Novos rumos na ficção científica?

30 03 2013

books logo rodney mathews

Ilustração de Rodney Mathews.

Um artigo interessante no Irish Times sobre a literatura de ficção científica, The new future od sci-fi,  atraiu a minha atenção nessa semana que passou.  Há muito que se fala da dificuldade de classificação das obras de ficção científica.  A fantasia e a ficção científica parecem se misturar em muitos momentos. Mas não importa, algumas obras acabam saindo da prateleira estritamente reservada às literaturas de gênero e entram para a categoria de clássicos da literatura mundial.  Desde de o século XIX que não faltam exemplos desse tipo de ficção considerada hoje parte integral, e essencial de uma boa educação.  Lá estão enfileirados nessas prateleiras  livros que estabeleceram o ramo da ficção científica  Frankenstein de Mary Shelley (1818), ao longo das obras do popularíssimo Júlio Verne, considerado o autor mais traduzido no mundo ( 148 línguas) com títulos como Viagem ao Centro da Terra (1864) Vinte Mil Léguas Submarinas (1870),  A Volta ao Mundo em Oitenta Dias (1873). No reino da fantasia, há também exemplos brilhantes do passado: As viagens de Gulliver, de Jonathan Swift (1726) parecem ter aberto essa porta para o mundo moderno, ainda que a tradição do gênero venha desde a antiguidade. A criação literária classificada como fantasia parece ser mais inclusiva do que a ficção científica, e conta com contribuição no século XIX, de George MacDonald com Phantastes (1858) e de diversos outros que ocasionalmente embarcaram nessa nave, como William Morris The Well at the World’s End (1892), The Wood Beyond the World (1892) livros que foram de grande influência para autores como C. S. Lewis e J.R.R. Tolkien.

Mas aonde cai realmente a linha divisória que separa a ficção científica do resto da literatura?   E será essa uma questão importante?  Aparentemente escritores contemporâneos resolveram a questão simplesmente escrevendo.  E no processo não deram atenção a quaisquer limitações,  combinando a bel prazer características de ambos os gêneros para preencher suas necessidades narrativas.  O resultado é uma nova geração de escritores de ficção científica que não se enquadra perfeitamente aos moldes anteriormente determinados. Esses autores, ainda que não estejam ligados a qualquer movimento ou causa, parecem ter encontrado um meio de renovar um gênero considerado estagnado há algum tempo.  Se você está curioso faça uso da lista de autores selecionados por Gareth L Powell  para mostrar essa nova geração que é feita de escritores de diversas nacionalidades.  E  boa leitura!

Escritores:  Adam Christopher  autor de Empire State e Seven Wonders, Aliette de Bodard com a trilogia Obsidian and Blood;  Lauren Beukes autora de In Moxyland Zoo City;  Chuck Wendig com seu Black Birds ;  Lavie TidharLou Morgan,Emma Newman, com o título Between Two Thorns; Kim Lakin-Smith com o livro Cyber Circus e Tim Maughan.





O homem e seu cão, poema de Santos Moraes

29 03 2013

man-dog-woods-gina-blickenstaffHomem e cão, 2012

Gina Blickenstaff (EUA, contemporânea)

Pastel sobre papel

www.ginablickenstaff.com

O homem e seu cão

Santos Moraes

Na estrada sozinhos viajavam

Um homem e seu cão.

Não viam do dia as sombras

Nem da noite a escuridão.

Despreocupados da ignota origem

Das coisas e dos seres,

Sozinhos viajavam como irmãos,

Um homem e seu cão.

Em: Tempo e Espuma, Santos Moraes, Rio de Janeiro, Livraria São José: 1956, p. 39

Antônio dos Santos Moraes (BA1920) Premiado em 1960 pelo Instituto Nacional do Livro, categoria Romance. [ver também Antônio Santos Morais]

Obras:

 A Nuvem de Fogo, poesia, 1948

Tempo e Espuma, poesia,1956.

Menino João, romance, 1959

O caçador de borboletas, romance, 1963

Os filhos do asfalto, romance, 1964

Rei Zumbi e a Terra Sangra, 1965

Dois cientistas brasileiros:Rocha Lima e Gaspar Viana, biografia, 1968

Poemas do hóspede, poesia, 1969

Heroínas do Romance brasileiro, ensaio, 1971

A última viagem, romance, 1980

Sonetos e poemas, 1995





Palavras para lembrar — James Russell Lowell

26 03 2013

Maria Sherbinina (Moscou, Russia, 1965)

Leitura, 2005

Maria Sherbinina (Rússia, 1965)

óleo sobre tela, 72 x 80 cm

Maria Sherbinina

“Livros são como abelhas que levam o pólen da vida de uma mente para a outra.”


