MINHA TERRA, poesia para 3a série, Semana da Pátria

5 09 2008

 

Índio brasileiro.

Índio brasileiro.

 

MINHA TERRA

 

 

D. Aquino Correia

 

 

Minha terra é Pindorama

de palmares sempre em flor:

quem os viu e não os ama,

não tem alma nem amor.

 

Santa Cruz é minha terra,

terra santa cá do sul:

seu pendão a cruz encerra,

tem a cruz no céu azul.

 

Deus num último batismo

meu país Brasil chamou;

se me abrasa o patriotismo,

brasileiro então eu sou.

 

Eis os nomes que assinalam

minha terra sempre em flor:

são três nomes que me falam

de beleza, fé e amor.

 

Pindorama!  és meu encanto!

Santa Cruz!  és minha fé!

O’ Brasil!  Eu te amo tanto,

que por ti morrera até.

 

 

VOCABULÁRIO:

 

Pindorama – terra das palmeiras, nome dado ao Brasil pelos índios.

 

♦♦♦♦♦♦

 

 

D. Francisco Aquino Correia ( Cuiabá, MT 1885 – São Paulo – 1956)  arcebispo de Cuiabá.

 

 

Do livro:

 

Vamos estudar?: 3a série primária, Theobaldo Miranda Santos, Rio de Janeiro,  Agir: 1961. 12a edição. [Edição especial para os Estados de Goiás e Mato Grosso].

 

 





Romance Dos Dois Pedros, poema de Murillo Araújo para a Semana da Pátria

5 09 2008

D. Pedro I, o Defensor Perpétuo do Brasil, 1830, por Simplicio Rodrigues de Sá, Museu Imperial de Petrópolis

D. Pedro I, o Defensor Perpétuo do Brasil, 1830, por Simplício Rodrigues de Sá, Museu Imperial de Petrópolis

 

ROMANCE DOS DOIS PEDROS

 

Murillo Araújo

 

 

 

Dois Pedros singulares

teve a Pátria na sua construção.

Dois Pedros – duas pedras angulares

serviram de pilares

à Nação.

 

 

Intensamente

dois príncipes de sangue

amaram nossa Pátria adolescente.

 

 

Um deles – oh o rei moço e enamorado! –

um deles no delírio arrebatado

de uma paixão primeira!

O segundo – nesse êxtase sagrado

que  costuma durar a vida inteira.

 

 

E um com brilho da espada, outro com a pena

— ah! cada qual honrou

a terra linda, esplêndida e morena

que desposou.

 

 

Um Pedro, desafiando a força e a guerra

quis ser o seu Perpétuo Defensor.

Outro Pedro votou à nossa terra

um mundo de solícito fervor.

 

 

Pedro I lhe alcançou, lutando,

a túnica marcial da liberdade.

E a Nação, mal desperta, lhe sorriu.

 

Pedro II

deu-lhe um manto de glória venerando –

a nobre integridade

que, ante os olhos do mundo,

a revestiu.

 

 

Um foi, nas armas, bravo e extraordinário;

outro foi magnânimo e foi justo.

 

 

Um foi dominador e temerário;

outro foi sábio, generoso, augusto.

 

 

E de tal sorte.

amando a terra moça e bela,

um viveu prestes a morrer por ela,

outro – viveu por ela até a morte.

 

 

Encontrado em:

 

O candelabro eterno: aos moços – este álbum dos avós que criaram o Brasil, publicado pela primeira vez em 1955, parte da  Poemas Completos de Murillo Araújo, 3 volumes, Rio de Janeiro, Irmãos Pongetti:1960

 

 

D. Pedro II, o Magnânimo, 1864, por Vitor Meireles (Brasil, 1832-1903), OST, Museu de Arte de São Paulo

D. Pedro II, o Magnânimo, 1864, por Vítor Meireles (Brasil, 1832-1903), OST, Museu de Arte de São Paulo





DIA DE FESTA… Mais um poema de Murillo Araújo na semana da pátria

4 09 2008
Dragões da Independência, Foto de Cláudio Reis

Dragões da Independência, Foto de Cláudio Reis

 

DIA DE FESTA…

 

Murillo Araújo

 

Olho o céu mais contente.

