Grupo de leitura: como fazer? Comece o seu ano com um deles!

22 01 2012

Férias em Cannes, Itzchak Tarkay (Iugoslávia, 1935).

Um bom número de leitores me contatou  — até agora foram 23  — querendo fazer parte do grupo Papa-livros.  Surpreende tanto interesse.

Mesmo para quem mora no Rio de Janeiro há um problema com o pedido de entrada no Papa-livros: já estamos completos, e temos fila de amigos e conhecidos que esperam por uma desistência.  Como esse grupo inicialmente era só de amigos e se encontrava na casa dos membros, a preferência sempre foi dada a quem já se conhecia ou a quem vinha com referência interna.  Era até uma questão de segurança.

Hoje nos encontramos num local público, onde comemos e bebemos à vontade, mas não dá para termos mais do que 15 pessoas.  Já foi difícil arranjar um local com mesa redonda ou quadrada onde pudéssemos sentar 15.  Esse já é um número muito grande.  É difícil manter 15 pessoas, todas com opiniões e que se conhecem bem entre si, sem que o grupo se divida em pequenos grupinhos de 2 ou 3 pessoas elaborando um ponto paralelo, uma lembrança trazida à mente pela leitura.   Quantas e quantas vezes não temos que interromper – qual numa sessão do plenário – bater na mesa e dizer:  Calma, calma, um de cada vez!

Quando abri a página do Papa-livros no blog, pensei em dar idéias para outros fazerem o mesmo e talvez até um dia podermos trocar experiências ou sugestões.  Minha intenção também foi mostrar as nossas escolhas, que são sempre baseadas no voto democrático.   Depois de quase 9 anos de encontros mensais –  faremos 9 anos em abril de 2012  – temos muito poucas regras para o grupo,  todas atingidas pelo consenso.

1 — Queremos ler ótimos livros, mas não necessariamente os clássicos.
2 — Raramente lemos alguma coisa que alguém já tenha lido – é uma surpresa para todos.
3 — Não lemos livros de contos, nem lemos poesia.
4 – A discussão está limitada ao dia em que nos encontramos.  Ou seja, não lemos, digamos: Os Miseráveis de Victor Hugo, e passamos dois ou três encontros com esse tópico.  Há muitos grupos que fazem isso.
5 – Temos dois encontros especiais no ano: abril quando comemoramos o nosso aniversário e o encontro de dezembro quando fazemos uma festa de Natal, com troca de presentes Amigo Oculto e outras brincadeiras que animam todo mundo.

É só.

[Cada grupo tem  suas próprias regras.  Já participei anos atrás, quando eu ainda morava em Baltimore, nos EUA, de um grupo de leitura de História.  Líamos livros de história, biografias de persoangens históricos, etc.  Na mesma base, com enocntros uma vez por mês.  Esse grupo era muito pequenino, mas completamente internacional: éramos uma brasileira, uma francesa, uma belga, uma queniana e duas indianas.  Todas mulheres.   Mantivemos o grupo funcionando por quase 3 anos.  Depois algumas voltaram para seus países de origem e o grupo acabou].

Chá no terraço,1900, Charles Joseph Frédéric Soulacroix (França 1858-19330

A cada encontro depois da discussão do livro em pauta, listamos os livros que estão sendo sugeridos pelos membros do grupo.  Conversamos sobre os resumos dos livros e votamos.  Às vezes bons livros não são escolhidos por alguma característica especial do grupo.  Por exemplo, em 2011, havíamos lido: O último cabalista de Lisboa, de Richard Zimler,  A mão de Fátima, de Ildefonso Falcones e já sabíamos que iríamos ler Instruções para salvar o mundo de Rosa Montero, mais no final do ano.   Quando  A máquina de fazer espanhóis, do valter hugo mãe foi sugerido, apesar de ser um ótimo livro, foi derrotado na votação, porque a maioria estava cansada da península ibérica.  Queríamos mudar de ares.

Vivemos uma democracia dentro do grupo e assim temos que ter jogo de cintura e aceitar essas estranhezas, senão não há grupo.
Além dos livros que discutimos, há os livros em paralelo.  Corre entre nós o empréstimo de livros que rodam paralelamente à leitura do mês.

Lemos mesmo é ficção.

