Poesia infantil de Afonso Schmidt: Alegria de menina que gosta de leite de cabra

12 11 2009

# 16 Cheng Minsheng  Pastorinha de CabrasPastorinha de cabras

Cheng Minsheng ( QinDu, China, 1943)

Aquarela, tinta, sobre papel.

25 cm x 25 cm

Coleção particular.

Alegria de menina que gosta de leite de cabra

                                                  Afonso Schmidt

Quando acorda a corruíra do pessegueiro,

eu acordo também;

é a hora dourada em que passa o cabreiro

com suas cabrinhas tão bonitinhas…

São cerca de quarenta mas, contando bem,

talvez não passem de trinta…

A pintada, aquela que vai correndo na frente

e que não tem medo de gente

é a que leva o guizo alegre que tilinta.

As outras vão correndo atrás,

vão pulando,

vão chifrando,

vão berrando

                    bé, bé, bé…

Eu pego no copo e vou para o portão

chamar o cabreiro:

— Seu cabreiro, me tire este copo de leite,

mas quero daquela cabrinha malhada

que leva na boca uma folha dourada.

E o cabreiro chama a cabrinha:

                    bit, bit, bit…

Põe-se a tirar o leite:

puxa que puxa,

espicha que espicha,

escorrupicha…

Mamãe , que me espia sob o pé de brincos-de-princesa,

me fala:

— Menina que gosta de leite de cabra vira cabrita!

(mas isso é bobagem, ninguém acredita).

Depois o cabreiro e suas cabrinhas vão

pelas ruas do bairro, encharcadas de sol.

Em: Poesia Brasileira para a Infância,  Cassiano Nunes e Maria da Silva Brito,  São Paulo, Saraiva:1968.

 afonso schmidt

Afonso Schmidt (Cubatão, SP 1890 – SP, SP 1964) poeta, romancista, contista, biógrafo, jornalista.  Como jornalista trabalhou para  A Voz do Povo, em 1920, no Rio de Janeiro.  Para Folha da Noite,  Diário de Santos e A Tribuna, em Santos. Em São Paulo trabalhou na Folha da Noite e O Estado de S.Paulo.  Neste último trabalhou de 1924 até 1963.  Recebeu o prêmio da  revista O Cruzeiro em 1950 pelo romance Menino Felipe.   A União Brasileira de Escritores lhe premiou com o Juca Pato – Intelectual do Ano em 1963.  Foi sócio fundador do Sindicato dos Jornalistas do Estado de S. Paulo, membro da Academia Paulista de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo.

Obras: 

A Árvore das lágrimas – 1942  

A Datilógrafa    

A Marcha -1941  

A Nova conflagração -1931  

A Primeira viagem – 1947  

A Revolução brasileira – 1930  

A Sombra de Júlio Frank – 1936  

A Vida de Paulo Eiró – 1940  

Ao relento -1922  

As Levianas    

Aventuras de Indalécio    

Bom tempo -1956  

Brutalidade  – 1922  

Carantonhas – 1952  

Carne para canhão – 1934  

Colônia Cecília – 1942  

Curiango – 1935  

Evangelho dos livres -1919  

Garoa – 1931  

Janelas abertas – 1911  

Lembrança    

Lírios roxos – 1904  

Lua nova    

Lusitânia – 1918  

Menino Felipe -1950  

Miniaturas – 1905  

Mirita e o ladrão – 1960  

Mistérios de São Paulo – 1955  

Mocidade – 1921  

O Assalto – 1945  

O Canudo – 1963  

O Desconhecido    

O Dragão e as virgens – 1926  

O Enigma de João Ramalho – 1963  

O Passarinho verde    

O Que era proibido dizer – 1932  

O Reino do céu – 1942  

O Tesouro de Cananéia – 1942  

Os Boêmios    

Os Impunes – 1923  

Os Impunes – 1924  

Os Melhores contos de Afonso Schmidt – 1946  

Pirapora -1934  

Poesia – 1945  

Poesias -1933  

Retrato de Valentina – 1948   

Saltimbancos – 1950  

São Paulo dos meus amores -1954  

Somos todos irmãos – 1949  

Tempos das águas – 1962  

Zamir    

Zanzalás – 1938





Brasil que lê: fotografia tirada em lugar público

2 11 2009

DSC07463Fim de semana longo.  Gato estudando na Rodoviária.  Rio de Janeiro.