 

 

Por que tantas bandeiras

batem alegremente,

como grandes pavões, as asas verde e ouro,

inquietas e ligeiras?

 

 

Por que passam soldados

e nas armas têm flores?

 

Por que estrondam dobrados

com clarins e tambores?

 

 

 

Por que todos na escola, reunidos, cantamos,

todos nós, mais de mil?!

 

 

 

É o Brasil que faz anos…

 

 

É o Brasil que faz anos:

Viva o Brasil!

 

 

 

Murillo Araújo – (MG 1894 – RJ 1980) jornalista, formado em direito.  Poeta.

 

Retirado de: A Estrela Azul: poemas para crianças, 1940 em Poemas Completos de Murillo Araújo

 





Murillo Araújo: Dois Tesouros na Pátria — para a semana da pátria

3 09 2008

 

A Pátria, 1905, Pedro Bruno, (RJ  1888-1949), óleo sobre tela, Museu Histórico do Rio de Janeiro.

A Pátria, 1905, Pedro Bruno, (RJ 1888-1949), óleo sobre tela, Museu Histórico do Rio de Janeiro.

 

DOIS TESOUROS NA PÁTRIA

 

 

Murillo Araújo

 

 

 

O mestre disse: “Adora a tua terra!

É um prodígio glorioso e sem segundo.

 

Quanto ouro verde em cada verde serra,

quanto ouro de astros neste céu profundo

entre montanhas grandes como o mundo!

 

Adora nossa pátria e nossa história.

Pensa nos que iam à chuvarada e aos sóis

lutar, morrer com a glória da vitória…

e adora nossa pátria em seus heróis!”

 

Mas – terra de meu sonho e meus desejos –

eu te amo mais – oh meu país, perdoa –

porque, em ti, minha mãe me enche de beijos

e em ti meu  pai me abraça e me abençoa!

 

E eles são meus heróis de auréola de ouro,

a cuja luz o coração inundo;

e eles são para mim maior tesouro

do que as montanhas grandes como o mundo…

 

 

 

Murillo Araújo – (MG 1894 – RJ 1980) jornalista, formado em direito.  Poeta.

 

Retirado de: A Estrela Azul: poemas para crianças, 1940 em Poemas Completos de Murillo Araújo [ 3 volumes], Rio de Janeiro, 1960, Irmãos Pongetti.





EUA: economia fraca, bibliotecas públicas em alta.

2 09 2008

 

Hoje o Jornal O GLOBO, publicou na sua coluna Negócios e Cia, editado por Flávia Oliveira,

Biblioteca Municipal, Ilustração Walt Disney.

Biblioteca Municipal, Ilustração Walt Disney.

que as bibliotecas nos EUA estão com grande movimento desde que a economia do país

começou a enfraquecer.   Na verdade, desde o início de 2008 que o uso de bibliotecas públicas nos EUA tem aumentado sistematicamente.  Em Massachusetts, não são só as bibliotecas apresentam maior movimentação.  Há também um maior número de pessoas freqüentando museus.  Programas para crianças em museus e bibliotecas tem tido participação contínua e o uso da internet — que nas bibliotecas públicas americanas é gratuito e de acesso rápido, sendo cada pessoa limitada de 30 minutos a 60 minutos, dependendo do local – está batendo recordes.   

 

 

 

De acordo com Terry Date, jornalista do Eagle Tribune  que entrevistou Eleanor Strang,  diretora da Kelley Library da cidade de Salem, uma cidade com 42.000 pessoas, disse que um dos primeiros sinais de que a economia está fazendo as pessoas cortarem gastos em geral é visto no maior movimento nas bibliotecas públicas.   Até mesmo quem está à procura de trabalho vai à biblioteca para procurar pela internet e colocar seu currículo nas mãos de possíveis empregadores.  Isto porque em geral, desemprego significa corte no serviço rápido da internet.  Assim todos procuram fazer uso do mesmo serviço nas bibliotecas públicas.    Na Kelley Library em Salem, há nove computadores permanentemente ligados com acesso rápido.  O número de usuários subiu mais de 10% no ano.  De 6.341 para 7.041 usuários.  Ou seja, quase 15% da população urbana.

