A viagem à lua de João Peralta e Pé-de-moleque — Menotti del Picchia

4 04 2009

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São Jorge e o Dragão, 1606-1607

Pieter Paul Rubens ( Bélgica, 1567-1640)

Óleo sobre tela

Museu do Prado, Madri

Espanha

 

 

 

 

 

 

Já que andamos falando do espaço, e que também estamos no mês de abril, quando no dia 23 comemoramos o Dia de São Jorge, lembrei-me, deste trecho delicioso do livro Viagens de João Peralta e Pé de Moleque, de Menotti del Picchia:

 

 

Na Casa da Lua

 

A casa da lua era redonda, toda esmaltada de branco.  Seus móveis eram também brancos.  Por dentro era igualzinha a esses quartos de crianças tão alvinhos que até parecem leiteria.

 

— Aqui mora São Jorge, disse o pajem quando instalou lá dentro os dois meninos.  Ele anda sempre percorrendo o céu com seu cavalo branco.

 

— Que pena!  Exclamou Joãozinho.  Eu gostaria tanto de ver São Jorge!

 

O pajem sorriu.

 

— Acho que não seria um bom negócio,  porque São Jorge só aparece por aqui quando o dragão tenta comer a luz.

 

— Quê?  O dragão?  Que negócio de dragão é esse?

 

— Os dois meninos estavam tremendo de medo.  Então eles eram hospedados numa casa que costumava ser atacada por um dragão?

 

— Eu não fico aqui… choramingou Pé-de-Moleque.

 

Joãozinho ficou zangado diante da tremedeira do companheiro.

 

— Então, onde está sua valentia? Você não tem aí o estilingue?

 

— Estilingue não mata dragão, suspirou o ex-pretinho.  O que eu quero é ir para casa…

 

— Não tenham medo, disse o pajem.  São Jorge não deixa o dragão comer a lua, nem fazer mal a vocês.  Podem ficar descansados.

 

— Mas eu estou com muita fome, choramingou Pé-de-Moleque.

 

O certo é que, desde a hora em que haviam saído de casa para irem assistir à festa da aviação, não haviam comido nada. Quantas horas se haviam passado?  Quantos dias?  Eles não sabiam nem podiam saber, porque no céu não havia nem dias nem noites.

 

O único relógio que tinham para marcar o tempo, e esse infelizmente funcionava muito bem, era o estômago deles. Nessa ocasião bem se podia dizer que o estômago estava dando horas

 

Eu também estou com muita fome, disse Joãozinho.

—-

—  Aqui não há comida para terráqueos, respondeu o pajem com tristeza, porque ele era muito bonzinho.  Nós, os habitantes do Reino do Ar, comemos pastéis de vento, sorvete de geada e bifes de nuvens.  Mas eu sei que isso não pode alimentá-los.  A única esperança que resta é que a Ursa Maior forneça um pouco de leite.  Não creio que a duquesa ventania possa carregar da terra algum alimento até aqui.  Em todo o caso vou ver se o leite chegou…

 

 

 

 

 

 

Paulo Menotti Del Picchia (São Paulo, 1892 — 1988) foi um poeta, escritor e pintor modernista brasileiro. Foi deputado estadual em São Paulo.   Foi também advogado, tabelião, industrial, político entre outras funções assumidas durante sua vida.

 

Com Oswald de Andrade, Mário de Andrade e outros jovens artistas e escritores paulistas, participou da Semana de Arte Moderna de Fevereiro de 1922 no Teatro Municipal de São Paulo. Em 1943, foi eleito para a cadeira 28 da Academia Brasileira de Letras, tendo sido suas principais obras Juca Mulato (1917) e Salomé (1940). Um livro seu de elevada popularidade é Máscaras (1920), pela sua nota lírica.

