Vozes dos animais, poema de Pedro Diniz

13 07 2008
Animais da fazenda, ilustração de Steve Morrison

Animais da fazenda, ilustração de Steve Morrison

 

 

VOZES DOS ANIMAIS

 

Muge a vaca; berra o touro;

Grasna a rã; ruge o leão;

O gato mia; uiva o lobo;

Também uiva e ladra o cão.

 

Relincha o nobre cavalo;

Os elefantes dão urros;

A tímida ovelha bala;

Zurrar é próprio dos burros.

 

Sabem as aves ligeiras

O canto seu variar:

Fazem às vezes gorjeios

Às vezes põem-se a chilrar.

 

Bramam os tigres, as onças;

Pia, pia o pintinho;

Cucurica e canta o galo;

Late e gane o cachorrinho.

 

A vitelinha dá berros;

O cordeirinho, balidos;

O macaquinho dá guinchos;

A criancinha vagidos.

 

 

Pedro Diniz

 

 

 

Criança brasileira, Theobaldo Miranda Santos, Agir: 1950, Rio de Janeiro





João e Maria, poesia infantil de Martins D’Alvarez

12 07 2008

 

JOÃO E MARIA

 

João e Maria,

todos os dias.

saíam cedo

pelos caminhos.

Maria em busca

de borboletas,

João à procura

de passarinhos.

Porém um dia

João e Maria

atrás dos bichos

tanto correram,

que não souberam

voltar pra casa;

viram, chorando,

que se perderam.

E os dois, rezando

pediram a Deus

que os conduzisse

para seus pais,

que eles juravam

com borboletas

e passarinhos

não mexer mais.

E Deus, ouvindo-os,

mandou que um anjo

a casa os guiasse

pelos caminhos.

E os dois meninos

não mais mexeram

com as borboletas

e os passarinhos.

 

 

Martins D’Alvarez  ( 1904 – ?)

 

Poema no livro: Leituras Infantis, Theobaldo Miranda Santos, Agir: 1962, Rio de Janeiro

  

 

Martins D’Alvarez                                                         

 

 

Nasceu na cidade de Barbalha, Estado do Ceara, em 14 de setembro de 1904.

Filho de Antonio Martins de Jesus a de Antonia Leite da Cruz Martins. Fez

os estudos primarios na sua cidade natal, os secundários, no Liceu do Ceara.

Formou-se em Odontologia.. Transferiu desde o ano de 1938 a sua residência

para o Rio de Janeiro, onde exerceu, além de atividades na imprensa, atividades

no magistério superior.

Livros publicados:

“A Ronda das horas verdes”, 1930 (versos).

“Quarta-feira de cinzas”, 1932 (novela).

Menção honrosa da Academia Brasileira de Letras.

“Vitral”, 1934 (Poemas).

“0 Norte Canta”, 1941 (poesia popular).

“No Mundo da Lua”, 1942 (poesia para crianças).
 
 Outros poemas de Martins d’Alvarez neste blog:

 

 

 

 

 





A pesca das estrelas — Wilson W. Rodrigues

11 07 2008

Céu estrelado, 2007, Douglas Soares ( MG, Brasil)

Céu estrelado, 2007, Douglas Soares ( MG, Brasil)

 

Hoje, arrumando uma prateleira de livros que quase não uso, deparei-me com um volume comprado num sebo, de Wilson W. Rodrigues, poeta brasileiro, sobre quem sei muito pouco.  Não tenho nenhuma de suas poesias, mas além de poeta, Wilson W. Rodrigues foi um folclorista, arrecadando histórias e compilando-as.  Aproveito para repassar aqui um trechinho mínimo encontrado pela manhã.

 

 

 

 

 

 

 

 

A PESCA DAS ESTRELAS

 

            Pai João menino foi à pescaria.  E estava alegre porque os negros diziam que iam pescar estrelas na lagoa onde morrera o Quiçambé.

