Bandeja de madeira, de Ladyce West

27 07 2009

 

 

bandeja de madeira, turística, marqueteria

Ontem à noite Gisela, minha prima e amiga, lembrou-me deste poema que publiquei em 2007.  Numa conversa familiar decidimos que eu  iria re-colocá-lo na web, apesar de já ter aparecido no meu antigo blog:  A Meia Voz.  Agradeço aos fãs da peripécia aqui revelada.

 

 

Bandeja de madeira

 

Ladyce West

 

 

Comprei uma bandeja de madeira,

No mercado de usados da cidade.

O preço alto, verdadeiro assalto,

Testava a minha vontade…

Invocada reclamei:

“Preço muito apimentado!”

O feirante desfiou, então,

A ladainha da ocasião:

Uma cascata de palavras

E de muitas abobrinhas.

Listadas de um modo simples,

Em fileira memorizada,

Uma tabuada de dados,

Sem nexo e sem sentido,

Qual jovem guia turístico

Treinado para repetir,

Sem nenhuma compreensão,

História de monumentos,

Batalhas, guerra ou ação.

Um rol de características,

Uma lista de preciosismos,

Que turistas escutam em vão.

No caso do comerciante,

Era manobra astuta,

Artimanha obstrucionista,

Inspirada na política

Do partido oposicionista,

Com intenção de impedir

Barganhas, regateio, pechincha.

Mas não me dei por vencida

E esbocei, na medida,

Uma ensaiada choradeira

De compradora matreira,

Desconfiada confessa.

Mas para meu desagrado,

A manobra desta vez

Não deu nenhum resultado.

E o vendedor perturbado,

Não se fazendo de rogado,

Disse em português claro:

O preço é este e está acabado!

Era esperteza, eu sabia.

Manha de ressabiado

Recalque de gato escaldado.

Experiente e esperta,

Também lhe disse umas tantas,

Questionei ainda uma vez

Os dados da tal bandeja

Que sabia muito bem

Não ser uma antiguidade.

“Mas minha senhora veja,

Já não se faz trabalho

Detalhado como este.

Marqueteria finíssima,

Olhe a delicadeza

Deste desenho aqui em cima!”

Mantive meu ar incrédulo

De pessoa que conhece:

Reclamei do acabamento,

Das alças, das bordas, do centro,

Do verniz barato – opaco.

“Não sou caloteiro!

Nem tampouco pirateio.

A Sra. pode confirmar

Nos antiquários da cidade!

Vai ver que é coisa boa,

Que tem uma certa idade!”

Pus-me a andar, dando o fora,

No velho ardil de negócios

Fazendo-lhe acreditar

Que era fácil ir embora.

Ele veio correndo atrás,

É vintage, minha senhora,

É vintage, repetia!

Como se a palavra,

A denominação,

A expressão estrangeira,

Respondesse às perguntas

Corriqueiras que lhe fiz.

Mas parei.  E voltei.

Queria muito a bandeja

Rica em marqueteria.

“Não pode ser”, eu dizia,

“Eu me lembro dessas bandejas,

Dessas lembranças para turistas,

Vendidas nas barraquinhas

Da Quinta da Boa Vista…”

De súbito ele parou.

De cima abaixo me olhou.

E puxando lá do fundo

De sua sabedoria, perguntou:

“– Mas quantos anos a senhora tem?”

Num breve momento de pausa,

Disse para mim mesma:

“Que história!  Traída pela memória!”

Olhei para a bandeja de novo

E ainda uma vez mais…

E paguei.

 

 

© Ladyce West, 2007,  Rio de Janeiro





Adaptações sem limites, um conto

26 06 2009

ciência Tudo pela ciência, ilustração de Walt Disney.

 

 

ADAPTAÇÕES SEM LIMITES

 

de  Ladyce West

 

Na minha adolescência, eu sempre me encabulava de ser vista no carro de meu pai.  Só convidava minhas amigas para uma carona, se me visse forçada.  Tinha receio do que poderia revelar a meu respeito ou a respeito de meu pai.  