Valsa da Vassoura, Dilan Camargo, poesia infantil

31 10 2009

bruxa com gato

Valsa da vassoura

Dilan Camargo

Senhora Dona Vassoura

Elegante Dama Loura

ao vê-la assim tão linda

minha tristeza se finda.

 

Vamos dançar uma valsa?

Pra poder acompanhá-la

este jovem se descalça

com medo de pisá-la.

 

Deixe enlaçar, dançarina

a sua cintura fina.

Deixe tomar, bem sensíveis

os seus braços invisíveis.

 

Ao soar a melodia

surpresa todos verão:

rodopia, rodopia

um belo par no salão.

 

Em: Poesia fora da estante, coord. Vera Aguiar, Simone Assumpção e Sissa Jacoby, Porto Alegre, Editora Projeto:2007

Dilan Deibal D’ Ornellas Camargo — ( Itaqui, RS, 1948) advogado, professor, escritor, poeta, teatrólogo e letrista.

Obra:

Em mãos, poesia, 1976

Na mesma Voz,  poesia, 1981

Sopro nos Poros,  poesia, 1985

O Embrulho do Getúlio, poesia infantil, 1989

Rebanho de Pedras, poesia, 1990

O Vampiro Argemiro, poesia

Eu pessoa, pessoa eu, poesia, 1997

Poesia e Cidade, poesia, 1997

Bamboletras, poesia, 1998

O tempo começa no coração, poesia, 1999

A Fala de Adão, poesia, 2000

Antologia do Sul – Poetas Contemporâneos do RS, poesia, 2001

A Galera Tagarela, poesia, 2003
 
Coletânea da Poesia Gaúcha do RS, poesia, 2005
 
Balaio de Idéias, poesia,  2007
 
BrinCRiar, poesia infantil, 2007
 
A Casa da Suplicação, teatro
 
A Oitava Praga, teatro




A arteira e a arte — poema infantil de Dilan Camargo

29 10 2009
maquiagem 4Ilustração Maurício de Sousa.

 

A arteira e a arte

Dilan Camargo

 

Mamãe me empresta tua bolsa

teu colar e teus sapatos

depois me passa batom

que vou tirar um retrato.

 

Deixa eu me olhar no espelho

deixa só por um instante.

Quero batom mais vermelho

quero um colar mais brilhante.

 

A sala é uma passarela

requebro e faço proeza

sou artista de novela

a rainha da beleza.

 

Será que o sonho termina

quando desço dos sapatos?

Será que baixa a cortina

quando chega o fim do ato?

 

 

Em: Poesia fora da estante, coord. Vera Aguiar, Simone Assumpção e Sissa Jacoby, Porto Alegre, Editora Projeto:2007

Dilan Deibal D’ Ornellas Camargo — (Itaqui, RS, 1948) advogado, professor, escritor, poeta, teatrólogo e letrista.

Obra:

Em mãos, poesia, 1976

Na mesma Voz,  poesia, 1981

Sopro nos Poros,  poesia, 1985

O Embrulho do Getúlio, poesia infantil, 1989

Rebanho de Pedras, poesia, 1990

O Vampiro Argemiro, poesia

Eu pessoa, pessoa eu, poesia, 1997

Poesia e Cidade, poesia, 1997

Bamboletras, poesia, 1998

O tempo começa no coração, poesia, 1999

A Fala de Adão, poesia, 2000

Antologia do Sul – Poetas Contemporâneos do RS, poesia, 2001

A Galera Tagarela, poesia, 2003
 
Coletânea da Poesia Gaúcha do RS, poesia, 2005
 
Balaio de Idéias, poesia,  2007
 
BrinCRiar, poesia infantil, 2007
 
A Casa da Suplicação, teatro
 
A Oitava Praga, teatro




A morte da águia, poema de Luís Guimarães Júnior

26 10 2009

águia, pintura chinesa

Águia em vôo

Aquarela chinesa

 

A postagem de um poema de Vicente Guimarães neste blogue, João Bolinha virou gente, lembrou à leitora Vânia um poema que ela precisou decorar para a escola, chamava-se A morte da águia.  E ela me pediu que se eu o conhecesse que lhe mandasse esse poema, pois  não se lembrava de todas as estrofes. 

