Falando com ancestrais, texto de Muriel Barbery

29 08 2024

Campo de trigo com corvos, 1890

Vincent van Gogh  (Holanda, 1853–1890)

óleo sobre tela, 50 x 103 cm

Museu Van Gogh, Amsterdam

 

 

 

“— Que barulho é esse que você carrega atrás de si? — Qual barulho? — perguntou Haru. O corvo grasnou. — Não sei — respondeu o sacerdote —, mas o ouvimos. Conversaram sobre várias coisas mas logo Haru teve a sensação de ouvir palavras e sons do mundo como se eles se produzissem em outro lugar. Estava sozinho num território desconhecido varrido por um rumor límpido e, logo ao lado, se desenrolava o curso das coisas reais. Ele perdeu o fio da conversa do velho sacerdote, ergueu o nariz para o céu que escurecia — céu de neve, mas não estou sozinho, pensou. Então, riu e, cortando a palavra do homem de fé, disse-lhe: — O barulho, sabe? São meus ancestrais. — Ah! — disse o outro. — Eu bem que sabia! E virando-se para o corvo: — São os ancestrais dele. Depois disso ele traduziu amavelmente a conversa para a língua dos corvos.”

 

Em: Uma hora de fervor, Muriel Barbery, Rio de Janeiro, Companhia das Letras: 2024





Palavras para lembrar: C. S. Lewis

28 08 2024

Moça lendo ao cair da tarde

Meir Pichhadze (Georgia-Israel, 1955-2010)

óleo sobre tela, 90 x 60 cm

 

 

“Um dia você será velho suficiente para começar a ler contos de fadas de novo.”

 

C. S. Lewis (1898-1963)





Sobre escritores e seus cadernos de notas…

17 08 2024

Retrato da Sra. Cecily Constance Hayward escrevendo à mesa, c. 1923

James Bolivar Manson (Inglaterra, 1879 – 1945)

óleo sobre tela, 51 x 61 cm

 

 

 

“Como Oscar Wilde, anteriormente, achei minhas observações no caderno bastante divertidas.  Havia um tanto de surpresa ampliada pela alegria do reconhecimento de si próprio.  Ler aqueles cadernos era encontrar aquela pessoa estranha que havia sido eu, e cujos pensamentos de alguma maneira estavam relacionados mas não eram exatamente os meus. Que estranha pessoa, achei passando as páginas perfumadas.”

 

(Tradução: Ladyce West)

 

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Like Oscar Wilde before me, I found my own notebook entries highly amusing. There was the element of surprise, compounded with the joy of not recognizing oneself. To read those notebooks was to encounter this odd person who had been me, and whose thoughts in ways paralleled but did not entirely match my own. What a curious fellow, I’d think, flipping pages scented.

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Em: Keeping up with the days, Peter Selgin, Writers and their Notebooks, editado por Diane Raab, introdução de Phillip Lopate, e contribuição de Wendy Call, Imprensa da Universidade da Carolina do Sul, 2009, 2ª edição.





Um mundo cheio de mundos, texto de Nancy de Souza

27 06 2024

Jovem lendo com suéter roxa

Rick Beerhorst (EUA, 1960)

óleo sobre tela, 76 x 76 cm

 

 

 

 

“Meu pai era um oficial da Marinha cheio de restrições com respeito à nossa criação, mas a pior delas era o fato de que não podíamos  sair do perímetro de nossa casa. Até para irmos à varanda tínhamos que ter permissão e supervisão. Passeios de escola, nem pensar! Viagens para nós eram, simplesmente, algo impensável.

A saída que encontramos foi a nossa imaginação, com ela íamos a todos os lugares. Uma árvore era uma nave espacial, na qual visitávamos outras galáxias; com um giz desenhávamos circuitos no chão de terra do nosso quintal, que nos levavam a outros mundos; com cadernos e lápis construíamos escolas e, se olhássemos bem dentro de uma bolinha de gude, podíamos ver universos repletos de vias lácteas. Nos dias de chuva, construíamos labirintos com as almofadas ou imaginávamos teatros de terror, que no final nos davam tanto medo, que a brincadeira logo acabava. Nosso mundo era cheio de mundos, um dentro do outro como aquela bonequinha russa. E tínhamos também outra chave mágica: os livros.”

 

 

Em: Aventuras e Desventuras de Benjamin James, Nancy de Souza, Campo Grande, MS, Editorial Eirele: 2019, p.103





Palavras para lembrar: Thomas A. Kempis

23 06 2024

No cabeleireiro,1958

Bela de Kristo (Hungria, 1920-2006)

guache sobre madeira, 70 x 51cm

 

 

“Busquei tranquilidade em todos os lugares, mas só a encontrei sentado sozinho em um canto com um pequeno livro.”