            Quando chegaram, as águas do lago estavam cheinhas de estrelas.  Tomaram as canoas e jogaram as redes.

            — A pesca vai ser boa.

            O moleque só queria uma estrela ou uma estrelinha.

            Quando puxaram a rede, ela veio cheia, mas todas as estrelas se transformaram em peixes.

 

 

Pai João menino, de Wilson W. Rodrigues, Editora Publicitan (Coleção Mãe Maria, vol.2): s/d, Rio de Janeiro, página 97.  [texto datado, Distrito Federal, 1949]

 

 

Wilson Woodrow Rodrigues, nasceu em 1916 em Salvador, BA.  Foi poeta, folclorista e jornalista.

Obras:

 

A caveirinha do preá,  Arca ed.: s/d, Rio de Janeiro

Desnovelando, Arca ed., s/d, Rio de Janeiro

O galo da campina, Arca ed,: s/d, Rio de Janeiro

O pintainho, Arca ed.: s/d, Rio de Janeiro

Por que a onça ficou pintada, Arca ed:s/d, Rio de Janeiro

A rãzinha, Arca ed:s/d, Rio de Janeiro

Três potes, Arca ed:s/d, Rio de Janeiro

O bicho-folha, Arca ed:s/d, Rio de Janeiro

A carapuça vermelha, Arca ed:s/d, Rio de Janeiro

Bahia flor, 1948 (poesias)

Folclore Coreográfico do Brasil, 1953

Contos, s/d

Contos do Rei-sol, s/d

Contos dos caminhos, s/d

Pai João, 1952

 

 





João Bolinha virou gente: Apresentação – Vicente Guimarães

8 07 2008

 

 

João Bolina não quer estudar  -- Ilustração de Rodolfo

João Bolinha não quer estudar -- Ilustração de Rodolfo

APRESENTAÇÃO

 

Sabem quem eu sou?  João Bolinha,

Boneco desengonçado;

Com quem brincar eu não tinha.

Pois vivia desprezado.

 

Entre a turma tagarela

Era um boneco prudente;

Um dia, que coisa bela!

Com a luz do sol, virei gente.

 

De boneco de bolinha

Passei a ser um menino,

Mudou-se toda, todinha

A rota do meu destino.

 

Terei lucrado ou perdido?

Não posso lhe responder:

Depois de o livro ter lido,

Tudo você vai saber.

 

Que lhe sirva de lição

Esta simples vida minha;

Eis o que, de coração,

Lhe deseja o João Bolinha.

 

 

João Bolinha virou gente, Vicente Guimarães (Vovô Felício), Editora Minerva: s/d,  Rio de Janeiro, página 5.

 

 

 

 

 

 

 

Ilustração:  Rodolfo, Rio de Janeiro

 

Vicente de Paulo Guimarães ( MG 1906-1981) Poeta, contista, biógrafo, jornalista, autor de Literatura Infanto-Juvenil (1979), funcionário público, educador, membro da Academia Brasileira de Literatura (1980), prêmio Monteiro Lobato -ABL (1977).

 

 





O Grande Caramanchão da Casa de Rui Barbosa

2 07 2008

 

 

Casa de Rui Barbosa, Jardim, vista com caramanchão e banco

 

Os jardins da Casa de Rui Barbosa na rua São Clemente em Botafogo estão na minha longa lista de lugares favoritos para flanar no Rio de Janeiro.   A casa por si só já é espetacular o suficiente,  mas visito com muito mais freqüência seus jardins,  uma tentadora ilha de  tranqüilidade dentro do populoso bairro de Botafogo.   O jardim é tentador  em seus diversos recantos, laguinhos, falsas ilhas e sobretudo pelo fabuloso caramanchão feito com estrutura de metal, coberto por parreiras que dá um aconchego ao lugar irresistível.  Ele por si só é a razão de minhas freqüentes visitas, principalmente depois que a estação Metro-Botafogo pode deixar o visitante a menos de 300 metros do local.  São  9.000 metros quadrados de um jardim calmo e muito bem cuidado.   A maior parte do jardim está nos fundos da casa.  

