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Virgílio della Monica (Brasil, 1889-1957)
óleo sobre placa de madeira, 28 x 36 cm
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Virgílio della Monica (Brasil, 1889-1957)
óleo sobre placa de madeira, 28 x 36 cm
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Lucília Fraga (Brasil, 1895-1979)
óleo sobre tela, 90 x 72 cm
PINA — Pinacoteca do Estado de São Paulo
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Manoel Costa (Brasil, 1943)
óleo sobre eucatex, 55 x 46 cm
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Luiz Marcondes Rocha
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A cidade de São Paulo continuava nesse período a crescer industrialmente. Houve, na segunda metade do mandato presidencial de Prudente de Morais, uma queda vertical do preço do café. SE em 1889 o preço médio de uma saca de 60 quilos era de quatro libras, caíra a uma libra e meia em 1897. A responsabilidade da crise era atribuída ao aumento da produção, pois que, de 1889 a 1897, passou de quatro para oito milhões de sacas numa produção mundial de doze milhões.
Essa crise, se embaraçou em parte o desenvolvimento industrial de São Paulo, não o paralisou de todo. É que já se consolidavam as condições iniciadas em 1886, com a estruturação, embora incipiente, de um comércio interno crescente ano a ano, proporcionando avanços sucessivos do setor de indústrias, ainda que sem uma ordenada orientação. Entre essas condições, destacava-se o fato de ter o Estado se ter transformado no maior produtor de café do mundo, bem como o aumento progressivo da população, vegetativo e imigratório. Destaque-se ainda o trabalho assalariado e o nível, embora não muito elevado, mas bem superior ao negro escravo, do padrão de vida do italiano imigrante.
A mentalidade progressista aqui formada tinha a sua origem na ambição que vinha das Bandeiras, levando o bandeirante heróico aos riscos e tocaias dos sertões, à cata de índios para vendê-los e à busca do ouro imaginando e executando o comércio mais rendoso do que as circunstâncias lhe permitiam, sem se atemorizar dos perigos das florestas traiçoeiras. A ambição do estrangeiro, que aqui aportava não trazendo nada, mas com grande disposição para o trabalho e encontrando um ambiente de igualdade e uma riqueza em pleno desenvolvimento, unia-se ao espírito do paulista, ajudando a apressar a grande marcha do maravilhoso desenvolvimento.
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O empreiteiro era em geral pessoa experimentada, com bons conhecimentos da lavoura e que se encarregava, mediante contrato, da derrubada de matas virgens e da plantação de novos cafezais.
Com o dinheiro economizado, oriundo das empreitadas, o empreiteiro adquiria terras e se incluía no rol dos pequenos proprietários, iniciando a sua própria fazenda.
Pagava-se em média, para formar um cafezal, quatrocentos réis por pé, pertencendo ainda o fruto do quarto ano ao empreiteiro. Em pouco tempo se transformavam duzentos alqueires de terra bruta em uma fazenda de 200 mil pés-de-café.
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Em: Café e Polenta:romance histórico, Luiz Marcondes Rocha, São Paulo, Martins: 1964, pp.55-56
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Luiz Marcondes Rocha (Brasil, ? -? ) advogado, formado pela Faculdade de Direito da Cidade de São Paulo em 1938. Escritor.
Obras:
Café e Polenta: romance histórico, 1964
A luta econômica do brasileiro, 1967
Maria Rica, s/d
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Descobrimento do Brasil.–
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As constantes reclamações, que temos todo o justo direito de fazer sobre os impostos no Brasil, associadas à próxima data de aniversário da cidade de São Paulo, me levaram a pensar hoje nos ensaios de Viriato Corrêa, em particular neste que reproduzo aqui sobre os impostos do vilarejo de Santo André da Borda do Campo em meados do século XVI, quando o Brasil tinha um pouco mais de 50 anos de existência. Resolvi postá-lo, porque gosto desse excelente escritor e o ensaio me lembra e espero que faça o mesmo a vocês, das dificuldades que os nossos antepassados tiveram ao se estabelecerem nesse Eldorado. Sei muito bem que comemora-se o aniversário de Santo André da Borda do Campo em abril — fundada em 1553 este ano ela comemora 459 anos de idade. No entanto, Santo André da Borda do Campo exerce um grande fascínio para mim, o fascínio do desconhecido, do mistério, já que o vilarejo desapareceu em 1560 e há muito pouca informação sobre sua localização original.
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Viriato Correia
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Desde que o Brasil é Brasil não houve certamente multas mais extorsivas que as que se cobraram na vila remota de Santo André da Borda do Campo.
