COMPENSAÇÃO — poema de Cyra de Queiroz Barbosa

13 10 2008

 

COMPENSAÇÃO

 

Cyra de Queiroz Barbosa

 

Ao meu irmão Celso

 

 

Couve mineira

picada fininha

me lembra Vovó.

Sentada no mocho

de saia cobertos

só a ponta se via

dos pés pequeninos.

As mãos enrugadas

cortavam cortavam

a couve fininha.

 

Colhida na horta

que antes plantara

a couve verdinha

que agora picava

iria pra mesa

em travessa esmaltada.

Comida sadia

de gente mineira

arroz com feijão

que era tropeiro

torresmos sequinhos

lingüiça de lombo

farinha torrada

com ovos mexidos.

 

“Menina gulosa

tira a mão do torresmo!

Só quer escolher

o mais tenro e carnudo

aquele que o Celso

mais gosta e aprecia!”

— Couve mineira

picada fininha

me lembra a Vovó.

 

Café ralo e bem doce

com leite e farinha

que era de milho

torrada em fogão.

 Os netos gostavam

e ela sorria,

pra todos, é certo

mas um era neto

a quem mais queria.

 

— Só filhas criara

E nele beijava

o filho menino

que sempre sonhara.

 

Em: Moenda:painéis e poemas interiorizados, Cyra de Queiroz Barbosa, Rocco:1980, Rio de Janeiro





A Primavera — poema de P. de Petrus

12 10 2008

Ilustração de Rebecca Peed

A primavera

 

P. de Petrus

 

 

Primavera!  A Natureza,

Agora em nova roupagem,

Traz às plantas mais beleza,

Deita perfumes na aragem.

 

A colina é uma princesa

Dentro da mata selvagem.

Já não existe a tristeza

No sorriso da paisagem.

 

O sol, dourando o horizonte,

Cobre de beijos a fonte

E também a flor que o espera…

 

E o cantar dos passarinhos,

Quebrando a calma dos ninhos

Vem saudar a Primavera.

 

Pedro Bandettini, cognome P. de Petrus (SP 1920 – SP 1999)

 

Obras:

 

Paisagens Poéticas, 1970

Pensamentos Poéticos , 1975

Meu Canteiro de Trovas, 1984





Os periquitos — poema de Osório Dutra

10 10 2008

Os Periquitos

 

 

Osório Dutra

 

 

No leque verde dos coqueiros

Que ornam a margem dos caminhos,

Os periquitos galhofeiros

Zombam dos outros passarinhos.

 

Numa algazarra delirante,

Batendo as asas irisadas,

Cantam a terra e o céu distante,

Glorificando as alvoradas.

 

Porque se julguem muito ricos

Donos do espaço e das alturas,

Fogem dos pobres tico-ticos,

Trocando afetos e ternuras.

 

Unidos contra aos caçadores,

Andam ariscos e assustados:

Temem os ventos destruidores

E a poeira azul dos descampados.

 

São tão alegres, tão ruidosos,

Que a gente ao vê-los avalia

Que sejam todos venturosos,

Brincando ao sol de cada dia.

 

Não param nunca os mais tranqüilos.

Pulam, febris, de galho em galho.

Com que prazer, para segui-los,

Deixo de lado o meu trabalho!

 

Passam a vida saltitando

E é cada qual mais tagarela.

Onde vai um, lá vai o bando,

Cortando o azul na tarde bela.

 

Ordena um deles a partida

Em busca de outros horizontes.

Depois é a volta…  E que corrida

Vertiginosa sobre os montes!

 

E quando, à noite, escuto os gritos

De mil insetos bandoleiros,

Dormem, sonhando, os periquitos

No leque aberto dos coqueiros.

 

Osório Hermogênio Dutra, Vassouras, Estado do Rio, (1889 -1968). Diplomata brasileiro e poeta.

Obras:

 

O país do deuses (crônicas sobre o Japão)

Terra Bendita, 1923 (poesia)

Castelos de Marfim e  Céu Tropical (poesia), 1930

Inquietação, 1933 (poesia)

Dentro da noite Azul, 1934

Silêncio doce silêncio, 1936 (poesia)

O gênio poético de Martins Fontes, 1938

Mundo sem alma, 1943

Terra da gente, 1944 (poesia)

Emoção, 1945

Tempo perdido, 1946

Elas e nós, 1955, (poesia)

 

 

Vocabulário para uso escolar:

 

Ornar = decorar, enfeitar

Galhofeiro = brincalhão

Irisada = furta-cor

Venturoso = feliz

Bandoleiros =  errante, sem paradeiro





PRIMAVERA, poema infantil de Francisca Júlia e Júlio César da Silva

8 10 2008
Ilustração Mauricio de Sousa

Ilustração Maurício de Sousa

 

PRIMAVERA

 

Francisca Júlia e Júlio César da Silva

 

Bem cedo, mal rompe o dia,

já estão gorjeando as aves

os seus pipilos suaves

em desusada alegria.

