Morrison

 

 

VOZES DOS ANIMAIS

 

Muge a vaca; berra o touro;

Grasna a rã; ruge o leão;

O gato mia; uiva o lobo;

Também uiva e ladra o cão.

 

Relincha o nobre cavalo;

Os elefantes dão urros;

A tímida ovelha bala;

Zurrar é próprio dos burros.

 

Sabem as aves ligeiras

O canto seu variar:

Fazem às vezes gorjeios

Às vezes põem-se a chilrar.

 

Bramam os tigres, as onças;

Pia, pia o pintinho;

Cucurica e canta o galo;

Late e gane o cachorrinho.

 

A vitelinha dá berros;

O cordeirinho, balidos;

O macaquinho dá guinchos;

A criancinha vagidos.

 

 

Pedro Diniz

 

 

 

Criança brasileira, Theobaldo Miranda Santos, Agir: 1950, Rio de Janeiro





João e Maria, poesia infantil de Martins D’Alvarez

12 07 2008

 

JOÃO E MARIA

 

João e Maria,

todos os dias.

saíam cedo

pelos caminhos.

Maria em busca

de borboletas,

João à procura

de passarinhos.

Porém um dia

João e Maria

atrás dos bichos

tanto correram,

que não souberam

voltar pra casa;

viram, chorando,

que se perderam.

E os dois, rezando

pediram a Deus

que os conduzisse

para seus pais,

que eles juravam

com borboletas

e passarinhos

não mexer mais.

E Deus, ouvindo-os,

mandou que um anjo

a casa os guiasse

pelos caminhos.

E os dois meninos

não mais mexeram

com as borboletas

e os passarinhos.

 

 

Martins D’Alvarez  ( 1904 – ?)

 

Poema no livro: Leituras Infantis, Theobaldo Miranda Santos, Agir: 1962, Rio de Janeiro

  

 

Martins D’Alvarez                                                         

 

 

Nasceu na cidade de Barbalha, Estado do Ceara, em 14 de setembro de 1904.

Filho de Antonio Martins de Jesus a de Antonia Leite da Cruz Martins. Fez

os estudos primarios na sua cidade natal, os secundários, no Liceu do Ceara.

Formou-se em Odontologia.. Transferiu desde o ano de 1938 a sua residência

para o Rio de Janeiro, onde exerceu, além de atividades na imprensa, atividades

no magistério superior.

Livros publicados:

“A Ronda das horas verdes”, 1930 (versos).

“Quarta-feira de cinzas”, 1932 (novela).

Menção honrosa da Academia Brasileira de Letras.

“Vitral”, 1934 (Poemas).

“0 Norte Canta”, 1941 (poesia popular).

“No Mundo da Lua”, 1942 (poesia para crianças).
 
 Outros poemas de Martins d’Alvarez neste blog:

 

 

 

 

 





A pesca das estrelas — Wilson W. Rodrigues

11 07 2008

Céu estrelado, 2007, Douglas Soares ( MG, Brasil)

Céu estrelado, 2007, Douglas Soares ( MG, Brasil)

 

Hoje, arrumando uma prateleira de livros que quase não uso, deparei-me com um volume comprado num sebo, de Wilson W. Rodrigues, poeta brasileiro, sobre quem sei muito pouco.  Não tenho nenhuma de suas poesias, mas além de poeta, Wilson W. Rodrigues foi um folclorista, arrecadando histórias e compilando-as.  Aproveito para repassar aqui um trechinho mínimo encontrado pela manhã.

 

 

 

 

 

 

 

 

A PESCA DAS ESTRELAS

 

            Pai João menino foi à pescaria.  E estava alegre porque os negros diziam que iam pescar estrelas na lagoa onde morrera o Quiçambé.

            Quando chegaram, as águas do lago estavam cheinhas de estrelas.  Tomaram as canoas e jogaram as redes.

            — A pesca vai ser boa.

            O moleque só queria uma estrela ou uma estrelinha.

            Quando puxaram a rede, ela veio cheia, mas todas as estrelas se transformaram em peixes.