Ao mais ligeiro golpe de vista pelas atas da municipalidade do rude arraial de João Ramalho, o leitor se escandaliza diante da disparidade das multas, comparada com o valor do dinheiro naquela longínqua quadra quinhentista.
Quer sobre a vila de Santo André, quer sobre a vida de João Ramalho, anda a história ainda às tontas.
João Ramalho tem sido tudo na história, ao sabor dos historiadores. Para uns foi o precursor de Colombo, pisando em terras americanas antes que as caravelas do navegador genovês fundeassem nas águas das Antilhas. Para outros é o náufrago que ao Brasil aportou naqueles dias sombrios em que o Portugal deixou a terra de Santa-Cruz em pleno abandono. Para Cândido Mendes não é outro senão o muito conhecido bacharel da Cananéia, que a história até hoje não pode conhecer definitivamente. Uns dizem-no fidalgo da casa real, outros afirmam-no aventureiro e ignorante. O que ele é, até hoje, nestes dias de pesquisas, é um ponto de interrogação.
O arraial de Santo André continua com a mesma sorte de seu fundador. Ninguém sabe em que ponto do planalto paulista João Ramalho fundou o seu povoado.
Até hoje não se pode determinar o lugar preciso em que existiram os primeiros fundamentos do mais antigo dos núcleos populosos de S. Paulo.
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João Ramalho e seu filho
[DETALHE]
Wasth Rodrigues (Brasil, 1891-1957)
óleo sobre tela
Museu Paulista, São Paulo, SP
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Que ambos existiram – o arraial e o fundador – é que não há mais dúvida. Para muitos o arraial de Santo André da Borda do Campo não era mais que uma furna de bandidos, um numeroso rancho de malfeitores, colocados no planalto paulista, logo após as muralhas da cordilheira do Mar, ali vivendo como salteadores terríveis, escravizando indígenas, de arcabuz e flechas impedindo que alguém transpusesse os sertões incultos. João Ramalho não era mais que o maioral dessa quadrilha.
É possível, é mesmo quase certo, que a população que fervia nas ruas de Santo André não fosse a mais dócil e a mais proba daqueles tempos ásperos.
Não seria possível existir no coração da selva, numa quadra de aventura e de fome de riquezas, uma população de santos. As surpresas da floresta desconhecida, as emboscadas dos índios indomáveis e principalmente o ambiente da época, haviam de tornar os homens afoitos e bravios.
Mas a verdade é que Santo André da Borda do Campo teve uma organização social e uma organização política. Ninguém hoje pode duvidar disso, depois que o sr. Washington Luis fez publicar as velhas atas da municipalidade do remoto arraial de João Ramalho.
Em Santo André não mandava quem queria, nem João Ramalho era o poder autoritário e supremo. Havia uma municipalidade, havia um poder legislativo, havia o que hoje chamamos prefeito e que, naquele tempo, era chamado juiz.
A lei tinha um rigor feroz; os assuntos públicos um tom de seriedade que hoje absolutamente não existe nas mais perfeitas sociedades organizadas.
Em Santo André da Borda do Campo os deveres de um vereador eram coisas rigorosamente sérias. Basta citar este caso hoje surpreendente para nós: os vereadores sofriam multas quando não compareciam às sessões da Câmara.
A moradia em Santo André não era para qualquer pé rapado. Ninguém punha a trouxa às costas e entrava sem mais aquela no arraial, para morar. Devia pedir licença à Câmara e obtê-la. Em 1556, consta de uma ata da vila, Manuel Ribeiro, que já possuía “casa, roças, vaca e mulher” no povoado, requeria aos vereadores que o “assentassem por morador”.
Se se não entrava sem licença, sem licença também não se saía. Havia multas rigorosas para os transgressores. De uma ata de 1555 consta que Francisco Alves requerera permissão para viver algum tempo no campo.
Entre nós, em pleno século XX, o pistolão destrói o rigor das multas impostas pelas municipalidades.
Em muitas localidades do interior os amigos do chefe político não pagam impostos e multas.
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Ilustração de trabalho escravo feito por índios.–
No arraial de João Ramalho o caso era seríssimo. Uma multa imposta era uma multa paga. Não havia empenho capaz de demovê-la. O almotacel João Pires Gago, por desleixo, não mandou limpar os monturos das ruas. Multaram-no em quinhentos réis. O pobre diabo fez tudo para livrar-se da pena. Nada conseguiu. E, como não tinha dinheiro para pagá-la, viu-se obrigado a fugir.
Diante das atas da municipalidade de Santo André da Borda do Campo o que mais espanta não é o rigor das leis: é o vulto, o extorsivo vulto das multas que se impõem ao povo.
