E a vida segue…

7 09 2012

Luiz Oscar Dubeux

O mundo está mais vazio.  Oco.  As energias não reverberam como antes.  Há uma grande distância entre os objetos.  E estou impressionada que a vida continue normal à minha volta, com pessoas indo e vindo, passeando, conversando, dançando, determinando em quem votar nas próximas eleições, como se não notassem essa mudança no cosmos.   Ah, sim, o mundo mudou, mas foi só para mim, minha família e umas duas ou três dezenas de pessoas que tinham em comum um elo, um amigo, um homem, quase excêntrico, solitário, monástico e católico: Luiz Oscar Dubeux.

Era nosso amigo.  Não só amigo meu e de meu marido.  Era daqueles amigos da família.  L.O. como o chamávamos carinhosamente apareceu no nosso horizonte há aproximadamente 26 anos.  Eu não morava no Brasil na época. Havia uma crise de saúde, um momento delicado, de apreensão na família: cirurgia e especialistas de fora.  Espreitando a situação estava o enigma do discurso médico, um grande empecilho.  A língua estrangeira era dominante e a necessidade de traduções precisas se fazia necessária.  L.O. era  fluente em inglês.  Na verdade sobrevivia ensinando inglês para brasileiros, mas, sobretudo português para estrangeiros.  Algumas traduções documentos e livros recheavam o seu dia a dia.  Habilitou-se a fazer a interpretação simultânea e assim fez-se indispensável,  com sua capa de super-herói disfarçando a vida ascética, de doação.

Passada a bem-sucedida cirurgia, ficou amigo.  Primeiro de meu irmão e sua família.  Depois de minha mãe e de meu outro irmão, naquela época solteiro. Participava de almoços de domingo na casa de mamãe.  Era membro com quem contávamos nas festas de aniversário, na feijoada comemorativa, incluído paulatinamente em todos os rituais familiares.  Passou muitos Natais conosco.  E alguns Anos-Novos também, quando se celebrava o seu aniversário, com atraso de 24 horas.  Era do dia 30 de dezembro. Curioso sobre muitos assuntos culturais, amava a Inglaterra e quase tudo inglês.  Ouvia a BBC pelo rádio bem antes do tempo em que ela surgiu na TV a cabo. Era versado em “britanices”, aquelas pequenas idiossincrasias que fazem os britânicos adoráveis.  Apaixonado pelo cinema desde criança, pois seu pai trabalhara para a Cia. Severiano Ribeiro, aqui no Rio de Janeiro, L.O. tinha assunto sempre, a qualquer hora e se expressava num português maravilhoso, correto, preciso, de vocabulário rico e frases inteiras.  Era um prazer escutá-lo, mesmo se não subscrevêssemos suas opiniões.

Andarilho inveterado, ia a pé à casa de seus alunos. Andava por prazer.  Conhecia todos os caminhos, trilhas e cortes das matas do Rio de Janeiro, porque ia da Gávea, onde morou desde a década de 1960, à Floresta da Tijuca.  Andava também pelo bairro, até uns sete ou oito  anos atrás.  Costumava caminhar  a qualquer hora do dia ou da noite, até que, já mais idoso, foi assaltado numa noite: caiu, quebrou os óculos e se machucou seriamente, quebrando os dentes da frente nessa ocasião.  A partir desse evento, à noite só dava a volta no quarteirão de seu prédio.  Mesmo com o crescimento galopante do bairro, quase todos por aqui o conheciam.  Tomava café no Shopping onde lia o jornal diariamente.  Conhecia e falava com todo mundo. Sabia o nome de todos os seguranças das ruas, conhecia os porteiros dos prédios, os donos dos estabelecimentos comerciais, os garçons, os jornaleiros e principalmente os moradores mais diversos, seus cachorros, e o nome de seus cachorros.

Luiz Oscar era um homem sociável.  Muito sociável.  Amante da musica clássica, custou a se “computarizar” e se o fez, foi graças aos amigos.  Solteirão, como falava minha mãe.  Havia uma noiva escondida em alguma época de seu passado, vítima de uma morte prematura.  Orgulhava-se de ter  sido aluno do Colégio Padre Antônio Vieira, aqui no Rio de Janeiro e  ainda tinha amigos dos tempos de escola. Católico à moda antiga, participava da missa em latim, celebrada na PUC e ocasionalmente ia ao Mosteiro de São Bento para uma missa cantada.  Mas não fazia proselitismo.  Um quase monge, tinha o lugar na família que muitos padres costumavam ocupar em priscas eras: era parte presente, sempre convidado, sempre bem-vindo, sempre afável, sempre consultado.  Bom ouvinte.

