A boa literatura de além-mar

18 03 2014

OLYMPUS DIGITAL CAMERALeitora e flores, 2004

Márcio Melo (Brasil, contemporâneo)

acrílica sobre tela, 76 x 61 cm

www.marciomelo.com

Nos dias de hoje tenho mais prazer com a literatura lusitana do que com a produzida no Brasil.  São raros os escritores brasileiros cuja ficção me dá prazer. Acontece com a literatura, o que acontece com o cinema, estamos em pontos opostos sobre a percepção do que é qualidade. A produção nacional não me seduz. Nos dois casos me parece que escritores e diretores falam para seus colegas, escrevem e filmam obras para que seus colegas leiam ou assistam e não para um público, como eu (e são muitos de nós nesse barco) sedento por uma boa história, contada de maneira criativa mas sem didatismo político para que aceitemos goela abaixo essa ou aquela nova moda. A história bem contada, bem narrada, que aquece a alma do leitor existe nas exceções brasileiras, e as resenhas nesse blog mostram os nomes de autores brasileiros que aprecio.  Por aqui, no entanto, estamos fortemente dominados pela teoria de que a arte resolve problemas sociológicos. Não é o caso e nunca foi.  Literatura ou cinema com agenda política é  coisa adolescente e entediante. Com o passar dos anos se perde, é encafifada com teias de aranha, esquecida nas prateleiras inalcançáveis das bibliotecas até ser tema de alguma dissertação para um estudante de doutorado.

Deve ser por isso que a literatura produzida nas duas últimas décadas, em outras versões da minha língua materna, me atrai tanto.  Não falo só de Portugal, mas dos países de língua portuguesa do continente africano.  Com eles não me sinto lendo tratados sociológicos sobre personagens que trilham a periferia da sociedade. O encantamento que tenho com Miguel Sousa Tavares, Dulce Maria Cardoso, Ondjaki, Saramago, Agualusa, Felipa Melo, Gonçalo M. Tavares, Germano Almeida, Mia Couto entre outros raramente encontra eco dentro de mim pelo que é produzido deste lado do Atlântico.

Hoje isso acontece ainda uma vez mais. Hoje, estou cantando, enrolando a língua no prazer de pronunciar as palavras que conheço, mas que me vêm com conotações diferenciadas, com usos criativos.  Estou degustando a prosa de José Luís Peixoto.  O que me agrada? A linguagem entre o coloquial e o clássico; a maneira econômica e pausada de narrar; a inversão de imagens que surpreende a narrativa [como no texto abaixo quando diz:  “Os barulhos faziam-lhe perguntas…”] Uma escrita quase poética, com elipses que deixam espaço para a nossa imaginação.  O livro chama-se Livro.

“(1960)

O comboio era incompreendido pelo Galopim.

Encostado à janela, de boca aberta via os campos a passarem e sentia o barulho do comboio no encosto, no rabo sentado, nos pés dentro dos sapatos. As nuvens afastavam-se mais devagar do que as árvores, que passavam a zunir.  Olha um rapaz lá além a guardar meia dúzia de ovelhas. Galopim apontava para a janela, mas os outros rapazes da sua idade pouco ligavam. Usava um fato cinzento que lhe tinha sido oferecido por uma viúva. É uma boa vantagem terem o mesmo tamanho, disse a viúva. Mas não tinham. O Galopim era encorpado, mas o falecido, velho grande, era mais encorpado ainda. As calças presas por um cinto, faziam foles na zona da cintura. As mangas do casaco chegavam-lhe quase às pontas dos dedos. A viúva também disse que era uma boa vantagem calçarem o mesmo número, mas também não calçavam. Os sapatos iam seguros por palmilhas de cartão, ásperas.

A cidade, os olhos de Galopim rebolavam-se pela cidade. Os barulhos faziam-lhe perguntas a que não sabia responder. As casas levantavam-se diante dele.  Os pombos acalmavam-no em voos sobre praças e avenidas. Ao longo dos passeios, evitando e ultrapassando pessoas desconhecidas, o Galopim seguia os outros rapazes de sua idade.  E entraram numa porta aberta, subiram por umas escadas estreitas, degraus de madeira gasta, que cheiravam a musgo seco e que escureciam.