 

 

Obras:

 

A “Semana” Revolucionária Crítica, teoria e história literárias, 1992  

A Angústia de D. João, Poesia 1922  

A Crise Brasileira: Soluções Nacionais Crítica, teoria e história literárias 1935  

A Crise da Democracia Crítica, teoria e história literárias 1931  

A Filha do Inca, Romance e Novela 1949  

A Longa Viagem Crítica, teoria e história literárias 1970  

A Mulher que Pecou Romance e Novela 1922  

A Mulher que Pecou Romance e Novela 1923  

A Outra Perna do Saci Romance e Novela 1926  

A República 3000, 1930  

A Revolução Paulista Crítica, teoria e história literárias 1932  

A Revolução Paulista Através de um Testemunho do Gabinete do Governador Crítica, teoria e história literárias 1932  

A Tormenta, Romance e Novela 1932  

A Tragédia de Zilda, Romance e Novela 1927  

Angústia de João, Poesia 1925  

As Máscaras, Poesia 1920  

Chuva de Pedra, Poesia 1925  

Curupira e o Carão, Conto 1927  

Dente de Ouro, Romance e Novela 1922  

Dente de Ouro, Romance e Novela 1925  

Flama e Argila, Romance e Novela 1919  

Homenagem aos 90 anos, Outros 1982  

Jesus: Tragédia Sacra Teatro 1933  

Juca Mulato Poesia 1917  

Juca Mulato Poesia 1924  

Kalum, o Mistério do Sertão Romance e Novela 1936  

Kummunká Romance e Novela 1938  

Laís Romance e Novela 1921  

Máscaras Poesia 1924  

Moisés Poesia 1924  

Moisés: Poema Bíblico Poesia 1917  

Nacionalismo e “Semana de Arte Moderna” Discursos e sermões (textos doutrinários e moralizantes) 1962  

Nariz de Cleópatra Crônicas e textos humorísticos 1923  

No país das formigas Literatura Infanto-juvenil   

Novas Aventuras de Pé-de-Moleque e João Peralta Romance e Novela   

O Amor de Dulcinéia Romance e Novela 1931  

O Árbrito Romance e Novela 1959  

O Crime daquela Noite Romance e Novela 1924  

O Curupira e o Carão Crítica, teoria e história literárias   

O Dente de Ouro Romance e Novela 1924  

O Despertar de São Paulo Crítica, teoria e história literárias 1933  

O Deus Sem Rosto Poesia 1968  

O Gedeão do Modernismo Crítica, teoria e história literárias 1983  

O Governo de Júlio Prestes e o Ensino Primário Crítica, teoria e história literárias   

O Homem e a Morte Romance e Novela 1922  

O Homem e a Morte Romance e Novela 1924  

O Momento Literário Brasileiro Crítica, teoria e história literárias   

O Nariz de Cleópatra Romance e Novela 1922  

O Nariz de Cleópatra Conto 1924  

O Nariz de Cleópatra Conto 1924  

O Pão de Moloch Miscelânea 1921  

Pelo Amor do Brasil, Discursos Parlamentares Crítica, teoria e história literárias   

Pelo Divórcio, s/d   

Poemas Poesia 1946  

Poemas do Vício e da Virtude Poesia 1913  

Poemas Sacros: Moisés e Jesus Poesia 1958  

Poesias Poesia 1933  

Poesias (1907-1946) Poesia 1958  

Por Amor do Brasil Discursos e sermões (textos doutrinários e moralizantes) 1927  

Recepção do Dr. Menotti Del Picchia na Academia Brasileira de Letras Discursos e sermões (textos doutrinários e moralizantes) 1944  

República dos Estados Unidos do Brasil Poesia 1928  

Revolução Paulista, 1932  

Salomé Romance e Novela 1940  

Seleta em Prosa e Verso Poesia 1974  

Sob o Signo de Polumnia Crítica, teoria e história literárias 1959  

Soluções Nacionais,  1935  

Suprema Conquista Teatro 1921  

Tesouro de Cavendish: Romance Histórico Brasileiro Crítica, teoria e história literárias 1928  

Toda Nua Romance e Novela   

Viagens de João Peralta e Pé-de- Moleque Literatura Infanto-juvenil

 

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Outra postagem deste livro neste blog:  AQUI





Jangada, poema infantil de Juvenal Galeno

26 03 2009

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Jangada

 

Juvenal Galeno

 

 

Minha jangada de vela,

que vento queres levar?

tu queres vento da terra,

ou queres vento do mar?

