Nhá Carola, poesia Ricardo Gonçalves para uso escolar

24 11 2009

Daniel Penna ( SP, 1951) Fundo%20Quintal, osmFundo de quintal, 2009

Daniel Penna ( Brasil, 1951)

óleo sobre tela/ sobre madeira

18 cm x 24 cm

www.pennart.com.br

 

 

Nhá Carola

                                                            A .D. Olga

                                                          Ricardo Gonçalves

Arrepanhando o vestido

De chita azul, nhá Carola,

Põe feijão na caçarola

Para o almoço do marido.

Dorme um cachorro estendido

À porta da casinhola;

Gritam galinhas de Angola

No terreiro bem varrido.

Enquanto chia a panela,

A moça vai à janela,

A ver se o marido vem.

Mas entra logo zangada

Porque na volta da estrada

Não aparece ninguém.

Em: Poesia Brasileira para a Infância,  Cassiano Nunes e Maria da Silva Brito,  São Paulo, Saraiva:1968

 —

ricardo gonçalves

 

Ricardo Mendes Gonçalves  (SP, SP 1893 – SP, SP 1916) pseudônimos: Ricardo Gonçalves, Bruno de Cadiz, D. Ricardito.  Poeta, tradutor, jornalista, diplomado em Direito (1908), político, membro grupo Minarete.  Trabalhou para diversos jornais entre eles o Comércio de São Paulo e Estadinho. Foi também repórter do jornal O Correio Paulistano.

Obras:

 Ipês, 1922





Poesia infantil de Afonso Schmidt: Alegria de menina que gosta de leite de cabra

12 11 2009

# 16 Cheng Minsheng  Pastorinha de CabrasPastorinha de cabras

Cheng Minsheng ( QinDu, China, 1943)

Aquarela, tinta, sobre papel.

25 cm x 25 cm

Coleção particular.

Alegria de menina que gosta de leite de cabra

                                                  Afonso Schmidt

Quando acorda a corruíra do pessegueiro,

eu acordo também;

é a hora dourada em que passa o cabreiro

com suas cabrinhas tão bonitinhas…

São cerca de quarenta mas, contando bem,

talvez não passem de trinta…

A pintada, aquela que vai correndo na frente

e que não tem medo de gente

é a que leva o guizo alegre que tilinta.

As outras vão correndo atrás,

vão pulando,

vão chifrando,

vão berrando

                    bé, bé, bé…

Eu pego no copo e vou para o portão

chamar o cabreiro:

— Seu cabreiro, me tire este copo de leite,

mas quero daquela cabrinha malhada

que leva na boca uma folha dourada.

E o cabreiro chama a cabrinha:

                    bit, bit, bit…

Põe-se a tirar o leite:

puxa que puxa,

espicha que espicha,

escorrupicha…

Mamãe , que me espia sob o pé de brincos-de-princesa,

me fala:

— Menina que gosta de leite de cabra vira cabrita!

(mas isso é bobagem, ninguém acredita).

Depois o cabreiro e suas cabrinhas vão

pelas ruas do bairro, encharcadas de sol.

Em: Poesia Brasileira para a Infância,  Cassiano Nunes e Maria da Silva Brito,  São Paulo, Saraiva:1968.

 afonso schmidt

Afonso Schmidt (Cubatão, SP 1890 – SP, SP 1964) poeta, romancista, contista, biógrafo, jornalista.  Como jornalista trabalhou para  A Voz do Povo, em 1920, no Rio de Janeiro.  Para Folha da Noite,  Diário de Santos e A Tribuna, em Santos. Em São Paulo trabalhou na Folha da Noite e O Estado de S.Paulo.  Neste último trabalhou de 1924 até 1963.  Recebeu o prêmio da  revista O Cruzeiro em 1950 pelo romance Menino Felipe.   A União Brasileira de Escritores lhe premiou com o Juca Pato – Intelectual do Ano em 1963.  Foi sócio fundador do Sindicato dos Jornalistas do Estado de S. Paulo, membro da Academia Paulista de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo.