O Galopim continuou a segurar a maleta quase vazia. Estava ligeiramente despenteado. Tentou escutar com muita atenção aquilo que foi dito pelo rapaz da sua idade, muito sério, e pela mulher do peito para cima, que estava sentada atrás de um balcão.

Somos oito.

Mas havia um gato, peludo, que passava pelas pernas dos outros rapazes da sua idade, pelas suas, e que, com um pulo, chegou a subir para cima do balcão. O Galopim deixou de escutar a conversa para seguir os movimentos do bicho. A mulher não se interessou quando estendeu a chave ao rapaz com quem tinha estado a falar. No fundo de um corredor, atrás de uma porta, estava o quarto: meia dúzia de beliches de ferro, um canto do teto desmoronado, nuvens negras de umidade nas paredes, uma mesa pequena e velha. Os rapazes da idade do Galopim estavam alegres. No dia seguinte, iam às sortes. Aos olhos deles, a cidade parecia azeite de fritar. Era quase de noite.”

Mais tarde o capítulo seguinte começa encantador:

“(1964)

As paredes estavam mais resignadas que os pombos.

Era uma hora prateada. O fim da tarde atravessava o tempo e entrava pela porta aberta do quintal. O fim da tarde atravessava o vento. Ouvia-se o restolhar das folhas das árvores, ao longe, mas ouvia-se também as asas dos pombos a riscarem o ar, gemidos cortados, mas ouvia-se também o lume a arder, as chamas a fazerem estalar o madeiro, mas ouvia-se também a água”.

Ou o início da segunda parte deste capítulo:

“O Mondego tinha excelentes margens para vomitar.”

Em: Livro, José Luís Peixoto, São Paulo, Cia das Letras: 2012, pp: 71-72; 75, 76.

A narrativa surpreende não só pelo conteúdo mas pela maneira como é mostrado.  Ainda não acabei de ler o livro, mas já antecipo uma leitura que terá me satisfeito quando chegar ao final.





Retrato na praia, poema de Carlos Pena Filho

21 01 2014

Julia lendo e descansando na praia, s/d

Nancy Salamouny (Líbano, contemporânea)

http://nancysalamouny.blogspot.com

Retrato na praia

Carlos Pena Filho

Ei-la ao sol, como um claro desafio

ao tenuíssimo azul predominante.

Debruçada na areia e assim, diante

do mar, é um animal rude e bravio.

Bem perto, há um comentário sobre estio,

mormaço e sonolência. Lá, distante,

muito vagos indícios de um navio

que ela talvez contemple nesse instante.

Mas o importante mesmo é o sol, que esse desliza

por seu corpo salgado, enxuto e belo,

como se nuvem fosse, ou quase brisa.

E desce pelos seus braços, e rodeia

seu brevíssimo e branco tornozelo,

onde se aquece e cresce, e se incendeia.

Em: Melhores poemas, Carlos Pena Filho, Sel. Edilberto Coutinho, Editora Global:2000, 4ª edição.

Carlos Pena Filho  nasceu no Recife, em 1929.  Formado em Direito, pela Faculdade de Direito do Recife, foi poeta, letrista, jornalista, ensaísta para o Jornal do Comércio. Morreu num acidente automobilístico em 1960.

Obras:

O tempo da busca, 1952

Memórias do boi Serapião, 1955

A vertigem lúcida, 1958

Livro geral (obra reunida), 1959

Melhores poemas (póstuma) seleção de Edilberto Coutinho, 1983





Livro, um ótimo presente!

15 12 2013

WolfgangALT Leitora com bebe e gato, Wolfgang Alt (2012, ost, 60x80cm).Leitora com bebê e gato, 2012

Wolfgang Alt ( Alemanha, contemporâneo)

óleo sobre tela, 60 x 80 cm

Este foi um ano difícil para manter a leitura de 3 a 4 livros ficção de  por mês. Acabei lendo um pouco mais que isso, mas a maioria de não-ficção, em inglês ou francês, porque grande parte das áreas que me interessam não têm viabilidade comercial para as editoras por falta de público no Brasil. Mesmo assim tenho alguns livros para recomendar no campo da ficção como presentes de Natal. Recomendo também um de não-ficção. Todos têm resenha completa aqui, siga o link em cada título listado para maior detalhamento.

Nota: A peregrina é uma leitora assídua, há muitos anos e bastante exigente. Não recebe livros de graça para fazer resenhas, nem é paga por nenhuma casa editorial para se manifestar a respeito dos títulos listados.