 Nosso carro era um híbrido pode-se dizer de um tanque da Segunda Guerra Mundial com um carro passeio.  Combinação possível graças ao gênio inventivo de meu pai, um cientista.  Esse ornitorrinco do mundo dos carros poderia ter sido encontrado numa história em quadrinhos de ficção científica.  Meu pai foi um típico homem dedicado à ciência, cujo abundante e rebelde cabelo grisalho espelhava suas ruminações.   Sua notória falta de atenção era conseqüência de uma mente em ebulição,  resolvendo problemas diversos, enquanto seu carro, o nosso carro, era a prova concreta dos princípios rudimentares dos testes científicos: nada funcionava de acordo com o procedimento padrão.

 Originalmente o carro tinha sido um Standard Vanguard, cinza, uma criação britânica, importada para o Brasil, e anunciada como sólido carro para a família.  Sua primeira cirurgia aconteceu quando mudaram o guidão do lado direito para o lado esquerdo do motor.  Não me lembro se papai foi responsável por esta operação ou não, porque este carro substituiu o antigo Austin, quando eu ainda não tinha cinco anos.  Mas desde que me entendo por gente, papai trabalhou para a melhoria dos padrões do Standard Vanguard

 O processo acontecia na nossa garagem. Mesmo assim podíamos encontrar peças de carro pela casa inteira, principalmente onde minha mãe não as queria.  Para falar com franqueza, na nossa casa, o domínio de meu pai era restrito ao quarto da empregada, próximo à cozinha, cuja função havia se tornado obsoleta, já que nossa cozinheira não dormia em casa.  O quarto tinha a vantagem de ter água corrente do banheiro vizinho, o que para papai era essencial, porque ali também era o seu laboratório.  Meu pai era um químico industrial que transformou sua crise de meia-idade numa pós-graduação em física.  Para ele, o laboratório era um modo de pensar, uma maneira de viver.

 O quarto, estúdio-biblioteca-laboratório, refletia sua personalidade, sua mente inquisitiva.  Com paredes cobertas do teto ao chão por livros aparentava uma desordem de natureza orgânica.   No centro, mobiliário de metal onde cadinhos e tubos de ensaio competiam por espaço com outros objetos na bancada de azulejos.  Tudo ali resumia preocupações antigas e atuais de papai: tanques de aquários vazios, coleções de borboletas espetadas, microscópio, equipamento fotográfico, espécies de sementes que poderiam ser usadas para alimentar gado, cobras e aranhas em álcool e dúzias de reagentes químicos em garrafas de vidro com rótulos de caveiras nos bojos. 

Pensando bem, é impressionante que nosso único acidente tivesse sido um pequeno incêndio causado por meu irmão Júlio, que, aos quatro anos, brincava com fósforos, no seu quarto, longe da área de perigo.  Porque a quantidade de material explosivo, em potencial, que se estocava na nossa casa poderia fazê-la ser isolada pela segurança pública com cartazes: AREA RESTRITA, caso seu conteúdo viesse a ser descoberto pelas autoridades.   Ainda que nós crianças pudéssemos entrar e sair do “laboratório”  ao bel prazer, nenhum vizinho, conhecido ou amigo colocou os pés no quarto do papai.  Nunca!

 Para desespero de minha mãe, papai era um tipo mais sociável do que a maioria dos cientistas.  Isso significa que suas ferramentas e livros poderiam ser encontrados na mesa da sala de jantar – seu lugar favorito de leitura; ou em frente da televisão – seu lugar favorito para uma soneca.  Sem perder qualquer oportunidade para nos ensinar alguma coisa, ele adorava ficar rodeado pela família enquanto trabalhava.  Mamãe queria ver a casa livre de seus apetrechos e reclamava com freqüência.  Mas acabava aceitando um pouquinho de bagunça na casa toda.  Mas havia uma regra: nenhuma “parte de carro” dentro de casa.  Se encontrasse alguma, um grande rebuliço brotava pela casa.  Isto ela não aceitava.  “Todas essas peças cheias de graxa, estragando a minha mobília, arranhando as tábuas do piso! Cláudio tire tudo isso daqui!” Lá pelas tantas, papai pegava uma chave inglesa, uma chave de fenda, pistão, filtro, válvulas, farol e levava de fininho para o Lab.