 

O empréstimo de livros e de CDs aumentou 11% em 2007 de 9.618 para 10.642.  Enquanto que o empréstimo de livros através de outras bibliotecas [inter-library loan] subiu mais de 24%.   Crianças visitando a biblioteca para ouvirem contadores de histórias aumentou em 15% e os passes para museus aumentaram em 2% em 2007.

Com o aumento de usuários,  as bibliotecas municipais nos EUA já movimentam seus pedidos aos diretores para aumento também nos gastos com acervo e computadores.   Em Derry, New Hampshire, população: 22.500 pessoas, já houve um aumentou significativo na sua freqüência na bibliboteca municipal e seu Diretor Assistente, Jack Robillard,  providenciou pedido ao comitê municipal da diretoria que aumentassem a capacidade de computadores, para ajudar a quem procura por emprego.  

A história de aumento do uso das bibliotecas públicas americanas atravessa cidades grandes e pequenas e tem aumentado o numero de empregos para bibliotecários, através do país.   A biblioteca pública de Mobile, Alabama, ao sul dos EUA, está agora com uma circulação de 1.800.000 (isso mesmo um milhão e oitocentos mil ) livros, deixando para trás seus tradicionais, 1.200.000 livros emprestados ao ano.  

Na Califórnia, a biblioteca Central de Pasadena, (população 150.000) que em geral tem uma visita mensal de 55.000 pessoas,  só este ano já registrou mais de 60.000 consultas por mês.

 

NOTA

Aqui fica o exemplo e o desafio aos nossos governos municipais.  Principalmente agora, há meses das eleições.  Qual é o plano que o seu vereador, que o seu prefeito, que o seu governador tem para a leitura e o uso das bibliotecas públicas.  Não vote em quem não faz. 





Símbolo, um poema de Brant Horta, na semana da pátria

1 09 2008

Forte de Copacabana, Rio de Janeiro

Símbolo

 

Brant Horta

 

 

Bandeira de minha terra,

 

Pano sagrado e gentil,

 

Em cujas dobras se encerra

 

O coração do Brasil;

 

 

 

Emblema que nos recorda

 

As mais gratas tradições,

 

Vibrando na mesma corda

 

Milhares de corações;

 

 

 

Pano verde – alma esperança

 

Na senda do progredir;

 

Ouro e azul – mar de bonança,

 

De opulência no porvir;

 

 

 

Ouro e verde – escrínio d’alma

 

Altiva desta nação,

 

Quer oscilante na calma

 

Tranqüila da viração;

 

 

 

Quer no choque árduo e tremendo

 

Das batalhas imortais,

 

Quer nas águas, destemendo

 

A fúria dos temporais,

 

 

 

Que sem desfalecimentos

 

Tu, Bandeira verde e azul,

 

Desfraldada aos quatro ventos

 

Domines de norte a sul.

 

 

Na semana da pátria, um poema para crianças, jovens e adultos.

 

Francisco Eugênio Brant Horta ( Juiz de Fora, MG 1876 – Rio de Janeiro, RJ 1959) —  Poeta, tradutor, trovador, teatrólogo, jornalista, professor, músico, membro fundador da Academia Mineira de Letras.

Pseudônimos:

1) Brant Horta 

2) Bisneto Fonce

 

Obras:

 

As duas Teles, Teatro 1934  

Harpa Eólia, Poesia 1912  

Lirae Carmen, Poesia 1905  

Via Lucis, Poesia 1937  

 





Dorme ruazinha… Poema de Mário Quintana para crianças

28 08 2008
Ruazinha à noite, ilustração de Elisabeth Teixeira

Ruazinha à noite, ilustração de Elisabeth Teixeira

 

DORME RUAZINHA… É TUDO ESCURO!…

 

Mário Quintana

 

 

Dorme ruazinha…  É tudo escuro…

E os meus passos, quem é que pode ouvi-los?