Obras: 

A Árvore das lágrimas – 1942  

A Datilógrafa    

A Marcha -1941  

A Nova conflagração -1931  

A Primeira viagem – 1947  

A Revolução brasileira – 1930  

A Sombra de Júlio Frank – 1936  

A Vida de Paulo Eiró – 1940  

Ao relento -1922  

As Levianas    

Aventuras de Indalécio    

Bom tempo -1956  

Brutalidade  – 1922  

Carantonhas – 1952  

Carne para canhão – 1934  

Colônia Cecília – 1942  

Curiango – 1935  

Evangelho dos livres -1919  

Garoa – 1931  

Janelas abertas – 1911  

Lembrança    

Lírios roxos – 1904  

Lua nova    

Lusitânia – 1918  

Menino Felipe -1950  

Miniaturas – 1905  

Mirita e o ladrão – 1960  

Mistérios de São Paulo – 1955  

Mocidade – 1921  

O Assalto – 1945  

O Canudo – 1963  

O Desconhecido    

O Dragão e as virgens – 1926  

O Enigma de João Ramalho – 1963  

O Passarinho verde    

O Que era proibido dizer – 1932  

O Reino do céu – 1942  

O Tesouro de Cananéia – 1942  

Os Boêmios    

Os Impunes – 1923  

Os Impunes – 1924  

Os Melhores contos de Afonso Schmidt – 1946  

Pirapora -1934  

Poesia – 1945  

Poesias -1933  

Retrato de Valentina – 1948   

Saltimbancos – 1950  

São Paulo dos meus amores -1954  

Somos todos irmãos – 1949  

Tempos das águas – 1962  

Zamir    

Zanzalás – 1938





Valsa da Vassoura, Dilan Camargo, poesia infantil

31 10 2009

bruxa com gato

Valsa da vassoura

Dilan Camargo

Senhora Dona Vassoura

Elegante Dama Loura

ao vê-la assim tão linda

minha tristeza se finda.

 

Vamos dançar uma valsa?

Pra poder acompanhá-la

este jovem se descalça

com medo de pisá-la.

 

Deixe enlaçar, dançarina

a sua cintura fina.

Deixe tomar, bem sensíveis

os seus braços invisíveis.

 

Ao soar a melodia

surpresa todos verão:

rodopia, rodopia

um belo par no salão.

 

Em: Poesia fora da estante, coord. Vera Aguiar, Simone Assumpção e Sissa Jacoby, Porto Alegre, Editora Projeto:2007

Dilan Deibal D’ Ornellas Camargo — ( Itaqui, RS, 1948) advogado, professor, escritor, poeta, teatrólogo e letrista.

Obra:

Em mãos, poesia, 1976

Na mesma Voz,  poesia, 1981

Sopro nos Poros,  poesia, 1985

O Embrulho do Getúlio, poesia infantil, 1989

Rebanho de Pedras, poesia, 1990

O Vampiro Argemiro, poesia

Eu pessoa, pessoa eu, poesia, 1997

Poesia e Cidade, poesia, 1997

Bamboletras, poesia, 1998

O tempo começa no coração, poesia, 1999

A Fala de Adão, poesia, 2000

Antologia do Sul – Poetas Contemporâneos do RS, poesia, 2001

A Galera Tagarela, poesia, 2003
 
Coletânea da Poesia Gaúcha do RS, poesia, 2005
 
Balaio de Idéias, poesia,  2007
 
BrinCRiar, poesia infantil, 2007
 
A Casa da Suplicação, teatro
 
A Oitava Praga, teatro




A arteira e a arte — poema infantil de Dilan Camargo

29 10 2009
maquiagem 4Ilustração Maurício de Sousa.

 

A arteira e a arte

Dilan Camargo

 

Mamãe me empresta tua bolsa

teu colar e teus sapatos

depois me passa batom

que vou tirar um retrato.

