O labirinto em Serena, de Ian McEwan

4 10 2012

Relatividade, 1953

M. C. Escher (Holanda, 1898-1972)

Litografia

Inicialmente pensei que a imagem mais apropriada para ilustrar o livro Serena de Ian McEwan fosse uma das paisagens de Estaque do pintor francês e fundador do cubismo, Georges Braque, tal como Viaduto de Estaque ilustrado abaixo.   Nesta tela vemos uma paisagem com algumas casas rodeadas de vegetação e um viaduto romano ao fundo.  Nós compreendemos a cena, e ainda a vemos mais completa, porque somos instruídos — através da criativa maneira de pintar desenvolvida pelos cubistas, inspirados por Cézanne —  sobre as demais facetas da paisagem que revela diversos elementos vistos por diferentes ângulos, que não estariam dentro das nossas possibilidades entrever.  Com o  uso de múltiplas perspectivas Georges Braque neste caso permite que  conheçamos “o outro lado da lua”, ou seja: os dois lados de um telhado que nossa visão não permitiria perceber, ou a fachada de uma casa,  que ele levanta  ligeiramente,  por cima das casas na frente, para que vejamos a série de janelas paralelas corridas.  Essa visão compreensiva, giroscópica,  do tema, dos objetos ou pessoas retratadas, explorada pelos cubistas constitui em grande parte a maneira narrativa de Ian McEwan.

Viaduto de Estaque, 1908

Georges Braque (França, 1882-1963)

óleo sobre tela, 72 x 59 cm

Museu de Arte Moderna, Centro Pompidou, Paris

Mas à medida que o texto avançou e certamente depois que cheguei ao fim do romance,  a visão cubista, ainda que interessante,  não me satisfez.  Porque é um texto que se renova, que se reencontra e que recomeça.  É um labirinto com alguns becos, algumas passagens em múltiplos níveis, com algumas realidades paralelas, como se estivéssemos num jogo digital e uma vez ou outra achássemos a porta que nos leva direto até o próximo nível, sem termos que lutar com o dragão ou algum inimigo inesperado.  Esta é uma história que vai e volta e se aprofunda em diversos níveis sem que saibamos por que estamos sendo levados por aquele caminho e de repente, parecemos voltar ao ponto inicial como em um rondó musical ou em uma fita de Möebius.  E foi pensando nela que acabei selecionando uma das muitas gravuras de M. C. Escher para dar o tom visual do que acontece com o leitor de Serena.  Escolhi a gravura Relatividade, uma litografia cuja primeira tiragem foi feita em 1953, porque esse artista holandês é quem, nas artes plásticas, de meu conhecimento, melhor exemplifica a minha experiência ao terminar esse texto.

É a habilidade narrativa de McEwan que permite que se chegue ao final da trama capaz de entender os diversos níveis em que ela se desenvolve. E ser surpreendido.  Totalmente surpreendido.  Este é um romance, um thriller, que aparenta tratar de espionagem na década de 60 do século passado. Espionagem envolvendo o fabuloso serviço inglês MI5 já bastante caracterizado na literatura, no cinema e em programas televisivos pela sua invencibilidade.   Não há nenhum James Bond, mesmo em se tratando de Londres, cidade onde Serena,  que acabou de terminar o curso superior numa excelente universidade inglesa, arranja seu primeiro emprego.  A jovem é a nossa porta de entrada para esta aventura literária que insiste em parecer simples e direta.  Até que, em certo momento, temos a sensação de que talvez não estejamos lendo coma atenção necessária.  No meu caso foi lá pela página 140, quando parei e voltei ao início.  Mas tive relatos de outros leitores, talvez mais sensíveis, mais perceptíveis, que o fizeram umas 50 páginas antes.  De qualquer modo, o leitor sente que  há algo no ar mas não sabe onde, nem o quê, nem o porquê. E assim se desenrola a narrativa.