 Mas logo ignorava as regras.  Por propósito ou negligência, partes do carro nos cômodos internos da casa eram lugar comum. Nem ele, nem minha mãe abriam mão de seus direitos e o confronto entre os dois era a norma.  Papai sempre começava trabalhando numa coisa pequenina – um ou dois fios, uma chavinha de fenda, que vinha escondida no bolso.  Estes objetos vinham quietos, macambúzios e se instalavam timidamente sobre jornais velhos num canto da mesa de jantar.  No final da tarde, ou à noitinha, eram algumas chaves de fenda, um ferro de soldar elétrico, algumas pinças que haviam encontrado o caminho da sala e achado repouso num canto do tapete oriental debaixo da mesa, quando não achavam acolhida ao lado da sopeira antiga na cristaleira.  E, como sempre, ao lado de papai, havia um de nós fazendo o dever de casa ou brincando com pedacinhos de fios, desencapando-os.  Todos os nossos bonecos, lá em casa, eram ruivos: tinham belíssimas cabeleiras de fios de cobre.

 Papai sempre queria estar onde tudo acontecia.  E ele podia.  Tinha um grande poder de concentração, uma característica herdada por todos os três filhos.  Uma característica que era também outro ponto para mais discussões na nossa casa, porque mamãe, cansada de nos chamar para o jantar ou para por a mesa, tinha que vir até nós, às vezes até sacudir nossos braços, ou retirar de nossas mãos os livros ou brinquedos com que nos divertíamos, para nos “acordar” para o mundo.  Papai, é claro, era o pior de nós todos.  Não era raro ele se sentar à mesa do jantar quando nós já estávamos na sobremesa.  Mamãe o chamava.  Mas depois de algum tempo se calava e dizia: “precisamos esperar, agora, que os sons do jantar cheguem até o inconsciente de seu pai e o lembrem que o jantar está servido”.  A surdez momentânea de papai se tornava pior quando ele estava absorvido com o carro, quer na garagem, quer no Lab.

 No Lab havia uma parafernália enorme relacionada a carros: caixas e caixas de parafusos de tamanhos diferentes, radiadores, caixa de transmissão, carburadores, correias de ventilador, baterias e todo tipo de canos e peças de metal e ferramentas.  Mas o passatempo diário de papai – a melhoria do carro da família — afetava a família muito além da localização das peças e ferramentas por toda a casa.  Afetava nossos horários, nossa imagem, nosso orgulho e até mesmo a percepção que tínhamos de nós mesmos.  O carro era o grande ditador da nossa vida, o cardeal por trás do rei, a eminência parda do nosso lar.  

 Foi a persistência de papai que nos levou a ter um carro com duas baterias escondidas atrás do banco traseiro; um painel indicando através de luzes diferentes o estado de diversas partes do motor e assentos removíveis transformando a caminhonete num  verdadeiro pequeno caminhão.  Enumerando as melhorias desta maneira elas até parecem muito boas.  Mas era a maneira como os fios eram dependurados pelo carro, vindos do guidão e painel fronteiriço, passando por trás das portas, caindo como sanefas das  janelas que era um problema!  É claro que as portas do carro já não tinham acabamento.  Tudo era visível: o mecanismo de abrir e fechar os vidros, os fios vindos de trás, da frente, de lugares que não podíamos imaginar.  Tudo isto levava uns vinte minutos para ser ligado.  Eram muitas adaptações diferentes que precisavam esquentar antes de colocar o carro em andamento.  Havia é claro um termômetro no motor para manter a temperatura ideal e garantir o melhor funcionamento da engenhoca.  Tudo isso contribuía para que ficássemos todos encabulados com o nosso carro.

 O critério usado por papai para melhorias automobilísticas era puramente pragmático.  Seu carro era um experimento e estava sempre em processo. Tudo era registrado para futuras adaptações.  Quanto maior o controle, melhores as soluções.  A conseqüência era simples: o interior do nosso carro tinha adaptações diversas de outras máquinas, de partes de outros carros, de outros fabricantes.  Sob as mãos mágicas de papai esta pilha de ferro velho se transformava em tacômetros, botões de ligar e desligar luzes de aviso, reguladores da temperatura da água, medidores de pressão de óleo, medidores de pressão dos freios e de seu desgaste.  Tudo permitia leituras específicas sobre o carro. Papai anotava dados em grossos cadernos de capa dura, às vezes até mesmo durante os trinta segundos de parada num sinal vermelho.  O carro tinha guidão da Mercedes, e partes do motor da Volkswagen, carburadores de quatro velas e botão para ligar e desligar as baterias que preveniam o roubo do carro.  Grande defensor de medidas de segurança, papai instalou cintos de couro para nós crianças no banco de trás.  Para ele, estes precursores dos modernos cintos de segurança não tinham a aparência horrenda que lhes atribuíamos.  Para papai, a diferença entre um carro comum e o nosso era que o nosso era melhor!