 

 

Pai João menino, de Wilson W. Rodrigues, Editora Publicitan (Coleção Mãe Maria, vol.2): s/d, Rio de Janeiro, página 97.  [texto datado, Distrito Federal, 1949]

 

 

Wilson Woodrow Rodrigues, nasceu em 1916 em Salvador, BA.  Foi poeta, folclorista e jornalista.

Obras:

 

A caveirinha do preá,  Arca ed.: s/d, Rio de Janeiro

Desnovelando, Arca ed., s/d, Rio de Janeiro

O galo da campina, Arca ed,: s/d, Rio de Janeiro

O pintainho, Arca ed.: s/d, Rio de Janeiro

Por que a onça ficou pintada, Arca ed:s/d, Rio de Janeiro

A rãzinha, Arca ed:s/d, Rio de Janeiro

Três potes, Arca ed:s/d, Rio de Janeiro

O bicho-folha, Arca ed:s/d, Rio de Janeiro

A carapuça vermelha, Arca ed:s/d, Rio de Janeiro

Bahia flor, 1948 (poesias)

Folclore Coreográfico do Brasil, 1953

Contos, s/d

Contos do Rei-sol, s/d

Contos dos caminhos, s/d

Pai João, 1952

 

 





João Bolinha virou gente: Apresentação – Vicente Guimarães

8 07 2008

 

 

João Bolina não quer estudar  -- Ilustração de Rodolfo

João Bolinha não quer estudar -- Ilustração de Rodolfo

APRESENTAÇÃO

 

Sabem quem eu sou?  João Bolinha,

Boneco desengonçado;

Com quem brincar eu não tinha.

Pois vivia desprezado.

 

Entre a turma tagarela

Era um boneco prudente;

Um dia, que coisa bela!

Com a luz do sol, virei gente.

 

De boneco de bolinha

Passei a ser um menino,

Mudou-se toda, todinha

A rota do meu destino.

 

Terei lucrado ou perdido?

Não posso lhe responder:

Depois de o livro ter lido,

Tudo você vai saber.

 

Que lhe sirva de lição

Esta simples vida minha;

Eis o que, de coração,

Lhe deseja o João Bolinha.

 

 

João Bolinha virou gente, Vicente Guimarães (Vovô Felício), Editora Minerva: s/d,  Rio de Janeiro, página 5.

 

 

 

 

 

 

 

Ilustração:  Rodolfo, Rio de Janeiro

 

Vicente de Paulo Guimarães ( MG 1906-1981) Poeta, contista, biógrafo, jornalista, autor de Literatura Infanto-Juvenil (1979), funcionário público, educador, membro da Academia Brasileira de Literatura (1980), prêmio Monteiro Lobato -ABL (1977).

 

 





Suícidio ou assassinato de Cláudio Manoel da Costa?

4 07 2008
Maysa de Castro

Mariana, MG — foto: Maysa de Castro

 

Hoje é aniversário de morte  — 219 anos — de Cláudio Manoel da Costa, (Mariana, MG, 5/6/1729 — Ouro Preto, MG, 4/7/1789),  poeta brasileiro e inconfidente.  Nasceu nos arredores da cidade de Mariana, no Sítio de Vargem do Itacolomi, em Ribeirão do Carmo. Fez os primeiros estudos em Vila Rica; veio depois para o Rio de Janeiro, onde cursou Filosofia no Colégio dos Jesuítas.  Aos 20 anos, foi estudar em Portugal, na Universidade de Coimbra, onde se diplomou em Cânones, em 1753.   Exerceu a advocacia, tornando-se excelente jurista, bastante renomado e abastado fazendeiro, senhor de três fazendas.  Foi juiz medidor de terras da Câmara de Vila Rica.  Exerceu o cargo de procurador da Coroa e desembargador.  Por incumbência da Câmara de Ouro Preto elaborou “carta topográfica de Vila Rica e seu termo” em 1758. Foi secretário do Conde de Bobadela, Gomes Freire de Andrade, ( Alentejo, 1685 — Rio de Janeiro, 1763), militar português e governador de Minas Gerais.  Cláudio Manoel da Costa, também escreveu sob o cognome de Glauceste Satúrnnio, nome árcade, que adotou depois de fundar a Arcádia Ultramarina.  Membro da Conspiração Mineira, que pregava a independência de Minas Gerais do domínio português, acusado pela Devassa, foi preso e interrogado uma só vez pelos juizes de Alçada, no dia 2 de julho de 1789.   Morreu na prisão, na Casa de Contos, em Vila Rica hoje, Ouro Preto.  Se foi assassinado ou se realmente cometeu o suicídio aos 60 anos enforcando-se na cadeia, ainda é um assunto debatido por historiadores até os dias de hoje.   Excelente poeta, Cláudio Manoel da Costa, mantém  a tradição de Luiz Vaz de Camões na poesia, mas serve de conexão entre a poesia Barroca brasileira e o Arcadismo.