Boas amizades só florescem e dão frutos quando respeitamos “o outro” intacto, pleno.  E não era difícil aceitar os hábitos e vieses de Luiz Oscar, porque eles nos enriqueciam e nos mantinham em deslumbramento.  Inveterado documentador de sua própria existência L.O. escrevia tudo que se passava com ele diariamente.  Era, portanto, capaz de nos dizer: eu o conheci pela primeira vez no dia tal, da semana tal, do ano…  Sabia das datas e do que havia feito e com quem precisamente.  Provavelmente mais consequência de uma vida solitária do que por obsessão irracional.  Como bom tradutor e professor de línguas colecionava expressões em português, inglês britânico e americano.  Tinha uma centena de projetos em andamento… Também conseguia se lembrar de todas as datas importantes em sua vida assim como na vida de seus amigos.  Não havia um aniversário sem felicidades, uma viagem de que chegássemos sem as boas-vindas num telefonema cordial.   Como andarilho observava a cidade à sua volta, à sua maneira.  Sabia a distância aproximada dos lugares que frequentava em metros, passos e minutos a pé.  Sabia o número de degraus da maioria das escadarias que subia.  Foi o responsável por eu ter andado a praia de Copacabana diversas vezes, quando morei naquele bairro, contanto o número de edifícios de frente para o mar… Ele sabia.  Eu, que andava pela manhã para me exercitar, caí na esparrela de verificar se ele estava certo.  Diferimos.  Mas chegamos ao motivo: havia edifícios cujas entradas eram pelas ruas laterais e não considerados “de frente” para o mar. Dou exemplos de suas maneiras de entreter a mente para ilustrar essa mente alerta, para lembrar o homem que foi.  Perdemos L.O. esta semana.  Morreu como viveu,  só.  Sem familiares à sua volta.  Vai-se para tristeza dos muitos amigos, sua família por escolha.  Meu marido não terá mais o companheiro dos chopes de quintas-feiras, dos vídeos de filmes antigos e sentirá a ausência do torcedor da seleção brasileira nos jogos internacionais. Meu marido perde seu melhor amigo no Brasil.

E a vida segue.





Quadrinha da pescaria diária

3 09 2012

Ilustração Walt Disney.

Para não faltar o peixe,

Na mesa do nosso lar,

O pescador, bem cedinho,

Sua rede atira no mar.

(Walter Nieble de Freitas)





Palavras para lembrar — André Gide

2 09 2012

Menina lendo, 1918

Pekka Halonen ( Finlândia,1865-1933)

Óleo sobre tela  67 x 52 cm

Coleção Particular

“Ler as obras de um escritor não é para mim simplesmente ter uma ideia do que ele diz, mas sair com ele, viajando em sua companhia.”

André Gide





Narciso e o Regato — poema de Bastos Tigre

2 09 2012

Eco e Narciso, 1903

John William Waterhouse (Inglaterra, 1849-1917)

óleo sobre tela, 109 x 189 cm

Walker Art Gallery, Liverpool

Narciso e o Regato

Bastos Tigre

Sobre um tema de Oscar Wilde

Morreu Narciso. A triste nova

Correu, veloz, vale e colina,

Em luto, as flores todas da campina,

De pesar como prova,

Choraram longamente a morte de Narciso.

De repente, cessou o alegre riso

Que enchia o campo todas as manhãs.

Narciso era a beleza

Que iluminava a Natureza

E espalhava no espaço harmonias pagãs.

Por isso as flores todas da campina

Choraram tanto, tanto,

Que já não tinha gotas a neblina

Com que pudesse alimentar o pranto

Das desoladas flores.

Resolveram pedir a linfa cristalina

Do regato, um bocado de sua água;

E falaram-lhe assim:  — Narciso é morto!

À  nossa dor à nossa funda mágoa

O pranto falta que nos dê conforto.

