Tiradentes — poema de Carlos Pena Filho

6 07 2013

ParreirasTiradentesPrisão de Tiradentes, 1914

Antônio Parreiras (Brasil, 1860-1937)

óleo sobre tela, 180 x 282 cm

Museu Júlio de Castilhos, Porto Alegre

Tiradentes

Carlos Pena Filho

É o muito esperar que existe em torno

que me destina a ação desbaratada.

A morte é bem melhor do que o retorno

ao nada.

Não nasce a pátria agora, o sonho mente,

mas, em meio à mentira, sonho e luto

pois sei que sou o espaço entre a semente

e o fruto.

Este poema foi musicado por Carlos Marques e faz parte da trilha sonora do filme Carnaval, o aval da carne (de Carlos Marques e Ralph Justino; Rio de Janeiro, 1983)

Em: Melhores poemas de Carlos Pena Filho, seleção de Edilberto Coutinho, Global Editora, São Paulo, 1983, 4ª edição.

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Carlos Pena Filho  nasceu no Recife, em 1929.  Formado em Direito, pela Faculdade de Direito do Recife, foi poeta, letrista, jornalista, ensaísta para o Jornal do Comércio. Morreu num acidente automobilístico em 1960.

Obras:

O tempo da busca, 1952

Memórias do boi Serapião, 1955

A vertigem lúcida, 1958

Livro geral (obra reunida), 1959

Melhores poemas (póstuma) seleção de Edilberto Coutinho, 1983





Imagem de leitura — Laurentius de Voltolina

5 07 2013

MedievalClassroomFullSzHenrique da Alemanha dando aula na Universidade de Bologna, c. 1350-60

Laurentius de Voltolina ( Itália, ativo em Bologna na segunda metade do século XIV)

Liber ethicorum de Henricus de Alemannia

pintura sobre pergaminho, 18 x 22 cm

Kupferstichkabinett SMPK,

Staatliche Museum Preussiischer Kulturbesitz, Min. 1233





Uma mulher de 4.500 anos usaria joias?

30 04 2013

Espelho, Inha Bastos (Brasil, 1949) Menina do espelho, 2008, ost. 50x50cm

Menina do espelho, 2008

Inha Bastos (Brasil, 1949)

óleo sobre tela, 50 x 50 cm

Inha Bastos

Vaidade e status social de uma mulher que viveu há aproximadamente 4.500 anos, no que hoje é a Inglaterra, são provavelmente as causas das joias encontradas com seu esqueleto em Windsor na Inglaterra. Carinhosamente chamada de “Rainda de Kinsmeade”  — Kingsmead é o local próximo a Windsor onde foi descoberta —  esta mulher, foi encontrada em sítio explorado por arqueólogos de Wessex. Suas joias, como lembram os cientistas, devem ter sido símbolos de sua afluência e  importância para a sociedade em que vivia.

Beaker_cultureDomínio do Povo dos Copos.

O pouco que restou de seus ossos, aparentemente corroídos pela acidez do solo, deixou que se concluísse ser uma mulher de aproximadamente 35 anos.  Foi enterrada usando um colar com contas de ouro intercaladas com contas de lignite.  No túmulo também foram encontradas contas de âmbar, perfuradas, que podem ter sido botões da vestimenta que usava quando enterrada.  E parece ter usado também um bracelete de contas negras.

3potsCopos de barro encontrados no túmulo do arqueiro de Amesbury.

Por causa de um copo encontrado ao seu lado, é possível que “a rainha de Kinsmead” tenha pertencido ao Beaker Folk [Povo dos Copos] uma cultura com raízes na península ibérica que dominava com grande técnica a manufatura de artefatos de cobre e de ouro.  O Povo dos Copos era assim chamado por fazer uso de copos, provavelmente para beber cerveja ou outra bebida fermentada.  Por volta de 2400 a.C. o Povo dos Copos dominou toda a península ibérica, parte do sul e do norte da França, a Alemanha, as terras onde hoje encontramos a Holanda e a Bélgica, a costa da Sardenha e Sicília, a Irlanda e o sul da Inglaterra.  Pessoas desse povo eram frequentemente enterradas com todo tipo de pertences incluindo copos de barro. É quase certo que esse senhora  fosse de fato mulher de prestígio pois tinha pertences que seriam raros e exóticos.

Kingsmead quarry gold beadsContas de ouro encontradas no local.

