Uma anedota da vida de D. Pedro I, pelas comemorações da Independência

27 08 2009

cavalos brincando

 

 

“D. Pedro, como príncipe, recebia muito pouco dinheiro.  A sua pensão era ridícula: um conto de réis! E não havia força de D. João sair daquilo.  O rei era um sovina tremendo.   D. Pedro, temperamento de irrefletido,  inteiramente oposto ao do pai, gastava às mãos cheias,  estouradamente, esbanjadamente.  Por isso mesmo, enquanto príncipe, D. Pedro viveu em aperturas desesperadas.  Mais duma vez, nos seus apuros, o herdeiro do trono recorreu a empréstimos envergonhantes.  O Pilotinho, bodegueiro da Rua dos Borbonos,  forneceu-lhe certa ocasição, doze contos de réis.   Manuel José Sarmento, pessoa pacata,  antigo oficial da secretaria, socorreu-o muitíssimas vezes com quantias fortes.  Ora, diante da usura do pai, para sair daquela situação humilhante de empréstimos e mais empréstimos, o príncipe tomou uma resolução heróica: resolveu ganhar dinheiro!  Resolveu ganhar dinheiro a todo o transe, de qualquer jeito, desse no que desse.   E que é que engendrou aquela cabeça de vento?  Apenas isto:  fazer uma sociedade mercantil com o Plácido.  [ Plácido Imaginar e executar foi um pronto.   Apalavraram logo o contrato.  E ambos, unindo os seus destinos, meteram-se a negociar.   Um príncipe, o herdeiro do trono,  a negociar de parceria com o seu barbeiro!  Imaginai um pouco…  E negociar em quê:  Na única coisa de que D. Pedro realmente entendia: compra e venda de animais.,,

A sociedade principiou a funcionar sem demora.  D. Pedro, em companhia do Plácido, ia quase toda manhã ver as tropas que chegavam.   Escolhia, num relance, os animais mais belos.  Um golpe de vista espantoso!  Apartava-os, pagava-os, mandava-os para as cavalariças do Paço.  Diziam os tropeiros que “o moço tinha faro: enxergava logo a flor da manada…”

Depois, na cidade, a engrenagem do negócio era das mais simples.  Uns dias de trato, os animais engordavam, o pelo reluzia.   O Plácido saía então em busca dos compradores.   Uma facilidade.  Bastava dizer a um daqueles fidalgotes endinheirados:

— O príncipe resolveu vender um belo animal.  Belíssimo animal!  É um dos mais soberbos das cavalariças do Paço.  Por que Vossa Mercê não aproveita a ocasião?

O homem não titubeava.  Corria ao Paço, via o cavalo, achava-o perfeito, comprava por qualquer preço.  E saía honradíssimo, cheio de orgulho, a esparramar pela corte que adquirira um “cavalo das cavalarias reais…”

A sociedade, evidentemente, começou a prosperar.  Os dois parceiros puseram-se a ganhar dinheiro à vontade.  Dinheiro a rodo.  D. Pedro andava contentíssimo!  O negócio era dos melhores, dos mais certos.

— Um negocião da China, como dizia alvoroçadamente o príncipe ao barbeiro; um negociação da China!  E dizer que até hoje ninguém ainda teve essa idéia!

Mas, um dia, por fatalidade, aquela história foi parar aos ouvidos do rei.  D. João VI branqueou.  Nunca, na sua vida, o pobre monarca enfureceu tanto!  Aquela leviandade do príncipe revirou-lhe os nervos.  Sacudiu-o.  Mandou chamar imediatamente o filho. 

D. Pedro, ao entrar, deparou com o pai de pé, revolucionado, o cenho torvamente cerrado.  O rei tinha na mão sua grossa bengala de castão de ouro.  E numa fúria, espumejando:

—  Então seu grandíssimo canalha, vosmecê a negociar em animais?  E a negociar em parceria com o Plácido, o barbeiro?  Pois, vosmecê, o herdeiro do trono, não tem vergonha nessa cara?  O que eu deveria fazer, seu cachorro, era quebrar-lhe a cara com essa bengala?  Quebrar-lhe a cara, ouviu? 