Ian McEwan

Mais do que um thriller, Serena é um livro sobre ficção.  Sobre diversos níveis de ficção. Sobre a ficção que encontramos no dia a dia, na fabricação de quem somos, no contar e recontar de nossos movimentos de nossas ações.  Temos a ficção de espiões e a ficção de quem escreve ficção.  Este é um   romance baseado no ato de simular, na habilidade do fingimento.  Ian McEwan explora aqui  a tênua linha que define realidade.  Este romance é uma ode à imaginação.  À nossa habilidade, à capacidade humana de iludir e de aceitar ser iludida.  A narrativa é um quebra-cabeça, um Cubo de Rubik com faces de espelhos, onde tudo se encaixa, a qualquer momento em qualquer hora,  porque tudo, absolutamente tudo não passa de ficção.  Uma narrativa brilhante.

Minha objeção está na personagem que achei o menos crível dos elementos.  Mas como acreditar em um personagem que nos ajuda a construir o ficcional?  Como julgar aquele que nos faz crer e que nos ajuda a descrer. Este é o impasse a que chegamos.  E a mensagem é simples: não creia, não acredite.  Tudo não passa de ficção.  Nem mesmo eu, nem você que me lê, nem Serena.





Quadrinha do aluno confuso

3 10 2012

Pergunta a mestra ao menino,
aluno meio confuso:
– a porca… tem masculino?
– tem, ‘fessora… o parafuso!

(Edmar Japiassú Maia)





Palavras para lembrar — Benjamin Franklin

3 10 2012

Lisa

Jackie Knott (EUA, contemporânea)

óleo sobre tela

Coleção Particular, Texas

www.texasportraitpainter.com

” Ou escreva algo que valha a pena ler, ou faça alguma coisa que valha a pena escrever”.


Benjamin Franklin





Borboletas são? poema de Maria Helena Sleutjes

2 10 2012

Borboletas, ilustração de Brita Barlow, para capa da revista americana Better Homes & Garden, de setembro de 1933.

Borboletas são?

Maria Helena Sleutjes

Borboletas, como explicar?

São insetos…

Nem pensar!

São pedaços coloridos

Que voam.

Isto sim!

São as almas das flores

Visitando os jardins.

Isto sim!

Borboletas, como explicar?

São Lepidópteras…

Nem pensar!

São reflexos de anjos

Que flutuam.

Isto sim!

Borboletas

São pequenas bailarinas

São crianças dançarinas

Pedaços de serpentinas

No canto do meu olhar.

 –





Imagem de leitura — Arshile Gorky

1 10 2012

Walinska, 1941

Arshile Gorky (Armênia, 1904-1948)

óleo sobre tela

Arshile Gorky nasceu em Khorgom,  na Armênia em 1904. Seu pai emigrou para os Estados Unidos em 1910.  Gorky sobreviveu, em 1915, ao Genocídio Armeno  fugindo com a mãe e suas três irmãs para território russo.  A mãe morreu de fome em 1919. Gorky finalmente emigrou para os EUA em 1920 aos 16 anos, onde se encontrou com o pai, mas nunca chegaram a ser próximos.  Em 1922 iniciou seus estudos de pintura em Boston.  Logo se informou a respeito dos pintores  pós-impressionistas, sendo bastante influenciado, inicialmente por Paul Cézanne.  Desenvolveu no entanto estilo próprio chegado à pintra automática dos surrealistas e forma um elo entre a arte do início do século na Europa e o expressionismo abstrato de pós-segunda-guerra, nos Estados Unidos.  Suicidou-se em 1948.





E você, quando crescer vai ser o quê? Homenagem às mulheres cientistas de renome

1 10 2012

Mulheres fenomenais, s/d

[DETALHE]

Maragaret Warfield (EUA, contemporânea)

Serigrafia

Margaret Warfield

O jornal virtual da organização Brain Pickings tem hoje um artigo maravilhoso em que mostra seis posteres minimalistas e desenhados por Hydrogene Portifolio que celebram seis mulheres fenomenais  das ciências ( e aqui uso o título do quadro acima que escolhi para esta postagem).  Faço da homenagem deles a minha também na esperança de incentivar as meninas e jovens a se tornarem cientistas.