Análise de seus pertences colocam a origem do ouro provavelmente na Irlanda, a do lignite no leste da Inglaterra e o âmbar podendo ser de um lugar tão longínquo quanto o Báltico.

Recentemente o sítio em Kingsmead tem sido fonte de grandes descobertas para a  arqueologia britânica. Em março de 2013 noticiou-se a existência de um pequeníssimo vilarejo –  um grupo de quatro casas vizinhas  — algumas das casas mais antigas já descobertas na Inglaterra, construído aproximadamente há 6.000 anos.  Essas casas, cujas grossas e pesadas fundações sobreviveram, algumas com pilastras de apoio, assim como a fonte para o fogo do lar – local da lareira – sugerem casas substanciais, altas com um mezanino provavelmente para a estocagem de grãos e outros alimentos durante o inverno.  Devem ter sido construídas por volta de 3.800 a 3640 a.C.  e todas tinhas subdivisões em cômodos internos.  A maior dessas casas mede 17 x 7 m. E todas tinham telhado de sapê.

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Uso das joias e botões encontrados com a “rainda de Kingsmead”.

Estudo mais detalhado dos objetos encontrados com a “rainda de Kingsmead” certamente trarão mais detalhes sobre o povoamento da Inglaterra na Idade do Bronze.

FONTES: GUARDIAN — “Rainha de Kinsmead”; GUARDIAN — Casas de sapê ; WSHC





Descoberta arqueológica: provável centro administrativo de Ur

7 04 2013

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Esta foto, distribuída pela Universidade de Manchester, mostra a placa de barro com um fiel se aproxiamndo de um local sagrado.Foto: AP

Nessa semana arqueólogos britânicos revelaram  ter encontrado um complexo de construções nas proximidades de onde se situava a antiga cidade de Ur, no Iraque.  A estrutura de 4 mil anos provavelmente serviu como um centro administrativo de Ur, capital da Suméria, uma civilização que surgiu há 5 mil anos na Mesopotâmia.   As descobertas do grupo inglês são do período em que Abraão teria vivido no local.

O local está a 20 Km do local onde Sir Leonard Woolley descobriu as fabulosas “Tumbas Reais” de Ur nos anos 20 do século passado.  Nessa época as descobertas surpreenderam o mundo pela construção de alguns salões erguidos à volta de um pátio.  Ur, como sabemos, foi  o último local de residência das dinastias reais do povo sumério, uma civilização fundadora das mais antigas cidades do mundo.

A escavação, que foi feita por cientistas da Universidade de Manchester, liderada  pelo Professor  Stuart Campbell e Dr Jane Moon, revelou uma área do tamanho aproximado de um campo de futebol, ou melhor, 80 metros em cada lado.  O local da pesquisa foi determinado por imagens de satélite, antes mesmo das escavações começarem. Descobertas desse tamanho e tão antigas são raras.

Os objetos encontrados devem ajudar a esclarecer a história das civilizações que ocuparam a região na Antiguidade.  O local, hoje árido e de aspecto desolador, foi o lugar de nascimento das cidades.  Os objetos encontrados foram provisoriamente datados  em aproximadamente 2.000  a.C., ou seja,  da época em que a cidade de Ur foi saqueada e a  última dinastia real da Suméria caiu.

 As escavações começaram no mês passado com seis arqueólogos britânicos e quatro pesquisadores iraquianos na província de Thi Qar, a cerca de 320 quilômetros ao sul de Bagdá. Uma das descobertas é uma placa de uma pessoa com uma túnica esvoaçante se aproximando de um templo: provavelmente um fiel  em culto religioso.  Em seguida o grupo irá analisar os restos de plantas e de animais encontrados no local para ajudar no entendimento sobre os materiais naturais comercializados na época.   A região tinha grande vitalidade econômica há 4.000 anos.  O terreno, provavelmente  pantanoso, porque o Golfo começava muito mais ao norte, proporcionava matéria prima para o comércio marítimo  que era vultuoso:  riquezas naturais eram trocadas entre a Índia e os países da Península Árabe.

De acordo com o arqueólogo britânico, a missão só foi possível graças à relativa estabilidade no sul do país. O time de Campbell é o primeiro grupo de cientistas britânicos a fazer escavações no Iraque desde a década de 1980.

FONTES: TERRA e PHYS-ORG





Um exemplo a ser seguido no Congresso Nacional

23 03 2013

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“Old King Cole”, Ilustração de Roberta.

