Um passeio pelos jardins do Palácio do Catete

30 03 2010
Jardim do Palácio do Catete,  Rio de Janeiro.  Foto: Ladyce West

Neste verão que não acaba, em que fritamos todos os dias os nossos corpos a 38º C,  tenho procurado andar na areia da praia só no fim das tardes, e nos fins de semana visitar alguns dos belos jardins do Rio de Janeiro, a cata de  sombra, frescor, natureza e equilíbrio mental.   No sábado passado passei uma hora e pouco à sombra das árvores nos jardins do Palácio do Catete, antiga residência presidencial quando no século XX esta cidade ainda era a capital do Brasil.

Há uma característica desse jardim que sempre me intrigou e que dessa vez procurei saber o porquê.  Fato que salta aos olhos de quem quer que visite o local é a estranha distribuição de terra em relação à casa.  Os jardins são imensos.  Mas a casa fica não no centro dos jardins como seria de se esperar, mas no canto, dando de frente para a Rua do Catete.  Nem sei quantas vezes esse jardim é maior do que a área coberta por essa residência neo-clássica, construída entre 1858 e 1866, trabalho do arquiteto alemão Carl Friedrich Gustav Waehneldt, mas tem lago, tem gruta, tem esculturas e árvores gigantescas, e parece fora do comum que a casa ficasse assim num cantinho com as janelas paralelas à calçada.

Coreto, nos jardins do Palácio do Catete.  Foto:  Ladyce West

Finalmente descobri a razão:  a casa fora construída originalmente para residência na corte dos Barões de Nova Friburgo.  E a Baronesa havia exigido que este local fosse diferente de suas duas outras residências, a do Cantagalo e a de Nova Friburgo ambas as construções em centro de terreno.  A Baronesa de Nova Friburgo queria sentir o calor humano, a movimentação da corte, as carruagens passando, os vendedores cantando suas ofertas, seus pregões individualizados, quando chegasse à janela da residência citadina.  Daí o uso do cantinho esquerdo do terreno de esquina entre as ruas do Catete e a rua Silveira Martins [agradeço ao leitor Pedro Henrique pela correção do nome desta rua, que hoje, 29/9/2013 modifiquei no texto].  Os fundos da casa, dão para os jardins que se prolongam até  a Praia do Flamengo.  

Oceania, escultura em ferro fundido de Mathurin Moreau [França, 1822-1912], 1876.  Foto:  Ladyce West

Espalhadas pelos deliciosos recantos do jardim há uma série de esculturas em ferro fundido, de Mathurin Moreau (1822-1912), afamado escultor francês do século XIX, representando os continentes.  [Só uma dessas esculturas tem identificação numa tabuletinha próxima.  É a escultura cuja foto coloquei acima].  Ela representa a Oceania: um menino, abraça um pequeno canguru.  Infelizmente, a identificação dessas esculturas, está — como quase tudo que é patrimônio cultural no Rio de Janeiro —  deixada ao léu. É uma vergonha que o patrimônio cultural que temos a nosso alcance não exerça nenhuma fascinação sobre aqueles encarregados de preservar o nosso legado cultural (seria muito, pergunto, se um empregado do museu fizesse as mesmas tabuletinhas para cada uma das esculturas do palácio?  E se roubassem, fizesse de novo?  O custo é próximo a ZERO).   Mesmo nos jardins do Palácio do Catete, um museu carioca, temos o descuido de não identificar as peças, como se elas de nada valessem.  É uma pena.  Não pude, por causa do grande contraste entre a luz do sol e a sombra, nesse sábado, fotografar razoavelmente bem nenhuma das outras esculturas.  Uma delas na verdade, está longe, na frente de uma ilhota do lago, e terei que levar uma outra lente para isso.  Mas prometo aos leitores desse blogue que voltarei ao Palácio do Catete para registrar esses tetéias.  Sim porque essas esculturas são de um tamanho pequeno, certamente feitas para uso em jardins particulares  de importância.   Não há tampouco qualquer cartão postal com a foto das mesmas que se possa comprar e levar para casa como uma lembrança da arte encontrada no museu.  Vergonhoso.  Temos que melhorar isso antes de nos candidatarmos a eventos como Olimpíadas e Copa do Mundo,  porque esses eventos trazem pessoas que além dos esportes gostariam de conhecer a base cultural da cidade.  Garanto, que não há muitas cidades no mundo que têm o patrimônio artístico nacional e estrangeiro, em lugares públicos ou privados, que nós temos.