James Russell Lowell





A visita à escola, texto de Mário Sette

25 03 2013

Escola em 1879, Morgan Weistling, ost,100x150cm

Escola em 1879, s/d

Morgan Weistling (EUA, contemporânea)

óleo sobre tela, 100 x 150 cm

www.morganweistling.com

O pano de fundo da semana que passou foi a inépcia do ENEM e de todos os nossos dirigentes quanto ao estado desastroso da educação no país.  Não fugindo a um dos objetivos desse blog (auxiliar a quem se dispõe a melhorar o ensino no Brasil) hoje posto um texto, talvez folclórico, talvez não, escrito por um escritor brasileiro que também se preocupava com a educação.  Além de ser um bom texto escolar, ele lembra aos nossos governantes que um pouco de humildade e de consideração para com o povo brasileiro estão entre as menores das requisições que ainda fazemos deles.  Que visitem as suas escolas e que se lembrem da confiança que depositamos em suas mãos quando os elegemos. A melhoria da nossa educação não é para o futuro, nem para hoje.  É para ontem…

A visita à escola

Mário Sette

Era uma escola humilde de arrabalde: sala ligeiramente caiada, movéis toscos, um desbotado mapa na parede, um crucifixo sobre a banca do professor.

As crianças, filhas de gente humilde, algumas descalças haviam chegado,tomando seus lugares, abrindo os livros, dispondo os cadernos e as canetas.

A manhã nascera ensolarada e bonita.

Pouco depois, o mestre, um senhor esguio, de maneiras calmas, batera palmas como sinal do início dos trabalhos escolares.

Um menino veio dar sua lição de leitura. Outros faziam contas nas pedras.

E, como sempre, o tempo ia passando naquela suave tarefa de aprender, no doce silêncio do arrabalde, raro a raro quebrado pelo pregão de um vendedor de frutas, pelo tropel de um cavalo.

Inesperadamente um carro parou à porta da escola. Aberta a portinhola, desceu primeiro um velho de fardão, e em seguida um homem de sobrecasaca  e cartola, de barba loura, com ares muito simples.

O professor, que o vira pela janela, ergueu-se surpreso, exclamando:

— É Sua Majestade o Imperador!

Sabia, como toda gente, ser Pedro II hóspede de Pernambuco, havia dias; não ignorava que o monarca andava visitando os estabelecimentos de ensino, sempre interessado pelo estudo.  Mas supor que fosse a modesta escola que regia também honrada com aquela visita, isso nunca supusera. Um recanto de subúrbio, tão longe da cidade, tão pobre!

O Imperador, de chapéu na mão, seguido pelo  ministro, entrara na sala, cumprimentara  ao mestre e fizera questão de se sentar ao seu lado, como simples inspetor, a fim de assistir a um pouco da aula.

Mostrava-se atento a tudo e balançava a cabeça, risonho, quando os alunos se saíam bem.

Depois, ele próprio, chamou o menino, perguntou-lhe:

— Qual o rio maior do Brasil?

E a outro:

— Faça-me esta conta de dividir.

Ainda a outro:

— Quais são os mandamento da lei de Deus?

Obtidas respostas certas, o monarca, passeando entre as bancas, examinara os cadernos de exercícios, corrigira uma letra, gabara um cursivo, acarinhara as cabeças das crianças que o olhavam cheias de espanto.

Um rei era assim tão bom e tão amigo dos pobres?! Faziam uma idéia diferente da realeza!

Afinal, o Imperador despediu-se, elogiando o professor,  prometendo-lhe melhoramentos para sua escola.

Ao sair, o professor quis beijar a mão do soberano, em sinal de respeito, mas o Imperador, com ar de bondade, dispensou-o daquela homenagem dizendo-lhe:

— Os mestres é que precisam de que os alunos lhe beijem as mãos.