Franqueza e Prudência

Salvador de Mendonça – Artigo no O Imparcial, 1913

Professor das princesas, filhas de D. Pedro II, Joaquim Manuel de Macedo, o célebre autor de A Moreninha, desempenhava o seu mandato de deputado geral, quando o conselheiro Francisco José Furtado, organizador do gabinete Liberal de 31 de agosto de 1864, o convidou para a pasta dos Estrangeiros.

Recusada a honra, mandou o Imperador chamar o escritor à sua presença, e indagou o motivo do seu gesto, quando possuía tantas qualidades para ser um bom ministro.

— Admita-se que eu tenha as qualidades que Vossa Majestade me atribui, — respondeu Macedo: — mas eu não sou rico, requisito indispensável a um ministro que queira ser independente.

E decidido.

— Eu não quero sair do Ministério endividado ou ladrão!

Em: O Brasil anedótico, Humberto de Campos, São Paulo, W. M. Jackson: 1941





Tesouro do século XVI encontrado em velho sapato na Holanda

25 02 2013

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Tesouro, ilustração de Willy Pogany para os Contos de Tisza.

Deve ter sido o medo da perseguição católica que levou o dono de um pequeno tesouro em moedas de prata a enterrá-las dentro de um sapato, na época da Revolta Holandesa, ou como alguns chamam, na época da Guerra dos Oitenta Anos.   Entre 1568 e 1648 o território que é hoje ocupado pela Holanda e parte da Bélgica e que pertencia à Espanha, lutou por sua independência. Os calvinistas que habitavam em grande número o território dos Países Baixos queriam poder manter sua independência religiosa, garantida até então, e temiam que os reis de Espanha viessem a exigir afiliação total ao catolicismo. Esse espírito de revolta foi muito ajudado pelos altos impostos e desemprego generalizado que maltratavam a população. Foram oitenta anos de batalhas e lutas que acabaram com a assinatura do Tratado de Westfália em 1648 e com a unificação e independência da Holanda.

moedasprataholandaefe1Foto agência EFE.

Isso justificaria a causa de se esconder uma coleção – uma pequena fortuna – de 477 moedas dentro de um sapato enterrado no solo. Pouco se sabe sobre essas moedas ou sobre seu dono.  Sabe-se, no entanto que essas economias, foram enterradas depois de 1592, porque essa é a data da mais recente moeda no grupo.  O tesouro conta com grande variedade de moedas de prata: a mais antiga é de 1472 enquanto qu e a mais recente foi cunhada em 1592.

moedasprataholandaefe3Foto agência EFE

Os arqueólogos holandeses encontraram as 477 moedas de prata enterradas na prefeitura de Roterdã, segunda maior cidade do país.  Perguntado sobre o achado, o prefeito da cidade, Ahmed Aboutaleb, se mostrou surpreso com a descoberta e disse que “nunca antes um grupo de arqueólogos tinha descoberto um sapato recheado de dinheiro“. Ainda não foi divulgado o valor atual das moedas encontradas, estima-se em alguns milhares de Euros.

Fonte: Terra





Juntos,depois do divórcio e da morte que os separaram: os retratos de Henrique VIII e Catarina de Aragão

2 02 2013

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Retrato de Catarina de Aragão, primeira esposa de Henrique VIII, óleo sobre madeira, artista desconhecido Lambeth Castle.

A tradição dizia que o retrato a óleo [acima] em uma das salas particulares do Palácio de Lambeth mostrava a sexta esposa de Henrique VIII, Catarina Parr (1512-1548).  Mas especialistas da National Portrait Gallery  de Londres, que foram ao palácio, residência oficial do Bispo de Canterbury, com a intenção de estudar o retrato de William Warham (1450-1532), arcebispo de Canterbury no século XVI, parte de um projeto titulado: Fazendo Arte na Inglaterra Tudor, ficaram interessados no retrato da dama, parte da decoração da sala íntima da residência, desde o século XIX.  Examinaram o Retrato de Catherine Parr  e notaram algumas discrepâncias, colocando em dúvida a atribuição.  Alguns detalhes não se encaixavam:  a moldura do quadro era obviamente de data anterior ao casamento de Catarina Parr.  As roupas da rainha consorte também pareciam ser antiquadas, para o período supostamente retratado e por fim, a pessoa retratada tinha uma semelhança enorme com a primeira esposa de Henrique VIII, Catarina de Aragão (1485-1536).  Os especialistas pediram, então,  ao  atual arcebispo de Canterbury e aos Comissários da Igreja, o empréstimo do quadro para  submetê-lo a uma análise técnica mais aprofundada. O bispo permitiu, começando assim o projeto da nova atribuição de um antigo quadro.