 

Vasto, o campo se descobre,

ondula, se estende e perde,

todo verde, todo verde

da nova relva que o cobre.

 

De toda banda invadidos

e cheios estão os ares

do perfume dos pomares

e dos jardins florescidos.

 

A ave eriça a pluma,

Varre os ares e os refresca

O sopro da brisa fresca

Que tudo beija e perfuma.

 

A natureza se esmera

Em galas e enfeites novos;

Ri o sol, brotam renovos…

É a risonha primavera

 

que bem cedo acorda os ninhos,

as flores perfuma, enfolha

as árvores, folha a folha,

onde cantam os passarinhos.

 

 

 

 

Vocabulário:

 

gorjeando = cantando

desusada = incomum

eriça = levanta

galas = belezas

renovos = ramos novos

 

 

Encontrado em:

 

Poemas para a infância: antologia escolar, Henriqueta Lisboa, Ediouro: s/d, Rio de Janeiro

 

Francisca Júlia da Silva Munster (SP 1871 – SP 1920)  Poetisa brasileira.

  

Obras:

 

 

1895 – Mármores

1899 – Livro da Infância

1903 – Esfinges

1908 – A Feitiçaria Sob o Ponto de Vista Científico (discurso)

1912 – Alma Infantil (com Júlio César da Silva)

1921 – Esfinges – 2º ed. (ampliada)

——

A VOZ DOS ANIMAIS  é uma outra poesia de Francisca Júlia publicada neste blog.





Carlos Drummond de Andrade poesia para crianças!

30 07 2008

 

PARÊMIA DE CAVALO

 

Cavalo ruano corre todo o ano

Cavalo baio mais veloz que o raio

Cavalo branco veja lá se é manco

Cavalo pedrês compro dois por mês

Cavalo rosilho quero com filho

Cavalo alazão a minha paixão

Cavalo inteiro amanse primeiro

Cavalo de sela mas não pra donzela

Cavalo preto chave de soneto

Cavalo de tiro não rincho, suspiro

Cavalo de circo não corre uma vírgula

Cavalo de raça rolo de fumaça

Cavalo de pobre é vintém de cobre

Cavalo baiano eu dou pra fulano

Cavalo paulista não abaixa a crista

Cavalo mineiro dizem que é matreiro

Cavalo do sul chispa até no azul

Cavalo inglês fica pra outra vez.

 

 

 

 

Carlos Drummond de Andrade

 

 

Carlos Drummond de Andrade (MG 1902 – RJ 1987) – Poeta, escritor, contista, cronista, jornalista, pensador brasileiro.

 

Ilustração:

CAVALOS, José Lutz Seraph Lutzemberger ( Brasil -1882-1951) aquarela.





A Borboleta Amarela — poema infantil de Ladyce West

23 07 2008
Mark Anderson

Borboleta amarela. Foto: Mark Anderson

 

A Borboleta Amarela

 

 

A borboleta amarela

pousou no beiral da janela.

Abriu suas asas listradas

cansadas de muitas estradas

e dormiu.

 

 

Ficou um bom tempo parada

até se sentir renovada.

Limpando as patinhas da frente,

jogou-se pelo muro bem rente

e seguiu.

 

 

Lá foi ela pelos ares

saltitando em ziguezagues.

Pousou na flor do caqui,

pulou daqui para ali

e partiu.

 

 

Por entre a grade de ferro, passou.

Por trás dos ramos floridos, voou.

Parou no banco da praça,

eis que um gato lhe ameaça…

e fugiu.

 

 

 

© Ladyce West, 2008, Rio de Janeiro

 

Ladyce West ( RJ – contemporânea)

http://ameiavoz.blog.terra.com.br





As Borboletas, poema infantil de Vinícius de Moraes

22 07 2008

 

Professor Pardal.  Ilustração Walt Disney.

Professor Pardal. Ilustração Walt Disney.

AS BORBOLETAS

 

 

Brancas

Azuis

Amarelas

E pretas

Brincam

Na luz

As belas

Borboletas

 

Borboletas brancas

São alegres e francas.

 

Borboletas azuis

Gostam muito de luz.

 

As amarelinhas

São tão bonitinhas!

 

E as pretas, então…

Oh, que escuridão!

 

 

 

Vinícius de Moraes

 

 

Do livro:

 

A arca de Noé, Vinícius de Moraes, Livraria José Olympio Editora: 1984; Rio de Janeiro; páginas 58 e 59. 14ª edição.