 

Deixa eu me olhar no espelho

deixa só por um instante.

Quero batom mais vermelho

quero um colar mais brilhante.

 

A sala é uma passarela

requebro e faço proeza

sou artista de novela

a rainha da beleza.

 

Será que o sonho termina

quando desço dos sapatos?

Será que baixa a cortina

quando chega o fim do ato?

 

 

Em: Poesia fora da estante, coord. Vera Aguiar, Simone Assumpção e Sissa Jacoby, Porto Alegre, Editora Projeto:2007

Dilan Deibal D’ Ornellas Camargo — (Itaqui, RS, 1948) advogado, professor, escritor, poeta, teatrólogo e letrista.

Obra:

Em mãos, poesia, 1976

Na mesma Voz,  poesia, 1981

Sopro nos Poros,  poesia, 1985

O Embrulho do Getúlio, poesia infantil, 1989

Rebanho de Pedras, poesia, 1990

O Vampiro Argemiro, poesia

Eu pessoa, pessoa eu, poesia, 1997

Poesia e Cidade, poesia, 1997

Bamboletras, poesia, 1998

O tempo começa no coração, poesia, 1999

A Fala de Adão, poesia, 2000

Antologia do Sul – Poetas Contemporâneos do RS, poesia, 2001

A Galera Tagarela, poesia, 2003
 
Coletânea da Poesia Gaúcha do RS, poesia, 2005
 
Balaio de Idéias, poesia,  2007
 
BrinCRiar, poesia infantil, 2007
 
A Casa da Suplicação, teatro
 
A Oitava Praga, teatro




A morte da águia, poema de Luís Guimarães Júnior

26 10 2009

águia, pintura chinesa

Águia em vôo

Aquarela chinesa

 

A postagem de um poema de Vicente Guimarães neste blogue, João Bolinha virou gente, lembrou à leitora Vânia um poema que ela precisou decorar para a escola, chamava-se A morte da águia.  E ela me pediu que se eu o conhecesse que lhe mandasse esse poema, pois  não se lembrava de todas as estrofes. 

De fato, o poema que conheço com este título  é um antigo e belíssimo poema,  bastante longo, de Luís Guimarães.  E aqui está para nós todos nos deliciarmos.   

 

A morte da águia

 

Luís Guimarães

 

A bordo vinha uma águia.  Era um presente

Que um potentado, — um certo rei do Oriente,

Mandava a outro: — um mimo soberano.

Era uma águia real.  Entre a sombria

Grade da jaula o seu olhar luzia,

Profundo e triste como o olhar humano.

 

Aos balanços do barco ela curvava

Ao níveo colo a fronte que cismava…

E enquanto as ondas túrbidas gemiam,

Ao som do vento – em fúnebres lamentos

Ela pensava nos longínquos ventos

Que do Himalaia os píncaros varriam.

 

Fora uma infame e traiçoeira bala,

Que, do régio fuzil negra vassala,

Invisível – uma asa lhe partira:

Cheia de luz, tranqüila, majestosa,

Dobrando a fronde branca e poderosa,

Aos pés de um rei a águia real caíra.

 

Os bonzos vis, proféticos doutores,

Sondando-lhe a ferida e as cruas dores,

Que um venenoso bálsamo tentava

Apaziguar em vão, — diziam rindo:

“Não há no mundo exemplar mais lindo:

Vale um império!” – E a águia agonizava.

 

Um dia, enfim, o animal valente

Resistindo aos martírios, — largamente

Respirou a amplidão.  A asa possante

Abrir tentou de novo.  Aberta estava

A jaula colossal que o esperava:

Forçoso era partir.  Desde este instante,

 

A águia sombria e muda e pensativa,

Solene mártir, vítima cativa,

Terror dos vis e símbolo dos bravos,

Pediu a morte a Deus, — pediu-a ansiosa

Longe, porém, da corte vergonhosa

Desse covarde e baixo rei de escravos.