Em: Encantos Literários: antologia, organizado pela Professora  Deomira Stefani,  São Paulo, Ática: s/d

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Mário Rodrigues Sette (Recife, PE 1886 — 1950) professor, jornalista, contista, cronista e romancista.  Veja: www.mariosette.com.br

Obras:

Ao clarão dos obuses, contos, 1914
Rosas e espinhos, contos, 1918
Senhora de engenho, romance, 1921
A filha de Dona Sinhá, romance, 1923
O vigia da casa grande, romance, 1924
O palanquim dourado,  romance, 1921
Instrução Moral e Cívica, didático, 1926
Sombra de baraúnas, contos,  1927
Contas do Terço, romance, 1928,
A mulher do meu amigo, novela, 1933
João Inácio, novela, 1928
Seu Candinho da farmácia, romance, 1933
Terra pernambucana, didático, 1925
Brasil, minha terra! , didático, 1928)
Velhos azulejos, parábolas escolares, 1924
Os Azevedos do Poço,romance, 1938
A moça do sítio de Yoyô Coelho, contos, s/d
Maxambombas e maracatus, crônicas, 1935
Arruar, crônicas, 1948
Anquinhas de Bernardas, 1940
Barcas de vapor, 1945
Onde os avós passaram, s/d
Memórias íntimas,s/d





Imagem de leitura — Oscar Pereira da Silva

25 03 2013

Oscar Pereira da Silva,Moça lendo no sofá, ost, 1925, 14,5 x 53 cm.

Moça lendo no sofá, 1925

Oscar Pereira da Silva ( Brasil, 1867-1939)

óleo sobre tela, 14,5 x 53 cm

Oscar Pereira da Silva nasceu em 1867, em São Fidélis no estado do Rio de Janeiro. Descobriu seu talento para o desenho desde de cedo e em 1882 começou seus estudos na Academia Imperial de Belas Artes, na cidade do Rio de Janeiro. Foi aluno entre outros de Zeferino da Costa e Vítor Meireles.  Ganhou o prêmio de viagem à Europa em 1887. Estabelece-se emParis onde aprimora seus conhecimentos como pintor histórico. dedica-se também à pintura de gênero.  Foi o pintor responsável por três painéis no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Foi professor do Liceu de Artes e Ofícios em São Paulo.  Faleceu em São Paulo em 1939.





Quadrinha da fala da música

24 03 2013

serenata na rede

Ilustração de Harrison Fisher.

Da música a melodia
diz, pela alma falando,
mais do que a boca diria
muitas horas conversando.

(António Aleixo)





O dicionário digital, nosso espelho

24 03 2013

Luca_signorelli,_cappella_di_san_brizio,_poets,_dante_01 fresco

Dante Alighieri, 1499-1502  [DETALHE]

Luca Signorelli (Itália, 1445-1523)

Afresco,  Capela de San Brizio

Catedral de Orvieto, Itália

Fiquei encantada com o curioso artigo de Jennifer Howard, In the Digital Era, our Dictionaries read us, [Na era digital, nossos dicionários nos lêem], publicado esta semana no The Chronicle of Higher Education.  Foi só lendo esse artigo que percebi a facilidade com que um dicionário pode hoje ser e estar atualizado. Mas, muito mais interessante do que isso, descobri que os dicionários online, além de monitorar as palavras procuradas pelos visitantes,  conseguem saber  por  que esses leitores procuram, desenvolvendo assim um retrato preciso das preocupações humanas num determinado momento.

Essa interação digital permite que os dicionários se atualizem quase instantaneamente.  Além disso oferece um retrato da sociedade, do momento por que as pessoas passam.   Desse modo, os dicionários se transformam também em um espelho cultural das sociedades a que servem.  Quando grandes calamidades públicas, por exemplo, afetam uma área do planeta a busca por palavras referentes ou usadas nas descrições dos noticiários do acontecimento  aumenta.  Assim, usando como exemplo os deslizamentos de terra durante a estação das chuvas, poderíamos encontrar procuras no dicionário por palavras tais como:  erosão, terraço, fluxo de detritos, e assim por diante.   Com esses dados é fácil perceber quando o interesse por um assunto começa assim como o momento em que naturalmente começa a ser esquecido.

Esse retrato da sociedade, de seus interesses e de suas preocupações é de grande valia para os estudos sociológicos. Mas também tem conseqüências que ainda não foram medidas para ações sociais, para política e para o marketing de produtos e idéias.   Um bom assunto para não se deixar de lado.





Velho tema, III, poema de Vicente de Carvalho

23 03 2013

João Fahrion – O vestido verde, 1949. O Museu de Arte do Rio Grande do Sul ...

O vestido verde, 1949

João Fahrion ( Brasil, 1898-1970)

óleo sobre tela, 75 x 98 cm

Museu de Arte Ado Malagoli, Porto Alegre, RS

Velho Tema,  III

Vicente de Carvalho

Belas, airosas, pálidas, altivas,
Como tu mesma, outras mulheres vejo:
São rainhas, e segue-as num cortejo
Extensa multidão de almas cativas.