Marie Curie (1867-1934) foi uma cientista polonesa.  Trabalhou na França onde desenvolveu suas descobertas no campo da radiotiavidade. Foi a primeira pessoa a ser laureada duas vezes com o Prêmio Nobel: Física, em 1903 (dividido com seu marido, Pierre Curie, e Becquerel) e Química, em 1911 pela descoberta dos elementos químicos rádio e polônio.

Jane Goodall (1934) nasceu na Inglaterra.  Dedica-se  há mais de 45 anos ao estudo dos chimpanzés, suas interações familiares e sociais.  Batalhadora pela conservação do meio ambiente e defensora dos direitos dos animais.

Grace Hopper (1906-1992) nasceu em Nova York . Foi uma cientista de computação e uma oficial da marinha americana.  Pioneira no campo da computação foi uma das primeiras programadoras contribuindo entre outros feitos para os alicerces da linguagem COBOL.

Rosalind Franklin (1920-1958) nasceu na Inglaterra. Biofísica, sua grande contribuição foi no entendimento das estruturas moleculares do DNA, do RNA, dos virus e do carvão.

Rachel Carson — (1907-1964) nasceu nos Estados Unidos.  Foi bióloga-marinha e trabalhou com a proteção ao meio ambiente.  Seu livro Primavera Silenciosa deu origem ao movimento de proteção ao meio ambiente no mundo.

Sally Ride (1951-2012), nasceu nos Estados Unidos.  Fisica e astronauta. Foi a primeira mulher a dar a volta na Terra em órbita (1983).

Que as nossas meninas se mirem nesses exemplos.  Nem todo mundo precisa ser modelo ou atriz de televisão para ter sucesso.  Muito sucesso.   Há muito espaço para que outras prendas, outras qualidades sejam reconhecidas. O importante é fazer aquilo de que você gosta.

E você, quando crescer, vai ser o quê?





Quadrinha do segredo da felicidade

1 10 2012

Cascão dá flores para Mônica, ilustração de Maurício de Sousa.

Sei que não foge à verdade,
você também pode crer;
em amor, felicidade
é dar mais que receber.


(Nice Nascimento)





O morcego, soneto de Da Costa e Silva

30 09 2012

Morcego, ilustração sem autoria da década de 1920.

O morcego

Da Costa e Silva

Como uma borboleta escura e desconforme,

Suspenso pelos pés com o instintivo emprego

Das garras que o sustém, o mórbido morcego,

Tonto de sono e luz, durante o dia dorme.

Dorme durante o dia; e à noite, ei-lo, conforme

É costume, senhor do pávido sossego,

Abrindo o membranoso e elástico refego

Das asas que-lhe dão um todo demiforme.

Rasgando, em largo voo, a treva ampla e uniforme,

O noturno avejão guincha em desassossego,

A pupila incendida a arder na noite enorme.

E é de ver-se, depois, em lânguido aconchego,

As asas a abanar sobre o animal que dorme,

O sanguinário egoísmo em forma de morcego.

Em: Poesias Completas, Da Costa e Silva, Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1985 [edição do centenário]

Antônio Francisco da Costa e Silva ( Brasil, [PI] 1885 — [RJ] 1950) poeta, jornalista.  Advogado, cursou a  Faculdade do Direito do Recife. Trabalho no Ministério da Fazenda.

Obras:

Sangue (1908),

 Elegia dos Olhos, s/d

Poema da Natureza, s/d

Clepsidra, s/d

 Zodíaco (1917),

 Verhaeren (1917),

Pandora (1919),

Verônica (1927),

Alhambra (1925-1933), obra póstuma inacabada,

 Antologia (coleção de poemas publicada em vida – 1934),

Poesias Completas (1950) (1975) (1985), coletânea póstuma.