Dá-nos uma pouco de tua água pura.

Mas o regato retorquiu: — Não posso…

Meu sofrimento inda é maior que o vosso!

A água que tenho não me basta

Para afogar a minha própria dor…

Sabeis? Narciso a sua face linda

Mirava, todo o dia, em minha face…

— E amavas tanto vê-lo? interroga uma flor

— Não é que o não amasse

(Volve o regato) mas o meu desgosto

Aqui vo-lo revelo,

Não é a falta de lhe ver o rosto

Mas porque, quando em mim se contemplava,

Nos olhos de Narciso eu me mirava

E me achava tão belo! E me achava tão belo!

Em: Antologia Poética, Bastos Tigre, vol. I, Rio de Janeiro, Editora Francisco Alves: 1982





100 anos! É hora de comemorar!

1 09 2012

Meu pai, 1980.

Ontem, se estivesse vivo, meu pai teria completado cem anos. A família se reuniu numa pizzaria para celebrar.  Três gerações, dezoito pessoas, se encontraram.  Foi uma reafirmação dos laços de família, um encontro muito feliz. Hoje tenho um misto de gratidão, nostalgia e profunda felicidade ao repensar esse delicioso encontro familiar. Não somos uma família muito grande e apesar de morarmos todos próximos, aqui no Rio de Janeiro, os afazeres diários muitas vezes nos deixam sem nos ver por meses.  Uma reunião como esta veio em boa hora: não há mais ninguém vivo da geração de meus pais.  Somos eu, meu irmão, minha cunhada e meus primos, agora os “cabeças” da família. E à medida que vemos nossos filhos crescerem, e já outra geração vir aparecendo, os bisnetos da geração de papai, há uma maravilhosa sensação de comunidade que se consolida e que me faz uma pessoa muito satisfeita e completa. Gosto saber que pertenço a esse grupo, esse meu grupo.

Depois dessa celebração à vida e à família fui permeada por um carinho imenso aos que estiveram lá para esse momento de camaradagem e alegria: Harry, meu marido e Ricardo-Celso, meu irmão; Claudine, minha cunhada, meus sobrinhos: Christiane, Rômulo, Anna Paula, Heitor-Gessner.  Meu sobrinho-neto: Matheus; meus primos, Murilo, Lúcia, Ronaldo, Rogério, Gisela e Vera Regina. Minha prima-sobrinha e afilhada: Cecília e Júlio, sobrinhos netos e primos, Bruno e Beatriz.  A todos o meu carinho e agradecimento por momentos de imensa felicidade e plenitude. Amo muito minha família.





O papagaio real, conto tradicional do Brasil, coletado por Luiz da Cãmara Cascudo

28 08 2012

Jovem reclinada com papagaio

Valentine Cameron Prinsep (Inglaterra,  1838-1904)

óleo sobre tela

O papagaio real

Duas moças moravam juntas e eram irmãs, uma muito boa e a outra maldizente e preguiçosa. Cada uma tinha seu quarto. A mais velha começou a notar um barulho de asa e depois fala de homem no quarto da irmã. Ficou desconfiada e foi olhar pelo buraco da fechadura.  Viu uma bacia cheia d’água no meio do quarto.  Quando deu meia-noite chegou na janela um papagaio enorme, muito bonito e voou para dentro, metendo-se na bacia, sacudindo-se todo, espalhando água para todos os lados. Cada gota d’água virava ouro e o papagaioo, quando saiu do banho, foi um príncipe mais formoso do mundo. Sentou-se ao lado da irmã e pegaram a conversar como noivos. A irmã ficou roxa de inveja. No outro dia, de tarde, encheu o peitoril da janela de cacos de vidro, assim como a bacia. Nas horas da noite o papagaio chegou e batendo no peitoril cortou-se todo. Voou para a bacia e cortou-se ainda mais. Arrastando-se, o papagaio não virou príncipe, mas chegou até a janela e disse para a moça que estava assombrada com o que acontecera:

— Ai ingrata! Dobraste-me os encantos! Se me quiseres ver só no reino de Acelóis

E, batendo asas, desapareceu. A moça quase se acaba de chorar e de se lastimar. Brigou muito com a irmã e deixou a casa, procurando o noivo pelo mundo. Ia andando, empregando-se como criada nas casas só para perguntar onde ficava o reino de Acelóis. Ninguém sabia ensinar e a moça ia ficando desanimada.