E erguia a bengala no ar, e bramia, e descompunha, e gaguejava de cólera.  D. Pedro não negou.  Confessou tudo com firmeza.  D. João mandou buscar o Plácido.  E ali mesmo:

— Você,  de hoje em diante, está proibido de se meter em qualquer negócio com o príncipe.  A sociedade está liquidada.  Lucro, se houve, que fique com você.  Não admito que meu filho toque num real dessa patifaria.

E desfez a sociedade.

Está claro que havia muitíssimo lucro no negócio.  E o Plácido, o felizardo, ficou-se com aquele dinheirão todo.  Principiou desde aí, com esse capital, a prosperar na vida.  Ficou riquíssimo.  Terminou numa das mais grandiosas fortunas do Primeiro Império.”

 

Em:  As maluquices do imperador, Paulo Setúbal, São Paulo, 1947: Clube do livro., páginas 64-66.

 

NOTA DA PEREGRINA:  O amigo de D. Pedro era  Plácido Pereira de Abreu, que mais tarde se casou com a filha do Marquês de Inhambupe. 

 —-

 

paulo_setubal

 

Paulo Setúbal de Oliveira, ( Tatuí, SP 1893 — SP, SP, 1937) advogado, jornalista, ensaísta, poeta e romancista. Formou-se em Direito em 1914.  Trabalhou como colaborador do jornal O Estado de São Paulo. Foi eleito deputado estadual (1928 / 1930), renunciou ao mandato por problemas de saúde. Em 06 de dezembro de 1934 foi eleito membro da Academia Brasileira de Letras

 

Obras:

 

Alma cabocla, poesia (1920);

A marquesa de Santos, romance-histórico 1925

O príncipe de Nassau, romance histórico, 1926

Um sarau no pátio de São Cristóvão, teatro,  1926

As maluquices do Imperador, contos-históricos, 1927

A bandeira de Fernão Dias, contos-históricos, 1928

Nos bastidores da história, contos, 1928

O ouro de Cuiabá, história, 1933

Os irmãos Leme, romance, 1933

El-dorado, história, 1934

O romance da prata, história, 1935

O sonho das esmeraldas, romance, 1935

A fé na formação da nacionalidade, ensaio, 1936

Confíteor, memórias, 1937

Ensaios históricos (obra póstuma)





Envelhecer — poema de Wilson Frade

25 08 2009

ANONIMOUS

 Senhora lendo, óleo sobre tela, anônimo.

 

ENVELHECER

                                                Wilson Frade

 

Embora todos os pretensos  à velhice

se agarrem ao espírito,

o tédio chega e vai ficando.

As nossas mãos já não escrevem com o mesmo brilho

e já não enfrentamos a vida com o mesmo espanto no olhar.

O verde já não é tão verde

e não nos atiramos no mar com a mesma gulodice.

Amamos com maior cautela,

menos febrilmente, mas, bem mais ordenadamente.

Buscamos o sabor do beijo com a febre de que ele possa acabar,

mas sentimos um frio no corpo se pensamos que tudo isso

possa terminar.

Os fios de cabelos brancos já não nos castigam

porque descobrimos mais a lua e as estrelas,

e curtimos aquele chinelo velho

em extremo desuso.

Prestamos mais atenção aos passarinhos

e no riacho que corre,

e tornamo-nos mais íntimos da morte.

Fingimos que ela é nossa amante

para que não nos leve assim tão de repente.

e não nos tire os raros momentos em que nos tornamos jovens.

Em: Poemas de um livro só, Rio de Janeiro, Nova Fronteira: 1991

Wilson Frade – (MG 1920-2000) jornalista, pintor, poeta, instrumentista e compositor mineiro.





Romance ingênuo de duas linhas paralelas – José Fanha — para crianças, jovens e adolescentes

22 08 2009

linha paralelas

***

 

Romance ingênuo de duas linhas paralelas

 

                                                               José Fanha

 

Duas linhas paralelas

Muito paralelamente

Iam passando entre estrelas

Fazendo o que estava escrito:

Caminhando eternamente de infinito a infinito

Seguiam-se passo a passo

Exactas e sempre a par

Pois só num ponto do espaço

Que ninguém sabe onde é

Se podiam encontrar

Falar e tomar café.

Mas farta de andar sozinha

Uma delas certo dia

Voltou-se para a outra linha

Sorriu-lhe e disse-lhe assim:

“Deixa lá a geometria

E anda aqui para o pé de mim…!