Ficção:

Nihonjin, Oscar Nakasato

O melhor livro de ficção brasileira que li este ano. A história se desenvolve em torno da imigração japonesa no Brasil. A questão da identidade do imigrante e o caso especial dos japoneses.  Um poema em prosa.

Os olhos amarelos dos crocodilos, Katherine Pancol

O primeiro de uma trilogia da escritora francesa que teve sucesso internacional. É um livro que não se consegue deixar de lado.  As “aventuras” contemporâneas levam a questões de autoestima e sucesso. .  Há um pouco de fantasia. Muito bom.

O silêncio das montanhas, Khaled Hosseini

Definitivamente um romance mais complexo do que foi o O Caçador de Pipas do mesmo autor.  Achei O silêncio das montanhas mais rico e profundo, dando uma visão diferente sobre a vida no Afeganistão contemporâneo.

O ancião que saiu pela janela e desapareceu, Jonas Jonasson

Esta é uma grande viagem de aventuras extraordinárias de um dos personagens mais incríveis que encontrei recentemente. Divertidíssimo, uma narrativa que consegue compreender o século XX inteiro. Entretenimento da melhor qualidade.

Acabadora, Michela Murgia

Belíssima história que nos leva a ponderar sobre a eutanásia e sobre a ética.  Texto sensível. Recomendo.

O advogado do diabo, Morris West

Este é um clássico de meados do século passado que continua relevante.  Foca no que é necessário para que a igreja considere alguém santo.  Mas no meio do caminho nos mostra como viver.  Está em edição de bolso.

Não-Ficção

A vida não é justa, Andréa Pachá

Coletânea de casos considerados pela juíza Andréa Pachá que nos mostram que a vida de todo mundo é muito mais interessante do que o roteiro de qualquer novela.  Ótima visão da maneira de viver dos brasileiros.





O início de uma amizade, lembranças provocadas pelo texto de Luís Jardim

8 12 2013

Paisagem com casa, 1946

Virgílio Carvalho de Araújo Lima (Brasil, 1886-1958)

óleo sobre tela, 47 x 65 cm

O texto de Luís Jardim que posto abaixo desencadeou um sem-número de divagações e reflexões, com as quais me lembrei de que a leitura é uma obra de dois autores: um pouco do escritor e muito do leitor.

“– O meu asilo era a casa de Compton.  A nossa amizade era “de madeira de lei”, dizia ele.  E de madeira provinha coincidentemente esse afeto recíproco, o meu pelo nobre estrangeiro ainda mais respeitoso e cheio de admiração.  Conhecemo-nos graças a uma trave de madeira que um dos carros do sítio carregava para uma cumeeira a ser levantada.  O inglês furava poços artesianos nas planícies da Lavoura Seca.  Precisava de um esteio a todo custo.  Dirigiu-se ao carreiro, ofereceu-lhe um preço exorbitante, mas o homem recusou a fortuna porque “o objeto era do patrão”.  Ouvindo-lhe os rogos engrolados, atendi-o:

— Para dar água à minha terra, a trave lhe fica de graça, senhor…

— Compton ou Capitão – disse-me o inglês, já de mão estendida para um laço de amizade.

Daí em diante as nossas relações cresceram e se firmaram.  Antes eu o procurava pela razão mesma da amizade e quase digo para ilustrar-me com o seu convívio.  O nosso perfeito entendimento em nada se alterou pelo fato de que eu desconhecia o seu idioma e ele ainda se encrespasse todo para falar o meu.  Somente, eu não tinha a sua franqueza, pois Compton achava, rindo-se de si próprio, que “arranhava um enxacoco”, palavra da minha língua que eu também ignorava.

Agradava-me particularmente a casa do amigo, de paredes recobertas de couros de bichos, de flechas, de penas, coisas que nos pertenciam, nativamente, e das quais não sabíamos tirar aquele efeito decorativo.  Apreciava as suas panóplias, “bárbaras”, como dizia ele, formadas de velhas e esquisitas pistolas de uso matuto, de facas, de punhais comprados nas feiras populares.  As suas cadeiras macias, o silêncio, os seus livros bem arrumados e cheios de ilustrações, o seu tapete, pele de onça de dentes arreganhados.  A sua casa era o modelo ideal que eu imaginava para a que viesse um dia a construir.  Mas a casa outrora desejada era agora um castelo sobre areia.