Os seis continentes, ferro fundido, Museu d’Orsay, Paris.

Mathurin Moreau foi um grande escultor francês do século XIX.  E nada melhor, para aqueles que gostariam de se dedicar às artes no Brasil e à escultura, que visitar essas pequenas representações dos continentes.  Mathurin Moreau criou outra escultura representando a Oceania, mais conhecida,  para a série de trabalhos representando  os  continentes.  A série foi organizada em 1878, e  seis dos mais importantes escultores franceses do final do século XIX  foram convidados a fazer uma escultura que representasse um continente:   América do Sul , por Aimé Millet (1819-1891); Ásia por  Alexandre Falguière (1831-1900); Oceania por  Mathurin Moreau (1822-1912);  Europa  por Alexandre Schoenewerk (1820-1855); América do Norte por  Ernest-Eugene Hiolle (1834-1886) e  África por Eugène Delaplanche (1831-1891).  Esse grupo permaneceu  no mesmo  local, Palácio Trocadéro, desde 1878 até a Segunda Guerra Mundial, quando em 1935 foi  transportado para Nantes.  Lá esteve  por cinquenta anos, até 1985, ano em que ” os seis continentes” retornaram a Paris, encontrando um lar na esplanada do Museu d’ Orsay. 

Oceania, 1878, Mathurin Moreau (França, 1822-1912), ferro fundido, Museu d’Orsay, Paris

Achei por bem postar, a título de curiosidade, uma foto da representação do mesmo continente, na versão de 1878, ou seja na versão de Mathurin Moreau para a Exposição Universal.  As que se encontram no Palácio do Catete são de 1876, ou seja, de 2 anos antes das  esculturas encontradas no Museu d’ Orsay.  Teriam sido elas um exercício do artista para o projeto mais monumental?  O que tanto a peça do Palácio do Catete quanto a encontrada no Museu d’Orsay têm em comum é o toque do exotismo, com a presença com canguru em ambas.  Detalhes exóticos seriam quase de obrigatoriedade nessas representações – afinal estamos falando dos últimos 25 anos do século XIX —  onde o exotismo foi explorado em todos os meios.  Mas as diferenças entre as duas mostram que suas funções foram determinantes na escolha da representação.  Enquanto a escultura feita para a Exposição Universal se mostra grandiosa, maior que a vida, as esculturas encontradas nos jardins do Catete, todas com meninos com animnais,  são mimosas e delicadas, no mesmo material (ferro fundido), mas definitivamente peças feitas para jardins menores, para o prazer do colecionador particular.

 

 Patos, Palácio do Catete, Rio de Janeiro.  Foto:  Ladyce West

Em outra ocasião dedicarei algumas palavras sobre o prédio, suas pinturas e decoração.   Sei que os jardins foram reformados sob a direção do engenheiro Paulo Villon,  em 1896,  quando a propriedade foi eletrificada para abrigar a Presidência da República, que até então usava o Palácio do Itamaraty.  Acredito que essas estátuas de Mathurin Moreau possam ter sido adquiridas na época para pontuar a reforma.    Há nesse jardim também um belíssimo chafariz, — que sábado passado não tinha água .  Esse chafariz, certamente entrou para o Palácio do Catete na reforma de 1896, pois era o chafariz do Largo do Valdetaro, que foi removido do local onde havia sido colocado em 1854 para este jardim em 1896.