 Sem tomar conhecimento das reclamações estéticas feitas por mim e mamãe sobre o interior do carro, papai incentivou uma guerra dos sexos na família, encontrando apoio nos meus dois irmãos mais novos: David e Júlio.  Ambos eram freqüentemente mecânicos-auxiliares na garagem lá de casa.

 David se interessava por qualquer coisa que precisasse de força.  Ele gostava de músculos.  Desde que nascera media suas forças com as de papai e depois insatisfeito com os resultados ele passeava pela casa comparando bíceps comigo, mamãe e Júlio.  Às vezes até a vovó se deixava medir nos músculos dos braços.  Ele sempre sonhava que era Tarzan.  Suas tarefas na garagem envolviam equipamento pesado.

 Júlio por outro lado se preparava para seguir nos passos de meu pai.  Metódico e dado a pesquisas, gastava horas no Lab afinando pontas de parafusos para adaptá-los a este ou aquele uso, ou trabalhando com algo que envolvesse eletricidade.  A ele cabiam as tarefas detalhistas, o trabalho cuidadoso.   Melhor que ninguém na família, Júlio podia colocar ordem em qualquer caos. Sua maneira sistemática de resolver problemas e sua aptidão para organização eram sempre bem-vindas quando a tarefa envolvia fios para serem desembaraçados, ou desfazer nós.  Se paciência fosse um requisito da situação, Júlio era chamado.

 Eu nunca ajudava papai; tomava o partido de minha mãe.  Mas eu ficava furiosa quando papai dizia que “preocupações estéticas eram típicas do sexo frágil”.  Nem eu nem mamãe éramos contra o desenvolvimento da ciência.  Só não queríamos participar dos experimentos.  Éramos passivas e resistentes.  Aprendemos a não ouvir qualquer dito, provérbio ou frase sobre feminilidade, ainda que uma divisão dos sexos tivesse se formado na nossa casa.   De um lado, papai se recusando a ser normal.  Do outro lado, mamãe com crescente ódio pelo carro, chamando taxis, pegando carona com minhas tias e me levando junto.  O carro era vergonhoso para nós duas.  Tudo o que eu queria na minha adolescência era mostrar a mim mesma e às minhas amigas que fazia parte de uma família bem normal.

 Meus irmãos, mais jovens e ainda adolescentes imaturos encontraram nas atividades de papai uma fonte de grande orgulho e felicidade.  Eles também gostavam do pequeno clube que faziam, separados de nós, e na verdade, muito cedo, quando ainda eram bem criancinhas, eles já “dirigiam o carro” para dentro e fora da garagem.  Aprenderam também a estacioná-lo com perfeição.  E quando mamãe e eu dizíamos alguma coisa derrogatória a respeito do carro ou deles estarem cegos por causa de seus amores pela máquina, ouvíamos o refrão repetido: “Típica  preocupação de mulher”.   

 Por muito tempo nosso carro ficou quase intacto no lado de fora, mas era uma cena de guerra por dentro, até que papai teve “o grande acidente” quando o carro capotou três vezes até parar.  Como era o único carro na estrada naquela hora, ninguém mais se feriu.  Papai, “salvo por milagre”, de acordo com mamãe e “protegido pelas minhas invenções” de acordo com ele, começou logo a melhorar a carroceria contra futuros acidentes.  O carro de calhambeque passou a joça. 