Uma noite, depois de muito viajar, já cansada, ficou com medo dos animais ferozes e subiu em uma árvore, escondendo-se bem nas folhas. Estava amoquecada quando diversos bichos esquisitos chegaram para baixo do pé de pau e pegaram a conversar.

— De onde chegou você?

— Do reino da Lua!

— E você?

— O reino do Sol!

— E você?

— Do reino dos Ventos!

A moça prestou atenção. No primeiro cantar dos galos sumiram-se todos, e ela desceu e continuou a marcha. Andou, andou, até que chegou noutra mata e, para não ser devorada, trepou numa árvore. Lá em cima, quando a noite ficou bem fechada, chegaram umas vozes no pé do pau.

— De onde veio?

— Do reino da Estrela!

— De onde veio?

— Do reino de Acelóis!

— Que novidades me traz?

— O príncipe está doente e ninguém sabe como tratar dele…

A moça botou reparo e na madrugada seguiu no mesmo rumo pois as vozes já tratavam do reino de Acelóis. Andou, andou, andou. Finalmente, quando anoiteceu, estava dentro de uma floresta. Subiu em um pau e ficou quieta, lá em cima. Mais tarde as vozes começaram na falaria:

— De onde vem você?

— Do reino de Acelóis!

— Como vai o príncipe?

— Vai mal, coitado, não tem remédio!

— Ora não tem! Tem! O remédio é ele beber três gotas de sangue do dedo mindinho de uma moça donzela que queria morrer por ele!

Quando amanheceu o dia, a moça tocou-se na estrada. Ia o sol se sumindo quando ela avistou o reinado de Acelóis. Entrou no reinado e pediu agasalho numa casa. Na hora da ceia perguntou o que havia e disseram que o assunto da terra era a doença do príncipe. A moça, no outro dia, mudou os trajes, foi ao palácio e pediu para falar com o rei.

— Rei Senhor! Atrevo-me a dizer que ponho o príncipe bonzinho se Rei Senhor me der, de tinta e papel, a metade do reinado e de tudo quanto lhe pertencer.

O rei deu, de tinta e papel, a metade de tudo que possuía. A moça foi para o quarto, meiou um copo d’água, furou o dedo mindinho, botou três gotas de sangue dentro, misturou e mandou ele beber. Assim que o príncipe engoliu, foi abrindo os olhos, levantando-se da cama e abraçando a moça, numa alegria por demais.

O rei ficou muito satisfeito e quando o príncipe disse que aquela era a sua verdadeira noiva desde o tempo em que ele estava encantado em um papagaio real, o rei não quis dar consentimento porque a moça não era princesa. A moça então falou:

— Rei Senhor! Tenho por tinta e papel a metade de tudo quanto é do rei senhor neste reinado. O príncipe é do rei senhor e eu tenho por minha a metade dele. Se rei senhor não quiser que eu case com ele inteiro, levarei para casa uma banda.

Ao ouvir falar em cortar o príncipe pelo meio, como a um porco, o rei chegou-se às boas e deu o consentimento. Foram três dias de festas e danças e até eu me meti no meio, trazendo uma latinha de doce, mas na ladeira do Encontrão, dei uma queda e ela, páfo! —no chão!…

Em: Contos Tradicionais do Brasil (folclore) de Luís da Câmara Cascudo, Rio de Janeiro, Ediouro:1967





Palavras para lembrar — Frederick Douglass

27 08 2012

Lendo, 1911

Antoni Mancini (Itália, 1852-1930)

Óleo sobre tela,  60 x 90 cm

“Uma vez tendo aprendido a ler, você será para sempre livre”. 

Frederick Douglass





Vidas simples, Corrêa Júnior

26 08 2012

Carro de boi, s/d

João Bosco Campos (Brasil, contemporâneo)

óleo sobre tela, 50 x 70 cm

Blog do José Rosário

Vidas simples

Corrêa Júnior

Eis-me aqui, na bucólica doçura

desta risonha e encantadora vila,

onde gozo, há dois meses, a ventura

de uma vida suavíssima e tranquila.