 

Minha jangada de vela,

que vento queres levar?

Aqui no meio das ondas,

das verdes ondas do mar

és como que pensativa,

duvidosa a bordejar!

 

Saudades tens lá das praias,

queres na areia encalhar?

ou no meio do oceano

apraz-te as ondas sulca?

Minha jangada de vela,

que vento queres levar?

 

 

Em: Poemas para a infância, Henriqueta Lisboa, Rio de Janeiro, Edições de Ouro, s/d.

 

 

 

———

 

Juvenal Galeno da Costa e Silva ( Fortaleza, CE 1836 –Fortaleza, CE 1931)

Poeta.

 

 

Obras

 

A Machadada, poesia, 1860  

Ao imperador em sua partida para a guerra, poesia, 1872  

Canções da Escola, poesia, 1971  

Cantigas Populares, poesia, 1969  

Cenas cearenses, 1871  

Cenas Populares, poesia, 1971  

Evaristo Ferreira da Veiga, poesia   

Folhetins de Silvanos, poesia, 1891  

Lenda e Canções Populares, poesia, 1865  

Lira Cearense, poesia, 1972  

Medicina caseira, 1897  

Novas canções populares, s/d  

O eleitor, s/d

O Peregrino, 1862  

Porangaba, poesia, 1961  

Prelúdios Poéticos, poesia, 1856  

Quem com Ferro Fere, com Ferro Será Ferido,teatro, 1861

 

 

 

—–

—–

NOTA:  Em 1920 este poema  mais longo, com alguns versos a mais,  foi usado como letra para a música JANGADA de Alberto Nepomuceno.  Segue,

 

 

 

JANGADA

(1920)

 

Composição: Alberto Nepomuceno

Letra: Juvenal Galeno
 

 

Minha jangada de vela

Que vento queres levar?

Tu queres vento de terra

Ou queres vento do mar?

Minha jangada de vela

Que vento queres levar?

Aqui no meio das ondas

Das verdes ondas do mar

És como que pensativa

Duvidosa a bordejar!

 

Minha jangada de vela

Que vento queres levar?

 

Saudade tens lá das praias

Queres n’areia encalhar?

Ou no meio do oceano

Apraz-te as ondas sulcar?

Minha jangada de vela

Que vento queres levar?

Sobre as vagas, como a garça

Gosto de ver-te adejar

Ou qual donzela no prado

Resvalando a meditar

 

Ah! Minha jangada de vela

Que vento queres levar?





O sapato perfumado — poema infantil de Ricardo da Cunha Lima

25 03 2009

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O sapato perfumado

 

                                            Ricardo da Cunha Lima

 

 

 

Era uma vez um sapato

totalmente amalucado.

Seu esquisito costume

era usar um bom perfume.

Ele nunca passeava

sem estar bem asseado;

pra isso, sempre passava

perfume por todo lado,

bastando o seu couro inteiro

com fragrâncias do estrangeiro,

e na sola e no cadarço

espalhava água-de-cheiro.

Que eu me lembre se casou

(e que lindo par formou!)

com a meia do garçom,

a qual tinha, por seu lado,

o costume amalucado

de pintar-se com batom.

 

 

 

Em:  De cabeça para baixo, São Paulo, Cia das Letras: 2000

 

 

 

 

 

 

 

 

Ricardo da Cunha Lima nasceu em São Paulo, em 1966.

 

Obras

 

Lambe o dedo e vira a página, 1985

Em busca do tesouro de Magritte, 1988

De cabeça para baixo, 2000

O livro com um parafuso a menos, 1996

O xis da questão, 1997

Cambalhota, 2003

Do avesso, 2006





Voz dos animais, poema para crianças de Francisca Júlia

24 03 2009

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Voz dos animais

 

                                                        Francisca Júlia

 

 

O peru, em meio à bulha

De outras aves em concerto,

Como faz de leque aberto?

            — Grulha.

 

Como faz o pinto, em dia

De chuva, quando se interna

Debaixo da asa materna?

            — Pia.

 

Enquanto alegre passeia

Girando em torno do ninho,

Como faz o passarinho?