 Mamãe perdeu a aposta que fez conosco, crianças, sobre a revisão anual do estado.  Ela tinha certeza de que o carro não passaria na inspeção.  Ela falava.  E eu achava que via medo refletido nos olhos de papai.  Isso acontecia todos os anos e era a fonte de muitas conversas aos segredinhos entre minha mãe e suas irmãs.  Ouvíamos a constante observação de que os “inspetores eram cegos”.  O que mamãe esquecia era que meu pai se dava ao trabalho de maquiar o carro nas semanas anteriores ao ritual anual.   Com ajuda de meus irmãos, papai, numa única vez ao ano, se mostrava preocupado com a aparência do carro e o carro saía da garagem, no dia da inspeção, tinindo de beleza, como se uma fada tivesse trabalhado a noite toda, como se os inspetores fossem mulheres.  Fios desapareciam, seguradores de portas e alavancas de abrir e fechar os vidros reapareciam.  O acabamento nas portas e no teto do carro surgia do nada e estava sempre limpinho, porque afinal não havia sido usado por um ano inteiro!  E o carro, passou na inspeção ano após ano.  Mas logo depois de voltar para casa começava a pegar aquele ar de abandono que lhe era peculiar o ano todo. 

 Tivemos este carro por toda minha adolescência.  Menti para amigos muitas vezes para evitar sua companhia em nosso carro.  Com a desculpa de que o carro era muito pesado  para uma mulher frágil, aprendi a dirigir numa escola de motorista do bairro e nunca dirigi o Vanguard.

 David, no entanto, aprendeu a dirigir no carro da família.  Chegou a levar a namorada algumas vezes para uma volta pela cidade.  Mas logo, logo, notou que Lúcia, ou Diana, ou até mesmo Márcia, não apreciavam muito aquela moldura para seus passeios românticos.  Quer dizer, suas namoradas não estavam interessadas no motor. Só no  carro, e por causa da aparência, não conseguiam apreciar o passeio.  Nessa hora eu e mamãe ganhamos um importante aliado, do sexo certo. David se juntou a nós nos pedidos para trocarmos de carro.  Papai agora contava só com Júlio, que com treze anos, começava a se preocupar com as garotas.  Depois de um segundo acidente de carro, papai foi finalmente convencido a desistir do velho auto.

 Quando foi vendido, pouco restava de suas peças originais.  Foi vendido, sem qualquer dos inventos de papai, para um ferro-velho.  Os mecanismos extras foram guardados nas prateleiras mais altas do Lab. II.  Uma casinhola construída no fundo do quintal.   A família tinha um carro novo.  Novo em folha.  Vermelho.  Lindo.  Brigávamos para dirigi-lo.   Permutas criativas eram feitas.  A troca de responsabilidades na casa tornou-se moeda corrente, espertamente usada, para dissuadir alguém de usar o carro em qualquer noite.  Eventualmente, papai comprou outro carro, este de segunda mão, para nós, filhos dividirmos quando não pudéssemos usar o novo carro.  Nós adoramos a solução.  Até que nos preocupamos quando papai teve a idéia de colocar uma segunda bateria no carro.  E o fez.  Mas, por algum motivo, seu amor aos motores, à mecânica parecia ter desaparecido.  Não pensava em adicionar nada mais.  Uma vez, quando lhe perguntaram a respeito, papai simplesmente respondeu que o Vanguard era diferente.  “Aquele é que era um carro de verdade.  Esses carros novos, essas novas carrocerias não foram construídas para durar.  Não valia a pena o esforço”.  Mentalmente agradeci aos novos padrões de fragilidade dos carros modernos.

 

Em: Contos do Livro Errante, edição e organização de Cristiane Rose Duarte e  Márcia Regina Schwertner,  Brasil,  2009, diversos autores, 104 páginas.  [Ficha catalográfica por Letícia Alves Vieira].





Frutos — poema infantil de Eugênio de Andrade

2 11 2008

Tangerina no café da manhã © Ladyce West, Rio de Janeiro: 2006

 

FRUTOS

Eugênio de Andrade

Pêssegos, peras, laranjas,
morangos, cerejas, figos,
maçãs, melão, melancia,
ó música de meus sentidos,
pura delícia da língua;
deixai-me agora falar
do fruto que me fascina,
pelo sabor, pela cor, 
pelo aroma das sílabas:
tangerina, tangerina.

 

Eugênio de Andrade nasceu em  Póvoa da Atalaia, em Portugal. Viveu em Lisboa, em Coimbra e no Porto.  É considerado um dos maiores poetas portugueses contemporâneos.