É necessário que nos reportemos à época.
No período quinhentista o dinheiro não tinha o mesmo valor de hoje. Basta dizer que a descoberta da América não custou muito mais de sete contos de réis ao governo da Espanha. Um cruzado era uma quantia fabulosa.
Cabral quando fez a viagem às Índias, da qual resultou a descoberta do Brasil, ganhava regiamente. Vencia, pela viagem de ida e volta, a soma incrível de quatro contos de réis. Cada um dos comandantes das naus recebia um conto e duzentos, ida e volta. Os pilotos ganhavam duzentos mil réis pela viagem; os marinheiros quatro mil réis por mês; e os soldados dois mil réis apenas.
Fernão de Magalhães não descobriu para Portugal o estreito que tem o seu último nome, porque el-rei d. Manuel não lhe quis gratificar com seis escudos, cerca de nove mil e seiscentos réis na moeda atual.
Na época em que o povoado de João Ramalho floresceu, o governador geral do Brasil percebia dos cofres públicos o imenso ordenado de trinta e três mil trezentos e trinta e três réis mensais. O bispo não recebia mais que a metade. O oficial do governador geral só recebia quinhentos réis por mês e vivia como um príncipe.
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Ruínas de Santo André da Borda do Campo, aquarela de Miguel Dutra.–
Na própria vila de Santo André os ordenados eram apertadíssimos. O prefeito ganhava oitocentos réis por ano (dois cruzados). O porteiro da Câmara satisfazia-se com quatrocentos réis anuais.
Numa quadra em que os valores eram esses, as multas impostas pelas municipalidades deviam ser relativas aos valores. Não o eram em Santo André.
As penas impostas pela Câmara são as mais díspares. Um tostão, naquela época tomava o vulto de muito dinheiro. Era quanto pagava o vereador que não comparecia a uma sessão da Câmara.
Certamente não existiram no Brasil taxas mais pesadas que as da vila ramalhense. Tem-se a impressão de que a municipalidade, não podendo arcar com os encargos normais por falta de numerário, quer arrancar, seja como for, o pelo do povo.
A vila de João Ramalho, ao fundo da floresta paulista, era pobre. A municipalidade tinha que refletir a pobreza da vila. O patrimônio municipal, em 1556, constava apenas de uma balança, de pau, um peso de ferro de quatro arráteis, dois taipais com seus aparelhos e um machado grande de carpinteiro. Em 1557 era mais rica.
Tinha a mesma balança, os mesmos taipais, e tudo isso agora acrescido com três agulhas e uma medida de três alqueires e o fabuloso saldo de quatrocentos réis em dinheiro.
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Desenho refletindo como seria uma aldeia por volta de 1560.–
Apesar de pobre, a municipalidade andreense fazia empréstimos aos seus munícipes preeminentes. Em 1556 emprestou a João Fernandes – o Gago – a quantia de quatrocentos réis.
Aquele machado de que se fala acima era a caução que João Fernandes deixou, ao receber o grande empréstimo. No mesmo ano emprestou três cruzados a Paulo Proença. No ano seguinte João Pires Gago, conseguia, com a caução de um arcabuz, o empréstimo de mil e duzentos réis.
Parece que esse estado de penúria explica de alguma maneira o exagero das multas impostas em Santo André. Se se não extorquir o povo, os cofres municipais nunca terão dinheiro.
As penas são horríveis. Na vila a criação de vacas e porcos, dia a dia aumenta. Os bichos vivem a estragar as roças da redondeza. A Câmara toma uma medida enérgica contra o abuso, em 1556. Pelo animal que for recolhido ao curral do Conselho pagará o dono cem réis por cabeça. Mais tarde o imposto é diminuído, aos reclamos do povo. A vaca desce a cinqüenta réis e o porco a um vintém.
Os índios das florestas vizinhas fazem, de quando em quando, surpresas desagradáveis à vila, destruindo o que podem. Todo o mundo é obrigado a recolher, à tardinha, o gado às fortificações. O criador desleixado pagará cem réis por animal.
Cem réis é uma das penas menores impostas em Santo André da Borda do Campo, no tempo em que o ordenado maior era o do prefeito (juiz) e não ia além de oitocentos réis anuais.
João Ramalho aponta o caminho de Piratininga a Martim Afonso de Souza, c. 1912
Benedito Calixto ( Brasil, 1853-1927)
Palácio de São Joaquim
Rio de Janeiro
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As taxas são sempre de quinhentos réis para cima. O morador que se retirava da vila, sem licença, pagava quinhentos réis ao voltar. Quando pusesse raízes de mandioca a fermentar nas fontes públicas entrava com dez tostões para os cofres municipais.