Diz a outra: “Nem pensar!

Mas que falta de respeito!

Se quisermos lá chegar

Temos de ir devagarinho

Andando sempre a direito

Cada qual no seu caminho!”

Não se dando por achada

Fica na sua a primeira

E sorrindo amalandrada

Pela calada, sem um grito

Deita a mãozinha matreira

Puxa para si o infinito.

E com ele ali à frente

As duas a murmurar

Olharam-se docemente

E sem fazerem perguntas

Puseram-se a namorar

Seguiram as duas juntas.

Assim nestas poucas linhas

Fica uma estória banal

Com linhas e entrelinhas

E uma moral convergente:

O infinito afinal

Fica aqui ao pé da gente.

 

fanha

José Fanha

 

José Fanha (Portugal, 1951) Formado em arquitetura é hoje professor do ensino médio e trabalha também para a televisão e o cinema.  Poeta, declamador, autor de letras para canções e de histórias para crianças, autor de textos para televisão, para rádio e para teatro e, também pintor nos tempos livres.

Obras:

Eu sou português aqui

Breve tratado das coisas da arte e do amor

A porta

Elogio dos peixes, das pedras e dos simples

Alex Ponto Com – Uma aventura virtual

Diário Inventado de Um Menino Já Crescido

Os Novos Mistérios de Sintra de Rosa Lobato de Faria, Mário Zambujal, Luísa Beltrão, José Jorge Letria, José Fanha, João Aguiar, Alice Vieira

O Dia em Que o Mar Desapareceu

Poemas da Natureza + CD-Áudio

Abril 30 Anos Trinta

De Palavra em Punho

Cem Poemas Portugueses do Adeus e da Saudade de José Jorge Letria, José Fanha

Tempo Azul

Poemas Com Animais

Cantigas e Cânticos

Baal

Cem Poemas Portugueses Sobre a Infância de José Jorge Letria, José Fanha

Cem Poemas Portugueses Sobre Portugal e o Mar de José Jorge Letria, José Fanha

O Código D’Avintes de Rosa Lobato de Faria, Mário Zambujal, Luísa Beltrão, José Jorge Letria, José Fanha, João Aguiar, Alice Vieira

***  NOTA:  Acredite, na ilustração inicial deste poema só há quadrados perfeitos e linhas paralelas.





Alguns versos memoráveis de Carlos Nejar

19 08 2009

Antonio Bandeira, Leitura, 1948, osmLeitura, 1948

Antônio Bandeira ( Brasil, 1922-1967)

óleo sobre madeira

 

Ainda às voltas com a mudança, hoje me dediquei à organização de papelada.  Re-encontrei a uma seleção – feita há algum tempo —  de gemas dos  versos-pensamento de Carlos Nejar, que selecionei como memoráveis.   Acho que vale a pena lembrá-los.

 

 

Quero locar/ minha ambição/ aos loucos.  [Aluguel]  

Aventura humana: a esperança. / Não há outra couraça/ ou fortuna.  [Aventura]

 O medo rói.  [Ruminação] 

Amar é a mais alta constelação. [Aqui ficam as coisas – XII]

 Todas as minhas raízes estão contigo.  [Aqui ficam as coisas – X]

 É preciso esperar contra a esperança.  [Contra a esperança]

 Bem-aventurados os pássaros,/ as nuvens, as madrugadas.  [ Bem-aventuranças] 

Abram alas,/ que a vida vem chegando. [Cortejo] 

Pássaros somos/ sem o menor retorno. [ Alforria] 

Só a loucura nos salva/ onde a razão lança as redes.  [Derrubada] 

Levo esta vida/ ou esta morte/ sem cobrar frete/ ou transporte.  [Carregamento] 

O homem se reconhece/ mesmo sem identidade.  [Espelho]

 Sobretudo nos tropeços, / o homem se reconhece.  [ Espelho]

 Entupimos/ o pensamento/ com a mania de pensar.  [Rasante]

 Os dias / são caminhos ou rodízios. [Freqüência]

 

Em: Três livros: árvore do mundo & o chapéu das estações & o poço do calabouço,  Carlos Nejar,  Círculo do Livro, São Paulo, s/d. Páginas: 38, 130, 216, 249, 260, 267, 270, 278, 284, 300,  306, 328, 335.