            — Gorjeia.

 

 

E de intervalo em intervalo

Quando a manhã se levanta,

No quintal que faz o galo?

            — Canta.

 

Quando a galinha deseja

Chamar os pintos que aninha,

Como é que faz a galinha?

            — Cacareja.

 

A rã quando a noite baixa,

Que faz ela a toda hora

Dentre os limos em que mora?

            — Coaxa.

 

E quando as narinas incha,

Cheio de gosto e regalo,

Como é que faz o cavalo?

            — Rincha.

 

Que faz o gato, que espia

Uma terrina de sopa

Que fumega sobre a copa?

            — Mia.

 

Com a barriga farta e cheia,

Que faz o burrinho quando

Se está na grama espojando?

            — Orneia.

 

Para o sinal de rebate,

Aviso, alarme ou socorro,

Como é que faz o cachorro?

            — Late.

 

Para que as mágoas embale

Quando tresmalha, sozinha,

Que faz a branca ovelhinha?

            — Bale.

 

Em fugir quando porfia

À garra e aos dentes do gato.

Como faz o pobre rato?

            — Chia.

 

De pé a boca descerra

E alta levanta a cabeça,

Que faz a cabra travessa?

            — Berra.

 

Cheia a boca de babuge

Do milho bom que rumina,

Que faz o boi na campina?

            — Muge.

 

A pomba que grãos debulha.

Como faz, batendo as asas

Sobre o telhado das casas?

            — Arrulha.

 

A voz tremida do grilo

Que vive oculto na grama,

A trilar, como se chama?

            — Trilo.

 

Mas escravos das paixões

Que os fazem bons ou ferozes,

Os homens têm suas vozes

Conforme as ocasiões. 

 

 

 

 

 

 

 

Francisca Júliada Silva Munster (SP 1874 – SP 1920)  Poetisa brasileira, autora de obras didáticas e professora.  

  

Obras:  

 

1895 – Mármores, poesia

1899 – Livro da Infância, miscelânea

1903 – Esfinges, poesia

1908 – A Feitiçaria Sob o Ponto de Vista Científico (discurso)

1912 – Alma Infantil (com Júlio César da Silva)- literatura infantil

1921 – Esfinges – 2º ed. (ampliada)

1961—[póstuma] Poesias

 

PRIMAVERA é uma outra poesia de Francisca Júlia neste blog.





Quadrinha para crianças sobre passarinhos

13 03 2009

passarinho-no-galho1

 

 

 

“ Escuta aqui, passarinho

quero dizer-te um segredo:

Por que escondes o teu ninho

Na folhagem do arvoredo?”

 

Leonor Posada

 

 

NOTA:  Esta quadrinha faz parte do seguinte exercício de REDAÇÃO encontrado no livro:  Passe para prosa, com palavras suas, esta quadrinha:

 

 

 

Em: Terra Bandeirante, Theobaldo Miranda Santos, 2° ano, Rio de Janeiro, Agir: 1954

 

 

 

 

Leonor Posada, (Cantagalo, RJ 1893 – Rio de Janeiro, RJ, 1960) Poeta, teatróloga, professora.

 

 

Obras:

 

Plumas e espinhos,  poesia, 1926

Leituras cívicas, didático, 1943

Guia de redação, didático, 1953

Serenidade, poesia, 1954

Os primeiros passos na redação, 1956

 

 

 

 

 

 

Outras quadrinhas neste blog:

 

 

Ser criança

O dia

Gato e rato

Cuidar dos animais

 





Murucututu — cantiga de ninar — Wilson Woodrow Rodrigues

10 03 2009

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Ilustração de Walt Disney.

 

 

 

 

 

 

O MURUCUTUTU

 

 

                                                   Wilson Woodrow Rodrigues

                                                     

 

 

( Cantiga de ninar )

 

Murucututu,

que está escondidinho

na copa folhuda

do pé de araçá.

 

Murucututu,

o meu irmãozinho

precisa de sono,

onde é  que ele está ?

 

Murucututu,

amigo da lua,

que não teme a noite

que não tem luar.

 

Murucututu,

que sorte é a sua

ir dentro da noite

o sono buscar.