Jardim do Palácio do Catete, Rio de Janeiro.  Foto:  Ladyce West

O charme do jardim desse palácio está certamente no romantismo de final de século tão bem retratado na combinação das palmeiras imperiais com árvores frutíferas;  nos lagos bucólicos com patinhos a nadar, e na construção da pequena e romântica gruta, além é claro, do delicado coreto.  É sem dúvida um dos lugares mais prazerosos do Rio de Janeiro.  E,  já que hoje circunda o Museu da República – porque com a mudança da capital para Brasília esse palácio passou a ser o Museu da República — nada mais natural que o tratemos bem e que muito mais atenção seja dada às informações do local.  Vamos esperar que a secretaria de turismo do estado abra os olhos e nos gratifique com um material digno sobre o que estamos vendo.    A falta de informações é um desrespeito com o visitante brasileiro, porque lhe rouba a educação de seu patrimônio cultural, lhe rouba o aprendizado de seu passado; é também um desrespeito com o visitante estrangeiro que procurou nos conhecer melhor, ver  quem somos e de onde viemos.   Dizem os psicólogos que o desleixo, que o desrespeito consigo próprio, é sinal de baixa auto-estima.  Não é isso o que merecemos no Brasil, e não é isso o que eu gostaria de passar para as gerações futuras.

Árvores centenárias do Palácio do Catete.  Foto:  Ladyce West




Bolinhas de gude, poema infantil de Maria Eugênia Celso

29 03 2010
 Ilustração Maurício de Sousa.

Bolinhas de gude

                                               Maria Eugênia Celso

Brancas, verdes, rajadinhas,

                               Amarelas,

                As bolinhas

                Vão rolando,

                Vão dançando

                Seja liso ou seja rude

                O chão onde vão rolando

                Lá vão elas, lá vão elas…

                               As bolinhas de gude.

Brincam os meninos com elas,

                               Estão jogando

                No jardim ou nas calçadas,

                As bolinhas vão correndo

                Azuis pardas, amarelas,

                               Rajadinhas,

E tão vivas, tão ligeira, tão alegres e estouvadas

                Que até fica parecendo

                               Que são elas

                                               As bolinhas

Que com eles estão brincando.

Em: Poesia Brasileira para a Infância, Cassiano Nunes e Mário da Silva Brito, São Paulo, Saraiva: 1968.

Maria Eugênia Celso

Maria Eugênia Celso Carneiro de Mendonça (São João Del Rey, Minas Gerais, 1886 – 1963), usou também o pseudônimo Baby-flirt.  Jornalista, escritora, poeta, teatróloga e sufragista.  Funcionária de carreira do Ministério da Educação e Cultura.  Veio de Minas Gerais para Petrópolis, ainda criança,  onde cursou o Colégio Sion.  Em 1920 começou sua carreira jornalística no Jornal do Brasil.  Participou ativamente do “Movimento Feminista”, em favor da emancipação política e social da mulher, dedicou-se ao assistencialismo junto às “Damas da Cruz Verde”, aparecendo como uma das lideranças que criaram a maternidade “Pro-Matre” do Rio de Janeiro.  Batalhou pelo direito das mulheres ao voto. Faleceu em 1963.

Obra:

Em Pleno Sonho, poesia, 1920

Vicentinho, 1925

Fantasias e Matutadas, poesia, 1925

Desdobramento, poesia, 1926

Alma Vária, poesia

Jeunesse, poesia

O Solar Perdido, poesia, 1945

Poemas Completos, 1955

Diário de Ana Lúcia, prosa,

De Relance, crônicas

Ruflos de Asas, teatro

Síntese Biográfica da Princesa Isabel, biografia





Imagem de leitura — Vladimir Ezhakov

29 03 2010

Menina Lendo,  s/d

Vladimir Ezhakov ( Rússia, 1975)

óleo sobre tela,  30 x 48 cm

Vladimir Ezhakov, (São Petersburgo, Rússia, 1975), formou-se em arte em 1995, na Faculdade V. Serov, prolongando seus estudos, mais tarde e se formando em pintura, em 2003 pelo Instituto de Artes Visuais I. E. Repin em São Petersburgo, um dos locais de maior tradição na educação artística da Rússia, fundado em 1757.  Lá Vladimir Ezhakov foi aluno do pintor V. A. Mylnikova.  Continua ativo como pintor do realismo russo na cidade em que nasceu.





Brasil que lê: fotografia tirada em lugar público

28 03 2010
Dois leitores, Jardins do Palácio do Catete,  Catete, Rio de Janeiro.




Fóssil de Gliptodonte, descoberto por menino de 12 anos!

28 03 2010

Desenho artístico de um gliptodonte.

Um fóssil de gliptodonte, um mamífero que viveu no continente americano há mais de 30 mil anos, foi encontrado no departamento uruguaio de Soriano.   A descoberta foi feita por Mario Vignolo, um menino uruguaio de 12 anos que mora na zona rural do estado. Ele encontrou o fóssil enquanto ia pescar perto da sua casa.