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Retrato de Henrique VIII, óleo sobre madeira, c. 1520, artista desconhecido, National Portrait Gallery, Londres.

Os testes logo mostraram que os especialistas tinham razão em querer examinar o quadro com cuidado. Submetido a raios-X e luz infra-vermelha o painel – é um óleo sobre painel de madeira – mostrou surpresas.  A equipe descobriu que, se removida, a pintura de fundo mostraria o fundo original, uma pintura de um painel [um pano de fundo] de seda adamascada verde, semelhante ao de um retrato de Henrique VIII, pintado em 1520, e parte da coleção da National Portrait Gallery em Londres.   O exame de raio-X do adorno de cabeça de Catarina Parr  mostrou que ele fora alterado, que originalmente havia um véu, ítem semelhante aos usados na época de Catarina de Aragão.  Além disso suas feições haviam sido modificadas.  As evidências ajudaram à conclusão de que era de fato um retrato de Catarina de Aragão, que se tornou a primeira esposa de Henrique VIII, depois que seu irmão mais velho Artur, que ela havia esposado em 1501, morreu.

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Catarina de Aragão em outro retrato na National Portrait Gallery em Londres.

Além das análises feitas na pintura em si, Charlotte Bolland, curadora da National Portrait Gallery de Londres, lembrou que  até mesmo a moldura do quadro ajudou a refazer a identificação da pessoa retratada.  “Ficou imediatamente aparente que se tratava de uma moldura bem mais antiga, produzida de uma maneira relativamente rara, típica do início do século XVI, um tipo de moldura que havia ficado fora de moda”.   Alguns detalhes do acabamento decorativo da moldura sobreviveram, entre a pintura posterior e a folha de ouro.  Isso foi de grande valia para a equipe de especialistas do museu porque molduras com acabamentos da época Tudor são extremamente raras.  A moldura combina detalhes pintados em ouro com faixas coloridas em azul e vermelho, que eram pintadas com pigmentos de azurite e vermillion.  Como uma grande parte do acabamento original foi recuperado, a equipe de reatauração da National Portrait Gallery conseguiu reconstruir as áreas perdidas ou prejudicadas.  A restauração do contraste de cores usados na moldura dessa obra ajuda na compreensão dos valores estéticos da época.  Outro aspecto considerado foi o vestuário: o que aparece,  já não era usado na época de Catarina Parr, que nasceu em 1512, três anos depois do casamento de Catarina de Aragão com Henrique VIII.  Além disso havia as características faciais em maior harmonia com Catarina de Aragão do que com Catarina Parr.

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Retrato de Catherine Parr, sexta esposa de Henrique VIII.

Numa ironia do destino, hoje os retratos de Henrique VIII e Catarina de Aragão estão expostos lado a lado na National Portrait Gallery em Londres.  Para quem se lembra, esse casamento acabou em divórcio,  servindo de marco para a separação da família real inglesa da igreja católica. “Henrique VIII e Catarina de Aragão foram casados por 24 anos e durante esse período seus retratos teriam sido mostrados em conjunto, como rei e rainha da Inglaterra”, observou Charlotte Boland.

A princesa espanhola Catarina de Aragão foi a primeira esposa de Henrique VIII.  Ela havia sido anteriormente casada, aos 15 anos de idade,  com Artur o irmão mais novo de Henrique VIII. Mas Artur morreu seis meses depois do casamento. Ela ficou viúva aos 16 anos.  Henrique VIII, então herdeiro do trono, casou-se com Catarina de Aragão, que foi coroada rainha da Inglaterra em uma cerimônia de coroação conjunta com seu marido.

Pouco depois de seu casamento Catarina ficou grávida, mas deu à luz uma filha natimorta em janeiro de 1510. A gravidez subseqüente resultou no nascimento do Infante D. Henrique em 1511 e houve grande festa, mas ele morreu  depois de 52 dias de nascimento. Catarina de Aragão depois teve um aborto espontâneo, seguido por um outro filho de vida curta,  mas em fevereiro de 1516, deu à luz uma filha saudável, Maria.  E a criança sobreviveu.