De fato, o poema que conheço com este título  é um antigo e belíssimo poema,  bastante longo, de Luís Guimarães.  E aqui está para nós todos nos deliciarmos.   

 

A morte da águia

 

Luís Guimarães

 

A bordo vinha uma águia.  Era um presente

Que um potentado, — um certo rei do Oriente,

Mandava a outro: — um mimo soberano.

Era uma águia real.  Entre a sombria

Grade da jaula o seu olhar luzia,

Profundo e triste como o olhar humano.

 

Aos balanços do barco ela curvava

Ao níveo colo a fronte que cismava…

E enquanto as ondas túrbidas gemiam,

Ao som do vento – em fúnebres lamentos

Ela pensava nos longínquos ventos

Que do Himalaia os píncaros varriam.

 

Fora uma infame e traiçoeira bala,

Que, do régio fuzil negra vassala,

Invisível – uma asa lhe partira:

Cheia de luz, tranqüila, majestosa,

Dobrando a fronde branca e poderosa,

Aos pés de um rei a águia real caíra.

 

Os bonzos vis, proféticos doutores,

Sondando-lhe a ferida e as cruas dores,

Que um venenoso bálsamo tentava

Apaziguar em vão, — diziam rindo:

“Não há no mundo exemplar mais lindo:

Vale um império!” – E a águia agonizava.

 

Um dia, enfim, o animal valente

Resistindo aos martírios, — largamente

Respirou a amplidão.  A asa possante

Abrir tentou de novo.  Aberta estava

A jaula colossal que o esperava:

Forçoso era partir.  Desde este instante,

 

A águia sombria e muda e pensativa,

Solene mártir, vítima cativa,

Terror dos vis e símbolo dos bravos,

Pediu a morte a Deus, — pediu-a ansiosa

Longe, porém, da corte vergonhosa

Desse covarde e baixo rei de escravos.

 

Pediu a morte a Deus, o cataclismo,

As convulsões elétricas do abismo,

As batalhas finais!  Morrer num grito

Vibrante, imenso, heróico, soberano,

E fremente rolar no azul do Oceano,

Como um titã caído do infinito.

 

Morrer livre, cercada de vitórias,

Com suas asas – pavilhão de glórias –

Inundadas da luz que o Sol espalha:

Ter o fundo do mar por catacumba,

As orações do vento que retumba,

E as cambraias da espuma por mortalha.

 

Entanto, melancólica, tristonha,

Como um gigante mórbido que sonha,

Fitava, às vezes, o revolto oceano,

Com esse olhar nublado e delirante,

Com que saudava a César triunfante

O moribundo gladiador romano.

 

O comandante – urso do mar bondoso —

Disse um dia ao escravo rancoroso,

Ao carcereiro estúpido e inclemente:

“Leve-a ao convés.  Verá que esse desmaio

Basta para apagá-lo um brando raio

Do largo Sol no rúbido oriente.”

 

Subiu então a jaula ao tombadilho:

Do nato dia ao purpurino brilho

Salpicava de luz o céu nevado…

E a águia elevando a pálpebra dormente

Abriu as asas ao clarão nascente

Como as hastes de leque iluminado.

 

O mar gemia, lôbrego e espumante,

Açoitando o navio; — além – distante,

Nas vaporosas bordas do horizonte,

As matutinas névoas que ondulavam,

Em suas várias curvas figuravam

Os largos flancos triunfais de um monte.