 

Pediu a morte a Deus, o cataclismo,

As convulsões elétricas do abismo,

As batalhas finais!  Morrer num grito

Vibrante, imenso, heróico, soberano,

E fremente rolar no azul do Oceano,

Como um titã caído do infinito.

 

Morrer livre, cercada de vitórias,

Com suas asas – pavilhão de glórias –

Inundadas da luz que o Sol espalha:

Ter o fundo do mar por catacumba,

As orações do vento que retumba,

E as cambraias da espuma por mortalha.

 

Entanto, melancólica, tristonha,

Como um gigante mórbido que sonha,

Fitava, às vezes, o revolto oceano,

Com esse olhar nublado e delirante,

Com que saudava a César triunfante

O moribundo gladiador romano.

 

O comandante – urso do mar bondoso —

Disse um dia ao escravo rancoroso,

Ao carcereiro estúpido e inclemente:

“Leve-a ao convés.  Verá que esse desmaio

Basta para apagá-lo um brando raio

Do largo Sol no rúbido oriente.”

 

Subiu então a jaula ao tombadilho:

Do nato dia ao purpurino brilho

Salpicava de luz o céu nevado…

E a águia elevando a pálpebra dormente

Abriu as asas ao clarão nascente

Como as hastes de leque iluminado.

 

O mar gemia, lôbrego e espumante,

Açoitando o navio; — além – distante,

Nas vaporosas bordas do horizonte,

As matutinas névoas que ondulavam,

Em suas várias curvas figuravam

Os largos flancos triunfais de um monte.

 

“Abre-lhe a porta da prisão,” ( ridente

O comandante disse ) “Esta corrente

Para conter-lhe o vôo é mais que forte!

Voar!  pobre infeliz!  causa piedade!

Dê-lhe um momento de ar e liberdade!

Único meio de a salvar da morte.”

 

Quando a porta se abriu, — como uma tromba,

Como o invencível furacão que arromba

Da tempestade as negras barricadas,

A águia lançou por terra o escravo pasmo,

E desprendendo um grito de sarcasmo,

Moveu as longas asas espalmadas.

 

Pairou sobre o navio — imensa e bela –

Como uma branca, uma isolada vela

A demandar um livre e novo mundo;

Crescia o Sol nas nuvens refulgentes,

E como um turbilhão de águias frementes,

Zunia o vento na amplidão,  – profundo.

 

Ela lutou, ansiosa!  Atra agonia

Sufocava-a.  O escravo lhe estendia

Os miseráveis e covardes braços;

Nu o oceano ao longe cintilava

E a rainha do ar, em vão, buscava

Onde pousar os grandes membros lassos. 

 

Sobre o barco pairou ainda, — e alçando,

Alçando mais os vôos,  e afogando

Na luz do Sol a fronte alvinitente,

Ébria de espaço, ébria de liberdade,

Como um astro que cai da imensidade,

Afundou-se nas ondas de repente.

 

 

luisguimaraesjunior

 

Luís Caetano Pereira Guimarães Júnior (RJ 1847 – Lisboa 1898), advogado, jornalista, ministro, diplomata, poeta, romancista, teatrólogo.  Estudou no Colégio Calógeras em Petrópolis e cursou as faculdades de Direito de São Paulo e do Recife.   Colaborador dos periódicos A reforma, A república, O correio paulistano, Imprensa Acadêmica de São Paulo, Gazeta de Notícias. Membro da Academia Brasileira de Letras, membro da Academia de Belas Artes do Chile, membro da Academia do Quiriti em Roma, membro da Arcádia Romana, membro da Sociedade de Geografia Italiana, oficial da Ordem da Rosa, oficial da Ordem de Cristo e da Ordem de São Tiago, cavaleiro da Ordem Romana do Sepulcro e da Ordem de São Gregório Magno.

