Alexey Shalaev (Rússia, 1966)
óleo sobre tela, 50 x 40 cm
Cartão Postal.
Vinícius de Moraes
Leão! Leão! Leão!
Rugindo como um trovão
Deu um pulo, e era uma vez
Um cabritinho montês
Leão! Leão! Leão!
És o rei da criação!
Leão! Leão! Leão!
És o rei da criação!
.
Tua goela é uma fornalha
Teu salto, uma labareda
Tua garra, uma navalha
Cortando a presa na queda
.
Leão longe, leão perto
Nas areias do deserto
Leão alto, sobranceiro
Junto do despenhadeiro
Leão! Leão! Leão!
És o rei da criação!
.
Leão na caça diurna
Saindo a correr da furna
Leão! Leão! Leão!
Foi Deus quem te fez ou não?
Leão! Leão! Leão!
És o rei da criação!
.
O salto do tigre é rápido
Como o raio, mas não há
Tigre no mundo que escapa
Do salto que o leão dá
Não conheço quem defronte
O feroz rinoceronte
Pois bem, se ele vê o leão
Foge como um furacão
Leão! Leão! Leão!
És o rei da criação!
Leão! Leão! Leão!
Foi Deus quem te fez ou não?
.
Leão se esgueirando à espera
Da passagem de outra fera…
Vem um tigre, como um dardo
Cai-lhe em cima o leopardo
E enquanto brigam, tranqüilo
O leão fica olhando aquilo
Quando se cansam, o Leão
Mata um com cada mão
Leão! Leão! Leão!
És o rei da criação!
Leão! Leão! Leão!
Foi Deus quem te fez ou não?
.
Em: A arca de Noé:poemas infantis, Vinícius de Moraes, Companhia das Letrinhas, São Paulo:1991
Ilustração de Nicoletta Ceccoli.
Henriqueta Lisboa
Papagaio verde
deu um grito agudo.
Rocha numa raiva
brusca, respondeu.
Ganhou a floresta
um grande escarcéu.
Papagaios mil
o grito gritaram
rocha repetiu.
De um e de outro lado
metralhando o espaço
os gritos choveram
e choveram, de aço.
Gritos agudíssimos!
Mas ninguém morreu.
Em: Nova Lírica, Henriqueta Lisboa, Belo Horizonte, Imprensa Oficial: 1971, p. 38
[Também conhecida como:
Por que nascer escrava?, baseado na inscrição na base]
Jean-Baptiste Carpeaux (França, 1827-1875)
Gesso com patina, 35 x 23 x 18 cm
Base em pedra vermelha.
Inscrição incisa na base em francês: “Pourquoi nâitre esclave”
Brooklyn Museum, Nova York
Esta escultura é parte de uma série de quatro bustos, este representando a África, dentro dos quatro continentes encomendados para o Chafariz do Observatório nos Jardins de Luxemburgo em Paris. Uma versão em mármore foi apresentada no Salão de 1869 e comprada por Napoleão III.
Quentin Massys (Bélgica, 1466-1530)
Óleo sobre madeira, 69 x 53 cm
Städelsches Kunstinstitut, Frankfurt
Jorge Sousa Braga
As árvores como os livros têm folhas
e margens lisas ou recortadas,
e capas (isto é copas) e capítulos
de flores e letras de oiro nas lombadas.
E são histórias de reis, histórias de fadas,
as mais fantásticas aventuras,
que se podem ler nas suas páginas,
no pecíolo, no limbo, nas nervuras.
As florestas são imensas bibliotecas,
e até há florestas especializadas,
com faias, bétulas e um letreiro
a dizer: «Floresta das zonas temperadas».
É evidente que não podes plantar
no teu quarto, plátanos ou azinheiras.
Para começar a construir uma biblioteca,
basta um vaso de sardinheiras.
Em: Herbário, Jorge Sousa Braga, Lisboa, Assírio & Alvim: 1999
Vaso para tulipas [Tulipeiro],1694
Adriaen Kocks ( Holanda, ? – 1701)
Faiança de Delft, 147 cm altura
Coleção da Coroa Britânica
São nove partes hexagonais separadas, com compartimentos separados para água. Cada uma delas possui seis cabeças de animais com as bocas abertas, formando uma floreira por onde uma tulipa ou qualquer outra flor seria enfiada. Entre o pedestal e a coluna de vasos seis vacas sustentam a coluna. Dois lados da base têm o retrato de William III. Esses vasos eram usados para decorar as lareiras nos meses da primavera e do verão quando o fogo não estava aceso.
Carolus Duran (França, 1837-1917)
óleo sobre tela
Museu de Belas Artes, Lille
Martins Fontes
Nunca roubei um beijo. O beijo dá-se,
ou permuta-se, mas naturalmente.
Em seu sabor seria diferente
se, em vez de ser trocado, se furtasse.
Todo beijo de amor, longo ou fugace,
deve ser um prazer que a ambos contente.
Quando, encantado, o coração consente,
beija-se a boca, não se beija a face.
Não toquemos na flor maravilhosa,
seja qual for a sedução do ensejo,
vendo-a ofertar-se, fácil e formosa.
Como os árabes, loucos de desejo,
amemos a roseira, olhando a rosa,
roubemos a mulher e não o beijo.
(A Flauta Encantada)
Em: Nossos Clássicos: Martins Fontes,poesia, Rio de Janeiro, Agir: 1959, p. 53
Chico Bento tem um pensamento desagradável, ilustração de Maurício de Sousa.
[de uma história contada por meus avós]
Walter Nieble de Freitas
“Nhô” Vicente, certo dia,
Montando o lindo alazão,
Foi fazer uma visita
Ao compadre Sebastião.
Cavalgou horas e horas,
Chegou ao entardecer:
Sua barriga roncava
De vontade de comer!
Ao vê-lo abrir a porteira,
“Nhô” Sebastião diz contente:
— Até que um dia compadre,
Você se lembrou da gente!
Apeie, vamos chegar.
Não repare na palhoça.
Como é que vai a comadre?
Vá entrando que a casa é nossa!
Tenho muito o que contar,
Sente-se aí no banquinho.
Você sabe que morreu
A mulher do Vadozinho?…
Também, a sogra do Zeca,
A jararaca mordeu:
A velha não sentiu nada
E a pobre cobra morreu!…
Sem perceber que a visita,
De fome quase morria,
“Nhô” Sebastião, na conversa,
Longas horas consumia…
“Nhô” Vicente paciencioso,
Tudo ouvia sem falar;
Porém, a sua barriga
Não parava de roncar!
Notando que seu amigo
Parecia nada ouvir,
Sentiu, o dono da casa,
Que o melhor era dormir.
Nesta altura, perguntou-lhe
Numa rural cortesia:
— O compadre lava os pés?
Vou mandar vir a bacia.
Respondeu-lhe “Nhô” Vicente,
— Isso não! de modo algum!
Acho muito perigoso
Lavar os pés em jejum.
Em: Barquinhos de papel, poesias infantis de Walter Nieble de Freitas, São Paulo, Editora Difusora Cultural: 1961, pp: 75-78.