Henrique VIII ainda amava a sua esposa, mas ficou frustrado com a falta de um herdeiro masculino e tomou várias amantes, entre eles Maria Bolena, irmã de Ana Bolena.  Ana se recusou a se tornar amante de Henrique VIII, mas ele foi insistente e  ela sucumbiu. A preocupação de Henrique VIII com um filho só aumentou.

453px-Mary_I_by_Master_JohnMaria I de Inglaterra, por Mestre John, óleo sobre painel de carvalho, 1544, National Portrait Gallery, Londres.

Esta preocupação tornou-se ainda maior quando ele leu em Levítico que se um homem se casasse com a mulher de seu irmão, o casal permaneceria sem filhos. Apesar de ter uma filha, Henry ainda se sentia “sem filhos” por não ter um filho homem.  Henrique VIII então pediu ao papa para que anulasse seu casamento. Quando  Catarina – uma católica devota – soube disso, ela mesma também apelou para o Papa, defendendo sua posição, contra o divórcio. Ela argumentou que, como ela e Artur nunca haviam consumado o casamento, eles não eram marido e mulher de fato.

Essa briga continuou por seis anos e as coisas chegaram a um ponto em 1533, quando Ana Bolena engravidou e Henry decidiu que a única maneira de se casar com ela seria rejeitar o poder do Papa na Inglaterra. E conseguiu que Thomas Cranmer,  arcebispo de Canterbury, anulasse o casamento.

769px-Catherine_Aragon_Henri_VIII_by_Henry_Nelson_ONeilCatarina de Aragão implora a Henrique VIII contra o divórcio, s/d

[pintura do século XIX]

Henry Nelson O’Neil (Rússia, 1817- Inglaterra, 1880)

óleo sobre tela, 42 x 65 cm

Museu e Galeria de Arte de Birmingham, Inglaterra

Catarina teve que renunciar seu título de Rainha e ser conhecida como a Viúva Princesa de Gales, o que rejeitou para o resto de sua vida.

Catarina e sua filha Mary foram separadas e ela foi forçada a deixar a corte real, vivendo em casas senhoriais úmidas e castelos com apenas uma meia dúzia de servos. Dizia-se que sofreu problemas de saúde por esse motivo, mas nunca se queixou, e passou grande parte de seu tempo rezando. A filha de Catarina e Henry tornou-se rainha Maria I de Inglaterra em 1553 e era conhecida por sua brutal perseguição aos protestantes – ganhando o apelido de “Bloody Mary” [Maria Sangrenta].

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Lembrando as esposas de Henrique VIII:

Catarina de Aragão (Espanha, 1485-1536)

Ana Bolena ( Inglaterra, 1501-1536)

Jane Seymour ( Inglaterra, 1508-1537)

Ana de Cleves ( Alemanha, 1515-1557)

Catarina Howard (Inglaterra, c. 1518–1524 –  1542)

Catarina Parr ( Inglaterra, 1512-1548)

Esta postagem é em comemoração à exposição dos quadros de Henrique VIII e Catarina de Aragão, juntos, a partir do dia 23 de janeiro de 2013, na National Portrait Gallery em Londres.

Fontes: National Portrait Gallery. The Daily Mail





O cemitério do Caju, texto de Pedro Nava

13 01 2013

DSC00822Cemitério de São João Batista, Rio de Janeiro.