 

Carlos-Nejar

 

Luís Carlos Verzoni Nejar, também usou o pseudônimo: Verne de Luca ( RS, 1939) Poeta, tradutor, diplomado em direito (1962), procurador da justiça, membro da ABL (1989), prêmio Jorge de Lima – INL (1970), Fernando Chináglia – UBE (1974), Luísa Cláudio de Sousa – Pen Clube Brasil (1977).

 

 Obras:

50 Poemas Escolhidos pelo Autor, 2004  

A Chama é um Fogo Úmido: Reflexões sobre a Poesia Contemporânea,  1994  

A Engenhosa Letícia do Pontal , 2003  

A Espuma do Fogo, 2002  

A Formiga Metafísica,  1987  

A Genealogia da Palavra,  1989  

A Idade da Aurora,   1990  

A Idade da Noite  2002  

Amar, a Mais Alta Constelação  1991  

Aquém da Infância  1995  

Arca da Aliança  1995  

Árvore do Mundo  1977  

As Águas que Conversavam  2003  

As Uvas e o Vento  2004  

Caderno de Fogo  2000  

Canga  1971  

Carta aos Loucos  1998  

Casa dos Arreios  1973  

Cem Sonetos de Amor  1999  

Cinco Poemas Dramáticos  1983  

Danações  1969  

De “Sélesis” a “Danações”  1975  

Eduardo Portella : Ação e Argumentação : Trinta Anos de Vida Intelectual  1985  

Elza dos Pássaros ou A Ordem dos Planetas  1993  

Era um Vento muito Branco  1987  

Escritos com a Pedra e a Chuva: Entre a Poesia e a Ficção  2000  

Ficções  1972  

Jerico soletrava ao Sol  1986  

Livro de Gazéis  1984  

Livro de Silbion  1963  

Livro do Tempo  1965  

Memórias do Porão  1985  

O Campeador e o Vento  1966  

O Chapéu das Estações  1978  

O Elogio da Sombra  1971  

O Evangelho Segundo o Vento  2002  

O grande vento  1998  

O Livro do Peregrino  2002  

O menino-rio  1984  

O Pai das Coisas  1985  

O Poço do Calabouço  1974  

O Selo da Agonia : Livro dos Cavalos  2001  

O Túnel Perfeito  1994  

Ordenações  1969  

Ordenações  1971  

Os Dias Pelos Dias  1997  

Os Sobreviventes  1979  

Os Viventes  1979  

Riopampa  2000  

Sélesis  1960  

Simón Vento Bolívar  1993  

Somos Poucos  1976  

Sonetos do Paiol: ao Sul da Aurora  1997  

Todas as Fontes Estão em Ti  2000  

Tratado de Bom Governo  2004  

Ulalume  2001  

Um Certo Jaques Netan  1991  

Um País, o Coração  1980  

Vozes do Brasil: Auto de Romaria  1984  

Zão  1988

 

—-

 

Antônio Bandeira, ( Fortaleza 1922-Paris 1967) Desenhista, gravador e pintor.

Autodidata.  Trabalhou com Clidenor Capibaribe, o Barrica e Mário Barata que o orientaram no inicio de sua carreira. Em 1944 fundou a «Sociedade Cearense de Belas Artes», com Inimá de Paula, Aldemir Martins, João Maria Siqueira e Francisco Barbosa Leite, entre outros.  Ganhou bolsa de estudos na França (1946-1950) pela exposição no Instituto dos Arquitetos do Rio de Janeiro e freqüentou a Escola Superior de Belas Artes e a Académie de La Grande Chaumière.  Passa então de pintor figurativo a pintor abstrato.





Em caminho, poesia de Zalina Rolim para o dia dos pais

8 08 2009

 plantanto na fazendo cg 1939

 Capa de revista, 1939

EM CAMINHO

 

                                                 Zalina Rolim

 

 

SOU filha de lavradores;

Moro longe da cidade;

Amo os pássaros e as flores

E tenho oito anos de idade.

 

Quereis seguir-me à campina?

A tarde convida e chama,

O calor do sol declina,

E o horizonte é um panorama.

 

Neste samburá de vime

Levo coisa apetitosa;

mas, ai! que ninguém se anime

A meter-lhe a mão curiosa.

 

É o jantar do papaizinho;

Manjares de fino gosto;

Carne, legumes, toucinho,

Tudo fresco e bem disposto.