Com aproximadamente um metro e meio de comprimento e em bom estado de conservação, o fóssil foi levado pela Prefeitura de Soriano para o Museu Alejandro Berro, na cidade de Mercedes, que tem uma grande coleção paleontológica.   Foram registradas diversas inundações nas últimas semanas na zona em que o gliptodonte foi encontrado e se presume que a erosão das encostas pela água desenterrou o fóssil.

O gliptodonte é uma espécie de mamífero herbívoro, antepassado dos atuais tatus. Ele podia medir até três metros de comprimento e pesar uma tonelada e meia.

Fonte: Terra





Precisando de um bom livro para o seu adolescente?

28 03 2010

 
 
 
 
 
 
 

Lago de jardim, fragmento de pintura mural do Antigo Egito
18ª Dinastia, c. 1350 aC.
[Pintura mostrando um lago cheio de peixes, flores do lótus, e tilápias;  papiros crescem à sua volta, assim como palmeiras, figueiras e arbustos]. 
Museu Britânico,  Londres.

 

No início deste mês tive o prazer de ler O peixe de Amarna, de Cícero Sandroni, que vou recomendar aqui, com bastante ênfase, para aqueles que procuram alguma coisa brasileira, que interesse a leitores adolescentes.   Esta é a história de Juca, um jovem carioca, de 18 anos, pobre, que arruma seu primeiro bom emprego, com carteira assinada, trabalhando como motorista de um professor do Centro  Multidisciplinar de uma universidade.   Juca se surpreende logo, desde o início, quando percebe que a vida de motorista de professores, trabalhando com tecnologia de ponta, pode ser muito  mais arriscada do que pensava, a princípio.   Não tinha conhecimento de que havia no Brasil tanto conhecimento científico de qualidade, e queira ou não queira seu emprego se mostra mais complexo pois a técnica desenvolvida pelos professores que Juca leva e trás para diversos pontos do Rio de Janeiro, está sob a mira dos espiões industriais.

 

 

Esta é uma história cheira de peripécias, diárias,  tanto no cotidiano do trabalho desse motorista no Rio de Janeiro, quanto nas viagens a lugares que Juca nunca havia pensado em conhecer.   É por aí, com um bocado de espionagem industrial, com um bocado de briga e garra,  nesse misto de suspense, ação,  golpes de judô e disfarces que aparecem uma surpresa atrás da outra, uma ação a cada virar de página.  Juca acaba indo ao Egito como motorista, guarda-costas,  logo ele, que como todo bom carioca, poderia ter feito parte do time do Deixa-disso.  Com um linguajar atualizado, e uma maneira de escrever correta e realista,  Cícero Sandroni nos mostra Juca  desejando a todo momento que tivesse prestado mais atenção às aulas de história — em que costumava dormir — para poder entender melhor por que seus empregadores eram alvo de tanta confusão.   Nosso herói viaja.  Com ele damos uma passadinha no Louvre, em Paris, mas também vamos ao Egito.  O Egito de hoje, moderno se torna menos importante do que o outro Egito, dos faraós.  Juca viaja e nos leva com ele através da história para o Antigo Egito, de 3500 anos atrás.   Lá,  ele se familiariza com o faraó Aquenaton, marido de Nefertite, jovem famosa por sua beleza.    Aquenaton foi não só o fundador da cidade de Aquenaton, hoje Amarna, como também um faraó que lutou , com o culto de Aton, para que a civilização do Antigo Egito se tornasse monoteísta. 

 Garrafa na forma de peixe, Antigo Egito
18ª Dinastia, Reina do de Akhenateon ( c. 1390-1336 aC)
Vidro policromado, 14,5 cm
Museu Britânico, Londres

 

Cícero Sandroni consegue, com essa aventura de espionagem, não só mostrar um pouco da história do antigo Egito, como também situar com exatidão a importância das pesquisas científicas feitas no Brasil, que podem e são frequnetemente alvos de espionagem industrial e estrangeira.  Raramente vemos nos livros para adolescentes a colocação do real valor do trabalho e das pesquisas dos professores e pesquisadores universitários no país.  O livro tem a vantagem também de abrir um horizonte maior, mais versátil, de possíveis profissões, apontando para as muitas escolhas que podem ser feitas, mesmo por um jovem pobre, para uma vida repleta de excitação, aventura e conhecimento.  Escolhas que não se apoiam no tradicional triângulo do esporte, da música e do circo.  A cabeça, o pensar, o estudo aparecem como uma bela opção para uma vida cheia de aventuras.  E tem mais uma coisa importante: o texto  não  é dogmático, não dá lição de moral.  Muito, muito bom.