Não sei se existe uma história dos cemitérios do Rio de Janeiro. Quase todos foram abertos depois das hecatombes da febre amarela, a partir de dezembro de 1849. O do Caju é anterior. É o mais antigo da cidade. Foi instalado em 1839 por José Clemente Pereira, numa gleba comprada à José Goulart, para enterrar os indigentes e escravos até então sepultados nos terrenos de Santa Luzia, onde se  ia erguer o atual hospital da Santa Casa da Misericórdia do Rio de Janeiro. Foi chamado Campo-Santo do Caju. Seu primeiro defunto foi inumado em 1840. Em 1851, o nome foi mudado para o de Cemitério de São Francisco Xavier. Entretanto, não só persiste a antiga denominação como ela entrou nas frases feitas. Assim, quando se diz – um dia,  Pedro, irás para o Caju – quer dizer – um dia, Pedro, ai! de ti, também morrerás e serás enterrado. Naquele ano o campo-santo é ampliado e juntaram-se as terras de José Goulart, as da antiga Fazenda do Murundu, de Baltasar Pinto dos Reis.  Em 1858, desmembra-se o terreno que vai ser o cemitério da venerável Ordem Terceira da Penitência e em 1859 o que vai ser o cemitério da venerável Ordem Terceira do Carmo. Essa vasta área corresponde, mais ou menos, ao que é hoje limitada pela Avenida Brasil, pelas Ruas Carlos Seidl, Indústria e Monsenhor Manuel Gomes e nela estão os quatro cemitérios, fábricas, depósitos e favelas; as ruas novas dos fundos das necrópoles; e o Hospital São Sebastião. O aterros, em frente, fizeram desaparecer os cais da Limpeza Pública, o dos madeireiros e a ponta de terra onde desembarcavam os macabeus de Jurujuba – perante a grada de honra das palmeiras cruzando suas folhas como espadas verdes no silêncio do funeral anônimo. O mar foi para longe e os pobres mortos deixaram de ser devorados pelos necrófagos talássicos, os siris e os guaiamuns. Passaram a ser pasto dos de terra, os tatus e as baratas. Aí!  ser entregue às baratas…

Entramos no cemitério como quem penetra as imensidades. Não as urbanas, como as perspectivas dos três poderes, na Brasília; as dos Campo Eísios em Paris; do Zocalo, no México; da praça de São Pedro, e da Via da Conciliação em Roma.  Mais do que isto.  Mais que as próprias imensidades do pampa, do deserto, da estepe.  Eram as imensidades sem fundo do tempo fugitivo e eterno, do espaço verificável e infinito. Transpondo seu pórtico de pedra eu tive a percepção invasora (e para sempre entranhada e durável) de um impacto silencioso e formidando. Alguma coisa se passou ali, se passou em mim, invisível, como que incometida e destituída de flagrante ação. Um súbito vazio, rarefação do elemento essencial a que eu bati guelras de ansioso peixe. Na imensa ausência eu só captava os círculos concêntricos da palavra oásis, da palavra oásis, da palavra oásis, se desprendendo da sineta que repicava para o defunto que chegava e para o enterro com que fomos de cambulhada. A entrada principal do campo-santo era uma larga avenida que a cobiça da Santa Casa foi estreitanto de tanto vender os palmos de terra onde capelas ricas e modernas cobrem a vista dos túmulos dos primeiros tempos.  Logo à esquerda os do Visconde e do Barão do Rio Branco. O deste, apenas um cubo de alvenaria caiada a espera que a Nação construa o monumento do construtor de suas fronteiras. Logo depois a moça abraçada a uma coluna (cujo mármore se derrete como um torrão de açúcar, da sepultura de Águeda Francisca Durão. O belo monumento de letras apagadas de José Clemente Pereira. À direita, o de José d’Araújo Coelho com sua pirâmide e  sua cabeça de esqueleto. O da que foi Ana Maria Ribeiro de Araújo Sousa com a armaria da Morte: em campo de nada a caveira triunfante sobre tíbias postas em aspa. As de Luísa Rosa Avendano Pereira e do médico Roberto Jorge Haddock Lobo. No fim das duas quadras iniciais o Cruzeiro de granito, todo dourado do tempo e azinhavrado dos musgos, abre seus braços de árvore de pedra, de moinho de pedra – sobre o infinito luminoso do seu despencado em cima da baixada carioca e da baixada fluminense.  Nos degraus destes cruzeiros de cemitérios é que senta o Grão-Porco na meia noite das sextas-feiras de novilúnio. Senta e espera os destemidos que entram para solicitar ouro, poder e amor. Quem chega ao Porco e pede, já ganhou porque tem preenchida a condição — que é atravessar até ali sem desviar a cabeça, sem olhar para os lados, por mais que os defuntos saídos do chão da terra chamem com psius pelo nome, xinguem, vaem, cutuquem e puxem pela roupa.   Ai!  de quem olha para os lados, hesita, treme e para. Cai logo morto e cai fedendo de podre e de borrado.  Já quando ele vence, logo os cadáveres voltam para as covas que se fecham e estralejando as lajes e um vento largo e rude varre o cheiro da carniça, limpa a face da lua nova. O Porco imundo vira num príncipe prateado e todo airoso. Abraça o postulante e os dois saem juntos (porque o Vinícius, lá fora gritou que já é sábado!) – saem juntos, para nunca mais se separarem. Nem nós de cá desta vida, nem nós de lá de depois da morte….