 

 

Caramanchão da Casa de Rui Barbosa

 

 

A casa foi construída em 1850 para o Barão da Lagoa.  No estilo neo-clássico tem todas as suas portas e janelas com portais em granito e na frente há quatro esculturas representando os quatro continentes da época.  Tem quatro andares.  Rui Barbosa, que a comprou em 1895 das mãos de um inglês John Roscoe Allen,  morou ali por 28 anos.  Antes  de John Roscoe Allen  a casa teria pertencido ao Comendador Albino D’Oliveira Guimarães.  

 

 

Jardim, vista geral, Casa de Rui Barbosa

 

 

É impressionante como se pode desfrutar de um recanto com tanta paz, cujos únicos sons são os cantos dos pássaros e o rufar de asas dos pombos, quando se está tão próximo de uma rua muito movimentada. A natureza é uma excelente barreira de som.

 

 

Vista com Quiosque, casa de Rui Barbosa

 

 

Este jardim tem uma variedade muito grande de vegetação tropical, palmeiras e árvores frutíferas que deixam a imaginação do visitante voltar aos meados do século XIX com facilidade.  É fácil percorrer as alamedas deste espaço, sentar num banco de jardim e abrir um livro de Alencar, de Machado ou Taunay e imaginar nossos heróis e heroínas populando o espaço com roupas de época, nos saraus das noites cariocas.

Jardim da Casa de Rui Barbosa com 1 dos laguinhos





Passarinhos — um poema de Zalina Rolim

1 07 2008

paisagem

 

A um passarinho que andava

Cantando pelo jardim,

Foi perguntar Elisinha

  Quem é que te cuida assim?

 

Onde achas doce alimento,

Coisas nutritivas, sãs?

— Tenho bichinhos gostosos

Figos, laranjas, romãs.

 

— E quando estás fatigado,

Onde é que vais descansar?

— Qual de nós não tem seu ninho?

Nosso ninho é o nosso lar.

 

— E sede não sentes nunca?

— Tenho rio e ribeirão,

E gotinhas de sereno,

Que as folhas verdes me dão.

 

— E no inverno não te falta

Agasalho contra o frio?

— Tenho penas que me cobrem,

Tenho agasalho macio.

 

— E quando não há bichinhos,

Grãos e frutinhas não há?

— Há uma boa criancinha

Que pão e alpiste me dá.

 

 

Passarinhos, de Zalina Rolim  (Brasil, 1869-1961)

 

 

Zalina Rolim

Maria Zalina Rolim Xavier de Toledo nasceu em Botucatu (SP), em 20 de julho de 1869.
Professora alfabetizadora, transferiu-se com a família para São Paulo em 1893.
Educadora, entre 1896 e 1897, exerceu o cargo de vice-inspetora, do Jardim da Infância anexo à Escola Normal Caetano de Campos, em São Paulo.
Escreveu para diversas revistas femininas e jornais como A Mensageira, O Itapetininga, Correio Paulistano e A Província de São Paulo.
Faleceu em São Paulo, em 24 de junho de 1961.

Obras:

1893 – O coração
1897 – Livro das Crianças
1903 – Livro da saudade (organizado nesta data para publicação póstuma)

 

 

 





Alphonse Karr estava certo, nada muda

29 06 2008

Escutem só, Mickey, Walt Disney

 

Ilustração: Mickey, © Disney

 

 

 

 

 

Quanto mais isso muda, mais fica a mesma coisa. [Plus ça change, plus c’est la même chose.]  –  quem já não ouviu esta famosa frase?  Seu autor, Jean-Baptiste Alphonse Karr, (França, 1808-1890), foi escritor, crítico, jornalista e editor do jornal Le Figaro a partir de 1839, conhecido também por seus epigramas usados em diversas línguas até hoje.  A razão de Alphonse Karr não ser esquecido é que suas observações,  expressas de maneira tão clara e freqüentemente mordaz são de grande valia até o presente.  Se não, vejamos porque me lembrei esta tarde desta famosa frase com que abri o parágrafo?  

