Voltando para casa de ônibus, texto de Oscar Nakasato

16 09 2024
Anúncio dos pneus GoodYear Airfoam, 1944.

 

 

 

“No ônibus, Satoshi tentava esvaziar a mente para buscar o sono. Quando percebeu que não conseguiria dormir, retornou a poltrona para uma posição com menor inclinação, abriu uma fresta da cortina e passou quase todo o trajeto , de pouco mais de nove horas, observando o que era possível na madrugada de quase lua cheia. Com a cabeça reclinada no encosto da poltrona, via a paisagem noturna obliquamente. Os morros distantes eram manchas escuras, e deles se viam apenas os contornos delineados em função do firmamento clareado pela lua. As árvores mais próximas surgiam e desapareciam na velocidade controlada pelo pé do motorista. As imagens imediatas eram mais visíveis, mas a cada instante eram consumidas pelo movimento do ônibus e do tempo, enquanto a paisagem distante, teimava em suas retinas insistindo em ficar.” […]

 

 

Em: Ojiichan, Oscar Nakasato, São Paulo: Fósforo, 2024.





Chuva no Nordeste, texto de Graça Aranha

2 09 2024

 

 

 

“Uma manhã lá no Cajapió (Joca lembrava-se como se fora na véspera), acordara depois duma grande tormenta no fim do verão. A madrugada estava orvalhada, mas serena, e ele se erguera da sua rede para ver o tempo. Um grande tapete de verdura fresca e úmida parecia ter descido do céu e coberto como um manto misterioso o campo… Os olhos perdiam-se na campina alegre; o gado festejava o rebentar da vida na terra e comia a erva tenra; um bando de marrecas passava grasnando, pousava aqui , levantava o voo acolá, buscava mais longe a região dos eternos lagos… Dias inteiros de chuvas; o pasto agora era farto, a água porfiava em vencê-lo, e quando mais tarde o dilúvio se interrompia, viam-se na vasta savana verdes pontos claros que eram o refrigério dos olhos. Eram os primeiros lagos. Em volta deles uma multidão de aves aquáticas brincavam descuidosas  e ostentavam as penas de cores vivas e quentes. Vinham pássaros de toda a parte; pernaltas com o seu bico de colher, marrecas em algazarra, jaçanãs leves e tímidas; e à tarde, quando o céu se vestia de nuvens cinzentas, notava-se desfilar, ora o bando marcial e rubro dos guarás, pra a ala virgínia e branca das garças… No fundo dos lagos multidão de peixes borbulhavam por encanto. E em tudo o mesmo milagre de ressurreição, de rejuvenescimento, de expansão e de vida.”

 

Em: Canaã, Graça Aranha, 1902, em domínio público.

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Esta é uma das mais belas descrições de uma multitude de ações, de dezenas de animais, tudo acontecendo num momento, em um único parágrafo.





Minutos de sabedoria: George Sand

31 08 2024

O que ela lê, 2001

Francine Van Hove (França 1942)

óleo sobre tela

“A satisfação de uma paixão absolutamente pessoal é embriaguez ou prazer: não é felicidade.

A felicidade é algo duradouro e indestrutível; caso contrário, não seria felicidade. Aqueles que gostariam de perpetuar a embriaguez e de incluir nela a felicidade, andam atrás do impossível. O êxtase é um estado excepcional cuja permanência nos mataria, e a natureza inteira depressa se eclipsaria sob a influência desse estado delirante.”

 

George Sand

 

 

George Sand (1804-1876)





Falando com ancestrais, texto de Muriel Barbery

29 08 2024

Campo de trigo com corvos, 1890

Vincent van Gogh  (Holanda, 1853–1890)

óleo sobre tela, 50 x 103 cm

Museu Van Gogh, Amsterdam

 

 

 

“— Que barulho é esse que você carrega atrás de si? — Qual barulho? — perguntou Haru. O corvo grasnou. — Não sei — respondeu o sacerdote —, mas o ouvimos. Conversaram sobre várias coisas mas logo Haru teve a sensação de ouvir palavras e sons do mundo como se eles se produzissem em outro lugar. Estava sozinho num território desconhecido varrido por um rumor límpido e, logo ao lado, se desenrolava o curso das coisas reais. Ele perdeu o fio da conversa do velho sacerdote, ergueu o nariz para o céu que escurecia — céu de neve, mas não estou sozinho, pensou. Então, riu e, cortando a palavra do homem de fé, disse-lhe: — O barulho, sabe? São meus ancestrais. — Ah! — disse o outro. — Eu bem que sabia! E virando-se para o corvo: — São os ancestrais dele. Depois disso ele traduziu amavelmente a conversa para a língua dos corvos.”

 

Em: Uma hora de fervor, Muriel Barbery, Rio de Janeiro, Companhia das Letras: 2024





Palavras para lembrar: C. S. Lewis

28 08 2024

Moça lendo ao cair da tarde

Meir Pichhadze (Georgia-Israel, 1955-2010)

óleo sobre tela, 90 x 60 cm

 

 

“Um dia você será velho suficiente para começar a ler contos de fadas de novo.”