 

É o patrono da Cadeira n. 8, na Academia Brasileira de Letras,  por escolha do fundador Alberto de Oliveira.

Morreu solteiro.  Deixou filhos naturais.

TRÊS SONETOS 

 

 

LXXX

 

Quando cheios de gosto, e de alegria

Estes campos diviso florescentes,

Então me vêm as lágrimas ardentes

Com mais ânsia, mais dor, mais agonia.

 

Aquele mesmo objeto, que desvia

Do humano peito as mágoas inclementes,

Esse mesmo em imagens diferentes

Toda a minha tristeza desafia.

 

Se das flores a bela contextura

Esmalta o campo na melhor fragrância,

Para dar uma idéia da ventura;

 

Como, ó Céus, para os ver terei constância,

Se cada flor me lembra a formosura

Da bela causadora de minha ânsia?

 

Cláudio Manuel da Costa

 

 

 

XXXIII

 

Aqui sobre esta pedra, áspera, e dura,

Teu nome hei de estampar, ó Francelisa,

A ver, se o bruto mármore eterniza

A tua, mais que ingrata, formosura.

 

Já cintilam teus olhos: a figura

Avultando já vai; quanto indecisa

Pasmou na efígie a idéia, se divisa

No engraçado relevo da escultura.

 

Teu rosto aqui se mostra; eu não duvido,

Acuses meu delírio, quando trato

De deixar nesta pedra o vulto erguido;

 

É tosca a prata, o ouro é menos grato;

Contemplo o teu rigor: oh que advertido!

Só me dá esta penha o teu retrato!

 

Cláudio Manuel da Costa

VII

 

Onde estou? Este sítio desconheço:

Quem fez tão diferente aquele prado?

Tudo outra natureza tem tomado;

E em contemplá-lo tímido esmoreço.

 

Uma fonte aqui houve; eu não me esqueço

De estar a ela um dia reclinado:

Ali em vale um monte está mudado:

Quanto pode dos anos o progresso!

 

Árvores aqui vi tão florescentes,

Que faziam perpétua a primavera:

Nem troncos vejo agora decadentes.

 

Eu me engano: a região esta não era:

Mas que venho a estranhar, se estão presentes

Meus males, com que tudo degenera!

 

Cláudio Manuel da Costa

 





Mulheres lêem mais do que os homens

1 07 2008

 

José Ferraz de Almeida Jr (Brasil,1850-1899) Moça com livro, 1879, MASP

 

 

 

 

José Ferraz de Almeida Jr. (Brasil, 1850-1899) Moça com livro, 1879, óleo sobre tela, Museu de Arte de São Paulo

 

Hoje li pela segunda vez o relatório Retratos da Leitura no Brasil, do Instituto Pró-livro, uma pesquisa feita sobre os hábitos de leitura no Brasil, incluindo o perfil do leitor brasileiro.  Não fiquei surpresa ao saber que no Brasil, assim como no resto do mundo, as mulheres lêem mais que os homens.  Aqui, a nossa percentagem é de 55% de leitoras mulheres para 45% de leitores homens.  

 

Na verdade esta diferença entre leitores e leitoras é tão conhecida que o escritor inglês Ian McEwan  se sobressaiu numa entrevista publicada no jornal The Guardian, de Londres, em 2000, quando sabendo-se conhecedor  destes números e sendo avisado que as mulheres lêem mais ficção do que os homens, declarou: A conclusão inevitável é que no dia que as mulheres deixarem de ler, o romance terá desaparecido.