Era uma multa horrível. Talvez possa ser explicada pelas razões da saúde pública: a mandioca, antes de fermentada, é um veneno terrível.
Ao fiscal da Câmara, que deixava de cumprir o seu dever, obrigava-se a entregar ao município a soma de quinhentos réis. Foi a pena imposta ao almotacel João Pires Gago, por não ter mandado “ha limpar monturos”, pena que, por pesada, o fez fugir da vila.
Santo André, plantada à porta do campo paulista, na virgindade inculta dos sertões americanos, vivia numa constante ameaça de ataques. A mata, em redor, era a hostilidade dos índios. Não se podia deixar a vila desprevenida. Mas acontecia que os lavradores seguiam todos para as roças, deixando nas casas apenas as crianças e os enfermos. A Câmara tomou medidas contra a negligência. Designou as turmas de lavradores a trabalhar e as turmas que ficariam guardando o povoado. A transgressão custava cento e cinqüenta réis.
As noções de higiene moderna já eram conhecidas no agrupamento humano que João Ramalho fundou.
Hoje, depois de quatro séculos, a trinta minutos do Rio de Janeiro, os médicos da profilaxia rural não conseguiram ainda que a população dos subúrbios compreendesse a necessidade das sentinas. Nem as fossas simples, cavadas no solo, quer o suburbano usar.
Em Santo André da Borda do Campo, em mil quinhentos e tantos, havia o abuso das fossas.
Há uma ata de 1557, em que os edis, reunidos, impõem a multa de dez tostões a quem fizer privadas dentro dos muros da vila.
No Brasil, em defeitos administrativos, não há nada de novo. O atraso dos governos para com o funcionalismo público, que muita gente supõe ser coisa moderna, é velhíssimo.
Já a municipalidade de Santo André vivia em atraso. Conhece-se um requerimento do escrivão Gaspar Nogueira solicitando pagamento dos seus ordenados esquecidos. Devia-lhe a Câmara mil, cento e sessenta réis, dos quais ele já havia recebido oitocentos.
Há quem afirme que o desfalque é, no Brasil, uma criação da República. Tem quatro séculos. Nasceu com os nossos primeiros vagidos.
Em 1555, em Santo André da Borda do Campo, deu-se um desfalque. De uma ata constam sérias medidas tomadas contra o procurador João Fernandes, que teve a clamorosa improbidade de não entrar para os cofres municipais com a soma de cinqüenta réis, de uma multa que cobrou.
Sempre a multa! A municipalidade de Santo André da Borda do Campo foi a mais extorsiva criadora de impostos que houve no Brasil.
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Em: Terras de Santa Cruz: contos e crônicas da História Brasileira, Viriato Corrêa, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira: 1956
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Foto antiga de Itajubá, MG.–
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A revolução paulista desencadeia na cidade um febre política que contamina toda a população. Pela situação estratégica, Itajubá passa a ser o ponto central para onde afluem as tropas que vão combater os revoltosos e também por estar próxima ao túnel, onde se instalam as tropas paulistas para impredir o avanço dos legalistas. Há muitos contingentes aquartelados em toda a cidade. Até o Grupo Escolar, acabado de construir, da noite para o dia, se transformou em praça de guerra. As paredes estão cobertas de mapas contendo a zona em que se encontram os revolucionários. Entramos na sala em que está aquartelado o P.C. da 1ª DI. O general Trompowsky faz as honras de dono da casa ao receber as senhoras dos oficiais que estão no front. Manda servir café e depois chama um soldado que é hábil saxofonista e taca o Tico-tico no fubá. Ouvimos o barulho do motor de um avião e corremos lá fora para ver. Ele distribui manifestos pela cidade, enquanto o povo mineiro entusiasma-se dando vivas aos paulistas. Mamãe nos leva para casa, o tiroteio começa, alguma bala desgarrada pode nos atingir. O avião, cada vez mais alto, sai do campo de ação. Depois desaparece.