Já não eram esses pequenos luxos domésticos, essa paz interior, ornada com discrição e gosto, aquilo que eu procurava no doce lar do amigo.  Nem mesmo a sua amizade, franca e leal.  Procurava determinadamente a sua natureza cheia de experiência, sem devaneios nem fantasias, o seu comportamento de inglês robusto, cuja objetiva curiosidade dissecava as coisas, virando-as pelo avesso para ver como eram, como se constituíam e de onde procediam. Contentavam-me em proveito da minha indecisão, os seus reparos duros e frios, como este que me fez sobre o meu caso oculto, assunto aliás que nunca mais lhe falara:

 — Talvez aquilo que hoje faz sofrer seja exatamente motivo de rir mais tarde.  Contudo, essa é a vida, é óbvio.  Seria talvez absurdo imaginar o contrário.  Eis tudo.

 Era essa a realidade quase em relevo que eu agora procurava, em desacordo com a minha própria natureza.  E esse dom inglês de encarar materialmente os fatos, essa compreensão geral da vida atraía-me e me fazia bem como o ar puro sorvido depois de reclusões sufocantes.”

Em: As Confissões de meu tio Gonzaga, Luís Jardim, Rio de Janeiro, José Olympio:1963, 3ª edição.

Uma parede de tesouros, 1636,

Frans Francken , o jovem (Bélgica, 1581 – 1642)

Kunsthistorisches Museum, Viena.

Há pessoas que conseguem canalizar sua curiosidade para coleções de objetos que transformam ambientes em ninhos acolhedores e ricos em significado. É natural do ser humano o ato de colecionar, tomar posse daquilo que intriga. Desde os tempos nas cavernas arrecadávamos conchas, pedras roliças de rio,  plumas de um pássaro distante.  Está na nossa natureza, na nossa maneira de ser, a necessidade de colher, de trazer para si o que nos fascina. Às vezes é para marcar grandes ocasiões: caçadores que empalham cabeça do veado caçado na floresta.  Às vezes é para adquirir o poder mágico que associamos a um objeto como acontecia com o coral, visto na Idade Média como protetor contra o mau-olhado.  Coleções dizem muito sobre quem as fez.

Há muitos anos, nos EUA, fui ao leilão do espólio de uma senhora que falecera sem herdeiros. Arrematei grande parte de sua biblioteca, que nesse caso foi vendida em caixas, contendo indiscriminadamente 30 a 35 livros cada.  Na família éramos dois professores.  Livros sempre foram algo de corriqueiro, do dia a dia.  Comprá-los é como comprar gêneros de primeira necessidade.  Adquiri também nesse dia alguns itens de cerâmica francesa e outros objetos de cerâmica oriental.  Ms. Jenkins, como ficou conhecida para mim, viajara o mundo, e havia feito algo que eu sempre sonhei em fazer: atravessara a Europa em direção à Turquia pelo Orient Express, isso nos anos 20.  Como sei disso?  Pelos livros que me deixou.  Não que tenha me deixado.  Afinal eu os comprei.  Mas me senti como tendo recebido um presente dessa senhora.  Descobri quando abrimos as caixas de livros que compramos, muitas delas desejadas só por um ou dois títulos, é que nossos gostos, nossas preferências e maneiras de ver o mundo eram semelhantes.  Ms. Jenkins e eu teríamos sido farinha do mesmo saco, ou como dizem os americanos, ervilhas da mesma vagem. Teríamos sido amigas em vida se tivéssemos nos conhecido. Nossos gostos não eram semelhantes só nos livros, nas cerâmicas, nos tapetes, no brique a braque característico de um lar.  Havia algo místico, indefinível, na maneira como a cada caixa aberta, mais ela se fazia presente.

Por isso entendo que Compton no texto de Luís Jardim, acima, tenha se mostrado simultaneamente fascinante e familiar, que sua amizade com o narrador tenha se aprofundado.  Afinal os objetos que o fascinavam, que decoravam as paredes dessa casa de interior, falavam. Era uma linguagem silenciosa mas eloquente.  Foi fácil saber os interesses do dono da casa, reconhecer sua estética.  Daí certamente o senso de conforto do mineiro com o estrangeiro. Este ao abrir a sua casa deixara a descoberto sua personalidade, sua vida interior.  Era terreno fértil para o desabrochar de uma amizade.