 

Este tipo de pesquisa, estes tipos de números são sempre fonte para muita especulação.  Muitos estudos ainda virão a ser feitos, muitas teses de doutoramento e pesquisas similares para justificar esta diferença.  Há as explicações biológicas, comparando os cérebros entre os dois sexos e há também aqueles que acreditam que isto se deve às meninas em geral serem alfabetizadas e apresentadas à leitura numa idade mais tenra do que os meninos.  

 

Mas não deixa de me trazer um sorriso irônico nos lábios ao constatar que esta diferença também existe no Brasil.  Porque até bem pouco tempo as mulheres não eram nem consideradas para a alfabetização.  Lembrei-me disso quando ontem à noite, passando uma vista d’olhos no romance de Ana Miranda intitulado O retrato do rei, uma passagem prendeu minha atenção.  Uma passagem que ilustra as raízes culturais que levaram em parte ao atraso na alfabetização das mulheres brasileiras, e a uma perda cultural imensa para a nós.  Ana Miranda assim descreve nossa heroína, vivendo em 1707, no Rio de Janeiro.

 

 

Tarsila do Amaral (Brasil 1890-1973) Beatriz lendo, 1965, óleo sobre tela.

Ainda menina, Mariana recebera, uma noite, ordem de seu pai, dom Afonso, para que fosse à sala de livraria. Ela entrara, assustada. Sempre que o pai tinha uma repreensão ou castigo para as filhas chamava-as a tal lugar. O barão, em pé, diante da mesa, parecera-lhe um gigante. Batendo ritmadamente o chicote na mão, perguntara se ela estava pretendendo aprender a ler. Apontara com o chicote para um volume sobre a mesa, uma cartilha das primeiras letras. Mariana abaixara os olhos, sentindo o sangue tomar-lhe o rosto. Dom Afonso pegara o livro e aproximara-o da chama da vela. A cartilha demorou a pegar fogo e lentamente foi-se consumindo. “Cuida-te com os teus desejos”, o pai dissera. “Se eles te tomam, e não tu a eles, vais arder no fogo do inferno.” Em seu quarto a velha aia Sofia a esperava, com uma vara na mão. “Tira a roupa”, dissera a alemã. “Essas meninas da colônia são educadas como vacas. Que mal há em saber ler? As freiras não aprendem nos conventos? Na minha terra todas as mulheres sabem letras.” “Sabeis ler, dona Sofia?” “Cala-te, menina. Tira a roupa.” Mariana, nua, curvada sobre o baú, esperara. “Trata de gritar bem alto para que teu pai ouça”, Sofia sussurrara. E aplicara, sem nenhuma força, vinte vergastadas nas costas de Mariana, para cumprir a ordem do pai.

 

O retrato do rei, Ana Miranda, Companhia das Letras: 1991, São Paulo, páginas 23-24

 

ACIMA:  Tarsila do Amaral ( Brasil, 1890-1973), Beatriz lendo, 1965, óleo sobre tela.

 

Mariana não era uma qualquer.  Mariana era prima do governador da capitania do Rio de Janeiro.  Em outras palavras, ela não era analfabeta por não ter dinheiro, meios de se educar.  Era analfabeta porque era mulher.

 

Antes que se conclua que isto acontecia só no século XVIII, o que não é verdade, pode mos saltar no tempo e ler um livro também de ficção, do escritor gaúcho Luiz Antonio de Assis Brasil, retratando um caso parecido.  Em seu romance Concerto campestre, situado no século XIX, a filha de um fazendeiro, rico o suficiente para contratar um músico com o intuito de formar uma orquestra, é mantida analfabeta por razões semelhantes às expressadas no livro de Ana Miranda.

 

Concerto Campestre, Luiz Antonio de Assis Brasil, LP&M:1997, Porto Alegre.

O que seria dos nossos escritores, dos nossos editores e das nossas livrarias, dos nossos filhos, se não tivéssemos mudado de valores?  Haveria uma literatura brasileira? 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 





Passarinhos — um poema de Zalina Rolim

1 07 2008

paisagem

 

A um passarinho que andava

Cantando pelo jardim,

Foi perguntar Elisinha

  Quem é que te cuida assim?

 

Onde achas doce alimento,

Coisas nutritivas, sãs?

— Tenho bichinhos gostosos

Figos, laranjas, romãs.

 

— E quando estás fatigado,

Onde é que vais descansar?

— Qual de nós não tem seu ninho?