Palpitante de cores e de festas,

a mata em flor abre-se em mil botões…

Que alvoroço de ninhos, nas florestas!

Que infinito de paz, nos corações!

Aqui tudo à alegria nos exorta;

há pureza nas almas e no clima;

o ar sadio da terra nos conforta,

a bondade dos homens nos anima.

Vendo, assim, tão perto a natureza

cheia de encantos e de exemplos sábios,

a gente há de ter sempre, com certeza,

mais ternura nos olhos e nos lábios.

Longe da agitação e do barulho,

ante a moldura desta vida calma,

o homem se despe da maldade e orgulho,

e veste de esperanças a sua alma.

E, quando, um dia, ele regressa à vida

agitada das grandes capitais,

a alma que nele volta agradecida,

dessas paragens não esquece mais!

Em: Criança Brasileira, terceiro livro de leitura, Theobaldo Miranda Santos,  [edição especial para o Rio Grande do Sul],  Rio de Janeiro, Agir: 1950.





Escrevendo resenhas de livros: crítica positiva ou negativa?

24 08 2012

Aisha lendo Joseph Campbell, 2000

Milé Murtanovski (Canadá, 1979)

Aquarela,  57 x 57 cm

Milé Murtanovski

O artigo de J. Robert Lennon, How to write a bad review, do dia 18 de agosto deste ano, publicado na Salon, aborda um tema digno de reflexão: o papel a crítica nos romances de ficção.  Desde que a internet se tornou a sala de estar para o encontro de ideias e de gostos literários, vejo resenhas de livros de toda espécie.  A prática é mais acentuada nos Estados Unidos que têm longa tradição de incentivo nas escolas secundárias e no nível universitário à crítica de texto e à total liberdade de expressão.  Em suma, não há por lá os parâmetros que enfrentamos aqui no Brasil, quer na crítica literária, quer na campanha política, nem tampouco nas regras da publicidade.  Parâmetros que limitam  a comparação explícita de produtos semelhantes de diferentes marcas, que proíbem a menção de um concorrente em campanha política.  Essa distorção brasileira, que tenta abrandar a competição e evitar a priori o que poderia ser considerado competição “desleal” leva a que não se possa debater verdadeiramente qualquer assunto, muito menos uma obra de ficção.

Meu passado como leitora/crítica inclui resenhas publicadas para jornais americanos, algumas das quais chegaram até a ser mencionadas como blurb nas contracapas de edições mais populares de livros criticados por mim  – cito, como exemplo, a contracapa de The Road to Lichfield, de Penelope Lively.   Meu hábito de escrever resenhas vem de longa data, como já expliquei anteriormente no blog: faço-as porque elas me ajudam a finalizar, a sedimentar a leitura de um livro.  Quando a Amazon apareceu abrindo seu espaço para resenhas e até listas de recomendação, passei a escrever lá sobre livros que lia. Até listas de livros recomendados cheguei a fazer sobre assuntos diversos.

Café, década de 1920

Gerda Wegener (Dinamarca, 1886-1940)

gravura

O hábito veio comigo para o Brasil. Depois de me familiarizar com publicações brasileiras, coloquei algumas opiniões no portal da livraria online Submarino.  Qual não foi a minha surpresa ao verificar que pelas regras do portal, eu não poderia fazer comparações com qualquer outro livro [mesmo que do mesmo autor] e que as resenhas mais críticas, mostrando o meu desgosto ou desprezo pelo que acabara de ler, não poderiam e não foram publicadas.   Na época — e já lá se vão uns quase dez anos — fiquei pasma com o cerceamento à minha liberdade de expressão.

Comparando a experiência que tive entre esses semelhantes portais (ambas livrarias na rede que aceitavam a opinião dos leitores) havia uma evidente tentativa de censura a qualquer opinião negativa no Brasil.  Isso justificava, em parte,  a  insossa lista de opiniões sobre livros no portal da companhia brasileira.  Críticas ou opiniões que se limitavam a expressões adolescentes quer na idade ou na mente.  “AMEI!” ou pior ainda,” acho que vou gostar, ainda não li”  eram frases comuns encontradas nas supostas opiniões sobre livros de diversos autores.  Não sei se o portal Submarino mudou sua política quanto a opiniões dos leitores.  Não sei, porque me desinteressei de colocar minhas opiniões por lá.  E agora, já a caminho do quinto ano do blog, coloco minhas resenhas aqui e assim como no portal SKOOB onde nunca tive minhas opiniões limitadas ou censuradas.