 

Estava dando uma arrumada nos meus livros.  Esta é sempre uma maneira perfeita de voltar a tocar em certos assuntos de importância para mim.  E encontrei um livrinho delicioso, primeiramente publicado no Rio de Janeiro em 1855, A carteira do meu tio.  Seu autor, Joaquim Manuel de Macedo (Brasil, 1820-1882),  ficou famoso por um dos mais charmosos romances brasileiros, seu primeiro a ser publicado, A Moreninha, (1844), onde Carolina, personagem principal se destaca entre as adolescentes por sua impagável língua ferina.   

 

Na verdade, Joaquim Manuel de Macedo foi um cronista fenomenal dos hábitos e costumes da corte carioca e da vida urbana na capital.  Seus romances sempre aparentam grande leveza para o leitor incauto que vira suas páginas sem perceber a irônica e muitas vezes mordaz apreciação dos costumes da época.  Vejamos a passagem que tenho marcada na introdução deste romance:

 

A pátria é uma enorme e excelente garopa: os ministros de estado a quem ela está confiada, e que sabem tudo muito, mas principalmente gramática e conta de repartir, dividem toda nação em um grupo, séqüito e multidão: o grupo é formado por eles mesmos e por seus compadres, e se chama – nós -; o séqüito, um pouco mais numeroso, se compõe dos seus afilhados, e se chama – vós -; e a multidão, que compreende uma coisa chamada oposição e o resto do povo, se denomina – eles -; ora aqui vai a teoria do eu: os ministros repartem a garopa em algumas postas grandes, e muitas mais pequenas, e dizem eloqüentemente: “as postas grandes são para nós, as mais pequenas são para vós” e finalmente jogam ao meio da rua as espinhas, que são para eles.  O resultado é que todo o povo anda sempre engasgado com a pátria, enquanto o grupo e o séqüito passam às mil maravilhas à custa dela!

 

 

Assim lembrei-me de Alphonse Karr.  Afinal de contas uma coisa leva a outra.

 

 

 

(Texto em: A carteira do meu tio, Joaquim Manuel de Macedo,  Porto Alegre: LP&M, 2001.)





Brasil e África no horizonte de Hilton Marques

26 06 2008

Comprei este livro sem saber coisa alguma a respeito do autor. Não sei o que me interessou, o que me fez pegá-lo e ler a capa de trás para ter uma idéia do que se tratava.  Curiosa, comprei este pequeno volume e tomei a decisão certa,  porque agora posso me gabar de ter descoberto um novo escritor brasileiro, capaz de escrever uma boa história, em boa prosa, num ritmo rápido,  sobre um local misterioso e um novo tipo de heroína.

 

A senhora das savanas se passa no continente africano, num país imaginário fronteiriço à Angola e ao Zaire.  Seguimos a carreira de uma médica brasileira, que depois de se formar pela Universidade de São Paulo, entra para a organização mundial Médicos sem Fronteiras e vai trabalhar na África.  Passado algum tempo, ela decide ficar na África.  Quando a história do livro começa ela está dirigindo um pequeno hospital,  financiado por uma companhia de extração de minério, no que se poderia chamar de interior, de fim do mundo.

 

A história se desenvolve durante a guerra civil em Angola, depois de sua independência de Portugal.  Dois grupos lutam pelo poder: UNITA e MPLA.  Há mercenários estrangeiros em todo canto e eles lutam por cada lado.  Entre eles está um irlandês que havia passado muitos anos lutando pelo movimento IRA, que havia se desgostado e abandonado o movimento separatista irlandês, e como lutar era o que sabia fazer, acabou lutando na África.   Enquanto lutava pela UNITA e comandava um pelotão, sofreu um ataque surpresa fora do território de Angola, apesar de ser um excelente atirador e líder militar.  Eles haviam parado  para um descanso e todos os membros do pelotão tombaram.  Ele também havia sido dado por morto.  Mas foi descoberto, por casualidade, próximo da morte.  Nossa médica brasileira o salva sem saber quem ele é.