Nosso ninho é o nosso lar.

 

— E sede não sentes nunca?

— Tenho rio e ribeirão,

E gotinhas de sereno,

Que as folhas verdes me dão.

 

— E no inverno não te falta

Agasalho contra o frio?

— Tenho penas que me cobrem,

Tenho agasalho macio.

 

— E quando não há bichinhos,

Grãos e frutinhas não há?

— Há uma boa criancinha

Que pão e alpiste me dá.

 

 

Passarinhos, de Zalina Rolim  (Brasil, 1869-1961)

 

 

Zalina Rolim

Maria Zalina Rolim Xavier de Toledo nasceu em Botucatu (SP), em 20 de julho de 1869.
Professora alfabetizadora, transferiu-se com a família para São Paulo em 1893.
Educadora, entre 1896 e 1897, exerceu o cargo de vice-inspetora, do Jardim da Infância anexo à Escola Normal Caetano de Campos, em São Paulo.
Escreveu para diversas revistas femininas e jornais como A Mensageira, O Itapetininga, Correio Paulistano e A Província de São Paulo.
Faleceu em São Paulo, em 24 de junho de 1961.

Obras:

1893 – O coração
1897 – Livro das Crianças
1903 – Livro da saudade (organizado nesta data para publicação póstuma)

 

 

 





Alphonse Karr estava certo, nada muda

29 06 2008

Escutem só, Mickey, Walt Disney

 

Ilustração: Mickey, © Disney

 

 

 

 

 

Quanto mais isso muda, mais fica a mesma coisa. [Plus ça change, plus c’est la même chose.]  –  quem já não ouviu esta famosa frase?  Seu autor, Jean-Baptiste Alphonse Karr, (França, 1808-1890), foi escritor, crítico, jornalista e editor do jornal Le Figaro a partir de 1839, conhecido também por seus epigramas usados em diversas línguas até hoje.  A razão de Alphonse Karr não ser esquecido é que suas observações,  expressas de maneira tão clara e freqüentemente mordaz são de grande valia até o presente.  Se não, vejamos porque me lembrei esta tarde desta famosa frase com que abri o parágrafo?  

 

Estava dando uma arrumada nos meus livros.  Esta é sempre uma maneira perfeita de voltar a tocar em certos assuntos de importância para mim.  E encontrei um livrinho delicioso, primeiramente publicado no Rio de Janeiro em 1855, A carteira do meu tio.  Seu autor, Joaquim Manuel de Macedo (Brasil, 1820-1882),  ficou famoso por um dos mais charmosos romances brasileiros, seu primeiro a ser publicado, A Moreninha, (1844), onde Carolina, personagem principal se destaca entre as adolescentes por sua impagável língua ferina.   

 

Na verdade, Joaquim Manuel de Macedo foi um cronista fenomenal dos hábitos e costumes da corte carioca e da vida urbana na capital.  Seus romances sempre aparentam grande leveza para o leitor incauto que vira suas páginas sem perceber a irônica e muitas vezes mordaz apreciação dos costumes da época.  Vejamos a passagem que tenho marcada na introdução deste romance:

 

A pátria é uma enorme e excelente garopa: os ministros de estado a quem ela está confiada, e que sabem tudo muito, mas principalmente gramática e conta de repartir, dividem toda nação em um grupo, séqüito e multidão: o grupo é formado por eles mesmos e por seus compadres, e se chama – nós -; o séqüito, um pouco mais numeroso, se compõe dos seus afilhados, e se chama – vós -; e a multidão, que compreende uma coisa chamada oposição e o resto do povo, se denomina – eles -; ora aqui vai a teoria do eu: os ministros repartem a garopa em algumas postas grandes, e muitas mais pequenas, e dizem eloqüentemente: “as postas grandes são para nós, as mais pequenas são para vós” e finalmente jogam ao meio da rua as espinhas, que são para eles.  O resultado é que todo o povo anda sempre engasgado com a pátria, enquanto o grupo e o séqüito passam às mil maravilhas à custa dela!

 

 

Assim lembrei-me de Alphonse Karr.  Afinal de contas uma coisa leva a outra.

 

 

 

(Texto em: A carteira do meu tio, Joaquim Manuel de Macedo,  Porto Alegre: LP&M, 2001.)