Reminiscências da vida colegial, texto José de Alencar

14 10 2013

1 - escola Nikolai Bogdanov-Belsky (1868-1945) 1

Aula de aritmética, s.d.

Nicolai Bogdanov-Belsky (Rússia 1868-1945)

óleo sobre tela

II — REMINISCÊNCIAS DA VIDA COLEGIAL

 No ano de 1840 frequentava eu o Colégio de Instrução Elementar, estabelecido à rua do Lavradio n. 17, e dirigido pelo Sr. Januário Matheus Ferreira, a cuja memória eu tributo a maior veneração.Depois daquele que é para nós meninos a encarnação de Deus e o nosso humano Criador, foi esse o primeiro homem que me incutiu respeito, em que macatei o símbolo das autoridades. Quando me recolho da labutação diária com o espírito mais desprendido das preocupações do presente, e sucede-me ao passar pela rua do Lavradio pôr os olhos na tabuleta do colégio que ainda lá está na sacada do n. 17, mas com diversa designação; transporto-me insensivelmente àquele tempo, em que de fraque e boné, com os livros sobraçados, eu esperava ali na calçada fronteira o toque da sineta que anunciava a abertura das aulas. Toda minha vida colegial se desenha no espírito com tão vivas cores, que parecem frescas de ontem, e todavia mais de trinta anos já lhes pairaram sobre. Vejo o enxame dos meninos, alvoroçando na loja, que servia de saguão; assisto aos manejos da cabala para a próxima eleição do monitor geral; ouço o tropel do bando que sobe as escadas, e se dispersa no vasto salão onde cada um busca o seu banco numerado. Mas o que sobretudo assoma nessa tela é o vulto grave de Januário Matheus Ferreira, como eu o via passeando diante da classe, com um livro na mão e a cabeça reclinada pelo hábito da reflexão.Usava ele de sapatos rinchadores; nenhum dos alunos do seu colégio ouvia de longe aquele som particular, na volta de um corredor, que não sentisse um involuntário sobressalto.

Januário era talvez ríspido e severo em demasia; porém, nenhum professor o excedeu no zelo e entusiasmo com que desempenhava o seu árduo ministério. Identificava-se com o discípulo; transmitia-lhe suas emoções e tinha o dom de criar no coração infantil os mais nobres estímulos, educando o espírito com a emulação escolástica para os grandes certames da inteligência.Os modestos triunfos, que todos nós obtemos na escola, e que não vêm ainda travados de fel como as mentidas ovações do mundo; essas primícias literárias tão puras, devo-as a ele, a meu respeitável mestre que talvez deixou em meu ânimo o gérmen dessa fértil ambição de correr após uma luz que nos foge; ilusão que felizmente já dissipou-se. Dividia-se o diretor por todas as classes embora tivesse cada uma seu professor especial; desse modo andava sempre ao corrente do aproveitamento de seus alunos, e trazia os mestres como os discípulos em constante inspeção. Quando, nesse revezamento de lições, que ele de propósito salteava, acontecia achar atrasada alguma classe, demorava-se com ela dias e semanas, até que obtinha adiantá-la e só então a restituía ao respectivo professor. Meado, o ano, porém, o melhor dos cuidados do diretor voltava-se para as últimas classes, que ele se esmerava em preparar para os exames. Eram estes dias de gala e de honra para o colégio, visitado por quanto havia na Corte de ilustre em política e letras. Pertencia eu à sexta classe, e havia conquistado a frente da mesma, não por superioridade intelectual, sim por mais assídua aplicação e maior desejo de aprender. Januario exultava a cada uma de minhas vitórias, como se fora ele próprio que estivesse no banco dos alunos a disputar-lhes o lugar, em vez de achar-se como professor dirigindo os seus discípulos.

Como e porque sou romancista, José de Alencar, Rio de Janeiro, Leuzinger: 1893 em DOMÍNIO PÚBLICO





Saindo da livraria, texto de Permínio Asfóra

17 09 2013

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Livraria, 2012

John Farnsworth (EUA, contemp.)