Os boatos fervem o dia todo. O ex-presidente Wenceslau Braz quer a adesão de Minas à causa paulista. Os paulistas estão de tal forma empolgados, que venderam todo o ouro que tinham para comprar armas. Em troca receberam um anel de aço onde está escrito: “Dei ouro para o bem de São Paulo”. Nossa casa atrai visitantes, políticos, militares, civis. Muitos, principalmente os políticos, estão empenhados em obter do papai, comandante do 4º B/E, a adesão a São Paulo. Se isso acontecer, naturalmente os outros estados também hão de aderir. A meu pai repugna trair o chefe da nação. A oficialidade se reúne no QG das forças legalistas. Góis Monteiro, Eurico Dutra, Trompowsky, Horta Barbosa. Decidem com meu pai permanecer fiéis ao governo de Getúlio Vargas. O desfecho desagrada ao povo mineiro. Wenceslau Braz se empenha e consegue a transferência do oficial da arma de Engenharia, Miguel Salazar Mendes de Moraes, de Itajubá para o Rio de Janeiro.
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Autora: Ivna Thaumaturgo [ Ivna Thaumaturgo Mendes de Moraes Duvivier]. Nascida em 1915, neta do marechal Gregório Thaumaturgo de Azevedo, primeiro chefe de uma comissão mista Brasil-Bolívia encarregada de demarcar a fronteira entre esses países e neta, por parte de pai, do general Feliciano Mendes de Moraes. A família era toda de militares sendo Ivna filha do futuro marechal Miguel Salazar Mendes de Moraes.
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Em: A família de guizos: história e memória, de Ivna Thaumaturgo, Rio de Janeiro, Ed. Civilização Brasileira, 1997
Menina tricotando, s/d
Julian Alden Weir ( EUA, 1852-1919)
óleo sobre tela
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Cora e Paulina eram duas meninas muito boazinhas que tinham um único defeito: eram preguiçosas.
Posso dizer que começaram uma vez a fazer um trabalho para dar à sua mãe e que só o acabaram ao fim de dois anos.
Muitas vezes D. Leonor dizia:
— Minhas filhas, porque não fazem algum trabalho, em vez de andarem sempre brincando? É tão feio uma menina ser preguiçosa!
— Ora, mamãe! Era a resposta. Estou com tanto calor! Não tenho coragem para ficar parada. Quando vier o inverno hei de trabalhar bastante para recuperar o tempo perdido.
Os meses passaram chegando o inverno; e quando a mãe lhes lembrou a promessa feita responderam:
— Está fazendo tanto frio! Como é que a gente pode trabalhar com as mãos geladas?
E assim o tempo ia correndo.
Um dia, em que estava fazendo muito frio, uma coleguinha chegou à escola com os beicinhos roxos, e tremendo tanto que fazia pena.
— Por que você não pôs um capote? perguntou Cora.
Está gelado, isto há de lhe fazer mal, Paulina acrescentou.
— E porque não pede à sua mãe que lhe compre ao menos um xale?
— Mamãe não o pode comprar. Somos muito pobres.
Cora e Paulina ficaram com muita pena da sua colega pobre. Logo que chegaram em casa, pediram à D. Leonor que comprasse um agasalho para a infeliz pequena.
— Não posso, não tenho dinheiro disponível. Tenho alguns novelos de lã, mas falta-me tempo para fazer o xale, respondeu a mãe.
— Nós o faremos, exclamaram as duas meninas ao mesmo tempo.
— Vocês são tão preguiçosas! Poderiam começá-lo, mas com certeza não chegariam ao fim, ou então levariam dois anos. E, enquanto isso, a pequena morreria de frio.
— Não, a senhora verá como o xale fica pronto depressa.
E tanto insistiram que D. Leonor foi buscar a lã.
As meninas começaram a trabalhar, e com tanto ardor trabalharam, que no fim de alguns dias a menina pobre teve a surpresa de encontrara na sua carteira uma xale bem quentinho.
Quando Cora e Paulina voltaram da escola e descreveram a alegria da coleguinha, D. Leonor falou com grande contentamento:
— Sou feliz, vendo as minhas filhas tão caridosas. Mas como é que vocês, cheias de preguiça, puderam fazer o xale? Pensei que desistiriam.
— Muitas vezes, disse Paulina, tivemos a tentação da preguiça, mas logo nos lembrávamos dos lábios roxos e trêmulos da coleguinha pobre. Isso parece que nos dava novas forças.
— E, ajuntou Cora, no fim já gostávamos de trabalhar. Quero que a senhora me arranje logo um outro trabalho. O tempo parece que passa depressa e a gente é mais feliz.
D. Leonor, muito contente, abraçou as filhas dizendo-lhes:
— Eu sempre lhes falava nisso, e vocês não acreditavam.
Os vadios e preguiçosos é que estão descontentes e acham o tempo demorado. Só os que trabalham é que são completamente felizes.
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Em: Pequenas histórias, Assis Cintra, Rio de Janeiro, Francisco Alves: 1924 — obra pela Diretoria Geral da Instrução Pública de São Paulo e adotada na escola modelo e grupos escolares do estado de São Paulo.