 

Papai trabalha na roça;

O dia inteiro labuta;

Tem a pele rija e grossa

E a alma afeita à luta.

 

Mas leal, franco, modesto

Como ele, não há no mundo:

Vive de trabalho honesto,

Cavando o solo fecundo.

 

Acorda ao nascer da aurora,

Abre a janela de manso,

E o campo e os ares explora

Da vista aguda num lanço.

 

Depois, nos ombros a enxada,

Abraça a Mamãe, sorrindo,

Beija-me a face rosada

E vai-se ao labor infindo.

 

Em casa também se lida

Daqui, dali, todo o instante,

Que o trabalho é lei da vida

E nada tem de humilhante.

 

Depois do trabalho, estudo;

Abro os meus livros e leio;

Eles me falam de tudo

O que eu desejo e receio.

 

Contam-me histórias bonitas,

Falam da terra e dos ares,

De vastidões infinitas,

De rios, campos e mares.

 

Mamãe diz que são modelos

De amigos leais e finos;

Que a gente deve atendê-los

Como aos maternais ensinos.

 

E agora, adeus, até breve.

Eis-me de novo a caminho:

Não esfrie o vento leve

O jantar do papaizinho.

 

 

Maria Zalina Rolim Xavier de Toledo — nasceu em Botucatu (SP), em 20 de julho de 1869.

Professora alfabetizadora transferiu-se com a família para São Paulo em 1893.

Educadora, entre 1896 e 1897, exerceu o cargo de vice-inspetora, do Jardim da Infância anexo à Escola Normal Caetano de Campos, em São Paulo.

Escreveu para diversas revistas femininas e jornais como A Mensageira, O Itapetininga, Correio Paulistano e A Província de São Paulo.

Faleceu em São Paulo, em 24 de junho de 1961.

 

Obras:

1893 – O coração

1897 – Livro das Crianças

1903 – Livro da saudade (organizado nesta data para publicação póstuma)





CORAÇÃOZINHO, poesia de Henriqueta Lisboa para o Dia dos Pais

7 08 2009

paiê

 

Ilustração Maurício de Sousa.

Coraçãozinho

Henriqueta Lisboa

Coraçãozinho que bate

tic-tic

Reloginho de Papai

tic-tac

Vamos fazer uma troca

tic-tic-tic-tac

Relógio fica comigo

tic-tic

dou coração a Papai

tic-tic-tac.

 henriqueta lisboa

 

Henriqueta Lisboa (MG 1901- MG 1985), poeta mineira.  Escritora, ensaísta,  tradutora professora de literatura,  Com Enternecimento (1929), recebeu o Prêmio Olavo Bilac de Poesia da Academia Brasileira de Letras.  Em 1984, recebeu o Prêmio Machado de Assis da Academia Brasileira de Letras pelo conjunto de sua obra.

Obras:

Fogo-fátuo (1925)

Enternecimento (1929)

Velário (1936)

Prisioneira da noite (1941)

O menino poeta (1943)

A face lívida (1945) — à memória de Mário de Andrade, falecido nesse ano

Flor da morte (1949)

Madrinha Lua (1952)

Azul profundo (1955);

Lírica (1958)

Montanha viva (1959)

Além da imagem (1963)

Nova Lírica ((1971)

Belo Horizonte bem querer (1972)

O alvo humano (1973)

Reverberações (1976)

Miradouro e outros poemas (1976)

Celebração dos elementos: água, ar, fogo, terra (1977)

Pousada do ser (1982)

Poesia Geral (1985), reunião de poemas selecionados pela autora do conjunto de toda a obra, publicada uma semana após o seu falecimento





DIA DOS PAIS — poesia de Giuseppe Artidoro Ghiaroni

6 08 2009

pai e filho

DIA DOS PAIS 

Giuseppe Artidoro Ghiaroni

Meu pai está tão velhinho,

tem a mão branca e comprida,

parecendo a sua vida,

longa vida que se esvai.

E eu o lembro quando moço

de uma atlética altivez.

Ah! Tinha força por três!

Você se lembra, papai?

Menino, ouvia dizer

que você era um gigante.

Eu ficava radiante

e também me agigantava.

Porque toda madrugada,

eu quentinho do agasalho,

ao sair para o trabalho

o gigante me beijava.