Óleo sobre tapel colado em madeira, 21 x 21 cm

John Farnsworth

“A livraria era frequentada por curiosos que passavam as tardes remexendo livros, anotando cadernos e abrindo gavetas; desencavavam edições esgotadas, gozavam da intimidade do patrão, cuspinhavam literatura, falavam mal dos outros e galanteavam Teresa, — galanteios de esporas.

Ela se acostumara, só fazia sorrir. Fechou o decote e desceu as mangas, mas os seios empinados desafiavam os fregueses. Impossível disfarçá-los, primeiro lugar para onde espiavam.

Uma tarde quase caía da cadeira alta junto à maquina: a mão que se estendia pedindo-lhe o troco era a mesma que lhe fizera carinhos. Não mudara: o asseio de sempre, a camisa bem alva, o bigode certo, a roupa cinzenta.  Estranhou-lhe a calma; surgia tão sereno, tão sem surpresa que parecia mentira. Jamais pensou que fosse assim, um tipo sem alma, lembrou-se de um livro que lera. Na livraria havia facilidade de obter, emprestados, romances da moda; quase todos contavam histórias de amores infelizes, de pobres mocinhas que sonhavam com príncipes encantados.

Afável, cordial e alheio, como se nada entre eles houvesse ocorrido. Num minuto atravessava Teresa um mundo de recordações: noites de lágrimas, a perseguiçã ao vidro de formicida, tudo por ele, que estava ali calmo e distante, sorriso incolor, sem um aperto de mão. Sujeito ordinário, pensou em dizer-lhe. Noivo? Teria casado? Os olhos cinzentos iam dominá-la; seu rancor tropeçava, fraquejava. O mesmo rapaz, nem alto nem baixo, roupa nova, a gravata escura, o cabelo cortado. Por ele sofrera, esquecida e apagada; se não fosse o emprego, teria morrido de tédio. Andaria iludindo outras tolas, sujeito ordinário, quase dizia. Soçobrava nas recordações tumultuadas, o ódio adormecia, o desejo imperava. Fraqueza. Cadê o amor-próprio? Não devia ceder. Seria capaz de repetir a loucura? Loucura não houvera. O coração de Teresa perdendo o compasso, subia e descia, não havia o que falar.  Se falasse, iria se render, iria adular, iria chorar. Que coisa trágica, o amor. Os homens não amavam, aproveitavam a fraqueza das pobres para se divertir.

— Quem quiser se divertir, compre macaco — proclamava Viriato.

Mas Viriato também fazia sofrer a irmã de um amigo.

Coração descompassado, alegria e horror.

— Quase não a reconhecia — falou. Cada vez mais bonita.”

Em: O amigo Lourenço, Permínio Asfóra, Rio de Janeiro, José Olympio: 1962, pp, 96-97





O início da 2ª Guerra por Marques Rebelo

13 09 2013

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[1940]

30 de agosto

Os ataques aéreos contra a Inglaterra, que haviam se reintensificado em grande escala, após aliviante atenuamento, cessaram subitamente. Há dois dias que as sirenes londrinas não lançam seu estertor, há dois dias que o sono pode ser usufruído pela heróica população. Que poderá haver sob esta trégua? É exaustão ou armadilha? Mas os ingleses, como bons buldogues, é que perseveram na contracarga e Berlim foi bombardeada pesadamente durante três horas. Pela primeira vez – diz o rádio-jornal – a capital germana sentiu em toda a sua plenitude os horrores da guerra moderna.

31 de agosto

Esta guerra não é um assunto como a de 1914. E o jogo do nosso destino – o mundo tornou-se uma coisa só, coisa que precisa ser liberada e expurgada. Enchendo-nos de receio ou de esperança, de fervor ou desespero, pelo jornal, pelo rádio, pelo cinema, acompanhamos a sua marcha com a alma em riste. Se como na outra decoramos, rápidos, a sua nomenclatura e a sua terminologia, ganham elas nesta um significado transcendental, e é com a meticulosidade duma observação clínica que traçamos cada dia, cada hora, cada minuto, em permanente sofrimento e incerteza, o gráfico do seu desenrolar, pois que o seu desenlace nos atingirá de forma decisiva. É como se observássemos a evolução da nossa própria enfermidade. Anotamos os acessos e as astenias, os focos de resistência ou de depauperamento, discutimos cada sintoma, cada erupção, cada infrutífero medicamento. Armamos idealmente os planos duma eficaz terapêutica. Que importa o que tenha sido a Inglaterra se hoje encarna para nós o anticorpo que poderá nos salvar da infecção?