Leitora, [La Liseuse] 1873

Jules Dalou (França, 1838-1902)

Terracota

Museu  de Arte, Rhode Island School of Design, EUA

Diferente do que propõe o autor J. Robert Lennon há alguns anos não escrevo resenhas de livros de que não gosto.  Já tive essa fase, e causei algum espanto quando desbaratei com um livro de contos da premiada Nadine Gordimer por achá-los previsíveis demais e outra em que reclamei dos lugares comuns na prosa de Isabel Allende.  A decisão de não escrever sobre aquilo de que não gosto vem dos últimos vinte anos. Não tenho a verve da ironia, do sarcasmo bem controlado, da palavra destruidora em uma única nota que vemos nos grandes críticos literários ou de arte. Esse dom me escapa. Ainda este mês, fiz uma pequena homenagem ao crítico de arte Robert Hughes, cujo falecimento havia sido anunciado.  Homenagem merecida por ele ter sido tão consistente na defesa de suas opiniões, mantendo-as claras, irônicas ou sarcásticas quando assim achava necessário.  Ele brindava o espírito crítico, o posicionamento sem apelos ao politicamente correto.  Muitos outros grandes críticos conseguem surpreender e suscitam um sorriso de reconhecimento por um ponto de vista sagaz, acurado, mesmerizante.  Isso acontecia com Gore Vidal, Oscar Wilde ou até mesmo Eça de Queiroz.  Minhas limitações não me deixam escrever assim, ainda que aprecie quem consiga se posicionar de maneira lúcida e aguda ao analisar um livro, uma obra de arte.

Por outro lado, depois que percebi o alcance que uma crítica colocada na rede pode ter, desisti de escrever resenhas de livros de que não gosto, de promovê-los mesmo que negativamente. Seria um absurdo fazer propaganda para algo que não endosso. Decidi então examinar porque certos livros se mostram interessantes na leitura e procuro explorar esse aspecto e incentivar as boas características do que leio ao longo do caminho.

Sem título

Carmen Segovia (Espanha, 1978)

www.carmensegovia.net

J. Robert Lennon menciona o grande número de críticas literárias que apareceram na rede desde a popularização dos blogs. Tanto nos Estados Unidos – de onde ele escreve – quanto no Brasil, onde nos encontramos, houve uma verdadeira inflação de resenhas literárias nos últimos dez anos.  Parece que todo mundo descobriu que pode dar a sua opinião.  E todos esperam que suas opiniões sejam lidas e apreciadas.  Deixamos de ficar calados e saímos à procura de “gente como a gente” nessa aventura coletiva da internet.  Esse fenômeno tem tudo para mudar o comportamento de todos os envolvidos: leitores e escritores.  Mas como está sendo usado?

Diferente dos Estados Unidos, a grande maioria dos usuários ativos na internet no Brasil  —   e certamente daqueles que se dispõem a escrever resenhas — são jovens.  Há uma timidez  no Brasil ao uso da internet por aqueles acima dos quarenta anos, e aversão generalizada por pessoas que temem a exposição demasiada, pelejam pela privacidade, como se não pudéssemos controlar aquilo que colocamos na rede.  Isso aumenta o domínio dos jovens nas discussões online, nos comentários, nos blogs, nas críticas.  Esses jovens críticos literários parecem estar ainda no processo de formação acadêmica na escola ou na faculdade. Testam suas habilidades e opiniões; procuram a identidade de suas cabeças pensantes.

A grande leitura do dia, 1950

Jean Hélion (França, 1904-1987)

óleo sobre tela, 128 x 190 cm

Coleção Particular

Nos portais dedicados à leitura, grande parte simplesmente copia e cola sinopses, menciona sem caracterização que adoraram a leitura, com uma ocasional menção da trama.  Parecem querer mostrar que leram os livros, mas fica por aí.  E há os que sentem a obrigação de mencionar autores clássicos, quando não filósofos, sedimentando suas opiniões nas raízes do passado, na boa atuação acadêmica, como se ter opiniões só fosse válido se nos mostrássemos eruditos. Refletem assim a posição acadêmica de praxe.  Na pressa de se mostrarem sábios ligam-se ao anacronismo da divisão de profetas da direita e da esquerda. Como se o mundo ainda se dividisse assim. Mas não é culpa deles.  É nossa.  Porque aceitamos diariamente esse tipo de discurso.