Cícero Sandroni

 

Cícero Augusto Ribeiro Sandroni (São Paulo, 1935)  jornalista e escritor brasileiro.  Mudou-se para o Rio de Janeiro em 1946, com a família.  Formou-se em jornalismo, PUC-Rio.  Nessa profissão trabalhou para a Tribuna da Imprensa,  o Correio da Manhã e  o Jornal do Brasil.  Em  1958 foi para o jornal O Globo, e mais tarde para o Diário de Notícias. Em 1961 mudou-se para  Brasília. Em 1974 ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo.  Membro da Academia Brasileira de Letras.

Obras:

O Diabo só Chega ao Meio-dia, contos, 1985.

O Vidro no Brasil, ensaio histórico, 1989.

Austregésilo de Athayde: o Século de um Liberal, 1998.

Cosme Velho, ensaio literário sobre o bairro do Cosme Velho (Rio de Janeiro), 1999.

50 anos de O Dia, história do jornal, 2002

O peixe de Amarna, romance, 2003





Filhotes fofos: Bebê rinoceronte

27 03 2010

 

rino bebe

O bebê rinoceronte batizado de Geraldine corre no parque Safari Serengeti da cidade de Hodenhagen, na Alemanha. A espécie nasceu em cativeiro e cresce com saúde.





A cara do Rio, 115 visões do Rio de Janeiro em uma única exposição

25 03 2010

Vista de uma das salas da exposição  A CARA DO RIO  no Centro Cultural dos Correios.  Foto:  Ladyce West

Uma divertida exposição das artes plásticas cariocas: A CARA DO RIO, 2010,  está instalada no Centro Cultural dos Correios, no centro da cidade.   Esta é a 6ª edição dessa exposição que comemora anualmente o aniversário do Rio de Janeiro, juntando trabalhos dos mais diversos artistas visuais, sob um único tema:  a cidade do Rio de Janeiro.    São 115 artistas selecionados na curadoria de Marcelo Frazão.  A exposição que abriu no dia 27 de fevereiro vai até o dia 11 de abril, e se você ainda não foi lá, faça planos, para se encantar, rir, sorrir e se emocionar com as pinturas, esculturas, fotografias expostas.

É difícil escolher dentre tantas obras algumas para ilustrar bem essa postagem.  Mas aqui ficam:

PELA IRREVERÊNCIA:

Redentora, 2010  — DETALHE

Solange Palatnik ( Brasil, Rio de Janeiro, 1944)

Acrílica sobre tela

70 x 200 cm

PELA POESIA:

Vôo da Paz, 2010

Ruth Kac  ( Brasil, Rio de Janeiro, 1945)

Resina

33 x 35 x 47 cm  e 30 x 19 x 33 cm

PELA ALEGRIA:

Praia de Copacabana, 2010

Lúcia de Lima ( Brasil, Rio de Janeiro, 1947)

Acrílica sobre tela

20 x 80 cm

PELA VIBRANTE ENERGIA:

Rio 40 graus, [tetrádico], 2010

Paulo Maurício ( Brasil, Petrópolis,  1960)

Acrílica sobre tela

200 x 200 cm

PELA ALUSÃO HISTÓRICA:

Casario, 2010

Eleny Victoria Eksterman ( Brasil, Riio de Janeiro, 1957)

Giclée em Canvas Hahnemühle

120 x 100 cm

Mas a verdade é que são muito os trabalhos que fascinam, encantam e se fixam nas nossas retinas deslumbradas…  Vale a pena checar esta exposição.   

