Jean-Pierre Alaux (França, 1925)
litogravura policromada, 40 x 80 cm
Nicolas Chaperon (França, 1612-1656)
óleo sobre tela, 110 x 134 cm
Museu do Louvre, Paris
Meu conhecimento da tradição literária japonesa é nula. Conheço alguns escritores contemporâneos, mas não o suficiente para poder colocar a obra de Hiromi Kawakami em contexto. Assim, minha leitura de A valise do professor é feita pelos padrões e associações ocidentais. A história de uma simplicidade cativante, contada de modo direto sem rebuscados, de fácil leitura, retrata a vida de duas pessoas solitárias, que se reconhecem, que mantêm um relacionamento morno, e que encontram, no final, uma maneira mais íntima de se relacionarem. Elas são: Tsukiko uma mulher de 38 anos, solteira, que passa muitas de suas noites em um bar, sozinha, bebendo e comendo, sem grandes amigos e o Professor, de quem ela havia sido aluna, que viúvo, também, leva uma vida semelhante, só. Encontram-se em um bar e aos poucos desenvolvem uma amizade, fortemente enraizada na alimentação e na bebida. Apesar dos mais de 30 anos de idade que os separam, Tsukiko e o professor desfrutam de uma relação satisfatória para ambos.
Este é um romance delicado de grande sensibilidade às diferentes exigências que cada um tem para se relacionar com o mundo. Por trás dessa simples história há algo que nos preenche, que nos fascina. Talvez seja porque corresponde ao que trazemos no seio da cultura ocidental: o arquétipo de Mercúrio ou Hermes como psicopompo, um ser que guia a nossa percepção sobre o mundo que nos cerca e media os nossos desejos inconscientes. Neste romance o professor exerce esse papel, o de guia, o papel de psicopompo, abrindo o caminho para que uma nova Tsukiko apareça e saia de seu casulo, que bata asas e viva a vida. E o ponto alto dessa instrução vem com introdução dela ao amor. O professor como um bom guia da alma, oferece novas oportunidades para que Tsukiko aprimore seus sentidos. Ele a acompanha e a ensina a transitar entre os extremos que a vida lhe apresenta. E oferece também uma passagem segura para o conhecimento de sua própria alma. Até mesmo na lida com o submundo ele a guia — dos sonhos e pesadelos à aceitação da morte.
Hiromi KawakamiO título, que se refere à valise que o professor leva consigo a todos os lugares, corresponde ao arquétipo, pois trabalha com o símbolo da transição, o levar algo de um lugar ao outro. Não importa o conteúdo dessa valise, o que importa é que é o símbolo da viagem, da transição entre dois mundos esteja presente. Quando Tsukiko finalmente recebe a valise e a preserva, sabemos que ela entendeu e está pronta para assumir o papel do professor. Está, de agora em diante, incumbida em ser a facilitadora entre mundos, para quem dela necessite.
Auto-retrato com chapéu de palha, depois de 1782
Elisabeth Vigée-Lebrun (França, 1755-1842)
óleo sobre tela, 97 x 70 cm
National Galllery of Art, Londres
Descompasso: a imagem do espelho não é a que sinto cá dentro. Não que seja outra, mas assim, cara a cara, somos só duas. Onde estão as outras? Trago em mim todas as mulheres que sou e que já fui. E a semente das que serei no futuro.
Rebelde era o rótulo familiar da auto-afirmação. Hoje, em caminho próprio, já não pareço indócil. Ao contrário. Poucos percebem na maneira afável e no sorriso largo, a robusta determinação de que sou feita. Auto-contida, satisfaço-me comigo mesma por um longo tempo. Sou impaciente, mas aprendi a me controlar. Só os íntimos conhecem os sinais da ansiedade, companheira das madrugadas insones.
Os cabelos louro-escuro e revoltos, companheiros de infância, continuam a desafiar restrições; os olhos azul-acinzentados, facetados como um caleidoscópio, ainda são míopes. O riso fácil não cascateia mais com tanta freqüência. Não sou sentimental e não gosto de me expor. Sou reservada, até comigo mesma. Há uma esfinge que me questiona no auto-retrato, ainda preciso adivinhar o seu enigma.