 

Obra:

 

A Alma do outro mundo,  1913  

A Carlos Gomes, 1870  

A entrada no céu,   1882  

A família Agulha, 1870  

A morte, 1882  

André Vidal, séc. XIX   

As Jóias indiscretas, séc. XIX   

As Quedas fatais, séc. XIX   

Ave Estela, 1865  

Contos sem pretensão,  1872  

Corimbos, 1866  

Ernesto Couto, 1872  

Filigranas,  1872  

Lírica, 1880  

Lírio Branco, 1862  

Mater dolorosa, 1880  

Monte Alverne, séc. XIX   

Noturnos, 1872  

O Caminho mais curto, séc. XIX   

Os Amores que passam, séc. XIX   

Pedro Américo, 1871  

Um Pequeno demônio, séc. XIX   

Uma Cena contemporânea, 1862  

Valentina, séc. XIX





O Corpo Humano, em versos infantis de Walter Nieble de Freitas

10 10 2009

 corpohumano,menino 3Ilustração, Maurício de Sousa, adaptada.

 

O Corpo Humano

                                                     Walter Nieble de Freitas

 

Toda criança estudiosa,

Que deseja passar de ano,

Deve saber que em três partes

Se divide o corpo humano.

 

São: cabeça, tronco e membros

— É bem fácil a lição —

Vejamos parte por parte,

Preste, pois, muita atenção.

 

Na memória, guarde bem,

É importante, não se esqueça!

Somente de crânio e face

Se constitui a cabeça.

 

corpo humano menina 5

Ilustração, Maurício de Sousa, modificada.

 

No crânio, ficam o cérebro

E outros órgãos protegidos;

Estão na face o nariz,

A boca, os olhos e ouvidos.

 

O tronco está dividido

— Veja as Ciências Naturais —

Em tórax e abdome,

Duas partes, nada mais.

 

Localizam-se no tórax

— Não vá fazer confusão —

Dois órgãos muito importantes:

Os pulmões e o coração.

 

corpo-humano-1

 

Fazem parte do abdome:

Estômago, pâncreas e rins

E também os intestinos

Com outros órgãos afins.

 

Em dois planos diferentes

Os membros estão situados:

Superiores e inferiores

São eles asssim chamados.

 

São dos membros superiores

— Aprenda bem a lição —

O ombro, o braço, o antebraço

E também a nossa mão.

 

corpo-humano-2

 

Vejamos os inferiores

— Você quer saber, não é? —

São estas as suas partes:

Quadril, coxa, perna e pé.

 

O nosso corpo precisa

Banho com água e sabão,

Bastante exercício, ar puro

E boa alimentação.

 

Mas, ao lado de tudo isto,

Não descuide da instrução,

Porque assim você terá

Mente sã em corpo são.

 

Em: Barquinhos de papel: poesias infantis, Walter Nieble de Freitas, São Paulo, SP, Editora Difusora Cultural:1961.





Professorinha, poema de Dimas Costa pelo Dia do Professor

5 10 2009

professora ensinando fraçõesIlustração, Maurício de Sousa.

 

 

Professorinha

 

                          Dimas Costa

 

 

 

Chinoca, meiga, trigueira,

Descendente das missões,

Exigente nas lições,

Reclama e briga por tudo.

Mas eu fico sempre mudo

Ao ver aquela carita,

Quando repreende e grita,

Numa expressão sedutora.

Essa é a professora

Do colégio onde estudo.

 

Que me importa com estudo

De história ou geografia,

Se eu gosto é da anatomia

Dessa prenda encantadora.

Eu que sou índio de fora

Meio matuto, por certo,

Vou decorando o alfabeto

Com muita dificuldade,

Porque só aprendo, é verdade,

Nas lições que ela me dá,

Que coisa mais linda não há

Do que os olhos da professora.

 

Esses dias me surpreendeu,

Quando mui séria ensinava,

Que apaixonado eu a olhava

Sem escutar a sua fala.