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Francisco de Assis Cintra (Bragança Paulista, 1887 – São Paulo, 1953), jornalista, filólogo e historiador
Batalhão de Pouso Alegre, MGFOTO: Empório de notícias.
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Quem visita este blog já sabe que tenho predileção por ler diários e publicações de pessoas comuns; quero saber como viviam, do seu dia a dia, e se possível, ter a noção de como reagiram a eventos históricos. Acho que qualquer período ganha tridimensionalidade, quando conseguimos ter muitas visões de como as coisas aconteceram; quando usufruimos da interpretação das mais diversas fontes… Foi com essa intenção que em 2008, coloquei aqui as anotações sobre a Revolução de 1932, que meu avô, Gessner Pompílo Pompêo de Barros, fizera quando trabalhava nos Correios e Telégrafos de Itapetininga, SP. Hoje volto ao assunto, mas com as observações do Diário de Vera, um capítulo do livro A família de Guizos: história e memórias de Ivna Thaumaturgo [ Ivna Thaumaturgo Mendes de Moraes Duvivier]. Nascida em 1915, ela é neta do marechal Gregório Thaumaturgo de Azevedo, primeiro chefe de uma comissão mista Brasil-Bolívia encarregada de demarcar a fronteira entre esses países e neta, por parte de pai, do general Feliciano Mendes de Moraes. A família era toda de militares sendo Ivna filha do futuro marechal Miguel Salazar Mendes de Moraes. Como as observações de meu avô aqui postadas anteriormente, essas também não dão qualquer informação de fatos históricos além do que já se conhece, mas dão um “gosto” da época.
Em 1932, Miguel Salazar Mendes de Moraes, estava em Itajubá como comandante do 4º Batalhão do Exército. Assim a família eventualmente se muda para essa pequena cidade mineira de grande importância geográfica. A descrição abaixo acontece nessa cidade.
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9 de Julho de 1932
Estive hoje na praça com Moraes e presenciamos um pequeno meeting ocasionado pelo falatório que partia de um café. Aproximando-me, pude notar a voz aguda de um locutor que avisava ao Brasil inteiro que São Paulo fizera uma revolução. O tenente Valença e sua mulher Amália estavam em frente, num banco da praça, e ouviram atentos, enquanto ele tomava notas de tudo que ouviam. No entusiasmo que se apossou dela, dizia: “Vai, Valença, vai, se você morrer fica um herói. “
À noite esteve em nossa casa dona Luiza Lebon, nora do Dr. Wenceslau Braz, com o marido, dr. Mário Braz. Trouxeram um convite para irmos à sua fazenda em Campos do Jordão. Papai, que não é muito dado a passeios resolvidos por outros, não prometeu aceitar, não mostrou mesmo nenhuma vontade de aderir ao tal convite, apesar dos nossos pedidos para que fosse. Por fim, para que não o amolássemos mais, disse que não iria e nem nos deixaria ir.
Não falamos mais no assunto e fomos dormir.
De madrugada veio um soldado trazendo para papai um telegrama. Imediatamente ele saiu, depois de ter se fardado apressadamente.
De manhã, soubemos, pela mamãe, que ele fora chamado no quartel porquanto rompera uma revolta em São Paulo, sendo necessária a presença do comandante e oficiais no quartel, para as mais urgentes providências.
Tomamos café sem papai, que não virá em casa enquanto não se normalizar a situação. O mesmo está acontecendo com os outros oficiais, cujas esposas vêm todas para nossa casa à procura de conforto, pois somos calmas e otimistas. Desde já vemos os governistas vencendo os paulistas, apesar de dizerem que estes são valentes e estão armados até os dentes.
Hoje vi um oficial amigo do papai que disse que seguirá breve para São Paulo para combater as forças do general Klinger, que avançam. Apareceu também aqui pela manhã a Luiza Lebon, que se mostrou muito penalizada por não poder levar avante o passeio e entrou logo no assunto da revolução. Vimos logo que era uma “revolta”, assim como o seu sogro e todo o povo mineiro. Encheu-nos de boatos e afirmou que os paulistas avançavam, dispostos a tomar os quartéis de Minas. Mamãe ficou aflita e tocou o telefone oficial para o papai, que se limitou a dizer para não acreditarmos em boatos, pois ia tudo muito bem. Luiza Lebon, vendo que nada arranjava, começou a diminuir suas visitas, até que desapareceu. Ela queria ver se conseguia “sublevar” o batalhão. E o tal convite feito às pressas? Não seria para afastar o papai daqui e colocá-lo na boca do lobo?