Em Balão Cativo: memórias/ vol2, Pedro Nava, Rio de Janeiro, José Olympio:  1973, pp: 40-42





Leitura no front

6 01 2013

5917-Books-SoldiersFotografia da Biblioteca Nacional da Escócia, ilustrando o artigo mencionado.

Ando fascinada com as pesquisas sobre os hábitos de leitura do passado: é aí que a historiadora em mim se revela.  Como todos sabem dedico boa parte do meu tempo na leitura de diários, notas, memórias, preferencialmente de pessoas comuns de tempos passados.  A pesquisa sobe os hábitos das pessoas de gerações passadas recebeu grande impulso nos últimos 50 anos culminando recentemente, para o leitor não especialista, na coleção História da Vida Privada.

A descoberta dos hábitos e costumes do passado nos ajuda a entender a seleção natural através dos séculos que definem muitos dos paradigmas da sociedade  atual.  Nossa maneira de ser, de considerar o que é importante para o grupo social, vem sendo filtrado pelas gerações que nos precederam.  Foram essas pessoas que desconhecemos, nossos antepassados remotos, que escolheram o que deveria ser considerado importante, essencial, em termos sociais, relogiosos, políticos.  Com suas escolhas elas deixaram o lastro cultural no qual a nossa visão de nós mesmos se baseia.

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Fotografia: soldados da Nova Zelândia com uma cópia do New Zealand at the front, 1917.  Alexander Turnbull Library.

O fascinante estudo do que líamos no passado está em pleno andamento como mostrou Jennifer Howard, no artigo Secret Reading Lives, já mencionado no blog anteriormente. A lista de publicações e de referâncias sobre os hábitos de leitura de outros tempos, aumenta a cada dia e a Reading Experience Database — RED, mostra como a internet, na Inglaterra, um país que sempre teve interesse pela sua própria história, pode auxiliar no levantamento das riquezas do passado.  O RED é uma fonte de material de primeira mão, de cartas, diários, livros de poesias favoritas, selecionadas por pessoas comuns, um hábito bastante popular durante o século XIX.  O RED, poderia muito bem dar exemplo e incentivar iniciativas semelhantes, em países como o Brasil que tanto necessita de pesquisadores e de novas visões sobre uma história tão mal contada, empobrecida por mais de 500 anos, de descaso.

Um dos exemplos curiosos ilustrando o artigo na revista The Chronicle of Higher Education é a descoberta de que a leitura feita na linha de batalha, por soldados engajados na 1ª Guerra Mundial, diferente do que se preconizava, não era leitura de panfletos propagandísticos ou políticos, mas que a leitura mais procurada era a de jornais de suas cidades natais, prosaicas lembranças, escapistas, de uma vida mais mansa, romântica, idealizada.  São detalhes como esses que podem nos oferecer uma ideia do que se passava no início do século XX;  como a guerra foi conduzida e por quem; mas muito mais que isso: o comportamento de seres humanos em períodos de grande estresse.  Pesquisa enriquecedora que levanta um espelho para o nosso comportamento emocional e para a herança deixada por esses que viveram cinco, seis gerações antes da nossa.  Fascinante.





Cosimo de Medici, memórias de um líder renascentista, onde o passado e presente se falam

25 11 2012

Retrato póstumo de Cosimo de Medici, o velho, 1518

[Cosimo de Medici 1389-1464]

Jacopo Pontomo (Pontorme, 1494- Florença, 1557)

óleo sobre tela, 86 x 65 cm

Galeria Uffizi, Florença

Fiquei encantada com a leitura de Cosimo de Medici, memórias de um líder renascentista, de Luiz Felipe D’Ávila,  onde encontrei um autor  que através da ficção de memórias  foi capaz de transmitir,  de maneira fascinante e eficaz,  a vida diária de Florença no início do período renascentista. Cosimo viveu de 1389 a 1464 e foi o patriarca da influente família de banqueiros de Florença, que teve muitas vezes o destino da história ocidental nas mãos por bem mais de dois séculos.