Dorme teu sono sossegado e puro,

Com teus lampiões, com teus jardins tranqüilos…

 

Dorme…  Não há ladrões, eu te asseguro…

Nem guardas para acaso perseguí-los…

Na noite alta, como sobre um muro,

As estrelinhas cantam como grilos…

 

O vento está dormindo na calçada,

O vento enovelou-se como um cão…

Dorme, ruazinha…  Não há nada…

 

Só os meus passos…  Mas tão leves são,

Que até parecem, pela madrugada,

Os da minha futura assombração…

 

 

 

Do livro:  Antologia poética para a infância e a juventude, Ed. Henriqueta Lisboa,  Rio de Janeiro, INL:1961.

 

 

 

Mário de Miranda Quintana – (RS 1906 – RS 1994) poeta, tradutor e jornalista.

 

Obras:

 

– A Rua dos Cata-ventos (1940)

– Canções (1946)

– Sapato Florido (1948)

– O Batalhão de Letras (1948)

– O Aprendiz de Feiticeiro (1950)

– Espelho Mágico (1951)

– Inéditos e Esparsos (1953)

– Poesias (1962)

– Antologia Poética (1966)

– Pé de Pilão (1968) – literatura infanto-juvenil

– Caderno H (1973)

– Apontamentos de História Sobrenatural (1976)

– Quintanares (1976) – edição especial para a MPM Propaganda.

– A Vaca e o Hipogrifo (1977)

– Prosa e Verso (1978)

– Na Volta da Esquina (1979)

– Esconderijos do Tempo (1980)

– Nova Antologia Poética (1981)

– Mario Quintana (1982)

– Lili Inventa o Mundo (1983)

– Os melhores poemas de Mario Quintana (1983)

– Nariz de Vidro (1984)

– O Sapato Amarelo (1984) – literatura infanto-juvenil

– Primavera cruza o rio (1985)

– Oitenta anos de poesia (1986)

– Baú de espantos ((1986)

– Da Preguiça como Método de Trabalho (1987)

– Preparativos de Viagem (1987)

– Porta Giratória (1988)

– A Cor do Invisível (1989)

– Antologia poética de Mario Quintana (1989)

– Velório sem Defunto (1990)

– A Rua dos Cata-ventos (1992) – reedição para os 50 anos da 1a. publicação.

– Sapato Furado (1994)

– Mario Quintana – Poesia completa (2005)

 

 

Ilustração acima de Elizabeth Teixeira como indicado na fotografia, do livro Atrás da Porta, de Ruth Rocha, ed.Salamandra.

 





O Quatrilho de Pozenato, uma volta pelo passado

28 08 2008
José Clemente Pozenato

José Clemente Pozenato

Só recentemente tive a oportunidade de ler o livro de José Clemente Pozenato, O Quatrilho, Porto Alegre, Mercado Aberto: 1985, romance que em 1994 foi transformado no filme  do mesmo nome de Fabio Barreto; indicado ao Oscar  em 1995, na categoria de melhor filme estrangeiro.  Gostei imensamente da narrativa e também da trama nesta ficção histórica sobre os imigrantes italianos.  O romance cobre com distinção a imigração de italianos, oriundos em sua maioria da região de Veneto e estabelecendo-se no Rio Grande do Sul.  Esta renovada imigração no início do século XX foi  resultado de um acordo feito entre os governos brasileiro e italiano.  Na história, que é baseada em fatos verdadeiros,  dois casais de imigrantes italianos, amigos e sócios, resolvem dividir uma grande moradia enquanto trabalham muito duro para prosperar.  Aos poucos o marido de um e a mulher do outro se apaixonam e fogem, deixando os filhos para trás.  O casal que permanece na casa por sua vez, passados alguns meses solidifica como marital um relacionamento que já existia como sociedade de negócios e assumem um casamento que originalmente nenhum dos dois havia contemplado.  Esta história, com este enredo, é claro pertence única e exclusivamente aos casais retratados.  Mas o tema da imigração e, sobretudo da imigração italiana, apesar de ter sido abordado diversas vezes na televisão brasileira, ainda é pouco assimilado pela cultura brasileira.  O assunto não tem a influência que adquiriu na artes e na cultura de outros países do novo continente, como nos Estados Unidos ou Canadá. 