 

“Abre-lhe a porta da prisão,” ( ridente

O comandante disse ) “Esta corrente

Para conter-lhe o vôo é mais que forte!

Voar!  pobre infeliz!  causa piedade!

Dê-lhe um momento de ar e liberdade!

Único meio de a salvar da morte.”

 

Quando a porta se abriu, — como uma tromba,

Como o invencível furacão que arromba

Da tempestade as negras barricadas,

A águia lançou por terra o escravo pasmo,

E desprendendo um grito de sarcasmo,

Moveu as longas asas espalmadas.

 

Pairou sobre o navio — imensa e bela –

Como uma branca, uma isolada vela

A demandar um livre e novo mundo;

Crescia o Sol nas nuvens refulgentes,

E como um turbilhão de águias frementes,

Zunia o vento na amplidão,  – profundo.

 

Ela lutou, ansiosa!  Atra agonia

Sufocava-a.  O escravo lhe estendia

Os miseráveis e covardes braços;

Nu o oceano ao longe cintilava

E a rainha do ar, em vão, buscava

Onde pousar os grandes membros lassos. 

 

Sobre o barco pairou ainda, — e alçando,

Alçando mais os vôos,  e afogando

Na luz do Sol a fronte alvinitente,

Ébria de espaço, ébria de liberdade,

Como um astro que cai da imensidade,

Afundou-se nas ondas de repente.

 

 

luisguimaraesjunior

 

Luís Caetano Pereira Guimarães Júnior (RJ 1847 – Lisboa 1898), advogado, jornalista, ministro, diplomata, poeta, romancista, teatrólogo.  Estudou no Colégio Calógeras em Petrópolis e cursou as faculdades de Direito de São Paulo e do Recife.   Colaborador dos periódicos A reforma, A república, O correio paulistano, Imprensa Acadêmica de São Paulo, Gazeta de Notícias. Membro da Academia Brasileira de Letras, membro da Academia de Belas Artes do Chile, membro da Academia do Quiriti em Roma, membro da Arcádia Romana, membro da Sociedade de Geografia Italiana, oficial da Ordem da Rosa, oficial da Ordem de Cristo e da Ordem de São Tiago, cavaleiro da Ordem Romana do Sepulcro e da Ordem de São Gregório Magno.

 

Obra:

 

A Alma do outro mundo,  1913  

A Carlos Gomes, 1870  

A entrada no céu,   1882  

A família Agulha, 1870  

A morte, 1882  

André Vidal, séc. XIX   

As Jóias indiscretas, séc. XIX   

As Quedas fatais, séc. XIX   

Ave Estela, 1865  

Contos sem pretensão,  1872  

Corimbos, 1866  

Ernesto Couto, 1872  

Filigranas,  1872  

Lírica, 1880  

Lírio Branco, 1862  

Mater dolorosa, 1880  

Monte Alverne, séc. XIX   

Noturnos, 1872  

O Caminho mais curto, séc. XIX   

Os Amores que passam, séc. XIX   

Pedro Américo, 1871  

Um Pequeno demônio, séc. XIX   

Uma Cena contemporânea, 1862  

Valentina, séc. XIX





Imagem de leitura — Lord Frederick Leighton

11 10 2009

Lord Frederick Leighton (1830-1896) Study_At_a_Reading_Desk 1877  OST Sudley House LiverpoolEstudando no cavalete de leitura, 1877

Lord Frederick Leighton (Inglaterra, 1830-1896)

Óleo sobre tela

Sudley House, Liverpool

 

Lord Frederick Leighton —  (Inglaterra, 1830-1896) —  1º Barão de Leighton, foi um pintor e escultor inglês de renome.  Não foi nobre de nascimento, tendo nascido de uma família de comerciantes  importadores/exportadores.  Depois de se formar na Inglaterra pela University College School em Londres, Frederick Leighton foi para a Europa continental aprimorar seus estudos.  Lá  depois de algumas aulas com Eduard von Steinle, embarcou aos 24 anos para a Itália, onde estudou com Giovanni Costa.  Radicou-se em Paris, onde viveu por cinco anos a partir de 1855.  Em 1860 retorna à Inglaterra e faz parte do movimento pré-rafaelita.  Um excelente pintor, Frederick Leighton deixou uma vasta obra onde se incluem, entre outros, quadros com temas históricos, bíblicos e clássicos.