SERVIÇO:

Centro Cultural Correios
Rua Visconde de Itaboraí, 20 – Centro
Corredor Cultural
20010-976 – Rio de Janeiro – RJ
Telefone: 0XX 21 2253-1580
Fax: 0XX 21 2253-1545
E-mail: centroculturalrj@correios.com.br

Funcionamento:

O Centro Cultural Correios recebe visitantes de terça-feira a domingo, das 12 às 19h
Entrada franca.





A primeira lição, poesia infantil de Zalina Rolim

10 03 2010
Ilustração, Mark Arian

A PRIMEIRA LIÇÃO

 —

                                                                                Zalina Rolim

RAUL não sabe ler;

É um traquinas, que vive toda a hora

Pela campina em fora

A correr, a correr…

Desde pela manhã,

Salta do leito em fraldas de camisa,

E por tudo desliza

Numa alegria sã.

Nada de livros, não;

Para ele a campina, os passarinhos,

Os assaltos aos ninhos,

A pesca ao ribeirão

E as corridas em pós

Dos bezerros e cabras e novilhas,…

Rasgando ásperas trilhas,

Veloz, veloz, veloz!

Mas, um dia, ele viu

A irmãzita no livro debruçada,

E o som de uma risada

O ouvido lhe feriu.

Que teria, meu Deus!

Aquele grande livro tão pesado,

Ali dentro guardado,

Longe dos olhos seus?

E aproximou-se mais.

Ceci, toda entretida na leitura,

Mostrava, rindo, a alvura

Dos dentinhos iguais.

E o pequenito a olhar,

Mas debalde; no livro, aberto em frente,

Letras, letras, somente…

Raul pôs-se a chorar.

Pois não estava ali

Um livro injusto e mau, que até escondia

A causa da alegria

Da risonha Ceci?

Mas a irmã, tal e qual

Uma bondosa mãe ao filho amado,

Fê-lo assentar-se ao lado

E explicou-lhe o seu mal.

E com tanta razão

Que, abrindo atento o livro misterioso,

Raul pediu, ansioso,

A primeira lição.

Maria Zalina Rolim Xavier de Toledo — nasceu em Botucatu (SP), em 20 de julho de 1869.

Professora alfabetizadora transferiu-se com a família para São Paulo em 1893.

Educadora, entre 1896 e 1897, exerceu o cargo de vice-inspetora, do Jardim da Infância anexo à Escola Normal Caetano de Campos, em São Paulo.

Escreveu para diversas revistas femininas e jornais como A Mensageira, O Itapetininga, Correio Paulistano e A Província de São Paulo.

Faleceu em São Paulo, em 24 de junho de 1961.

Obras:

1893 – O coração

1897 – Livro das Crianças

1903 – Livro da saudade (organizado nesta data para publicação póstuma)





Cultura como um meio de seleção natural

8 03 2010
 Caça no paleolítico, no vale do Côa, desenho de Marcos Oliveira.

As populações humanas são influenciadas pelas forças usuais de seleção natural, tais como fome, doença e clima.   Hoje, no entanto, estamos começando a dar valor a um outro aspecto da nossa evolução, uma conseqüência da nossa própria cultura.  Ao longo dos 20 mil anos mais recentes, os seres humanos vêm, inadvertidamente, dando forma à própria evolução, através da cultura, ou seja de qualquer comportamento aprendido, o que inclui também a tecnologia.

Os indícios dessa atividade são tanto mais surpreendentes porquanto a cultura, por muito tempo, parecia desempenhar um papel oposto. Os biólogos a consideravam como um escudo que protege as pessoas contra a plena força de outras pressões seletivas, porque roupas e abrigo reduzem o efeito do frio e a agricultura ajuda a produzir excedentes que eliminam a fome.  Por isso,  essa ação protetora era  considerada como uma atenuante do ritmo de evolução dos seres humanos. Mas agora muitos biólogos passaram a encarar o papel da cultura sob uma luz diferente.

 

A cultura parece representar uma poderosa força de seleção natural.  As pessoas se adaptam geneticamente a mudanças culturais sustentadas, tais como novas dietas.    E essa interação funciona mais rápido do que outras forças seletivas, “levando alguns dos estudiosos a argumentar que a co-evolução de genes e cultura pode ser o modo dominante da evolução humana“, afirmaram Kevin Laland e seus colegas em um estudo publicado na edição de fevereiro da Nature Reviews Genetics. Laland é biólogo evolutivo na Universidade de St. Andrews, Escócia.