Escrever sobre qualquer um dos Medici poderia ser simplesmente a repetição de toda a pesquisa já feita sobre os membros da família.  Historiadores do mundo inteiro já passaram horas debruçados sobre suas vidas.  No entanto, uma coisa deliciosa sobre esta narrativa é a contemporaneidade das preocupações de Cosimo, que se encontra,  escolhendo entre opções muito semelhantes as que fazemos nos dias de hoje.

Quando eu ainda ensinava história da arte na universidade eu abria o período da civilização romana, com afirmações de efeito e para chamar atenção dos alunos, mas que tinham muito de verdade.  Dizia: “olhem bem para esta cidade romana: tem edifícios de apartamentos, tem sistema de água e esgotos, tem mercados, tem ruas.  Desde os  romanos, nada mudou.  Continuamos a construir cidades da mesma forma que eles faziam. Tantos séculos já se passaram, o que é que vocês vão fazer para mostrar que aprendemos alguma coisa nesse tempo todo?”  É claro que inicialmente os alunos achavam que este exagero era demasiado, mas à medida que o semestre  passava e as aulas se aprofundavam, os paralelos entre o que viam e o que tínhamos no nosso dia a dia se intensificavam, para descrença de todos.

Assim como a beleza está nos olhos de quem vê, a história esta nos olhos de quem se volta para o passado.  Ler historiadores do século XIX , de meados do século XX e contemporâneos ilustra a subjetividade da história, que se mostra tão precisa quanto um livro de memórias.  Mas isso não invalida o estudo.  Pelo contrário, mostra as forças filosóficas que esculpiram a maneira de pensar de historiadores e de seu tempo, e mostra, sobretudo, o ser humano.  Verdade não existe.  É relativa.   Assim, a contemporaneidade de um momento histórico é parte da seleção feita por aquele historiador.

A fascinante contemporaneidade de  Cosimo de Medici, memórias de um líder renascentista, é parte da reflexão do nosso momento sobre o passado.  Isso dá relevância à leitura, porque podemos nos ver, ver onde poderíamos mudar: o que já deu ou não certo.  A vida no século XV era muito semelhante a que vivemos hoje, dadas as devidas proporções.  E não são poucas as passagens em que podemos fazer um paralelo direto.  Encontramos também sábios conselhos de Cosimo, que se usados por nós, hoje, ainda seriam de grande valia. Vejamos como a passagem seguinte, onde o autor explica a movimentação econômica na “Wall Street” de Florença, a Porta Rossa:

Na rua Porta Rossa, os comerciantes levantam empréstimos,descontam cartas de crédito, trocam mercadorias por dinheiro, recebem e pagam contas, requisitam os serviços dos bancos para intermediar a compra e venda de vários produtos, tais como livros, seda, lã, jóias, escravos e animais. As conversas e transações com os nossos clientes são excelente indicadores sobre os negócios, a política e as oportunidades comerciais existentes nas cidades e países em que atuamos”.

Luiz Felipe D’Ávila

Mais além a sabedoria de quem administrava um dos mais importantes bancos da história:

A ostentação e a vaidade exagerada refletem certo desvio de caráter. Ela é uma  manifestação de um espírito volúvel e escravizado pelos desejos. Não me recordo de ter conhecido pessoas honestas e confiáveis que gostam da ostentação ou que são extremamente vaidosas. No banco, os clientes que mais nos preocupam são aqueles que adoram ostentar.  Costumam se endividar para satisfazer suas vaidades e alimentar os seus vícios, ignorando a capacidade de  honrar os seus empréstimos. Na política são atraídos pelo poder e não pelo senso do dever;  são pessoas voláteis que mudam de opinião e de lado conforme os seus interesses imediatistas.  Por isso são facilmente seduzidas e corrompidas.  Toda vaidade tem um preço; ela é o calcanhar-de-aquiles do ser humano”.

Perdoem-me a obviedade, mas estávamos descrevendo os nossos políticos?

Voltando ao livro de Luiz Felipe D’Ávila: é uma jóia.  Pouco difundido.  Precisava ter tido mais marketing.  Publicado em 2008 só agora chegou às minhas mãos, e ainda por acaso. É uma pena.  Qualquer um interessado em história, em uma boa narrativa, e em saber mais dessa família de banqueiros; qualquer um que se interesse em saber sobre as comissões artísticas de muitas das obras de arte da Renascença italiana, que fazem parte do nosso arquivo visual da época,  tem o dever de prestigiar esse pesquisador brasileiro.  Foi um prazer ler estas 150 páginas ricamente ilustradas.