Infiel, de Ayaam Hirsi Ali, leitura obrigatória para entender o Islã.

11 10 2009

infiel

Há livros dos quais não consigo fazer uma resenha logo após sua leitura porque seu impacto é tão grande que não me sinto com a distância necessária para escrever de maneira mais ou menos lúcida, sem muita rapsódia, sobre o texto em questão.  Esta foi a minha experiência com o livro Infiel: a história de uma mulher que desafiou o Islã, de Ayaan Hirsi Ali [São Paulo, Cia das Letras: 2007, 496 páginas].  Há seis meses li esta biografia.  Fiquei muitíssimo impressionada e emocionada com sua leitura.  Passei o livro adiante para algumas amigas, cujas reações apesar de positivas não se igualaram às minhas.  O volume retornou à minha casa na semana passada e agora, neste fim de semana prolongado, tive a oportunidade de reler dezenas de passagens destas quase 500 páginas só para voltar a considerá-lo uma das grandes leituras que fiz nos últimos cinco anos.

Talvez seu impacto venha também influenciado por 3 fatores de grande importância:  1) Não é ficção.  É uma auto-biografia.  Memórias autobiográficas.  2) Morei num país islâmico e reconheço neste livro muitos dos atos bárbaros contra mulheres que presenciei por lá.  3) Este livro, como outros que surgiram nas últimas décadas, mostra uma mulher corajosa, que tomou as rédeas de sua própria vida e liderou um movimento, uma revolta.  Faltaram tais exemplos nos meus anos formativos.

Ayaan Hirsi Ali nasceu numa família islâmica, na Somália, em 1969.  Teria sido simplesmente mais uma mulher a sofrer  a exclusão, a violência com que mulheres são tratadas pelos rituais islâmicos e tribais, incluindo a raspagem de seu clitóris, mais comumente conhecido como circuncisão feminina, não fosse também filha de um opositor da ditadura de Siad Barré, na Somália.  Seu pai, um antropólogo que havia estudado na Universidade de Columbia, nos EUA, foi preso em 1972.  Por causa disso, Ayaan  tem uma vida de exilada e nômade mesmo dentro de seu próprio país.  Apesar de abastada, a família, por causa das atividades políticas, estava em perpétua fuga e permanecia, portanto, excluída da norma nacional, vivendo sempre amedrontada por possíveis denúncias ou perseguições.  Aqui está um exemplo das preocupações familiares assim que a família deixa Mogadíscio para Matabaan.  Mahad é um ano mais velho que Ayaan nascido em 1968 e Haweya é dois anos mais nova, nascida em 1971.  Estes eventos acontecem antes de Mahad entrar para a escola primária.

As mulheres lavavam roupa no lago, e os meninos nadavam lá.  Mamãe tinha muito medo de que os garotos hawiye afogassem Mahad, que não sabia nadar.  Livre para ir aonde quisesse por ser menino, o nosso irmão não parava em casa.  Haweya e eu éramos proibidas de andar à solta.  Além do mais Mahad não nos levaria com ele; não queria que os amigos soubessem que ele brincava com as irmãs.

          Mahad estava cada vez mais consciente de sua honra de macho.  Vovó o estimulava: tinha o hábito de dizer que ele era o homem da casa.  Mahad nunca pedia autorização para sair; às vezes voltava muito depois do anoitecer e mamãe se zangava tanto que fechava a cerca.  Ele se sentava lá perto, chorando, e ela gritava com frieza: “Pense na sua honra.  Homem não chora.”  [p.50]