Sua grande mão de ferro

parecia leve, leve

naquela carícia breve

que da memória não sai.

Depois… um beijo em mamãe

e o meu gigante partia.

E a casa toda tremia

com os passos de papai.

Mas agora o seu retrato

muito moço, muito antigo,

se parece mais comigo

do que mesmo com você.

Você já lembra vovô

e, à medida que envelhece,

papai, você se parece

com mamãe, não sei por quê.

Você se lembra, papai?

Quando mamãe, de repente,

caiu de cama, doente,

era o pai quem cozinhava.

Tão grande e desajeitado

a varrer… Quando eu o via

de avental, papai, eu ria;

eu ria e mamãe chorava.

Eu quis deixar o ginásio

para ganhar ordenado,

ajudar meu pai cansado,

mas tal não aconteceu.

Papai disse estas palavras:

Sou um operário obscuro,

mas você terá futuro,

será melhor do que eu.

Eu? Melhor que este velhinho

a quem devo o pão e o estudo?

Que é pobre porque deu tudo

à Família, à Pátria, à Fé?

Meu pai, com todo o diploma,

com toda a universidade,

quisera eu ser a metade

daquilo que você é.

E quero que você saiba

que, entre amigos, conversando,

meu assunto vai girando

e no seu nome recai.

Da sua força, coragem,

bondade eu conto uma história.

Todos vêem que a minha glória

é ser filho de meu pai.

“Um dia eu fui tomar banho

no rio que estava cheio.

Quando a correnteza veio,

vi a morte aparecer.

Papai saltou dentro d’água

nadando mais do que um peixe,

salvou-me e disse:_ Não deixe!

Não deixe mamãe saber!”.

Assim foi meu pai, o forte

que respeitava a fraqueza.

Nunca humilhou a pobreza,

nunca a riqueza o humilhou.

Estava bem com os homens

e com Deus estava bem.

Nunca fez mal a ninguém

e o que sofreu perdoou.

Perdoa então se lhe falo

Daquilo que não se esquece.

E a minha voz estremece

e há uma lágrima que cai.

Hoje sou eu o gigante

e você é pequenino.

Hoje sou eu que me inclino.

Papai… a bênção, papai.

Giuseppe Artidoro Ghiaroni – Nasceu em Paraíba Do Sul, (RJ), no dia 22 de fevereiro de 1919. Jornalista, poeta, redator e tradutor;  Depois de ter sido ferreiro, “office-boy” e caixeiro, passou a redator do “Suplemento juvenil ” iniciando-se assim no jornalismo de onde passou para o Rádio distinguindo-se como cronista e novelista.  Faleceu em 2008 aos 89 anos.

Obras:

O Dia da Existência, 1941

A Graça de Deus, 1945

Canção do Vagabundo, 1948

A Máquina de Escrever, 1997





Estória, poema de Martins d’ Alvarez — [para o dia da vovó]

26 07 2009

 vovó conta histórias

 

 

Estória

 

( para pequenos e grandes)

 

                                        Martins d’ Alvarez

 

 

À sombra do tamarindo,

vovozinha, bem sentada,

vai de alfinetes cobrindo

o papelão da almofada.

 

O neto deixa o brinquedo,

chega-se de alma curiosa,

nos bilros buscando o enredo

da renda maravilhosa.

 

Sutil, entre dois extremos,

uma conversa se agita:

— Vovó, como é que aprendemos

Fazer renda, assim, bonita?

 

— Ora, benzinho, aprendendo…

Aprendendo devagar…

Até acabar sabendo,

até um dia acertar.

 

— Pois me ensine, vovozinha!

Garanto que hei de aprender.

— Ensinarei, calunguinha,

quando aprenderes a ler.

 

— Mas vovó não disse, um dia,

que vovozinho morreu

pelo muito que sabia…

Por que demais aprendeu?

 

— Morreu porque foi ferido

No amor próprio, meu bebê!

— Então, o vovô querido

não só amava a você?

 

Vovó fez cara de chiste,

mas, sua fronte pendeu…

Soltou um suspiro triste,

quedou-se … e não respondeu!