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FOTO: ESTAÇÕES FERROVIÁRIAS
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No terceiro dia da revolta, começaram a chegar tropas do Rio e de Juiz de Fora. Os trens passavam repletos de soldados muito bem equipados que, apesar de irem para o front, mostravam grande indiferença e sangue-frio dizendo adeus todos risonhos. Dirigiam-se para o B/E, onde ficarão alojados até seguir viagem para as linhas de frente. O 28º B.C. desembarcou aqui pela manhã e o 4º R.C.D. à tarde, ficando alojados no Grupo Escolar recentemente acabado de construir. Os mineiros estão furiosos… Inventam horrores dos soldados governistas, dizendo que roubam nas horas vagas. O mais engraçado é que o dr. Wenceslau não cumprimenta a família Mendes de Moraes. Os boatos continuam cada vez mais ferozes. Vovó, lá do Rio, anda aflita, pois, conforme nos mandou dizer, ouviu o rádio anunciar a prisão do major Mendes de Moraes em São Paulo, quando saía de um café… Fala-se no embarque do B/E para Itapira, a fim de construir pontes rapidamente, pois os paulistas estão bombardeando tudo para impedir a passagem dos governistas. Diariamente chegam tropas de todas as partes do Brasil. Até do Norte chegaram duas companhias do Batalhão de Caçadores. Vemos sempre o trem chegando, pois a estrada passa bem atrás da nossa casa. Agora estamos ficando mais tristes porque a viagem para Itapira está senda marcada para muito breve.
Papai já chegou a Itapira e de lá escreveu duas cartas cheias de novidades. Recebemos também um retrato ótimo tirado pelo tenente Braga, onde ele aparece no novo QG.
Sempre que se apresenta um portador, mandamos os melhores petiscos feitos em casa. Os tijolinhos de milho da mamãe vão em primeiro lugar. Da mesma forma, sabemos, quando os oficiais vêm de lá gozando um período de férias, das novidades do front. Há dias tivemos a visita do Arquimedes, filho do subcomandante Masson Jacques, que contou haver tomado parte num feroz combate. Disse que os paulistas jogaram um canhão dos governistas pela ribanceira abaixo e mais tarde, quando foi iniciado o tiroteio, eles gritavam do morro onde estavam entrincheirados.
— Vem pra cá, seus tolos! Lutem por São Paulo!
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20 de julho de 1932
Este mês tem sido bastante difícil para mamãe, que anda assustadíssima porque papai partiu para Campinas com o fim de reconstruir uma linda ponte bombardeada pelos revoltosos paulistas e causou a morte de seis soldados, entre os quais um do batalhão que tinha sido promovido a cabo por merecimento.
Papai mandou por um mensageiro apetrechos dos soldados prisioneiros durante um combate em Mogi-Mirim. Capacetes de aço novinhos, cinturões, cantis etc. e uma caixa de papelão que continha um pão de forma, uma lata de carne em conserva e um papel escrito em letras vermelhas: Refeição de emergência para a trincheira.
Papai brevemente estará de volta, graças a Deus. Romualdo e Morato passaram por aqui, trouxeram boas notícias. Os dois estavam barbados, gozadíssimos!
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Em: A família de guizos: história e memória, de Ivna Thaumaturgo, Rio de Janeiro, Ed. Civilazação Brasileira, 1997.
O violeiro, 1899
José Ferraz de Almeida Júnior (Brasil, 1850- 1899)
óleo sobre tela — 141 x 172 cm
Pinacoteca do Estado de São Paulo
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Já era tempo de José Ferraz deAlmeida Júnior ser honrado com uma exposição de seu trabalho na sua cidade natal. Um dos grandes expoentes da arte brasileira do final do século XIX, finalmente vai ser conhecido e se possível reconhecido por seus conterrâneos. O pintor que como muitos de sua época, estudou fora do Brasil, teve a coragem de voltar ao país e procurar, encontrar e desenvolver um vocabulário imagístico próprio, totalmente brasileiro. Suas obras captam uma realidade regional que foi pouco explorada por seus companheiros de profissão na época e que além do valor artístico que demonstram, esses quadros têm o valor de documentos de época, documentos de valores.
Com o tema “Homem e Natureza”, 20 das principais obras do pintor que integram o acervo da Pinacoteca do Estado de São Paulo completam a exposição. “Caipira Picando Fumo“, de 1893, um dos destaques do acervo. A mostra faz parte das comemorações dos 160 anos do nascimento do pintor, além de comemorar os 400 anos da fundação de Itu.