 

 

Marcus VINÍCIUS da Cruz DE Melo e MORAES (RJ 1913-RJ 1980), diplomata, jornalista, poeta e compositor brasileiro.

 

Livros:

 

O caminho para a distância (1933)

Forma e exegese (1935)

Ariana, a mulher (1936)

Novos Poemas (1938 )

Cinco elegias (1943)

Poemas, sonetos e baladas (1946)

Pátria minha (1949)

Antologia Poética (1954)

Livro de Sonetos (1957)

Novos Poemas (II) (1959)

Para viver um grande amor (crônicas e poemas) (1962)

A arca de Noé; poemas infantis (1970)

Poesia Completa e Prosa (1998 )

 

 

—-

 
 

Outros poemas de Vinícius de Moraes neste blog:

 

A cachorrinha

 

Veja o vídeo de Denise Shinotuka:



 

 





TÊNIS, poema de Guilherme de Almeida, infantil

21 07 2008

 

TÊNIS

 

A titia

borda e espia

o gato branco, enroscado

no feltro verde da mesa

e acordado,

com certeza.

 

Um novelo

cai.  E, ao vê-lo,

o gato bate na bola

e a bola, branca de neve,

pula e rola,

fofa e leve…

 

Silenciosa,

vagarosa,

 uma duas angolinhas…  

a bola solta uma lenta,

longa linha

que se aumenta.

 

Pouco a pouco,

no mais louco

desnorteante corrupio,

a bola desaparece.

Mas o fio

Cresce… cresce…

 

 

Guilherme de Almeida

 

 

 

Guilherme de Andrade e Almeida – (SP 1890 — SP 1969) foi um advogado, jornalista, poeta, ensaísta e tradutor brasileiro.

 

Principais Obras

Poesia

Nós (1917);

A dança das horas (1919);

Messidor (1919);

Livro de horas de Soror Dolorosa (1920);

Era uma vez… (1922);

A flauta que eu perdi (1924);

Meu (1925);

Raça (1925);

Encantamento (1925);

Simplicidade (1929);

Você (1931);

Poemas escolhidos (1931);

Acaso (1938);

Poesia vária (1947);

Toda a poesia (1953).

Ensaios:

Do sentimento nacionalista na poesia brasileira, (1926);

Ritmo, elemento de expressão (1926)

 





O Patinho, poema infantil: Francisca Júlia

18 07 2008

 

O PATINHO

 

 

O pintainho do pato,

galante, amarelo e novo,

mal saiu da casca do ovo,

busca as águas do regato.

 

Todo ele, tão lindo e louro,

enquanto nas águas bóia,

tem a graça de uma jóia

feita em ouro.

 

 

 

Francisca Júlia

 

 

Francisca Júlia da Silva Munster (SP 1871 – SP 1920)  Poetisa brasileira.

 

 

 

Obras:

 

 

1895 – Mármores

1899 – Livro da Infância

1903 – Esfinges

1908 – A Feitiçaria Sob o Ponto de Vista Científico (discurso)

1912 – Alma Infantil (com Júlio César da Silva)

1921 – Esfinges – 2º ed. (ampliada)

 





Um aceno amistoso à França no dia de hoje!

14 07 2008

 

La Rue Montorgueil, 1878,  Claude Monet (França 1849-1926), O/T,  Musée D'Orsay, Paris

La Rue Montorgueil, 1878, Claude Monet (França 1849-1926), O/T, Musée D'Orsay, Paris

 

Você hoje:

 

1        compra um metro de fita para embrulhar um belo presente?

2        corre oitocentos metros para perder alguns quilos?

3        compra uma caixa de leite LONGA VIDA de um litro?

 

Usar estas medidas baseadas no sistema métrico é uma conseqüência, na sua vida diária, da Revolução Francesa de 1789.

 

 

Você acredita que:

 

1        deve haver separação entre religião e governo?

2        que o ensino básico deva ser gratuito e obrigatório para todos?

3        que todos os homens são iguais?

 

Então você pratica diariamente alguns dos direitos conquistados pelos revolucionários franceses em 1789.

 

 

Você pretende:

 

1        fazer um concurso para trabalhar num emprego público?

2        pensa em comprar um sítio, um pedaço de terra para os fins de semana?

3        votar num candidato do seu gosto para vereador ou governador?

 

Então você presta os seus respeitos diariamente aos princípios adquiridos pelos cidadãos depois da revolução francesa de 1789.

 

 

Estas são algumas das razões por que o dia de hoje, 14 de julho, é comemorado por mais pessoas no mundo do que somente os franceses.   

 

Hoje fazem 219 anos da Queda da Bastilha.