Brasil e África no horizonte de Hilton Marques

26 06 2008

Comprei este livro sem saber coisa alguma a respeito do autor. Não sei o que me interessou, o que me fez pegá-lo e ler a capa de trás para ter uma idéia do que se tratava.  Curiosa, comprei este pequeno volume e tomei a decisão certa,  porque agora posso me gabar de ter descoberto um novo escritor brasileiro, capaz de escrever uma boa história, em boa prosa, num ritmo rápido,  sobre um local misterioso e um novo tipo de heroína.

 

A senhora das savanas se passa no continente africano, num país imaginário fronteiriço à Angola e ao Zaire.  Seguimos a carreira de uma médica brasileira, que depois de se formar pela Universidade de São Paulo, entra para a organização mundial Médicos sem Fronteiras e vai trabalhar na África.  Passado algum tempo, ela decide ficar na África.  Quando a história do livro começa ela está dirigindo um pequeno hospital,  financiado por uma companhia de extração de minério, no que se poderia chamar de interior, de fim do mundo.

 

A história se desenvolve durante a guerra civil em Angola, depois de sua independência de Portugal.  Dois grupos lutam pelo poder: UNITA e MPLA.  Há mercenários estrangeiros em todo canto e eles lutam por cada lado.  Entre eles está um irlandês que havia passado muitos anos lutando pelo movimento IRA, que havia se desgostado e abandonado o movimento separatista irlandês, e como lutar era o que sabia fazer, acabou lutando na África.   Enquanto lutava pela UNITA e comandava um pelotão, sofreu um ataque surpresa fora do território de Angola, apesar de ser um excelente atirador e líder militar.  Eles haviam parado  para um descanso e todos os membros do pelotão tombaram.  Ele também havia sido dado por morto.  Mas foi descoberto, por casualidade, próximo da morte.  Nossa médica brasileira o salva sem saber quem ele é.

 

Ele permanece no hospital para sua recuperação e fica por lá por algum tempo. No processo une-se à nossa médica numa luta contra os novos donos da companhia mineradora, que pretendiam fechar o hospital.

 

Este é o tipo de romance que existe às centenas em outras culturas.  A Inglaterra, os Estados Unidos, a França são só três dos países que tem esta tradição rara no Brasil: um herói, neste caso uma heroína, viaja, vai embora, e faz uma diferença tremenda na vida local de um lugar longe de sua terra nativa.  Ela também é capaz de contribuir para o melhoramento de relações internacionais.

 

Este livro poderia servir de base para um roteiro de A Senhora das Savanas, Hilton Marquesfilme americano.  Melhor ainda, poderia se transformar numa mini-série da BBC, se a nossa heroína fosse inglesa.  A grande diferença é que este é um livro brasileiro.  Este é um detalhe de grande importância para mim.  Ela é mulher, brasileira e responsável por salvar muitas vidas.  Como eu gostaria de ter tido algumas dezenas de livros como este para ler quando estava me tornando adulta!   Na minha época, na minha geração, só heroínas de outras terras tinham suas vidas contadas ou filmadas.  Nós brasileiros sempre conhecemos melhor os heróis de outros lugares.  Havia muito poucos heróis, homens ou mulheres, que pudessem inspirar qualquer um de nós, adolescentes.

 

Este livro, então, tem tudo para que eu goste dele.  É um livro de aventura.  É um ótimo entretenimento, com uma narrativa forte,  num ritmo rápido.  É gostoso de ler.  É leve.   Não está preocupado em considerar as últimas novidades literárias, as últimas tendências pós-modernas, de-construtivistas, ou a última moda intelectual.  Este é um livro para a família toda ler, pessoas de todas as gerações.  Seria uma ótima fonte para um roteiro de filme.  Ele nos deixa com uma boa visão do que a vida na África naquele período poderia ser e como os grupos lutando pelo poder se envolvem na vida diária da população.  Abre os olhos.  Expande horizontes.  Ajuda a nos definir como as pessoas competentes, profissionais que somos. 

 

Gostei muito e recomendo.  Se você estiver procurando por aquele entretenimento, por aquele livro para levar num fim de semana na serra ou na praia, leve-o.  Você vai gostar!