 

somalia, mapa, 1992Mapa da Somália

Mais tarde, aos dez anos de idade, Ayaan acompanha a família no exílio.  A Arábia Saudita foi o primeiro pouso.  Lá ela descobre um mundo ainda mais rígido contra as mulheres.   E mesmo em Meca a vida muda bastante, entre outras mudanças estava a de mulheres não poderem sair às ruas sem a companhia de um homem…

           As coisas não iam bem em casa. O vínculo outrora forte entre meus pais estava se rompendo.  Cada qual tinha expectativas diferentes na vida.  Mamãe sentia que papai não dava atenção à família.   Geralmente cabia a ela nos levar `a escola e buscar – escolas diferentes porque Mahad era menino – e voltar sozinha.  Minha mãe detestava sair sem homem, detestava ser insultada na rua, encarada com insolência.  Todas as somalis contavam casos de mulheres que haviam sido agredidas na rua, levadas sabe-se lá para onde, e então, horas depois, apareciam jogadas no acostamento de uma estrada, ou simplesmente nunca mais voltavam. Ser uma mulher sozinha já era horrível.  Ser estrangeira, e além disso, negra, significava quase não ser humana, estar totalmente desamparada: um bode expiatório.

           Quando mamãe ia fazer compras sem motorista ou marido que bancasse o guarda-costas, os comerciantes se recusavam a atendê-la.  Mesmo na companhia de Mahad, alguns balconistas não lhe dirigiam a palavra.  Restava-lhe pegar os tomates, as frutas e os temperos e perguntar em voz alta: “Quanto é?”  Quando recebia resposta , jogava o dinheiro no balcão e dizia: “ É pegar ou largar”, e ia embora.  No dia seguinte era obrigada a voltar à mesma mercearia .  Mahad assistia a tudo sem poder auxiliá-la, tinha apenas dez anos [pp. 80-81].

Crianças na Arábia Saudita, foto Bob Riley

Crianças na Arábia Saudita, foto: Bob Riley.

 

A Etiópia, o país seguinte de refúgio da família, mostra à Ayaan, pela primeira vez, o cristianismo.  Um cristianismo monofisista, diferente do que conhecemos que foi considerada também uma heresia para os segmentos majoritários do cristianismo.  Conhecido no ocidente como a Igreja copta,  esse ramo do cristianismo,  formulado no século V, se ancorou principalmente na  Palestina, Síria, Egito e Etiópia.

Abeh nos matriculou numa escola; as aulas eram dadas em amárico.  Como só sabíamos falar somali e árabe, tudo voltou a ser estrangeiro durante algum tempo. Só quando aprendi a me comunicar foi que descobri uma coisa assombrosa: minhas colegas não eram muçulmanas.  Diziam-se kiristaan, cristãs, coisa que na Arábia Saudita, seria um feio insulto: significava impuras.  Confusa, consultei mamãe, que o confirmou.  Os etíopes eram kufr, palavra quase obscena. Bebiam álcool e não se lavavam direito. Uma gente desprezível.

          A diferença era visível na rua.  As etíopes usavam saia na altura dos joelhos e até mesmo calça comprida.  Fumavam e riam em público, encaravam os homens sem o menor pudor.  As crianças podiam ir aonde quisessem. [pp: 90-91]

Cristãos Etíopes, bbc

Peregrinos cristãos etíopes em Jerusalém esperando a abertura da Igreja do Santo Sepulcro para a missa de Páscoa.  Foto: AP

Mais tarde vão todos parar no Quênia, onde religiões, línguas e culturas diversas se misturam.  Com estas experiências Ayaan se expõe a muitas maneiras diferentes de encarar a vida e o mundo.

Embora o meu novo colégio se chamasse Meninas Muçulmanas, muitas alunas professavam outras religiões.  Quase a metade da turma era queniana, a maioria cristã, embora os quicuios também tivessem outro deus pagão.  Os quenianos se dividiam em tribos que nada tinham a ver com os clãs da Somália.  As tribos eram diferentes entre si no aspecto físico, falavam línguas distintas, tinham crenças próprias, ao passo que todos os clãs somalis falavam o mesmo idioma e acreditavam no islã. [p.106]

kenya-school-nairobi

Alunas de uma escola em Nairobi.