Nós nos encontramos uma vez por mês, no terceiro domingo do mês.  Há raras excessões quanto ao domingo, mas sempre uma vez por mês.  As excessões levam em conta o Carnaval ou algum outro acidente de percurso, mas são raras.  No início do ano já sabemos todas as datas em que nos encontraremos, até dezembro.  É uma questão de organização.   A pessoa que tem a responsabilidade de organizar, passa em dezembro a lista com a data de todos os encontros do próximo ano, já com adaptações quanto a feriados, etc.  Essa lista também é acompanhada da lista de todos os membros seus telefones e suas datas de aniversário. Por exemplo em 2012 nos encontraremos nas seguintes datas: 01/22; 02/26; 03/18; 04/15; 05/20; 06/17; 07/15; 08/19; 09/16; 10/21; 11/18 e 12/16.  Como é importante que haja compromentimento, essa é uma das maneiras.  Todo mundo já sabe desde o início do ano as datas que precisarão ser bloqueadas.  Se alguém não pode participar, falta.   Mais de seis faltas, perguntamos se essa pessoa realmente quer continuar.  Nesses anos de encontros isso só aconteceu uma vez.  Outras pessoas saíram, é claro.

Uma semana antes do encontro a pessoa que organiza manda um email para os membros lembrando do encontro.

ORGANIZANDO O GRUPO

O que percebi pelos emails e pedidos para entrada no Papa-livros é que as pessoas gostariam de já entrar para um grupo formado.  Há vantagens:  você não precisa bolar a organização e se não quiser continuar é mais facil de sair…

Mas a minha sugestão é que se você quer um grupo de leitura convide 2 amigos ou conhecidos para começar…  Assim você fará o seu grupo, com amigos que têm mais ou menos o seu perfil, que trarão amigos de gostos semelhantes para a sua vida e aumentarão a sua área de convívio social.  As pessoas têm muito medo do compromisso… Mas sem esse compromisso nada vai adiante.  E depois do compromisso inicial é preciso sermos bons na manutenção do grupo.

Nem todos que começam a participar continuam.  Prepare-se para que alguns desapareçam.  Há muitos motivos.  Às vezes a pessoa gosta da idéia de ler, mas não faz tempo para ler; ou entra no grupo por culpa, sabendo que deveria ler mais, mas não consegue manter o ritmo.  Há quem desista porque não consegue abrir espaço naquelas datas, com aquela regularidade.  Há quem não goste das escolhas dos livros, quem prefira os clássicos, ou quem prefira mangás… ou o que seja.  Essas rejeições não podem afetar o grupo.  Outra pessoa entrará…

Uma tarde no Salon, s/d,  Salvador Sanchez Barbudo Morales (Espanha, 1858-1917)

A menor reunião que tivemos foi num domingo de fim de semana com feriado, quando na véspera meia cidade havia ficado debaixo d’água por causa de tempestades.  Fizemos o encontro assim mesmo, 5 pessoas e decidimos sobre o próximo livro.  No encontro seguinte fizemos uma breve discussão do livro anterior para que todos participassem, mas sem entrar muito a fundo.

Quando, no início, eu dizia a amigos e conhecidos: 1 vez por mês! —  eu via seus olhos se arregalarem, como se aquilo fosse muito compromisso, muito tempo, muita frequência, muito sistemático.  Todos queriam uma coisa assim, mais leve, digamos: venha quando puder… venha quando gostar do livro…   Como se viessem só na base do Vamos conversar sobre o livro do Janjão Bolinha….  Venha se puder….   Não dá.  Isso é igual a trabalho voluntário.  Só porque é voluntário não quer dizer que pode não vir, pode faltar, pode vir quando quiser…  Nada se constrói dessa maneira, nem mesmo as amizades que se fazem através dos anos.   E elas contam, e elas são importantes.