Há uma divisão marcante, cá, do lado de baixo do Equador,  entre Literatura e literatura, entre o que “Vale a pena ler” e o que “Não serve para nada”.  Uma divisão que desvenda um intelectualismo preconceituoso, uma hierarquização proporcional à elitização da cultura, um enfoque incompatível com a educação ampla e com o livre acesso digital.  Isso distancia bastante os intelectuais dos amantes da ficção.  Nos jornais, nos cadernos dedicados aos livros, cansamos de ver críticos esnobando o leitor médio, para dar espaço unicamente a alguma tese linguística do momento, alguma visão crítica europeia, que tira o chapéu para o filósofo da moda de esquerda ou para o filósofo que abandonou “os poderes nefastos da direita”.   Pouco se fala no prazer da leitura, nos motivos ou nas razões para nos deliciarmos, para refletirmos por algumas horas ou alguns dias, envolvidos por uma obra de ficção.  A leitura por esses supostos analistas da literatura não parece sedutora, não acorda sentimentos, não sacia fomes, não embriaga.

Robin com o amigo Trixie, em Torquay, 1952

Peter Samuelson (Inglaterra, 1912-1996)

óleo sobre tela, 64 x 84 cms

Coleção Particular

E, no entanto, são justamente as pessoas que não se interessam pelas teorias da moda, pelo filósofo do momento que agitam o mundo das publicações.  São esses leitores, que não se veem refletidos nos cadernos literários dos jornais, que mantêm editores, agentes e livrarias no azul, pessoas que compram livros recomendados por amigos, na mais preciosa das propagandas, o boca a boca, e que fazem de seus autores preferidos casos de sucesso literário, além, muito além da “mídia especializada”.  Diversos nomes ilustram essa divisão entre o que alguns consideram bons e o que o público aclama. A nossa história contemporânea de publicações está repleta desses fenômenos ignorados pela crítica, mas aplaudidos pelo público:  Rosa Montero, Muriel Barbery, Paolo Giordano, Fal Azevedo, Ronaldo Wrobel, Frances de Pontes Peebles, Maria Dueñas são só alguns dos que vêm à mente no momento. E não adianta dizer que o publico é inculto.  Aquele que hoje vai a uma livraria e compra um volume para leitura não é inculto.  É muitas vezes mais letrado do que os próprios críticos que se esforçam em preservar um preciosismo antiquado e segmentar as camadas de leitores, sem lhes dar crédito.  Todos perdem com essa cegueira que nos aflige: leitores, futuros leitores, autores, editores.  E nós também perdemos espaço para trocar ideias, para encontrar pessoas de gostos semelhantes, para analisarmos pela experiência o sentido da leitura.  Daí a crescente necessidade de grupos de leitura,  como recentemente mostrou o jornal O Globo do Rio de Janeiro, onde opinamos num ambiente de camaradagem, em que todos são iguais e respeitam diferentes pontos de vista.

Quanto às críticas literárias que destroem autores e livros, digam-me:  — Para quê e para quem?   Mas se você acredita que deve de fato destruir um livro, faça-o seguindo as poucas regras que J. Robert Lennon coloca em seu texto:

1 – Coloque a obra em contexto, de preferência lendo o maior número de títulos do autor.

2 – Tenha humildade quando mostrar sua opinião.

3 – Se o escritor é novato, ainda está no terceiro ou quarto livro, dê a ele crédito.

4 – Não critique o trabalho de seu inimigo

5 – Não seja um idiota

6 – Seja ponderado

7 – Lembre-se que o mundo da crítica literária é pequeno e não se importe quando alguém abominar o seu livro.





Quadrinha do pião

22 08 2012

Chico Bento procura por seu pião. Ilustração de Maurício de Sousa.

Joga o teu pião, menino,
aproveita a brincadeira,
que a fieira do destino
vai jogar-te a vida inteira…

(Edgard Barcellos Cerqueira)