 

Logo depois, influenciada por uma irmã maometana e com a necessidade adolescente de se descobrir, de descobrir sua própria identidade e talvez também por uma necessidade de direção, de limites para se sentir segura, para ter algo consistente em sua vida Ayaan se dedica ao fundamentalismo islâmico. Mais tarde, já como jovem mulher, irá rejeitá-lo.

Pedi dinheiro à minha mãe para que a costureira da irmã Aziza me fizesse um enorme manto preto com apenas três faixas apertadas nos pulsos e no pescoço e um zíper comprido.  Chagava até os pés.  Comecei a ir ao colégio com aquela roupa por cima do uniforme, que me cobria o corpo magro, um véu preto na cabeça e nos ombros.

          Eu vibrava com aquilo: um sentimento voluptuoso.  Sentia-me poderosa: por baixo daquele tecido se ocultava uma feminilidade até então insuspeitada, mas potencialmente letal.  Eu era única: pouquíssima gente andava assim na Nairóbi daquele tempo.  Curiosamente, a roupa fazia com que eu me sentisse um indivíduo.  Transmitia uma mensagem de superioridade; eu era a única muçulmana verdadeira.  Todas as demais garotas, de pequeninos véus brancos na cabeça, não passavam de crianças, de hipócritas. Eu era uma estrela de Deus.  Quando abria os braços sentia-me capaz de voar. [pp:131-2] 

NOTA:   A título de curiosidade, vale lembrar neste momento, que esconder atributos femininos tais como cabelo, boca, pescoço, pernas, braços e demais partes do corpo consideradas por demais atraentes para poderem ser vistas por olhos masculinos sem que um estupro seja eminente não é uma característica única do maometismo – os judeus ortodoxos, por exemplo, tampouco permitem suas mulheres de mostrarem seus cabelos, assim como têm também outras restrições a vestimentas.  As restrições muçulmanas  seguem diferentes regras através do mundo islâmico, um exemplo que vem à mente é a cobertura da boca das mulheres com um véu, nos países do norte da África enquanto que o rosto aparece todo descoberto em outros países assim como no Irã.

Descobrir que um dos requerimentos da muçulmana ortodoxa seria aceitar o casamento com qualquer que seja o homem escolhido por seu pai, é finalmente a gota d’água que leva Ayaan a deixar o islamismo ortodoxo.  Ela era filha de um casal muçulmano em que pai e mãe se escolheram.  Não poderia, portanto, imaginar a vida sem que essa escolha lhe fosse permitida.  Acaba emigrando para o ocidente e se encontra, finalmente, como ser humano político e membro de uma sociedade liberal, na Holanda.

Lá, depois de aprender a língua e os costumes, torna-se quase por casualidade, mais engajada politicamente do que previa.  E eventualmente, através de sua luta pela proteção dos direitos femininos de milhares de imigrantes de religião islâmica na Holanda Ayaan é eleita deputada naquele país, em 2003.

Mais um ponto de virada nesta vida cheia de migrações vem quando ela se torna uma persona non grata entre os muçulmanos e tem sua vida ameaçada de morte, depois de fazer um documentário sobre as restrições à mulher no islamismo.  Seu parceiro nesta experiência cinematográfica acaba assassinado.  Com sua vida correndo perigo, Ayaan não tem outra opção senão encontrar exílio nos Estados Unidos, onde mora até hoje.  Assim, hoje, com 40 anos de idade, conhecemos esta mulher que viveu muitas vidas e mostrou como ainda se pode revolucionar o mundo com conhecimento, cultura e inteligência.

ayaan-hirsi-ali

A autora: Ayaan Hirsi Ali.

 Sua auto biografia é de muito poder emocional, e recomendo a todos, homens e mulheres, adolescentes e idosos, porque Ayaan é um exemplo de vida, de coragem.  Leva uma vida de grande coerência e sua luta pessoal só pode ser vista como um excelente exemplo para todos os outros seres humanos.