©LadyceWest, Rio de Janeiro, 2014
DIA 1 — Autoretrato
Retrato de Elizabeth Demidova, 1805
[Condessa Demidoff]
Robert Lefèvre (França, 1755-1830)
óleo sobre tela
Museus do Hermitage, São Petersburgo
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Saint Énogat, meus filhos, 1922
Lucien Jonas (França, 1880-1947)
óleo sobre tela, 60 x 81cm
Museu dos anos 30, Paris
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Emile Friant (França, 1863-1932)
óleo sobre madeira, 26 x 34 cm
Coleção Particular
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Blaise Pascal (1623-1662)
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Chansonnier de Jean de Montchenu, década de 1470
Também conhecido como Chansonnier Cordiforme (em formato de coração)
[Paris, Biblioteca Nacional, Ms. Rothchild, 2973]
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Há mais ou menos um mês, através de uma aluna, descobri alguns manuscritos em forma de coração. Foram novidade para mim, mas diga-se não sou medievalista. Tudo indica que não são muitos. Dentre eles, talvez o mais divulgado seja o Chansonnier de Jean de Montchenu (Cancioneiro de Jean de Montchenu) que recebeu recentemente uma edição maravilhosa em fac-símile. Esse manuscrito foi encomendado na França, em Savoy [Saboia] entre 1460 e 1477. Encomenda feita por Jean, cânone de Montchenu — daí sua designação — que mais tarde, em 1477, se tornou Bispo de Agen e Bispo de Vivier (1478-1497). O cancioneiro é composto por 43 músicas. Entre elas há obras de Guillaume Dufay (Du Fay, Du Fayt) nascido em 5 de agosto, acredita-se que de 1397 e falecido a 27 de novembro de 1474.
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Dufay, retratado aqui à esquerda e Gilles de Binchois à direita no manuscrito em Martin le Franc, “Champion des Dames”, Arras 1451.–
Dufay foi um dos compositores dos Países Baixos mais conhecidos na época do Renascimento, figura central na Escola da Borgonha, onde desempenhou o papel mais famoso e influente na Europa em meados do século XV. Sua música foi copiada, distribuída e cantada em todos os lugares que a polifonia tinha criado raízes. Quase todos os compositores das gerações seguintes absorveram alguns elementos do seu estilo. A ampla distribuição de sua música é ainda mais impressionante, considerando que morreu décadas antes a disponibilidade de impressão de música. Ou seja, suas músicas tinham que ser copiadas à mão.
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Chansonnier de Jean de Montchenu, década de 1470
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Há também algumas cantigas de Gilles de Binche, contemporâneo de Dufay, nascido por volta do ano 1400, tendo falecido em 1460 e que foi também um compositor muito influente. Suas músicas apareceram em cópias décadas após sua morte, e muitas vezes foram usados como fontes para a composição de Missas por compositores posteriores. Sua música é simples e clara. Empregado pelo Duque de Borgonha, Binchois (como era também chamado) escreveu todo tipo de música: as canções seculares de amor além das músicas sacras que atenderam as expectativas e satisfizeram o gosto de seu patrão. Outros compositores como Ockeghem , Busnoys também têm composições incluídas nesse manuscrito único.
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Chansonnier de Jean de Montchenu, década de 1470
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O livro fechado tem a forma de um coração, aberto parece uma borboleta formada por dois corações. Os românticos veem nisso dois corações amantes. As canções são em francês e italiano e escritas para diferentes vozes. Quando a palavra coração aparece no texto ela é representada por um imagem de um coração delicado.
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Página do Manuscrito de Montchenu, em que a palavra coeur [coração] aparece substituída pela imagem de um coração.–
Duas ilustrações de página inteira aparecem no códice. Na primeira, um Cupido atira flechas contra uma jovem, enquanto ao seu lado Fortuna gira sua roda. No outro, dois amantes se aproximam um do outro com amor. em todo o manuscrito, os pentagramas, música e poemas de amor são cercados por bordas de animais, pássaros, cães, gatos e todos os tipos de flores e plantas em ouro abundante e desenhos delicados. A encadernação é em veludo cor vermelho, como apropriado à forma.
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Detalhe da página do manuscrito de Montchenu ilustrada na primeira fotografia desta postagem.James de Rothschild recebeu este manuscrito junto a uma enorme coleção de seu pai Henri de Rothschild, e doou-o para a Biblioteca Nacional da França.
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Detalhe de uma das bordas do manuscrito de Montchenu.–
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François Martin-Kavel (França, 1861-1931)
Pintura utilizada na tampa da lata de biscoitos Biscuit Olibet
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Jardim de Luxemburgo, Paris, 2012
Christine Reilly (Austrália, contemporânea)
óleo e acrílica sobre tela, 49 x 59 cm
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Christine Reilly, pintora australiana contemporânea, com experiência de galerista. Além de pintura, dedica-se também à gravura e a ilustração para cartões, à pintura de gênero e paisagens urbanas.
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Carlos Cosme Jimenez (Espanha, contemporâneo)
óleo sobre tela, 100 x 81 cm
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Francis De Croisset (1877-1937)