1º de setembro

Hoje completamos um ano de guerra, aniversário que ninguém ousará comemorar com bolo de velinhas. Os alemães mantém quase todo o continente europeu nas suas unhas, dominam toda costa que vai do cabo Norte ao golfo de Biscaia, além do qual se encontra a companheira das castanholas e zarzuelas, envolta na sua mantilha milico-clerical e renovando, como guerra de nervos, a campanha em prol de um ataque a Gibraltar. Hitler fez em dez anos o que Filipe de Espanha, e mais tarde Napoleão, não conseguiram realizar após largos anos de campanhas bélicas e diplomáticas. Já é alguma coisa – e de assustador!

No Mediterrâneo e na África, a Itália pode atacar os trigais do Egito e os terrenos petrolíferos do litoral da Palestina. Portugal não é só um Jardim da Europa à beira-mar plantado, é um eficiente consulado nazista também. No Extremo Oriente, o Japão pode ameaçar  Hong-Kong e Singapura, ou as colônias francesas e holandesas. Cá na América do Sul, a Argentina vende a sua carne para quem puder pagar,mas tende simpaticamente ao Eixo.

Amigos, o panorama é negro, mas a Inglaterra esperneia e os Estados Unidos estão de olho, certa será sua participação na luta se as coisas se agravarem, conquanto seja necessário primeiramente vencer as correntes isolacionistas que os republicanos tanto defendem, mais comerciantes do que cegos.

E aqui, seu moço?”

Em: A mudança, Marques Rebelo, 2º volume de O Espelho Partido, São Paulo, Martins: 1962, pp, 313-314.





Viagem de trem, texto de Geraldo Brandão em “Café Amargo”

4 09 2013

ARMÍNIO PASCUAL (1920) Trem, óleo sobre madeira industrializada - 49 x 64.Trem, s/d

Armínio Pascual (Brasil, 1920-2006)

óleo sobre madeira, 49 x 64 cm

“Como lagarta sonolenta o trem vinha de Mato Grosso. Corumbá , Campo Grande, Três Lagoas.  O sol estava a pino. O trem em linha sinuosa como uma serpente. Não tinha pressa de chegar. O sol entrava ora de um lado, ora de outro, queimando, torrando. Que linha… A gente pensava que ia parar numa cidade e o trem se afastava, depois vinha novamente. E o sol torrando aquela gente. Não podiam fechar as janelas por causa do calor, abafado. “É antigamente os engenheiros ganhavam por quilômetro construído, quanto mais comprida a linha, mais ganhavam, então faziam a linha cheia de curvas…” Alguém falou. Os vagões atulhados de gente sonolenta que tentava dormir, que esticava as pernas, tirava os sapatos, virava a cabeça. Gente branca, gente amarela, gente preta. Profusão de malas, trouxas e pés. Cheiro de suor, chulé, budum, morrinha. Miséria.

Uma família de gente loira. Quanta criança! Deve ter vindo do Báltico tentar a sorte na América, mas, está voltando pobre. Filhos, trouxas e ossos marcando sob a pele. A cada tranco do vagão um olho se abre e volta a fechar-se vencido. A perna estica, a cabeça se ajeita na trouxa imunda. A criança do colo geme. Sonolenta, a mãe abre o corpete, dá-lhe o seio murcho e volta ao sono, incapaz… Nos solavancos, de sono ou fraqueza o menino solta o bico que a mãe lhe pusera na boca. O seio enorme, pendurado, balança, balança no ritmo inconsciente do vagão. Passa o chefe-do-trem apregoando as estações. Passam jovens soldados que vão buscar água no vagão de primeira. O seio está balançando, balançando…mas ninguém olha para ele com olhar profano.

E o trem prossegue nas curvas que não acabam mais com apitos que não têm sentido. O sol queimando, queimando, só curvas e cafezais, roças e mais roças.