 

Murucututu.

o meu irmãozinho

que não tinha sono

sonhando já está?

 

 

 

 Wilson Woodrow Rodrigues — poeta, folclorista, jornalista, professor e técnico de educação.  Nasceu em 6 de julho de 1916, na cidade de São Salvador, Bahia.  Filho do Cel. Julio Rodrigues de Sousa e de D. Josina Parente Rodrigues, família do Recôncavo Baiano.  Desde menino revelou vocação para a poesia, tendo publicado as suas primeiras composições em periódicos escolares.  Seu primeiro livro publicado teve as bençãos antecipadas do poeta Jorge de Lima.   

 

Obras:

 A caveirinha do preá,  Arca ed.: s/d, Rio de Janeiro

 

Desnovelando, Arca ed., s/d, Rio de Janeiro

O galo da campina, Arca ed,: s/d, Rio de Janeiro

O pintainho, Arca ed.: s/d, Rio de Janeiro

Por que a onça ficou pintada, Arca ed:s/d, Rio de Janeiro

A rãzinha, Arca ed:s/d, Rio de Janeiro

Três potes, Arca ed:s/d, Rio de Janeiro

O bicho-folha, Arca ed:s/d, Rio de Janeiro

A carapuça vermelha, Arca ed:s/d, Rio de Janeiro

Bahia flor, 1948 (poesias)

Folclore Coreográfico do Brasil, 1953

Contos, s/d

Contos do Rei-sol, s/d

Contos dos caminhos, s/d

Pai João, 1952

Sombra de Deus

Pai João, 1952

Lendas do Brasil





Quadrinha para crianças, sobre animais

10 03 2009

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Dizem sempre nossos pais

frases de grande razão:

Maltratar os animais

prova ter mau coração.

 

Leonor Posada

 

 

 

Leonor Posada, (Cantagalo, RJ 1893 – Rio de Janeiro, RJ, 1960) Poeta, teatróloga, professora.

 

Obras:

 

Plumas e espinhos,  poesia, 1926

Leituras cívicas, didático, 1943

Guia de redação, didático, 1953

Serenidade, poesia, 1954

Os primeiros passos na redação, 1956

 

 

Em: Terra Bandeirante: a vida na cidade e na roça no Estado de São Paulo, 2° ano, Theobaldo Miranda Santos, Rio de Janeiro, Agir:1954

 

 

 

Outras quadrinhas neste blog:

 

 

Ser criança

O dia

Gato e rato

Passarinhos





A lagartixa — poema, Da Costa e Silva

22 01 2009

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A Lagartixa

 

                                    Da Costa e Silva

 

 

A um só tempo indolente e inquieta, a lagartixa,

Uma réstia de sol buscando a que se aqueça,

À carícia da luz toda estremece e espicha

O pescoço, empinando a indecisa cabeça.

 

Ei-la aquecendo ao sol; mas de repente a bicha

Desatina a correr, sem que a rumo obedeça,

Rápida num rumor de folha que cochicha

Ao vento, pelo chão, numa floresta espessa.

 

Traça uma reta, e pára; e a cabeça abalando,

Olha aqui, olha ali; corre de novo em frente

E outra vez, pára, a erguer a cabeça, espreitando…

 

Mal um inseto vê, detém-se de repente,

Traiçoeira e sutil, os insetos caçando,

A bater, satisfeita, a papada pendente…

 

Em: Poesias completas, Da Costa e Silva, Nova Fronteira: 1985, Rio de Janeiro

 

 

 

Antonio Francisco da Costa e Silva – (Amarante, Piauí, 1885 – Rio de Janeiro, 1950) Poeta.  Começou a compor versos por volta de 1896, tendo seus primeiros poemas publicados em 1901. Todavia, seu primeiro livro de poesia, Sangue, foi lançado só em 1908, primeira obra da última geração simbolista. .  Formou-se pela Faculdade do Direito do Recife. Foi funcionário do Ministério da Fazenda, tendo ocupado os cargos de Delegado do Tesouro no Maranhão, no Amazonas, no Rio Grande do Sul e em São Paulo. Viveu não só na capitais desses estados, mas também, por mais de uma vez, em Belo Horizonte e no Rio de Janeiro. Jornalista. Exerceu função pública na Presidência da República do Brasil, entre 1931 e 1945, a pedido do então presidente Getúlio Vargas. É o autor da letra do hino do Piauí.  Recolheu-se ao silêncio, demente, pelos últimos 17 anos de vida. Faleceu em 29 de junho de 1950.