 

Acredito que parte dessa diferença está enraizada na maneira em que nos EUA o imigrante e seus

Capa da primeira edição, 1985

Capa da primeira edição, 1985

descendentes é continuamente lembrado de sua identidade como um recém-chegado.  Expressões específicas são usadas para definir, alinhar, explicar sotaques, comportamentos, hábitos e tudo o mais.  Lá, é comum os filhos e os netos de um imigrante se referirem a si próprios como daquela linhagem estrangeira, mesmo tendo nascido em solo americano, de pais nascidos em solo americano.  Assim há os americanos-irlandeses, os americanos-italianos, os americanos-judeus.  Este hábito torna muito mais difícil a inserção de qualquer cidadão na sociedade em geral.  É um hábito que separa as pessoas, que divide cidadãos em pequenos grupos de identidades diversas.  Por outro lado, eles em geral conhecem melhor o passado de seus ancestrais, relembram em maior detalhe e com grande freqüência a saga de seus avós, bisavós,  porque elas compõem suas personalidades.  Elas preenchem os detalhes daquilo que os outros acreditam ser indecifrável.  Tudo e qualquer coisa pode ser justificada sob o rótulo de uma identidade estrangeira.  É uma faca de dois gumes.

 

 

Uma das grandes vantagens que temos no Brasil é esquecermos rapidamente de onde nossos antepassados vieram.  Quando comecei a fazer uma árvore genealógica para a família e fui expandindo os dados lateralmente e para trás, fiquei surpresa de ver que muitos dos meus conterrâneos, familiares e  amigos, não tinham a menor idéia de onde seus antepassados tinham vindo.  É verdade que moro no estado do Rio de Janeiro, um dos primeiros locais de colonização do país e também um dos locais de maior miscigenação.  Como a  habitação do território brasileiro começou mais cedo do que a população imigrando para os EUA, pelo menos de cem anos, é natural que muitos não saibam nada além de vagas lembranças da história de seus antepassados.  Fiéis à tradição latina, [e esta tradição remonta ao Império Romano] somos, no todo, mais abertos a chamar de brasileiros todos aqueles que fazem da nossa terra, sua casa.  Acreditamos que todos que estão aqui são como a gente.  Casamos com estes imigrantes, casamos com seus filhos, sem lhes perguntar a raça, a religião, a nacionalidade de origem de seus antepassados.  Aqui somos todos iguais.  Não nos subdividimos em pequenos grupos.  Afinal, falamos a mesma língua e estamos cansados de saber, que nossa pátria é nossa língua.  Em compensação ignoramos muito da nossa história, não damos valor aos sacrifícios que nossos antepassados fizeram para nos dar uma chance de viver melhor do que eles tinham se ainda estivessem nos seus países de origem.  O resultado é que ignoramos aquelas culturas de onde nossos avós e bisavós vieram.

 

Cartaz do filme de Fabio Barreto baseado no romance.

Cartaz do filme de Fabio Barreto baseado no romance.

Assim é sempre com curiosidade e alegria que encaro um romance brasileiro com este tema.  E o livro de Pozenato não só é fiel à natureza dos imigrantes, às suas vidas, como também narra com clareza e humor a aventura desafia o ajuste de estrangeiros a um novo país.  A adaptação deles à nova realidade, a um novo clima, a um novo terreno é tratada com extrema sensibilidade e profunda delicadeza. 

 

Entre os seus melhores e mais sensíveis retratos de uma geração inteira de colonos, da vida dura e sofrida que tiveram, está o retrato que ele faz, logo no início de O Quatrilho, das mudanças que vê nas mulheres jovens, que se casam e se entregam a uma vida difícil na esperança de um futuro melhor.  As reflexões do padre que nos apresenta ao Rio Grande do Sul, à sua paisagem, aos costumes da época, logo no início da narrativa, estabelecem o tom, a delicadeza e a verdadeira luta que ele vê estes imigrantes travarem.  Abaixo coloco dois parágrafos destas conjecturas para dar um gosto do que se desenrola no texto.  Recomendo com grande entusiasmo a leitura deste livro. 