Uma moça dorme com os pés no banco da frente. O cabelo em desalinho é como uma cortina a defender a beleza mal formada. A mala de papelão, toda esfolada, amarrada com corda para não estourar. Por que deixou sua terra natal? Seria da Bolívia ou do Paraguai? Fugiria da miséria ou da maldade da gente que não lhe perdoou ter amado um dia? Talvez procurasse a cidade, onde a vida é mais fácil, mais fácil esconder e esquecer…

Outro é mascateador. É o único que fala, que fala do seu bairro distante. É de Vila Maria, e com orgulho repete o nome. Tem malas e pacotes além do número permitido. Espalha-as pelo vagão. O chefe passa, percebe a fraude e finge não entender. Deixa o mascate mascatear…”

Em: Café amargo, Geraldo Brandão, São Paulo, Brasiliense: 1968, pp,225-6





A grande lição de Dora, em Os Rodriguez, de Sra. Leandro Dupré

25 08 2013

Eliseu Visconti, BARONESADEGUARAREMAOSM20x131892COLEOPARTICULARBaronesa de Guararema, 1892

Eliseu Visconti (Itália, 1866 — Brasil, 1892)

óleo sobre madeira, 21 x 13 cm

Coleção Particular

“Compreendeu que saber viver é um dom, uma sabedoria; saber dar valor a fatos que à primeira vista parecem insignificantes, mas que no fundo são de grande valia é uma virtude. Lembrava os conselhos do pai: “quando você estiver triste, seja qual for o motivo, pense nas coisas piores que poderiam ter acontecido e não aconteceram. Pense naqueles que estão sofrendo muito mais que você, nos doentes incuráveis, nos aleijados, nos infelizes e nos indigentes.”

Rira desses conselhos, achara o pai simples, quase pueril, quando dizia: “Procure dar valor às coisas simples da vida, aos pequenos prazeres que estão ao seu alcance; uma hora de boa leitura, uma refeição agradável, uma linda música. Cultive as boas amizades, lembre-se de que a amizade sincera é um bem precioso. Lembre-se de que uma hora de solidão faz bem a quem tem o espírito inquieto, perturbado; lembre-se de que tudo há de vir a tempo, não corra ao encontro de nada, não force os fatos, pode sofrer desilusões. Filha, se toda gente soubesse dar valor a pequenos fatos, a vida seria um paraíso.”

Errara. Não cultivara a flor do espírito. Só dera valor aos grandes bens materiais que o dinheiro pode comprar e desdenhara os bens espirituais. E agora que perdera a fortuna…tinha a impressão de que nada mais ficara, perdera tudo… Poderia ter possuído ambos e agora no fim reter alguma coisa… Não. Não tinha amizades, nem o amor dos filhos. Tinha Dorita, apenas Dorita… Não… Não perdera tudo. A esse pensamento, seu rosto contraiu-se num sorriso quase alegre; ficara aquele anel de valor inestimável, e apertava-o nervosamente contra o peito.

Sorriu ao sentir junto ao corpo o saquinho de pano que fizera naquela tarde para guardar a pedra resplandescente.”

Em: Os Rodriguez, Sra. Leandro Dupré [Maria José Dupré], São Paulo, Editora Saraiva: 1958; 6ª edição, pp,220-221.





Nas asas das horas, poesia de Olegário Mariano

16 08 2013

SwallowsWisteriaAndorinhas na glicínia, s/d

Virgínia Lloyd-Davies (EUA, contemporânea)

aquarela, 45 x 69 cm

www.joyfulbrush.com

Nas asas das horas

Olegário Mariano

As asas das horas passam ligeiras

Como andorinhas riscando o ar…

Ruídos de penas de aves viajeiras

Que as minhas penas vêm aumentar.

Porque no vôo do tempo a vida

Passa com as horas, de braços dados.

Quanta poesia mal compreendida!

Quantos amores mal compensados!

E as horas passam levando a vida

Como andorinhas nos céus nublados.

E os rios passam levando a vida…

Tudo que corre, tudo que voa,

O vento… as águas… E, na corrida,

Quanto castelo no ar se esboroa,

Quanta esperança desiludida!

E pelos ares, angustiado

Coro de vozes longe ressoa:

“Tempo maldito! Tempo apressado!

Ventos bravios! Águas correntes!

Não corram tanto! Vão devagar!…”

E as andorinhas indiferentes

Passam ligeiras, riscando o ar…

Em: Toda uma vida de poesia: poesias completas, volume II (1932-1955), Olegário Mariano, Rio de Janeiro, José Olympio: 1957, pp: 552-553