 

 

Publicou os seguintes livros de poemas:

 

 

Sangue (1908),

Zodíaco (1917),

Verhaeren (1917),

Pandora (1919)

Verônica (1927)





Ora direis ouvir pipocas — poesia de Francisco Azevedo

14 01 2009

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Ilustração: Maurício de Sousa.

 

ORA  DIREIS  OUVIR  PIPOCAS

 

                                                 Francisco Azevedo

 

 

 

Ouço os grãos que rebentam

feito gente

sementes germinadas

no alumínio

fundo escuro

da panela.

 

Flores brancas

súbitas

de perfume quente

pelo fio sinuoso

da fumaça.

 

Flores doces

salgadas

servidas na hora

(não em buquês

mas em punhados).

 

Flores atômicas

nascidas do fogo

numa explosão

sem haste.

 

                                       (New York, 1982)

 

 

Em: A casa dos arcos, Francisco Azevedo, Paz e Terra: 1984, Rio de Janeiro

 

 

 

Francisco Azevedo, (Rio de Janeiro, RJ , 23/2/1951) —  formado em direito, diplomata, escritor, roteirista, cinematógrafo e poeta.  

 

Obras:

 

Contra os moinhos de vento, (poesia e prosa) 1979

A casa dos arcos, (poesia) 1984

O arroz de palma, (romance) 2008

Unha e carne (teatro)

A casa de Anaïs Nin (teatro)





Meio-dia, poema de Olegário Mariano

11 01 2009

 

 

Edgard Oehlmeyer(1905-1967)Paisagem,1944osm, 35x44cmPaisagem, 1944

Edgard Oehlmeyer (Brasil, 1905-1967)

óleo sobre madeira, 35 x 44 cm

 

 

 
 Meio-dia

 

                    Olegário Mariano

 

 

Meio dia.  A abrasada calmaria

No amplo manto de fogo a mata esconde,

Na fornalha que envolve o meio-dia

O ouro do sol tempera o ouro da fronde.

 

Pesa o silêncio sobre a frondaria…

Desponta o rio não se sabe donde.

Só, com a voz da mata, em agonia,

Uma cigarra zine e outra responde…

 

É o grito humano que da natureza

Sobe ao tranquilo azul da imensidade,

Ungido de amargura e de incerteza…

 

Querem chorar as árvores sem pranto

E as cigarras ao sol clamam piedade

Para suas irmãs que sofrem tanto!

 

 

 

Do livro: Últimas Cigarras, 1920.

 

 

Olegário Mariano Carneiro da Cunha, (PE1889 —  RJ 1958). Poeta, político e diplomata brasileiro.

 

 Obras:

 

 Angelus (1911)

Sonetos (1921)

Evangelho da sombra e do silêncio (1913)

Água corrente, com uma carta prefácio de Olavo Bilac (1917)

Últimas cigarras (1920)

Castelos na areia (1922)

Cidade maravilhosa (1923)

Bataclan, crônicas em verso (1927)

Canto da minha terra (1931)

Destino (1931)

Poemas de amor e de saudade (1932)

Teatro (1932)

Antologia de tradutores (1932)

Poesias escolhidas (1932)

O amor na poesia brasileira (1933)

Vida Caixa de brinquedos, crônicas em verso (1933)

 

O enamorado da vida, com prefácio de Júlio Dantas (1937)

Abolição da escravatura e os homens do norte, conferência (1939)

Em louvor da língua portuguesa (1940)

A vida que já vivi, memórias (1945)

Quando vem baixando o crepúsculo (1945)

Cantigas de encurtar caminho (1949)

Tangará conta histórias, poesia infantil (1953)

Toda uma vida de poesia, 2 vols. (1957)

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