 

(Fortaleza, Ceará, 1932)

 

Em: Poesia do cotidiano, Fortaleza, Ceará, Editora Clã: 1977

 

 

 

José Martins D’Alvarez   (CE 1904)  Poeta, romancista, jornalista, diplomado em Farmacia e Odontologia, professor, membro da Academia Cearense de Letras. Nasceu na cidade de Barbalha, Estado do Ceara, em 14 de setembro de 1904.  Filho de Antonio Martins de Jesus a de Antonia Leite da Cruz Martins. Fez os estudos primários na sua cidade natal, os secundários, no Liceu do Ceará.  Depois de formado em Odontologia. Transferiu em 1938 sua residência para o Rio de Janeiro, onde exerceu, além de atividades na imprensa, atividades no magistério superior.

 

 

 

Obras:

 

“Choro verde: a ronda das horas verdes”, 1930, poesia

“Quarta-feira de cinzas”, 1932, novela

 “Vitral”, 1934, poesia

“Morro do moinho” 1937, romance

“O Norte Canta”, 1941,  poesia popular

“No Mundo da Lua”, 1942, poesia para crianças

“Chama infinita, 1949,  poesia

“O nordeste que o sul não conhece 1953, ensaio

“Ritmos e legendas” 1959, poesias escolhidas

“Roteiro sentimental: geopolítica do Brasil” 1967, poesias escolhidas

“Poesia do cotidiano”, 1977, poesia





Nossa história na ponta dos dedos, graças a generosidade de José e Guita Mindlin!

5 07 2009

jose_mindlin_biblioteca_436José Mindlin e sua coleção.

 

Tive a oportunidade pela primeira vez de consultar a Coleção Brasiliana, doada pelo empresário e colecionador José Mindlin à Universidade de São Paulo.  Esta é uma extraordinária coleção  Para quem ainda não conhece esta maravilhosa ferramenta de pesquisa ao alcance dos nossos dedinhos a qualquer hora do dia e da noite, vale a pena visitá-la para pelo menos saber o que anda acontecendo de sério na internet. 

Acesse a Coleção Brasiliana   

Esta seleção de livros doados por José e Guita Mindlin, está em processo de digitação e postagem na  internet e  pode ser acessado de qualquer parte do mundo.  Hoje consultei a História do Brasil, por frei Vicente do Salvador, natural da Bahia. Nova edição revista por Capistrano de Abreu, de 1918.  Esta foi a primeira tentativa de relato de uma história do Brasil.  Frei Vicente de Salvador terminou de escrever sua obra sobre as primeiras décadas do Brasil colônia em 1627.  Este também foi o primeiro livro com o qual José Mindlin, aos 13 anos de idade, começou sua coleção.   A Coleção Brasiliana do bibliófilo, que conta com 20 mil títulos entre relatos de viajantes, literatura brasileira e portuguesa, documentos, folhetos e várias primeiras edições de obras importantes, será transferida até o final de 2009 para a Universidade de São Paulo (USP).

Aqui está uma ilustração acompanhando o texto de Frei Vicente do Salvador:

 

Planta da cidade de Salvador, contemporânea da invasão dos holandeses, História do Brasil

Planta da cidade de Salvador, na Bahia, contemporânea à invasão dos holandeses. 

 

A coleção está em processo de digitalização.  Ela é feita por um robô devorador de livros, que lê 2.400 páginas por hora, batizado de Maria Bonita.  “Podemos transformar uma imagem recém tirada do robô em uma página que seja portátil para a web”, explica o engenheiro de computação Vitor Tsujiguchi.  “O usuário vai ver o livro tal como ele é: a imagem do livro original, mas por trás dessa imagem há uma versão digitalizada, como se fosse transcrito. O usuário pode fazer busca por palavra, frase, iluminar trecho, copiar e colar. A pessoa vai poder imprimir em casa, encadernar e colocar na sua estante”, Pedro Puntoni.   O robô reconhece 120 línguas. Até o final do ano o plano é que ele tenha digitalizado 4 mil livros e 30 mil imagens.

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José Mindlin e “Maria Bonita”.

 

Quem está encantado com o trabalho do robô é o professor titular de história do Brasil, Istvan Yancsó, coordenador geral do projeto: “O conceito dessa biblioteca é atender a uma multiplicidade de destinações. É um serviço que a USP vai prestar à nação. Tudo que nós estamos fazendo é sempre em cima da ideia de que é uma colaboração para montagem de alguma coisa que não vai ser a Brasiliana da USP, vai ser uma Brasiliana brasileira”.