Hoje o Papa-livros  é um grupo de  amigos.  A úlitma pessoa a entrar foi em março de 2011.   Substituiu uma médica que saiu porque  está fazendo cursos para outra especialização.  Além do encontro mensal, não fazemos muito mais juntos.  Saímos ocasionalmente para um ou outro programa fora do grupo de leitura… É um cinema, é um teatro, um concerto, etc.  Mas afinal quantos amigos você realmente vê uma vez por mês?  Tenho certeza de que poucos.  Quando saimos não vamos em grupo, as 15 pessoas.  Vão duas ou três fazer isso,  duas ou três fazer aquilo, até porque nem todos gostam da mesma coisa, nem todos têm o mesmo tempo ou o mesmo interesse em outras atividades.  Mas aos poucos vamos nos tornando amigos.  Uma amizade interessante que escuta muito, que está sempre ali, pelo menos uma vez por mês…  No nosso grupo, desde que começamos, já tivemos viuvez, divórcio, casamentos de filhos, divórcio de filhos,  reconciliação de casamento, troca de empregos, filho sem emprego, filho em vestibular,  pais idosos precisando de atenção, perda de pais ou entes queridos e assim por diante.  Só não tivemos nascimentos de filhos…  Porque uma coisa que descobrimos é que pessoas com crianças pequenas, têm realmente mais dificuldade de manter compromissos.  Até mesmo na nossa festa de Natal, que todos detestam perder, tivemos esse ano uma falta, porque a filha de 12 anos de um membro tinha um recital de dança justamente naquele domingo…  15 pessoas de diferentes idades, com vidas normais, no período de quase 9 anos passam por tudo isso, e nem por isso faltam aos encontros, porque amizades são formadas  e porque também estávamos lá nas horas de tristeza e de alegria, sem nos intrometermos.   É justamente o fato de estarmos sempre mantendo o estipulado que dá a establidade ao grupo.  Nao posso ressaltar mais esse aspecto.

Alfredo’s Café in Capri, 1990, Pauline Comanor,  aquarela.

A DISCUSSÃO 

No nosso grupo ninguém é especialista em leitura ou em literatura.  As discussões partem da visão de cada leitor sobre a obra.  Às vezes começamos muito simplesmente com um: Não gostei…  ou,  Achei muito bonito mas faltou um final conclusivo…  Daí, partimos para a discussão porque invariavelmente alguém vai ter uma outra impressão.  Ou alguém vai ter uma idéia brilhante que ninguém mais teve.  A maioria dos membros anota passagens que justificam as suas posições e ilustram suas observações. É só isso.  Simples assim…  Uma boa idéia é para a pessoa que dirige o encontro ( isso pode ser sempre a mesma pessoa ou pode ser selecionada por revesamento, ou ainda por sorteio) ter uma série de perguntas sobre o texto que a princípio são usadas só para a conversa começar.

PAPA-LIVROS NO BLOG:

Fiz uma tentativa no ano passado para abrir uma discussão no blog sobre os mesmos livros que o Papa-livros escolheu.  Mas não acredito que teha dado muito certo.  Em parte, por meu problema de não estar com tempo para dar atenção à discussão.  Há também o fato do Papa-livros raramente ler um best-seller, um livro da moda.  Temos a tendência de sair um pouco do que está sendo lido, do que está sendo discutido por todos… Então os títulos escolhidos pelo grupo nem sempre são os que seriam comprados pelos nossos leitores.  Acredito que eu não vá continuar essa tentativa de discussão no blog.  Vou me limitar às resenhas dos livros de que gostei, como tenho feito desde o início.





A alquimia do amor, em As Avós de Doris Lessing

6 09 2011

Mad dogs… [ Loucos…] 

Jack Vettriano (Escócia, 1951)

óleo sobre tela

www.jackvettriano.com

Fiquei surpresa com a persistência das imagens dançando na minha imaginação dias após a leitura de As Avós de Doris Lessing [Cia das Letras: 2007].  Por um tempo não sabia exatamente o que dizer sobre o livro além de recomendá-lo enfaticamente.  Tudo tem seu tempo.  Às vezes as idéias precisam amadurecer.  De repente, ZÁZ!, veio o ponto de encaixe: uma conversa sem agenda, com uma amiga.  Entre um cafezinho e outro ela disse que lia para ser apresentada a mundos e pessoas que jamais conheceria na vida real.  Sentia-se assim enriquecida pela leitura.  A meta era expandir seu conhecimento sobre outros seres humanos. Nada de extraordinário, mas foi a chave, para a introdução a esta resenha.  Sim, isso me aconteceu com a leitura de As avós: uma ligeira mutação da norma comportamental e fiquei intrigada o suficiente para não deixar o tema de lado.