E, por assim eu mirá-la

Acho que bem entendeu,

Pois de pronto enrubesceu

E tomando-me a lição,

Diz que por falta de atenção,

Me pôs pra fora da aula.

 

Professora, professora,

Deixa de manha, mimosa!

Chinoca quando é dengosa

Ressalta mais o primor.

Desculpa, mas minha flor

Entende a minha paixão:

Deixa pra lá essa lição

E vem comigo, querida,

Viver as coisas da vida

Num recreio só de amor…

 

Se tu quiseres mesmo

Unir-te em laços eternos,

Bota fora os cadernos

E vem seguir os meus passos.

Se larguemo pelos espaços

A procura de um cantinho,

Onde ergueremos um ninho

Debaixo do céu aberto,

E eu morro analfabeto

Só pra viver nos teus braços!

 

 

 

Dimas Noguez Costa, (Bagé, RS, 1926 ), pseudônimo: Chiru Divertido.  Poeta, cronista, radialista.

 

 

Obras:

 

Carta a  mãe natureza, 1979

Céu e campo, 1954  

Céu, pampa e pago, 1968  

Entardecer na querência, 1989

Pampa bravo, 1958  

Pelos caminhos do pago, 1963 

Poesia gauchesca para moças e crianças, 1983

Poesia gauchesca para prendas e peões, 2003

Três poemas de destaque, 1963





A flor, poema infantil de Afonso Lopes de Almeida

19 09 2009

flor feliz

A FLOR

 

                      Afonso Lopes de Almeida

 

 

 

Que linda flor! – dizeis – porém

reparai bem:

vede que a sábia Natureza

não lhe deu só beleza,

mas fê-la útil também.

 

Beleza que é só beleza

embora que nada se iguale,

é coisa fútil…

Pois, com franqueza,

ser belo de nada vale,

se não se é útil.

 

Leis da vida, leis do amor!

Tudo produz, e o produto

novos produtos adiante,

constante, continuamente!

A flor se transforma em fruto,

o fruto faz-se semente,

volta a semente a ser planta,

torna a planta a abrir-se em flor!

 

Se tudo é útil no mundo,

e produtivo, fecundo,

nós, por nosso próprio bem,

trabalhemos,

estudemos,

sejamos úteis também!

 

 

Em: O mundo da criança, vol. I, Poemas e Rimas, Rio de Janeiro, Editora Delta, s/d

 

 ——–

Afonso Lopes de Almeida (RJ, RJ, 1888 – RJ, RJ, 1953), poeta, prosador, bacharel em Direito, membro da Academia Carioca de Letras. Filho da escritora brasileira Julia Lopes de Almeida.

Obras:  

A Árvore, 1916  

A Neve ao Sol: viagem lírica pelos cinco continentes   

Evangelho da Bondade e Outros Poemas, 1921  

Mãe, 1945  

Através da Europa, no Ano Primeiro da Era, 1923  

O Gênio Rebelado,1923  

Terra e Céu, 1914





Poetas no museu: Ladyce West

6 09 2009

Bez Batti, FLORAÇÂOFloração

João Bez Batti (RS, Brasil, contemporâneo)

 

 

 

Presença Invisível                

 

 

                                      Ao contemplar a obra  de João Bez Batti

                                      no Instituto Moreira Sales, RJ,  Novembro de 2006

 

 

 

Senti a presença invisível

De mãos grossas, calejadas,

Que acariciaram a pedra, 

O basalto negro

Ou vermelho,

Ou até mesmo o mármore.

 

Constatei mesmerizada

Que trouxeram à superfície

A essência;

Que libertaram, a Michelangelo,

A forma presa no seixo,

O orgânico escondido,

Inerte,

Meio-solto,

Quase-aprisionado.

 

Mãos que revelaram os escravos encapsulados,

Seres encarcerados no mesozóico,

Como se, conhecendo o desastre de Pompéia

Depois do escarro fulminante do Vesúvio,

Soubessem encontrar:

O cactos florescente, o cágado,

A abóbora moranga.  