 

Ele permanece no hospital para sua recuperação e fica por lá por algum tempo. No processo une-se à nossa médica numa luta contra os novos donos da companhia mineradora, que pretendiam fechar o hospital.

 

Este é o tipo de romance que existe às centenas em outras culturas.  A Inglaterra, os Estados Unidos, a França são só três dos países que tem esta tradição rara no Brasil: um herói, neste caso uma heroína, viaja, vai embora, e faz uma diferença tremenda na vida local de um lugar longe de sua terra nativa.  Ela também é capaz de contribuir para o melhoramento de relações internacionais.

 

Este livro poderia servir de base para um roteiro de A Senhora das Savanas, Hilton Marquesfilme americano.  Melhor ainda, poderia se transformar numa mini-série da BBC, se a nossa heroína fosse inglesa.  A grande diferença é que este é um livro brasileiro.  Este é um detalhe de grande importância para mim.  Ela é mulher, brasileira e responsável por salvar muitas vidas.  Como eu gostaria de ter tido algumas dezenas de livros como este para ler quando estava me tornando adulta!   Na minha época, na minha geração, só heroínas de outras terras tinham suas vidas contadas ou filmadas.  Nós brasileiros sempre conhecemos melhor os heróis de outros lugares.  Havia muito poucos heróis, homens ou mulheres, que pudessem inspirar qualquer um de nós, adolescentes.

 

Este livro, então, tem tudo para que eu goste dele.  É um livro de aventura.  É um ótimo entretenimento, com uma narrativa forte,  num ritmo rápido.  É gostoso de ler.  É leve.   Não está preocupado em considerar as últimas novidades literárias, as últimas tendências pós-modernas, de-construtivistas, ou a última moda intelectual.  Este é um livro para a família toda ler, pessoas de todas as gerações.  Seria uma ótima fonte para um roteiro de filme.  Ele nos deixa com uma boa visão do que a vida na África naquele período poderia ser e como os grupos lutando pelo poder se envolvem na vida diária da população.  Abre os olhos.  Expande horizontes.  Ajuda a nos definir como as pessoas competentes, profissionais que somos. 

 

Gostei muito e recomendo.  Se você estiver procurando por aquele entretenimento, por aquele livro para levar num fim de semana na serra ou na praia, leve-o.  Você vai gostar!

 





Dia do Imigrante: 25 de junho

26 06 2008

Domingos Eduardo Lopes, cerca 1910

            Domingos Eduardo Lopes, cerca 1915.

Talvez por ter vivido muitos e muitos anos fora do Brasil, as questões relativas aos imigrantes são sempre de grande valor para mim.  Não importa de que terra você venha e para que terra você vá.  Há sempre alguns temas que são perpétuos: uma saudade imensa, um inexplicável vazio preso a um lugar que já não existe.  Um lugar que deixou de existir como o lembramos.  Diferente da morte de um familiar, o exílio, quer seja voluntário ou não, é a morte de um contexto, é a morte de uma identidade.  E, a não ser que o imigrante seja extremamente flexível, raramente voltará a ter um lar.  Não me refiro aqui a uma casa de alvenaria, mas ao sentimento de lar, de conforto íntimo, que é uma chama dentro de nós e que quando vivemos onde nascemos ela consegue se expressar, se refletir no nosso ambiente.  Para um imigrante, ela vive quase apagada, queimando devagarinho no peito.  Um imigrante sempre traz dentro de si um lugar intangível, dolorido, que contém uma essência daquilo que ele é e que jamais demonstra.

 

Sou a favor da imigração.  Acho por exemplo que o Brasil pode e deve receber mais imigrantes do que recebe.  E como vivi muitos anos nos EUA conheço de perto o enriquecimento cultural que os imigrantes trazem consigo.  É fenomenal.