Palavras para lembrar — Angela Carter

29 09 2012

Sem título, s/d

Ned Bittinger (EUA, 1951)

óleo sobre tela

Ned Bittinger

“Ler um livro é como se você o reescrevesse.   Você traz para o romance, qualquer um que leia, toda sua experiência de vida.  Você traz a sua história e o lê nos seus termos”.

Angela Carter

Salvar





E a noite roda, de Alexandra Lucas Coelho

29 09 2012

Rua de Jerusalem, s/d

Noel Harry Leaver (Inglaterra, 1889-1951)

aquarela e lápis sobre cartão, 38  x 27 cm

Coleção Particular

No fim de semana passado a escritora portuguesa Alexandra Lucas Coelho me fez companhia através de seu romance E a noite roda (Tinta da China:2012).  Ele foi a distração que me deixou em casa, por mais tempo do que deveria, para chegar ao fim desse romance de prosa deliciosa.  Cheguei a marcar pequenas passagens encantadoras dessa narrativa bem ritmada que se farta do uso de elipses e contrastes para descrever de maneira sutil e precisa o encanto dos momentos fugazes.

E a noite roda é um romance à moda antiga: trata-se do retrato de um relacionamento amoroso de início ao fim.  Sabemos desde sua primeira página que a história não terá um desfecho feliz.  Mesmo assim vamos em frente. O objetivo é entender a jornalista catalã especializada no Oriente Médio, protagonista do mal fadado romance, que desvenda para o leitor sua vida pessoal e profissional simultaneamente, sem cair em pieguismos amorosos.

Alexandra Lucas Coelho logo de início consegue imprimir no leitor a sensação de perigo e eletricidade que jornalistas sentem ao cobrir eventos em áreas de iminente conflito.  Suas descrições sucintas das passagens pelos pontos de inspeção policial complementadas pelas descrições das belas paisagens do Oriente Médio são tão bem interligadas, que o cotidiano próximo à Porta de Damasco consegue ser simultaneamente poético e cruel.  Por duas vezes vivi em lugares no mundo em que pressões políticas colocavam nossas vidas diárias em alerta permanente.   E a descrição feita por Alexandra Lucas Coelho da vida em Israel e Gaza me lembrou com bastante acuidade muitas das experiências que tive no exterior.  Por aí, esse primeiro romance da jornalista portuguesa me fascinou de imediato  e me levou à nostalgia dos tempos em que descobri, por experiência, que o simples viver – acordar, beber água, comer e dormir —  é um ato de sobrevivência que não está garantido a centenas de milhares, milhões mesmo, de pessoas no mundo.  É difícil explicar as razões dessa nostalgia, mas há algo de viver  à beira do abismo, vizinha do perigo, que embriaga e  dá a sensação de estarmos vivos.  VIVOS!  Alertas!  Viver com os cinco sentidos estimulados, com a necessidade de sobreviver exarcebada  é viciante, porque a adrenalina se faz presente  e transforma a nossa percepção do mundo ao redor.  Para mim, experiências semelhantes me trouxeram a  certeza de que preciso de pouco para viver bem.  Viver à beira do abismo leva muitos ao romance imediato, à paixão intensa e fugidia.  É o que acontece com os dois jornalistas envolvidos nesse romance.

Alexandra Lucas Coelho

Este é um romance leve, o retrato de uma paixão.  Há dois únicos personagens de importância, os outros são apenas pano de fundo.  No início temos mais detalhes da vida profissional dos jornalistas, da maneira como a profissão é exercida, da política envolvida nas cochias da morte de Yasser Arafat.  Mas a partir do momento em que o romance se desenvolve, tornando-se mais intenso, perdemos o contato que havíamos estabelecido com as vidas profissionais dos protagonistas.  Passamos  simplesmente a acompanhar  o caso amoroso.  É aí que o ritmo da leitura se desacelera.  Meu gosto teria sido pela continuidade do retrato das experiências profissionais e amorosas, mas isso não acontece.  Ao final temos um romance bem escrito, com passagens de beleza incontestável.  Recomendo sua leitura: ligeira e deliciosa.