 

Thomas A. Kempis

(1380-1471)





Érico Veríssimo sobre seus personagens

22 06 2024

Sem título, Olinda, 2011

Joãi Câmara (Brasil, 1944)

óleo sobre madeira, 170 x120 cm

 

 

 

“Acho sinceramente que, mesmo quando nos esforçamos para criar uma personagem original que não se pareça com nenhuma outra da vida real ou da literatura, não nos conseguimos livrar das influências principalmente das de nossa vivência. E o perigo dessas influências é tanto maior quando se sabe que no mais das vezes elas não estão no consciente, mas no inconsciente, de onde misteriosamente ditam nossos pensamentos e guiam a mão que escreve. Enquanto isso, nós nos deixamos embriagar pela orgulhosa ideia de que personagens e histórias vão brotando de nosso cérebro, novas como o primeiro homem na manhã da criação, frutos exclusivos de nossa ‘capacidade criadora’, de nosso ‘talento inventivo’.

A verdade, porém, é que ninguém se livra de suas próprias lembranças, nem de velhas idiossincrasias, malquerenças e desejos recalcados. E, quando se trata dum romancista, essas impurezas mais tarde ou mais cedo acabam aparecendo na face ou na alma de suas personagens.”

 

 

Citação encontrada em: Galeria Fosca. Pesq. e Org. Cristina Penz. Rio de Janeiro: Globo, 1987





Palavras para lembrar: Oscar Wilde

17 06 2024

Na janela, 1977

Gennady Myznikov (Rússia, 1933

óleo sobre papelão, 110 x 70 cm

 

 

“Os livros considerados imorais pelo mundo são aqueles que lhe mostram sua própria vergonha.”

 

 

Oscar Wilde





O amor: passagem de Érico Veríssimo em homenagem a Santo Antônio

13 06 2024

Cena galante no parque

Franz Xaver Simm (Áustria, 1853-1918)

óleo sobre painel de madeira,  32 x 24 cm

 

 

 

“Eugênio pensava ainda em Margaret. Aquele amor secreto era a melhor coisa de sua vida. Tinha um gosto de romance, um romance que ele escrevia com a imaginação, com o desejo, já que a vida se recusava a dar-lhe um romance de verdade. No silêncio de certa noite, em que o luar lhe entrava pela janela do quarto, ele pensou em Margaret, estendido na cama, de olhos fechados. Imaginou mais um encontro noturno, debaixo das árvores do jardim. (Nessas conversas ele perdia a timidez, era como se a luz da lua conseguisse limpar-lhe o rosto das espinhas e a alma dos pecados, era como se o luar fizesse até o milagre de lhe dar uma voz agradável, parelha e máscula.) Os dois ficaram a contemplar-se em silêncio. Os cabelos dela pareciam de prata. Os dele, de bronze. Um organista misterioso tocava músicas muito doces na capela. Margaret contou-lhe histórias do tempo em que sua família morava na China, onde seu pai fora missionário. Em troca, ele lhe descreveu sonhos, planos de vida.”

 

 

Em: Olhai os lírios do campo, Érico Veríssimo, Rio de Janeiro, Cia das Letras: 2005, versão eletrônica.





Outono: Elizabeth Coatsworth

10 06 2024

As belezas de Beacon Hill

Mary Ann Laing (Canadá, 1953)

óleo sobre tela, 45 x 45 cm

“A mágica do outono tomou conta do campo; agora que o sol não está amadurecendo nada,  ele brilha pelo prazer do momento dourado; para satisfação do Éden; para agradar a lua, pelo que sei.”

 

Elizabeth Coatsworth

 

Tradução: Ladyce West

 

 

 

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“The magic of autumn has seized the countryside; now that the sun isn’t ripening anything it shines for the sake of the golden age; for the sake of Eden; to please the moon for all I know.”
 
― Elizabeth Coatsworth, Personal Geography: Almost an Autobiography





Minutos de sabedoria: Marguerite Yourcenar

25 04 2024

No café

Monica Castanys (Espanha, 1973)

óleo sobre tela

 

 

 

 

“Quando se gosta da vida, gosta-se do passado, porque ele é o presente tal como sobreviveu na memória humana.”

 

Marguerite Yourcenar

 

 

 

 

Marguerite Yourcenar (1903-1987)