Obras:

As Mãos e os Frutos,1948);
Os Amantes sem Dinheiro,1950;
As Palavras Interditas,1951;
Até Amanhã,1956;
Coração do Dia, 1958;
Mar de Setembro, 1961;

Ostinato Rigore
, 1964;
Antologia Breve, 1972;
Véspera de Água, 1973;
Limiar dos Pássaros,1976;
Memória de Outro Rio, 1978;

Rosto Precário,
1979;
Matéria Solar, 1980;
Branco no Branco, 1984;
Aquela Nuvem e Outras, 1986;
Vertentes do Olhar, 1987;
O Outro Nome da Terra, 1988;
Poesia e Prosa, 1940-1989;
Rente ao Dizer,
1992;
À Sombra da Memória, 1993;
Ofício de Paciência, 1994;
Trocar de Rosa / Poemas e Fragmentos de Safo, 1995;
O Sal da Língua,1995





O flamboyant da casa ao lado, poema de Ladyce West

21 09 2008

Para comemorar a chegada da Primavera!

 

Paisagem com flamboyant, 1955

Armando Viana, (RJ 1897- RJ 1992)

Óleo sobre tela

Coleção Particular

O Flamboyant da casa ao lado

Ladyce West

 –

Morreu o flamboyant da casa ao lado.

Foi-se o calor de verão da minha infância.

Apagaram-se suas flores alaranjadas,

Fogosos anúncios do início da estação.

Doente e velho, tombou calado e emagrecido.

Sóbrio e distinto, evaporou-se nos cupins.

Deixou em seu lugar espaço raro,

Um ar aberto, um nada enorme, que me espanta.

Um espaço devassado diariamente,

Onde antes, a sombra clara era presente.

O vácuo preencheu meu horizonte.

Galhos partidos, quebrados sobre a ponte.

O tronco doente jogado num instante.

Vergou molhado, encharcado pela chuva.

Mostrando a todos o que só a terra conhecia:

Suas raízes, engrossadas pelo tempo,

Eram agora desvendadas pelo vento.

Tombou sozinho com um único gemido

Doloroso, aceitando o seu destino.

Pernas pra cima em impudico descaso.

Meu companheiro de verões ardentes,

Guardião de minha infância e adolescência.

Exuberante, florescia ano após ano

Desabrochando incandescente em dezembro.

Entre nós havia um rio bem estreito,

Que nascia lá no alto da Rocinha,

Cascateava da nascente até a Gávea,

De onde então serpenteava rumo ao mar.

Era aqui, que deslizava sob as pontes

E atravessava minha rua de mansinho.

De um lado, o flamboyant enraizado;

Do outro, o edifício com meu ninho.

Crescemos juntos, eu e ele aqueles anos.

Nossa distância era pouca e amenizada,

Pois reservava uma flor para meu gozo,

Que escondida pelo batente da janela,

Aos poucos, foi-se chegando espevitada.

E me espreitava, esticando o seu florão.

Curiosa, assim passava os dias quentes.

A cada ano parecia mais chegada.

Era de casa.  Sem receio se hospedava.

Com jeitinho, batia na vidraça,

E enrubescendo se apoiava ao janelão.

Esta flama de verão me viu crescer,

Chorar amores, estudar, adormecer.

Custa-me vê-lo cair, velho soldado!

Quem irá agora anunciar-me o verão?

 

 

Dezembro 2006

 

© Ladyce West, 2006, Rio de Janeiro.





A Borboleta Amarela — poema infantil de Ladyce West

23 07 2008
Mark Anderson

Borboleta amarela. Foto: Mark Anderson

 

A Borboleta Amarela

 

 

A borboleta amarela

pousou no beiral da janela.

Abriu suas asas listradas

cansadas de muitas estradas

e dormiu.

 

 

Ficou um bom tempo parada

até se sentir renovada.

Limpando as patinhas da frente,

jogou-se pelo muro bem rente

e seguiu.

 

 

Lá foi ela pelos ares

saltitando em ziguezagues.

Pousou na flor do caqui,

pulou daqui para ali

e partiu.

 

 

Por entre a grade de ferro, passou.

Por trás dos ramos floridos, voou.

Parou no banco da praça,

eis que um gato lhe ameaça…

e fugiu.

 

 

 

© Ladyce West, 2008, Rio de Janeiro

 

Ladyce West ( RJ – contemporânea)

http://ameiavoz.blog.terra.com.br