Para os curiosos:  Aqui está a primeira parte do documentário que Ayaan Hirsi Ali e seu sócio o cineasta Theo Van Gogh produziram que levou ao assassinato de Theo e à perseguição de Ayaan.  [Aqui em tradução para o inglês].





O Corpo Humano, em versos infantis de Walter Nieble de Freitas

10 10 2009

 corpohumano,menino 3Ilustração, Maurício de Sousa, adaptada.

 

O Corpo Humano

                                                     Walter Nieble de Freitas

 

Toda criança estudiosa,

Que deseja passar de ano,

Deve saber que em três partes

Se divide o corpo humano.

 

São: cabeça, tronco e membros

— É bem fácil a lição —

Vejamos parte por parte,

Preste, pois, muita atenção.

 

Na memória, guarde bem,

É importante, não se esqueça!

Somente de crânio e face

Se constitui a cabeça.

 

corpo humano menina 5

Ilustração, Maurício de Sousa, modificada.

 

No crânio, ficam o cérebro

E outros órgãos protegidos;

Estão na face o nariz,

A boca, os olhos e ouvidos.

 

O tronco está dividido

— Veja as Ciências Naturais —

Em tórax e abdome,

Duas partes, nada mais.

 

Localizam-se no tórax

— Não vá fazer confusão —

Dois órgãos muito importantes:

Os pulmões e o coração.

 

corpo-humano-1

 

Fazem parte do abdome:

Estômago, pâncreas e rins

E também os intestinos

Com outros órgãos afins.

 

Em dois planos diferentes

Os membros estão situados:

Superiores e inferiores

São eles asssim chamados.

 

São dos membros superiores

— Aprenda bem a lição —

O ombro, o braço, o antebraço

E também a nossa mão.

 

corpo-humano-2

 

Vejamos os inferiores

— Você quer saber, não é? —

São estas as suas partes:

Quadril, coxa, perna e pé.

 

O nosso corpo precisa

Banho com água e sabão,

Bastante exercício, ar puro

E boa alimentação.

 

Mas, ao lado de tudo isto,

Não descuide da instrução,

Porque assim você terá

Mente sã em corpo são.

 

Em: Barquinhos de papel: poesias infantis, Walter Nieble de Freitas, São Paulo, SP, Editora Difusora Cultural:1961.





Imagem de leitura — Ignat Bednarik

4 10 2009

Ignat Bednarik (Rumênia) 1882-1963 Hombre joven leyendo-Jovem rapaz lendo, s/d.

Ignat Bednarik (Romênia, 1882-1963)

aquarela sobre papel

 

Ignat Bednarik nasceu em Orsova, na Romênia em 1882.  Em 1894, aos 12 anos ganhou seu primeiro prêmio de pintura enquanto estudava na escola secundária em Turnu Severin.   Em 1898 entrou para a Escola de Belas Artes em Bucarest.  Em 1901, vai para Viena estudando quase que por conta própria os mestres das artes nos museus, frequentando esporadicamente a Academia de Belas Artes de Viena.  Vai depois para Sofia, Bulgária, onde passa dois anos se formando artisticamente até que em 1908 retorna a Bucareste e então começa uma vida extremamente atuante nas artes plásticas do país.   Combate junto a outros artistas, através de caracterizações gráficas e envolvimento total, as forças alemãs nas duas guerras mundiais, do século XX.  Em 1938 fica cego.  Faz uma operação na vista em 1947 que restaura parcialmente sua visão.  Mas volta à cegueira em 1961.    Trablahou praticamente em todos os gêneros de pintura: retrato, paisagem, natureza-morta, pintura de gênero.  E também foi bastante versátil no uso de tecnicas de pintura: óleo, aquarela, desenho a nanquim, pastel.





Quadrinha infantil sobre o galo e a manhã

4 10 2009

 galo cantando, hergé

 Ilustração, Hergé.

 

 

A serenata de um galo

vai, de quebrada em quebrada,

e de intervalo a intervalo,

acordando a madrugada!

 

(Sebastião Paiva)