A sinopse do romance, que na verdade não é nada mais do que um conto alongado, ou uma novela, é simples, e reproduzo-a aqui como aparece nos sites de venda para facilitar a resenha.  “Roz e Lil são amigas inseparáveis desde a infância. Cresceram, casaram, tiveram filhos, e vivem na paradisíaca bacia de Baxter, um lugar cercado de rochas por todos os lados. O ambiente protegido, “bocejante”, além do qual o “verdadeiro oceano rugia e roncava”, é o cenário ideal para uma relação cada vez mais simbiótica. Morando em casas vizinhas, elas criam os filhos por conta própria – e eles se tornam adolescentes encantadores.Tão encantadores e próximos, que Roz e Lil não tardam a se envolver uma com o filho da outra. Num efeito ambíguo e desconcertante, típico da grande literatura, o que poderia parecer repulsivo é tratado com naturalidade e bom-humor, fazendo a quebra de tabus soar como regra, e não como dramática exceção. Temas como a amizade, maternidade e sexualidade ganham novos contornos enquanto Doris Lessing esmiúça as complexidades e armadilhas da forte ligação entre essas duas mulheres, e retrata a força com que elas confrontam as convenções familiares e sociais de sua época.”

O romance gera perguntas cujas respostas são difíceis de encontrar.  Estamos diante de diversos tipos de amor.  Há o amor narcisista:  Roz e Lil — que até se parecem fisicamente, ainda que, quando adultas, tenham personalidades e profissões diversas — vêem a si mesmas na outra, desde pequenas, desde os bancos da primeira escola.  E nos questionamos:  estaremos sempre à procura de nós mesmos nos nossos pares?  São os pontos em comum que temos com eles o que nos une?  É o narcisismo a força vital do amor fraternal?  Você gosta de seus amigos pelo que eles refletem de você neles?   E na paixão o mesmo acontece?

As vidas de Roz e Lil são de um paralelismo impressionante, mas não raro entre amigos.  Observo à minha volta: amigos se casaram em datas próximas, tiveram filhos mais ou menos ao mesmo tempo, permaneceram, quando puderam, nos mesmos bairros, trocaram de casa à mesma época e assim por diante.  O paralelismo no romance, no entanto, é tão perfeito que de fato as vidas retratadas parecem mais especiais, porque são como imagens refletidas num espelho.  

No mundo das artes e das antiguidades, há uma diferença considerável de valor no par de objetos considerados  “ par verdadeiro”.  Paga-se mais, muito mais, quando, por exemplo, num par de vasos – cada vaso aparece com a decoração invertida (da direita para a esquerda e/ou vice-versa), como se girassem num eixo vertical imaginário.  Esses são chamados “pares verdadeiros” , ao contrário de um par simplesmente  composto por dois vasos exatamente iguais.  Aqui também.  O par, formado por Roz e Lil parece muito mais interessante porque elas são diferentes, têm gostos diferentes, maridos diferentes, e até seus filhos têm um comportamento diferente.  E no entanto, são iguais, são simbióticas, elas se completam a tal ponto de não considerarem morar longe uma da outra.

Através do romance o tema da homossexualidade permanece palpável, endereçado aqui e ali, sem compromisso, mas latente.  Tão forte é a simbiose entre as amigas que um dos maridos se divorcia porque se sente em segundo plano.  Mas elas escapam dessa identificação, relacionando-se, ao contrário, com seus respectivos filhos.   E de novo, temos o espelho.  Narciso mete sua cara…  Saturno comendo seus próprios filhos também…  Mas não há nada de imoral nesse relacionamento, nada saturnal, no sentido de orgia.  Longe disso, a implicação de imoralidade está com o leitor apenas, deparando-se com um comportamento fora dos padrões.  Amoral?  Não há incesto.  Não são seus filhos…  E voltamos à questão do amor, de Narciso: será que elas gostam de ver nos rapazes aquilo de que gostam nas amigas?   