 Robo batizado de Maria Bonita, lê 2.400 páginas por hora

O Robô, batizado de Maria Bonita, lê 2.400 páginas por hora.

Os primeiros livros sendo digitalizados são os dos viajantes que percorreram o Brasil nos séculos 16, 17, 18 e 19. Toda a coleção das gravuras de Debret. Depois disso será a vez de todos os livros de história do Brasil e literatura brasileira. Os 17 volumes da primeira edição dos sermões do Padre Vieira, a primeira edição brasileira de “Marília de Dirceu”, de Tomás Antonio Gonzaga – só existem três unidades no mundo. De José de Alencar, a primeira edição do “Guarany”, livro raro.  José Mindlin passou boa parte da vida atrás desse exemplar, um dos únicos existentes e de muitas outras raridades.

Artigo parcialmente baseado no Destak Jornal.





Lembrando Santo Antônio, no último dia de junho

30 06 2009

Candido Portinari antonio_padura, pintura mural tempera, 180 x 75 cm Museu Casa de Portinari, BrodowskiSP

Santo Antônio de Pádua, 1941*

Cândido Portinari, ( SP, 1903 – RJ, 1962)

Pintura mural à têmpera – 180 x 75 cm

Casa de Portiinari, Brodowski, SP

NOTA: Uma amiga da peregrina mandou a seguinte informação depois de visitar Brodowski, terra natal de Cândido Portinari sobre a tela que ilustra a poesia abaixo. Em suas palavras: “A guia nos contou que Portinari pintou Santo Antônio como pagamento por uma promessa feita, quando seu filho se encontrava muito doente. O quadro foi doado à pequena igreja da praça, em frente à casa dos Portinari, com a promessa de que nunca seria retirado da igreja (e nem vendido)”. Achei essa informação muito interessante e passo para vocês.  Obrigada, Marilda.

Chegamos ao dia 30 de junho e não postei nada, absolutamente nada, sobre as festas juninas.  Que vergonha!  Gosto muito delas.  Principalmente daquelas mais singelas, de cidade do interior, sem lantejoulas nem paetês, sem competição de grupos de quadrilhas, sem essa grandiosidade de escola de samba que anda invadindo as comemorações de época.  Gostava mais quando essas festas estavam mais relacionadas ao fim da época da colheita e ao início de um inverno abarrotado com os produtos da terra.  Mas este ano não me lembrei de postar coisa alguma para a época.  Portanto, acabo o mês, tocando vagamente no assunto, com uma poesia do poeta paulista Walter Nieble de Freitas, que de relacionamento com as festas juninas só tem mesmo o santo…  Divirtam-se:

 

ESTA É BOA

Walter Nieble de Freitas

Para comprar uma imagem

De Santo Antônio, um caipira

Entra na loja de um árabe,

É atendido e se retira.

Leva o precioso objeto,

Muito contente e feliz,

Sem saber que o esperto sírio

Lhe vendera um São Luiz.

Dali dirige-se ao templo

E ao padre, diz comovido:

Aqui trago um Santo Antônio

Para que seja benzido.

— Santo Antônio, explica o padre,

Traz consigo uma criança;

O que você trouxe é a imagem

De São Luiz, o rei de França.

Desapontado, o caboclo

Dispara feito uma bala;

Entra na loja do árabe

E deste modo lhe fala:

— O senhor é um mentiroso

Que nunca sabe o que diz.

Em lugar de Santo Antônio

Me vendeu um São Luiz!

Nunca mais queira fazer

Seus fregueses de palhaços:

Santo Antônio sempre teve

Uma criança nos braços!

— Eu sei disso exclama o sírio,

Muito seguro e matreiro:

Você levou Santo Antônio

Quando ainda era solteiro!

Em: Poetas Paulistas: antologia, ed. Pedro de Alcântara Worms, Rio de Janeiro, Conquista:1968.

Walter Nieble de Freitas ( Itapetininga, SP)  Poeta e educador, foi diretor do Grupo Escolar da cidade de São Paulo.

Obras:

Barquinhos de papel, poesia, 1963

Mil quadrinhas escolares, poesia, 1966

Desfile de modas na Bicholândia, 1988

Simplicidade, poesia, s/d

Chico Vagabundo e outras histórias, 1990