 

C. S. Lewis (1898-1963)





Sobre escritores e seus cadernos de notas…

17 08 2024

Retrato da Sra. Cecily Constance Hayward escrevendo à mesa, c. 1923

James Bolivar Manson (Inglaterra, 1879 – 1945)

óleo sobre tela, 51 x 61 cm

 

 

 

“Como Oscar Wilde, anteriormente, achei minhas observações no caderno bastante divertidas.  Havia um tanto de surpresa ampliada pela alegria do reconhecimento de si próprio.  Ler aqueles cadernos era encontrar aquela pessoa estranha que havia sido eu, e cujos pensamentos de alguma maneira estavam relacionados mas não eram exatamente os meus. Que estranha pessoa, achei passando as páginas perfumadas.”

 

(Tradução: Ladyce West)

 

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Like Oscar Wilde before me, I found my own notebook entries highly amusing. There was the element of surprise, compounded with the joy of not recognizing oneself. To read those notebooks was to encounter this odd person who had been me, and whose thoughts in ways paralleled but did not entirely match my own. What a curious fellow, I’d think, flipping pages scented.

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Em: Keeping up with the days, Peter Selgin, Writers and their Notebooks, editado por Diane Raab, introdução de Phillip Lopate, e contribuição de Wendy Call, Imprensa da Universidade da Carolina do Sul, 2009, 2ª edição.





Um mundo cheio de mundos, texto de Nancy de Souza

27 06 2024

Jovem lendo com suéter roxa

Rick Beerhorst (EUA, 1960)

óleo sobre tela, 76 x 76 cm

 

 

 

 

“Meu pai era um oficial da Marinha cheio de restrições com respeito à nossa criação, mas a pior delas era o fato de que não podíamos  sair do perímetro de nossa casa. Até para irmos à varanda tínhamos que ter permissão e supervisão. Passeios de escola, nem pensar! Viagens para nós eram, simplesmente, algo impensável.

A saída que encontramos foi a nossa imaginação, com ela íamos a todos os lugares. Uma árvore era uma nave espacial, na qual visitávamos outras galáxias; com um giz desenhávamos circuitos no chão de terra do nosso quintal, que nos levavam a outros mundos; com cadernos e lápis construíamos escolas e, se olhássemos bem dentro de uma bolinha de gude, podíamos ver universos repletos de vias lácteas. Nos dias de chuva, construíamos labirintos com as almofadas ou imaginávamos teatros de terror, que no final nos davam tanto medo, que a brincadeira logo acabava. Nosso mundo era cheio de mundos, um dentro do outro como aquela bonequinha russa. E tínhamos também outra chave mágica: os livros.”

 

 

Em: Aventuras e Desventuras de Benjamin James, Nancy de Souza, Campo Grande, MS, Editorial Eirele: 2019, p.103





Palavras para lembrar: Thomas A. Kempis

23 06 2024

No cabeleireiro,1958

Bela de Kristo (Hungria, 1920-2006)

guache sobre madeira, 70 x 51cm

 

 

“Busquei tranquilidade em todos os lugares, mas só a encontrei sentado sozinho em um canto com um pequeno livro.”

 

Thomas A. Kempis

(1380-1471)





Érico Veríssimo sobre seus personagens

22 06 2024

Sem título, Olinda, 2011

Joãi Câmara (Brasil, 1944)

óleo sobre madeira, 170 x120 cm

 

 

 

“Acho sinceramente que, mesmo quando nos esforçamos para criar uma personagem original que não se pareça com nenhuma outra da vida real ou da literatura, não nos conseguimos livrar das influências principalmente das de nossa vivência. E o perigo dessas influências é tanto maior quando se sabe que no mais das vezes elas não estão no consciente, mas no inconsciente, de onde misteriosamente ditam nossos pensamentos e guiam a mão que escreve. Enquanto isso, nós nos deixamos embriagar pela orgulhosa ideia de que personagens e histórias vão brotando de nosso cérebro, novas como o primeiro homem na manhã da criação, frutos exclusivos de nossa ‘capacidade criadora’, de nosso ‘talento inventivo’.

A verdade, porém, é que ninguém se livra de suas próprias lembranças, nem de velhas idiossincrasias, malquerenças e desejos recalcados. E, quando se trata dum romancista, essas impurezas mais tarde ou mais cedo acabam aparecendo na face ou na alma de suas personagens.”

 

 

Citação encontrada em: Galeria Fosca. Pesq. e Org. Cristina Penz. Rio de Janeiro: Globo, 1987





Palavras para lembrar: Oscar Wilde

17 06 2024

Na janela, 1977

Gennady Myznikov (Rússia, 1933

óleo sobre papelão, 110 x 70 cm

 

 

“Os livros considerados imorais pelo mundo são aqueles que lhe mostram sua própria vergonha.”

 

 

Oscar Wilde