Doris Lessing

O mundo se fecha para eles, ou melhor, eles se fecham para o mundo, como se o amor fosse hermafrodita, auto-devorador, auto-consumido.  Vivem numa realidade hermética, como num processo alquímico.  Respiram, ganham novas vidas, vicejam no ambiente fechado que criaram, cegos para o mundo exterior.  Os quatro se bastam, se saciam, se fartam.   Por quanto tempo?   Anos.  Muitos anos.  Mas a natureza é entrópica e os rapazes, quase ao mesmo tempo, se casam…  Não se casam com qualquer jovem.  Eles, que são melhores amigos, se casam com duas melhores amigas.  E o processo parece poder continuar.  Parece cheio de possibilidades infinitas…   Espelhos refletindo espelhos. 

Não há como não se tentar definir o amor depois da leitura de As avós.  As experiências extremas retratadas na novela nos são familiares e por isso mesmo têm tanto efeito no leitor.  Quem já teve um amigo de infância chegado, aquele ou aquela com quem dividia todos os segredos, pode ter beirado uma situação semelhante à descrita no texto.  Quem já se apaixonou, reconhece, no círculo fechado dos amantes alheios ao mundo exterior, a sensação de saciedade que acompanha a paixão consumida.  Talvez seja por causa da familiaridade dessas emoções que essas 104 páginas de prosa consigam permanecer vivas por tanto tempo…  Consigam parecer tão relevantes.  Tenham tanto impacto.





Feliz dia do amigo!

20 07 2011

Obrigado amigo, ilustração Walt Disney.

Feliz dia do amigo!

A todos os amigos e leitores do blog, um muito obrigada pela amizade e leitura.  Um grande abraço, da Peregrina, que anda peregrinando por essas férias de julho, mas lembrando-se sempre de todos.

 





Alonso Cueto, brilha com O Sussurro da mulher baleia

3 01 2010

Meninas

Stanislaw Wyspianski ( Polônia, 1869-1907)

Inicio de ano prolongado…  Estou aproveitando o tempo para limpar o escritório e colocar coisas em ordem.  Assim, antes de descartar algumas resenhas que foram feitas para outros fins, que não o blog, venho aqui postá-las para não perder de todo o controle do que li, e das minhas reações a certas leituras.  Começo com um romance que me comoveu bastante, do escritor peruano Alonso Cueto, cuja resenha escrevi em 31/01/2008, antes de começar este blog.

Amizade, lealdade, ira e vingança num romance moderno e atual

Vi este livro em diversas livrarias em Lima, no Peru, em Outubro.  Mas não leio muito bem em espanhol.  Então, quando cheguei de volta ao Rio de Janeiro achei interessante ver que havia acabado de ser lançado no Brasil.  Não conhecendo o autor, resolvi comprá-lo como uma recordação da minha viagem.  E ainda levei um tempinho para lê-lo principalmente porque seu título não me interessava: ênfase no tamanho ou no peso de uma mulher era um assunto que me repelia.  Mas, acabei enfrentando a fera.  Como gostei!  É um excelente livro e descobri, chegando ao final, e algumas horas depois e alguns dias mais tarde, que é um livro que fica enraizado na nossa imaginação; que mantem um diálogo vivo com os nossos botões.  Gosto de livros que me fazem pensar.

Duas adolescents são amigas de escola.  Esta amizade é muito importante para cada uma delas, enquanto a amizade durou.  Anos mais tarde, elas se encontram, já adultas.  Cada qual bem sucedida na sua vida, cada qual com sua parcela de sucesso e sorte.  À medida que elas voltam a se comunicar, descobrem não só como são importantes as emoções que cada qual guarda a respeito da amizade que teve, mas também recordam o evento trágico que separou-as, que destruiu o que haviam construído: uma amizade que era importante para cada uma delas.

A narrativa é clara, assim como a maneira em que os personagens são retratados.  Há muita atenção nos detalhes do dia a dia, coisa que no início parecia inconseqüente, talvez até um maneirismo do autor, mas que mostra ser essencial para detalhar as emoções, para retratar  a vida interioir de cada personagem, vida essa submersa nos detalhes corriqueiros.

Com um excelente ritmo, texto coloquial e moderno, Alonso Cueto se mostra em domínio total da narrativa, do inicio ao fim.  À medida que estas duas mulheres rememoram suas vidas, descobrimos suas fraquezas e principalmente a necessidade de cada uma de “pertencer” de “fazer parte” de um grupo.  E nos lembramos também de como os adolescentes podem ser cruéis consigo mesmos e com seus amigos e colegas.   E aos poucos percebemos como podem ser profundas as feridas sentidas nestes anos de formação, assim como a dificuldade de cada um, de superá-las.