 

Mais do que fome ou irritação, o que o tocava agora, enquanto a mula trotava firme, era uma vaga tristeza.  E sabia muito bem a razão.  Em quase trinta anos de padre, dez deles na Itália e o restante na América, onde com certeza deixaria os ossos, teria celebrado mais de mil casamentos.  E depois de cada um deles lhe vinha essa tristeza.  Não era inveja, ao contrário.  O caminho que Deus escolhera para chamá-lo à vida sacerdotal tinha sido, talvez, o medo de enfrentar a mesma miséria e as humilhações do pai, camponês nas terras de um senhor de Bolzano.  Entendia muito bem a pobre gente que juntara seus miseráveis pertences e atravessara o mar, numa casca de madeira, para tentar a aventura na América.  Era para cá que seu pai teria vindo, se não tivesse morrido ainda jovem.  Para cá tinha vindo ele, trazido por impulso, que podia ser talvez virtude ou, mais provavelmente, uma simples compulsão humana, destituída de merecimento.

 

Não, a tristeza que lhe vinha não tinha nada a ver com inveja.  O que lhe causava mal-estar era o brilho de esperança que via nos olhos dos noivos.  Uma esperança que ele sabia destinada a durar muito pouco tempo.  Tinha pena principalmente das noivas, atraentes, risonhas como uma rosa desabrochada de manhã, que ele voltaria a ver daí a alguns anos, envelhecidas, feias, com o sofrimento e a resignação escondidos no fundo dos olhos tristes, revelados com lágrimas no confessionário.  Por isso é que lhe fazia mal celebrar um casamento.

 

Página 16-17

 

O QUATRILHO, José Clemente Pozenato, Mercado Aberto: 1986, Porto Alegre.





O cavalinho branco, poema infantil de Eloí E. Bocheco

27 08 2008

 

CAVALINHO BRANCO

 

 

Eloí E. Bocheco

 

O cavalinho branco

come estrelas e

raios de luar.

De noite,

o relincho do cavalinho

brilha tanto

que dá pra enxergar:

os piolhos da cobra,

a cicatriz no pé

da centopéia,

a unha encravada

do tamanduá,

o pesadelo da coruja

e até os ninhos

dos sabiás nas árvores.

Ontem o cavalinho

deu um relincho

tão iluminado

que clareou

a outra ponta do mundo.                                      

 

Do livro: Ô de casa, Griphus, 2000

 

Eloí Elisabete Bocheco, Campos Novos, SC — professora, formada em Letras pela Universidade de Passo Fundo – RS.  

Obras:

 

Uni… duni…téia… (1998 )

Ô de casa (2000)

O abraço mágico (2002)





Contos de Fadas, poema de Affonso Louzada

26 08 2008

 

 

 

CONTOS DE FADAS

 

Affonso Louzada

 

Quantas histórias lindas me contavas,

avozinha querida!  antigamente.

Nesses contos de fadas me embalavas,

com tua doce voz de água-corrente.

 

–“ Era uma vez…”  Contavas, recontavas

histórias que eu ouvia atentamente

e às vezes, por acaso me falavas

de bruxas que enfeitiçam toda gente.

 

Nunca mais me esqueci daqueles contos

e à fantasia imensa das histórias

dando, quem sabe?  Todos os descontos –

 

avozinha querida! penso a esmo

que as fadas eram coisas ilusórias

e que as bruxas, porém, existem mesmo.

 

 

Do livro:

 

SONETOS, Affonso Louzada, Rio de Janeiro, 1956, 2ª edição-aumentada.

 

 

Affonso Montenegro Louzada – (RJ – 1904 — ?), poeta, ensaísta, crítico, jornalista, teatrólogo, advogado, membro da Sociedade Homens de Letras do Brasil.  Hoje seu nome pode ser encontrado como: Afonso Lousada.

 

Obras:

 

Peço a palavra, (1934),  — fábulas me versos.

La Fontaine (1937) ensaios sobre fábulas.

Melo Matos, o apóstolo da infância, (1938)

O cinema e a literatura na educação da criança (1939)

O problema da criança (1940)

Delinqüência infantil (1941)

A ação do Juízo de Menores (1944

Tempo abandonado ( 1945) – versos

Notas sobre a assistência a menores (1945)

Noturnos (1947) – versos

Literatura infantil (1950)

Histórias dos bichos (1954) – fábulas em versos.