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Paisagem do Sítio Rio das Pedras, 1899
José Ferraz de Almeida Júnior (Brasil, 1850-1899)
óleo sobre tela — 57 x 35 cm
Pinacoteca do Estado de São Paulo
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A curadoria de Ana Paula Nascimento ressalta nessa exposição os quadros que representam a temática de Almeida Júnior, mostrando a preocupação do pintor de valorizar o caipira e sua cultura: “Caipiras Negaceando” (1888), “Cozinha Caipira” (1895) e “O Violeiro” (1899)[ foto acima], demonstram esse cuidado do pintor. Almeida Júnior foi um pintor que viveu exclusivamente de sua arte, assim sendo, grande parte do acervo do pintor é dedicada aos retratos de pessoas ilustres, que fazia por encomenda. [Por exemplo, neste blog, Retrato de D. Joana Cunha] Mas Almeida Júnior também se dedicou ao retrato da natureza à sua volta, pintando com cuidado locais favoritos de seus passeios pelos arredores de Itu: “Cascata do Votorantim” (1843) e “Paisagem do Sítio Rio das Pedras” (1899) [foto acima] são dois exemplos de seu paisagismo nessa exposição.
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SERVIÇO:
Exposição:
Regimento Deodoro — Antigo Colégio São Luiz
Data: 9 de maio de 2010 a 20 de junho de 2010
Praça Duque de Caxias, 284, Centro
Telefones: (11) 4022-2967 ou (11) 4022-1184
Entrada Franca.
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A Cidade dos Livros, 1983
François Schuiten (Bélgica, 1956)
Artista de história em quadrinhos
Esta ilustração de: As Cidades Obscuras.
Enxurrada
Miguel Reale
Batendo e espumejando na calçada,
Celeremente desce em remoinho
Ladeira abaixo a túrbida enxurrada.
Negra, arrastando os ramos encontrados,
Cada vez mais se engrossa encapelada
Arremessando aos bueiros com violência
Folhas e areia. Sobre tal esteira
Cruza e prossegue em grande desalinho.
Assim os fortes levam na carreira
Os fracos, folhas mortas da existência
Que os preservam dos bueiros do caminho.
Miguel Reale (São Bento do Sapucaí, 6 de novembro de 1910 — São Paulo, 14 de abril de 2006) foi um filósofo, jurista, educador e poeta brasileiro.
São muitas as suas obras publicadas. Vamos nos limitar a mencionar aqui suas obras literárias de poesia e prosa.
Obras:
Poemas do Amor e do Tempo (1965)
Poemas da Noite (1980)
Figuras da Inteligência Brasileira (1984)
Tempo Brasileiro (1997)
Sonetos da Verdade (1984)
Vida Oculta (1990)
Face Oculta de Euclides da Cunha (1993)
Das Letras à Filosofia (1998)
Domingos Jorge Velho, o bandeirante (DETALHE)
Benedito Calixto (Brasil 1853 — 1927)
METAMORFOSE
Cassiano Ricardo
Meu avô foi buscar prata
mas a prata virou índio.
Meu avô foi buscar índio
mas o índio virou ouro.
Meu avô foi buscar ouro
mas o ouro virou terra.
Meu avô foi buscar terra
e a terra virou fronteira.
Meu avô, ainda intrigado,
foi modelar a fronteira:
E o Brasil tomou a forma de harpa.
Em: Martim Cererê, Cassino Ricardo, José Olympio:1974, Rio de Janeiro, 13ª edição.
Cassiano Ricardo Leite (São José dos Campos, 26 de julho de 1895 — Rio de Janeiro, 14 de janeiro de 1974) foi um jornalista, poeta e ensaísta brasileiro.
Obras:
Dentro da noite (1915)
A flauta de Pã (1917)
Jardim das Hespérides (1920)
A mentirosa de olhos verdes (1924)
Vamos caçar papagaios (1926)
Borrões de verde e amarelo (1927)
Martim Cererê (1928 )
Deixa estar, jacaré (1931)
Canções da minha ternura (1930)
Marcha para Oeste (1940)
O sangue das horas (1943)
Um dia depois do outro (1947)
Poemas murais (1950)
A face perdida (1950)
O arranha-céu de vidro (1956)
João Torto e a fábula (1956)
Poesias completas (1957)
Montanha russa (1960)
A difícil manhã (1960)
Jeremias sem-chorar (1964)
Os sobreviventes (1971)
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Benedito Calixto de Jesus (Itanhaém, 14 de outubro de 1853 — São Paulo, 31 de maio de 1927) foi um pintor, desenhista, professor e historiador brasileiro.