Caracóis.

E bólidos petrificados.

 

Estas mãos, que brincam

Sedutoramente

Com o poder divino,

Conhecem o conteúdo,

A alma invisível da pedra.

Descobrem o cascalho gaúcho,

Chocam os grandes ovos de rio,

E parem os seres cativos nas  pedras,

Como Eva o tinha sido na costela de Adão.

 

E o que surpreende: estas mãos,

Que revelam o coração do basalto

Regurgitado  pela Terra,

Lixado pelas águas,

Rolado, burilado e aveludado pelo tempo,

São humanas.

Mãos peãs.

Agraciadas pela arte da divinação,

Que brincando de Deus,

Mostram o divino em todos nós.

 

 

© Ladyce West, 2006, Rio de Janeiro





Poetas no museu: Raquel Naveira

29 08 2009

venus_velazquez

Vênus do espelho, 1650  [Também conhecida como Vênus Rockeby]

Diego Velázquez  (Espanha 1599-1660)

Óleo sobre tela,  122,5 x 177 cm

National Gallery, Londres.

 

 

Vênus ao espelho

 

[inspirado num quadro de Velazquez]

                       

                                       Raquel Naveira

 

 

Nua,

Reclinada sobre musgo de veludo,

Vênus mira-se ao espelho,

Quadro de cristal polido,

Seguro por Cupido.

 

Adorna os cabelos com violetas singelas,

Morde maçã

E canela,

Acaricia os seios

Que brilham como luas.

 

Toda ela é úmida:

Anêmona de primavera,

Espuma marinha,

Rosa encharcada;

A umidade é o princípio que gera

E fecunda

Criaturas nacaradas.

 

Momento de banho,

De repouso,

De idéia clara;

Contemplar-se

É seu gozo.

Tão atraente,

Tão fora de qualquer limite,

Como vencer essa força dissolvente?

Quem não seria seduzido por ela?

Quem quebraria esse espelho ardente?

Que mortal,

Que divindade defenderia a honra

E a arte? 

 

 

 

 

Em: Stella Maia e outros poemas, Campo Grande, MS; Editora UCDB:2001

 

raquel naveira

 

Raquel Naveira (Campo Grande, MS 1957) Poetisa, ensaísta, graduada em Letras e Direito, professora no Curso de Letras da Universidade Católica Dom Bosco de Campo Grande (MS), mestranda em Comunicação e Letras, na Universidade Presbiteriana Mackienzie (SP), e empresária de turismo (Pousada Dom Aquino, em Campo Grande – MS), Raquel Naveira destaca-se por seu talento e engajamento nas atividades culturais do centro-oeste brasileiro.  A escritora tem recebido reconhecimento nacional através de inúmeras premiações e várias indicações para prêmios. Em sua obra, são constantes a religiosidade, o misticismo e os temas épicos.

 Obra:

Via Sacra, poesia, 1989

Fonte luminosa, poesia, 1990

Nunca Te-vi, poesia, 1991

Fiandeira, ensaios, 1992

Guerra entre irmãos, poesia, 1993

Canção dos mistérios, poesia, 1994

Sob os cedros do Senhor, poesia, 1994

Abadia, poesia, 1995

Mulher Samaritana, 1996

Maria Madalena, prosa poética, 1996

Caraguatá, poesia, 1996

Pele de jambo, infanto-juvenil, 1996

O arado e a estrela, poesia, 1997

Intimidades transvistas, 1997

Rute e a sogra Noemi, prosa poética, 1998

A casa da Tecla, poesia, 1998

Senhora, poesia, 1999

Stella Maia e outros poemas, 2001

Casa e castelo, poesia, 2002

Maria Egipcíaca, poesia, 2002

Tecelã de tramas: ensaios sobre interdisciplinaridade, ensaios, 2004

Portão de ferro, poesia, 2006

Literatura e Drogas e outros ensaios, crítica literária, 2007