 

Na procura de saber mais do único avô imigrante que tive, nos anos que morei em Portugal, procurei pela aldeia em que ele nasceu:  aldeia de Canavezes, na região de Valpaços.  Ele saiu de lá aos 11 anos, chegando ao Brasil, acompanhado de sua mãe viúva que vinha se encontrar com o único sobrinho, já radicado no Brasil. Chegaram aqui no ano da Proclamação da República, 1889.  Ainda tenho comigo todos os seus documentos.  Seu passaporte.  Nunca mudou de nacionalidade.  Nasceu português e assim morreu em 1946.  A ele vai esta homenagem hoje.  Não o conheci.  Nem ele me conheceu.  Mas tenho profundo orgulho deste menino que saiu de um lugar perdido no mundo, (porque se foi difícil chegar a sua aldeia em 1989, cem anos antes deveria realmente ter sido uma viagem inacreditável a saída de lá para o Brasil).    Eu me orgulho daqueles dois, mãe e filho, que vieram para o Brasil para uma vida melhor.

 

Quando visitei a igreja de Canavezes, eu, que nem posso me considerar uma pessoa religiosa, me ajoelhei e agradeci aos céus que protegeram minha bisavó Júlia e meu avô Domingos, naquela aventura da imigração.  Porque não tivessem eles saído de lá, que futuro seus filhos teriam tido?  Poderiam seus filhos ter-se tornado engenheiros, químicos industriais e físicos como o fizeram?  Não.  Eles não teriam tido esta oportunidade.  Lembro-me de ter-me emocionado muito neste vilarejo em 1989.  Foi um dos poucos lugares em Portugal onde tive contato direto com o analfabetismo adulto.  A procura de talvez algum parente ainda, bati em portas, aqui e ali. Um grupo de pessoas se lembrava de alguém com a combinação de nomes que tínhamos, pergunta lá e acolá, num instante a aldeia toda sabia da nossa existência.  Nisso um casal nos convidou para sua casa e lá, depois de termos chegado à conclusão de que os seus parentes não poderiam ser os nossos, pediram que lêssemos uma carta. Ela chegara há anos, mas há muito tempo não a ouviam de novo.   Foi uma lição.

 

Então fica aqui o meu testemunho, o meu orgulho e agradecimento a esta corajosa bisavó e a seu filho, este avô de Trás-os-montes,  este avô a quem devo os cabelos louro-escuros e talvez a pele clara dos celtas.  Talvez,  porque entre os meus bisavós, aí sim, ainda tenho mais imigrantes. De oito bisavós, seis são desta mesma região: norte de Portugal (Minho e Trás-os-montes) e Galícia.  Mas esta é uma outra história. 

 

Que os imigrantes sejam bem vindos!  Êta gente corajosa!

 





A casa de Dona Rata — poema de Sérgio Capparelli

24 06 2008

Caulus, ilustração poema Dona Rata

 

Na casa de Dona Rata,

tem uma enorme goteira.

Quando chove, ninguém dorme,

acordado, a noite inteira.

A goteira é tão grande

que molha a sala e a cozinha,

quarto, banheiro, despensa

e mais de vinte ratinhas.

Dona Rata contratou

um ratão para o conserto:

— De que adianta eu subir,

se o telhado não tem jeito?

Não tem jeito, seu Ratão

explique então esse caso.

— Sua casa, dona Rata,

não tem telha nem telhado.

 Ilustração de CAULUS. 

Do livro: Boi da Cara Preta, autoria de Sérgio Capparelli, Porto Alegre:LP&M, 1998. 27ª edição.

Caulus, (MG) desenhista humorístico; ingressou na Marinha Mercante, Rio de Janeiro, mas desistiu da carreira militar e resolveu se dedicar ao desenho. Via os filmes e depois desenhava.Tornou-se desenhista exclusivamente urbano. Apresenta cenas de seus desenhos de humor e de cidades.