Depois de ler este romance de Alonso Cueto, não me surpreendi ao descobrir que ele é um autor peruano muito conhecido, com mais de uma dúzia de títulos publicados e que já recebeu diversos prêmios literários inclusive o Prêmio Viracocha, em 1985, com o livro Tigre Branco;  em 2005 ganhou o prêmio Herralde com o livro Hora Azul.  Em 2002 ele recebeu a bolsa para escritores da Guggenheim e em 2003 seu livro Grandes Moradas tornou-se um filme de Francisco Lombardi.

Alonso Cueto

Este é um livro sobre amizade, lealdade, ira e vingança.  Retrata as almas sofridas e as técnicas de sobrevivência usadas por aqueles que carregam feridas emocionais por muito tempo.  É um romance com um final surpreendente:  iconográfico e belo.  Sutil.  Não é supresa, então, que tenha sido um livro finalista para o Prêmio Planeta – Romance Ibero-americano – em 2007.  Recomendo com entusiasmo a leitura deste romance.

31/01/2008

Esta resenha apareceu em:  Living in the Postcard; e na Amazon.  Ambas em inglês.  Tradução e adaptação, minhas.





Quadrinha sobre o Brasil, uso escolar

9 07 2009
Ilustração, Maurício Sousa

Ilustração, Maurício Sousa

 

Vemos no verde esperança,

No azul, nosso céu de anil,

No perfil de uma criança

O futuro do Brasil!

 

(Oscar Crepaldi)





Amizade, quadrinha, uso escolar

15 06 2009

amiguinhos 2

 

Aquele que no fracasso

nos estende a sua mão

e não nos nega um abraço,

é mais que um amigo,  é um irmão.

 

(José Augusto Fernandes)





Um ano de novas amizades que perdurarão…

22 12 2008

feliz-natal-aos-_errantes

 

Recebi este belo cartão virtual, desejando um Feliz Natal de uma das amigas que fiz em 2008: Cris Rose.  Nesta árvore estão alguns, mas não todos, os amigos que fiz no último ano.  Em outubro/novembro de 2007 comecei a participar deste grupo de leitores, que fazem parte da comunidade do LIVRO ERRANTE.  A maioria está no Brasil, ainda que tenhamos alguns membros fora do país.   Somos ao todo, um pouco mais de 275 leitores ativos.  Muito ativos.  Todos procurando bons livros, sugerindo títulos, emprestando-os e sempre prontos para discutí-los.  A princípio não nos conhecemos.  Não da maneira tradicional.  Em pessoa.  Somos amigos virtuais.  E, no entanto, muitas dessas amizades já passaram para o nível pessoal, em 3-dimensões mesmo, pessoalmente, em encontros dentro das maiores cidades do Brasil.  Para mim, este intercambio, tem sido um presente constante e duradouro, sem desapontamentos.   [Ah, isso sim, é uma raridade!] O que nos une?  O prazer de ler; o prazer de se encontrar alguém que goste de ler; o prazer de falar de livros de que gostamos; o prazer de trocar idéias, conhecimentos, opiniões.  O prazer das novas amizades!  Como temos a leitura em comum, e como também escolhemos entrar para o grupo por vontade própria, há já bastante em comum entre os membros para que possam ser  bons amigos.  Mas há mais que isso.

 

A comunidade do LIVRO ERRANTE por si só, sem auxílio governamental, sem incentivo nenhum, a não ser o de saber que a leitura é essencial para o bom desempenho escolar, abraçou em 2007 duas escolas no Brasil que careciam de livros, e através das doações de livros dos membros da comunidade, cada escola, uma na Paraíba a outra no estado de Minas Gerais, pode começar a desenvolver uma pequena biblioteca infantil.  Trata-se de uma parceria entre as diretoras e professoras destas escolas e os membros da comunidade.  Até o fim do ano postarei aqui um artigo sobre este trabalho fenomenal levado adiante pela organizadora do LIVRO ERRANTE, Regina.  