A ideia de que genes e cultura co-evoluem existe já há algumas décadas, mas só começou a conquistar adesões recentemente. Dois de seus principais proponentes, Robert Boyd, da Universidade da Califórnia em Los Angeles, e Peter Richerson, da Universidade da Califórnia em Davis, argumentam já há anos que os genes e a cultura agem de forma combinada para determinar a evolução humana.   “Não é queas nossas ideias tivessem sido desprezadas;  fomos apenas ignorados“, disse Boyd.  Mas, nos últimos anos, as referências de outros cientistas aos seus trabalhos “aumentaram imensamente“, ele afirma.

Os melhores indícios disponíveis para Boyd e Richerson de que a cultura age como força seletiva era a tolerância à lactose existente em muitos europeus setentrionais. A maioria das pessoas desativa o gene que digere a lactose presente no leite assim que deixam de mamar, mas os europeus setentrionais – descendentes de uma antiga cultura na qual a criação de gado era importante, que emergiu na região seis mil anos- mantêm esse gene ativo na vida adulta.  A tolerância à lactose é agora reconhecida amplamente como caso no qual uma prática cultural – beber leite não fervido – resultou em mudança evolutiva no genoma humana. Presumivelmente, a nutrição adicional oferecida por essa prática era tão vantajosa que adultos capazes de digerir leite deixavam mais descendentes, o que levou essa mudança genética a predominar em toda uma população.

 

Esse não é o único exemplo de interação entre genética e cultura.  Nos últimos anos, os biólogos estudaram todo o genoma humano em busca de traços de genes que estivessem sofrendo seleção. Esses traços surgem quando uma versão de um gene se torna mais comum do que outras versões porque seus portadores deixam mais descendentes sobreviventes. Com base nos indícios obtidos nesses estudos, até 10% do genoma – ou cerca de dois mil genes- mostravam traços de pressão seletiva.

Essas pressões são todas recentes, em termos evolutivos – e datam provavelmente de entre 10 mil e 20 mil anos no passado, na opinião de Mark Stoneking, geneticista do Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva, em Leipzig, Alemanha. Os biólogos podem inferir a razão para que essas forças seletivas sejam exercidas com base nos tipos de genes que são identificados nos estudos de genoma.    O papel da maioria dos  20 mil genes (aproximadamente)  presentes no genoma humano ainda é mal compreendido.  Mas todos esses genes podem ser designados por amplas categorias de funções prováveis, a depender da estrutura física da proteína que especificam.

Sob esse critério, muitos dos genes em seleção parecem estar respondendo a pressões convencionais. Alguns estão envolvidos no sistema imunológico, e presumivelmente se tornaram mais comuns devido à proteção que conferem contra doenças. Os genes que causam a pele mais pálida comum entre os europeus e asiáticos são provavelmente uma resposta à geografia e clima.   Mas outros genes parecem favorecidos em função de mudanças culturais. Entre eles há muitos genes envolvidos na dieta e metabolismo, que presumivelmente refletem uma grande mudança de dieta ocorrida na transição da fase coletora para a agrícola, iniciada 10 mil anos atrás.   A amilase é uma enzima presente na saliva que serve para dissolver amido. As pessoas que vivem em sociedades agrárias comem mais amido, e dispõem de cópias adicionais do gene da amilase, se comparadas a pessoas de sociedades que dependam da caça ou pesca.

As mudanças genéticas que resultam em tolerância à lactose foram identificadas não apenas nos europeus, mas em três sociedades pastorais africanas. Em cada um desses quatro casos, há uma mutação diferente, mas em todos vê-se o mesmo resultado: prevenir que o gene da digestão da lactose seja desativado quando a criança pára de mamar.    Muitos dos genes de sabor e cheiro demonstram sinais de pressão seletiva, talvez como reflexo na mudança de alimentos consumidos quando as pessoas trocaram a existência nômade pela sedentária. Outro grupo que sofre pressão é o de genes que afetam o crescimento ósseo. Eles podem refletir o peso menor do esqueleto humano que parece ter surgido em decorrência da transição para a vida estática, iniciada cerca de 15 mil anos atrás.