 

Mas hoje, por causa desta bela árvore de Natal que recebi como cartão virtual com as fotos de alguns dos participantes da comunidade vou simplesmente relacionar os livros mais marcantes dos que li através da comunidade e os livros que emprestei para membros da comunidade lerem.  Acredito que isto dê uma idéia da variedade de tópicos e de interesses.

 

Livros que li este ano emprestados por outros membros da comunidade:

 

A história do rei transparente – Rosa Montero

Este é meu corpo – Filipa Melo

A trégua – Mário Benedetti

Memorial de Maria Moura – Rachel de Queiroz

Ulysses entre o amor e a morte – O G Rego de Carvalho

Somos todos inocentes  O G Rego de Carvalho

Um homem de palavra – Nazir Hamad

O amor nos tempos do cólera – Gabriel Garcia Marquez

Manhã Transfigurada – Luiz Antônio de Assis Brasil

O Quatrilho – José Clemente Pozenato

O castelo de vidro – Jeanette Walls

A doçura do mundo – Thrity Umrigar

Nhô Guimarães – Aleilton Fonseca

O retrato do rei – Ana Miranda

Vende-se um vestido de noiva – Denise Assis

A última quimera – Ana Miranda

A máquina de xadrez – Robert Löhr

Escuridão na clareira – Miguel Reale Júnior

Novelário de Donga Novaes – Autran Dourado

 

Ainda li outros livros de mistério de autores brasileiros, incluindo Garcia-Roza, Tony Bellotto, e outros, assim como um número bem maior de escritores de origem africana que escrevem em português.   Li muito mais livros, mas estes foram os que ficaram marcados.  Estes foram os de que mais gostei. 

 

 

 

Livros que emprestei para os membros do LIVRO ERRANTE no ano de 2008 – sem ordem específica

 

O Nariz de Pasquale – Micahel Rips
A elegância do Ouriço – Muriel Barbery
Rio das Flores – Miguel Sousa Tavares
A casa do pó – Fernando Campos
O pescoço de Audrey Hepburn Alan Brown

O homem que colecionava manhãs Liberato Vieira da Cunha

As viúvas das quintas-feiras – Cláudia Piñeiro
Mentiras no Divã – Irvin D, Yalom
Pequenas Infâmias – Carmen Posadas
Paixão Índia Javier Moro
Eu receberia as piores notícias de seus lindos lábios – Marçal Aquino
A Peste — Camus
Não me abandone jamais – Kazuo Ishiguro
Mademoiselle Fifi – Guy de Maupassant
em francês
Blood of Victory – Alan Furst,
em inglês
Kingdom of Shadows – Alan Furst,
em inglês
Dark Star – Alan Furst,
em inglês
Night Soldiers Alan Furst,
em inglês
Informações sobre a Vítima – Joaquim Nogueira
Cabeça do Lobo – J K Mayo
Entre o Lobo e o cão – Julieta Godoy Ladeira
Lobo do planalto – Paulo Dantas
Terra dos lobos – Jack London
O cachorro e o lobo  Antônio Torres
O lobo da estepe Herman Hesse
O lobo do mar Jack London
O último lobo dos Cárpatos — Heinz G. Konsalik
O verão do lobo vermelho – Morris West
Um lobo solitário – Graham Greene
Mulheres viajantes do Brasil (1764-1820) – ed.  Jean Marcel Carvalho França
O testamento do Sr. Napumoceno – Germano Almeida
O vendedor de passados – José Eduardo Agualusa

A casa de papel – Carlos Maria Dominguez

O sussurro da mulher baleia – Alonso Cueto

O despertar – Kate Chopin

Porno Política – Arnaldo Jabor

Na multidão – Luiz Alfredo Garcia-Roza

Restless – William Boyd – em inglês

Le silence de la mer – Vercors – em francês

Dias Pássaros – Stella Leonardos

A viúva Simões – Júlia Lopes de Almeida

Bom dia Camaradas – Ondjaki

Os da minha rua — Ondjaki

Senhora das savanas – Hilton Marques

Rakushisha – Adriana Lisboa

A catedral do mar – Ildefonso Falcones

 

Minha participação no LIVRO ERRANTE foi uma das coisas mais positivas que fiz nos últimos anos.  Obrigada a todos os envolvidos por esta experiência ímpar!