Um terceiro grupo de genes selecionados influencia a função cerebral. O papel desses genes é desconhecido, mas eles podem ter mudado em resposta a uma transição social, quando as pessoas deixaram os pequenos grupos de caçadores-coletores com no máximo 100 integrantes em troca de aldeias e cidades com milhares de moradores, disse Laland. “É  provável que algumas dessas mudanças resultem da agregação, da vida em comunidades mais numerosas“, ele afirma.

Os estudos do genoma certamente sugerem que muitos genes humanos ganharam forma pela ação de forças culturais.  Mas os testes de seleção são puramente estatísticos, e se baseiam em medições sobre a frequência de um gene.  Para determinar que um gene esteve de fato submetido à seleção, os biólogos precisam executar outros testes, como comparar formas selecionadas e não selecionadas do gene e determinar de que maneira elas diferem.

 

Stoneking e seus colegas o fizeram com três genes que mostram resultados elevados em testes estatísticos de seleção. Um dos genes que estudaram, conhecido como EDAR, ao que se sabe está envolvido no controle do crescimento do cabelo. Uma forma variante do EDAR é bastante comum nos leste-asiáticos e nos indígenas americanos, e é provavelmente o motivo para que essas populações tenham cabelos mais espessos que os europeus ou africanos.   Mesmo assim, não há explicação óbvia para que essa variante do EDAR tenha sido favorecida.  O cabelo mais espesso representaria uma vantagem por si só,  já que ajudaria a reter calor nos climas siberianos. Talvez o traço possa ter-se tornado comum pela seleção sexual, porque as pessoas o consideravam com atraente em seus parceiros. Uma terceira possibilidade deriva do fato de o gene funciona ativando um regulador genético que controla o sistema imunológico, e não só o crescimento de cabelo.

Com isso, o gene poderia ter sido favorecido: conferia proteção contra determinada doença, e os cabelos mais espessos seriam simplesmente um efeito colateral. Ou os três fatores poderiam estar em operação simultaneamente. “Trata-se de um dos casos sobre os quais mais sabemos, e ainda assim há muito que não sabemos”, disse Stoneking.

O caso do gene EDAR demonstra como os biólogos precisam ser cautelosos ao interpretar os sinais de seleção detectados nos estudos de genoma. Mas também indica o potencial de que os sinais seletivos tragam à luz alguns eventos importantes da pré-história humana, no período em que os seres humanos em sua forma moderna se dispersaram de seu lar primevo no nordeste da África e se adaptaram a novos ambientes. “Esse é o objetivo final“, disse Stoneking. “Minha formação aconteceu sob uma perspectiva antropológica, e queremos saber qual é a história“.

No caso dos seres humanos arcaicos, a cultura mudava muito devagar. O estilo de ferramentas de pedra conhecido como olduvaiense surgiu 2,5 milhões de anos atrás e se manteve inalterado por um milhão de anos. As ferramentas de pedra acheulenses que o sucederam duraram 1,5 milhão de anos. Mas entre os seres humanos cujo comportamento se considera moderno, os dos últimos 50 mil anos, o tempo de mudança cultural, ficou provado, foi muito mais acelerado. Isso traz à tona a possibilidade de que a evolução humana venha se acelerando, no passado recente, como resultado do impacto de rápidas mudanças culturais.

Alguns biólogos acreditam ainda que essa seja uma possibilidade, não há provas.  Os estudos de genoma que testam a seleção apresentam severas limitações. Não são capazes de ver as assinaturas de seleções passadas, que são eliminadas por novas mutações, de modo que não existe referência contra a qual comparar se a seleção natural recente vem sendo mais rápida do que no passado. Também é altamente provável que muitos dos retornos positivos de genes que parecem ter sido favorecidos não procedam.

Mas os estudos também enfrentam dificuldade para identificar genes de seleção fraca, e por isso podem estar captando apenas uma pequena fração do estresse recente no genoma. Modelos matemáticos da interação entre genes e cultura sugerem que essa forma de seleção natural pode ser especialmente rápida. A cultura se tornou uma força de seleção natural, e caso prove ser uma das maiores, então a evolução humana pode estar se acelerando, à medida que as pessoas se adaptam a pressões que elas mesmas criam.

Tradução: Paulo Migliacci ME

Adaptação minha

FONTES: Terra e The York Times