Tem a alvura do mármore; lascivas
Formas; os lábios feitos para o beijo;
E indiferente e desdenhoso as vejo
Belas, airosas, pálidas, altivas…

Por quê? Porque lhes falta a todas elas,
Mesmo às que são mais puras e mais belas,
Um detalhe sutil, um quase nada:

Falta-lhes a paixão que em mim te exalta,
E entre os encantos de que brilham, falta
O vago encanto da mulher amada.



Em: Cancioneiro do Amor – os mais belos versos da poesia brasileira, antologia organizada por Wilson Lousada, Rio de Janeiro, José Olympio: 1952, 2ª edição.





Um exemplo a ser seguido no Congresso Nacional

23 03 2013

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“Old King Cole”, Ilustração de Roberta.

Franqueza e Prudência

Salvador de Mendonça – Artigo no O Imparcial, 1913

Professor das princesas, filhas de D. Pedro II, Joaquim Manuel de Macedo, o célebre autor de A Moreninha, desempenhava o seu mandato de deputado geral, quando o conselheiro Francisco José Furtado, organizador do gabinete Liberal de 31 de agosto de 1864, o convidou para a pasta dos Estrangeiros.

Recusada a honra, mandou o Imperador chamar o escritor à sua presença, e indagou o motivo do seu gesto, quando possuía tantas qualidades para ser um bom ministro.

— Admita-se que eu tenha as qualidades que Vossa Majestade me atribui, — respondeu Macedo: — mas eu não sou rico, requisito indispensável a um ministro que queira ser independente.

E decidido.

— Eu não quero sair do Ministério endividado ou ladrão!

Em: O Brasil anedótico, Humberto de Campos, São Paulo, W. M. Jackson: 1941





As duas filhas do rei Hassan, de Humberto de Campos

22 03 2013

Fabio Fabbi

Dançarinas, c. 1890

Fabio Fabbi (Itália, 1861-1946)

Óleo sobre tela

Clarke Auction House

As duas filhas do rei Hassan

Humberto de Campos

Quando os árabes se reuniram pela primeira vez para, fixando-se na terra, interromper a sua tradição de povo nômade, resolveram eleger, também, entre os varões mais prudentes que vagavam com eles pelos desertos, um que lhes servisse de chefe. A escolha recaiu no xeique Hassan, notável, na mocidade, pela sua sabedoria. Era um ancião de grande estatura e de barbas grisalhas que lhe cobriam o peito inteiro, e tão ágil ainda, e tão robusto, que não chamava, jamais, os moços de sua tribo quando se precisava, na sua tenda, da pele de um leão.

Hassan possuía duas filhas, que o auxiliavam conforme a necessidade e a ocasião. A uma, dera o nome de Mentira. A outra, o de Verdade. Irmãs, embora as duas não tinham entre si, a menor semelhança. A Mentira erra mais velha, mais bonita. Na sua vida errante, enfeitava-se a cada hora, não usando, jamais, em um dia, o manto, de pele de leopardo ou de cordeiro que havia posto na véspera. A verdade não era feia, mas era triste, e de fisionomia severa. E apresentava, ainda, a desvantagem de não variar de vestuário. Por isso mesmo, não gostavam de andar uma em companhia da outra. Quando a Verdade chegava, a Mentira retirava-se, rapidamente. Mas, como era mais sedutora que a irmã, esta não conseguia, jamais, tomar-lhe o lugar na estima dos homens.

Os árabes foram, sempre, um povo de poetas. A cadência da marcha do camelo, ou do passo manso do cavalo do beduíno, deu-lhes o ritmo para o canto. Onde havia uma caravana, havia poetas. Onde se levantava uma tenda, erguia-se a modulação de uma voz. E os poetas tomaram-se de paixão pela Mentira. Debalde a outra se aproximava deles. Nenhum se apercebia da sua formosura grave, porque a Mentira sempre lhes parecia mais bonita que a Verdade.

Tornando chefe do povo árabe, o primeiro cuidado do xeique Hassan constituiu em consolidar a estabilidade das tribos errantes, fundando a primeira cidade. Para maior segurança da ordem, e prestígio da sua palavra, proclamou-se rei. E nomeou os seus ministros. E escolheu os seus generais. E, com o desenvolvimento crescente da nação, fundou uma corte de onde tirava os emires, os vizires, os cadiz, os que deviam distribuir a justiça ou governar as províncias, que se estenderam pelo deserto e pelas margens do mar. E quem, no palácio do rei Hassan mandava em tudo, e dirigia tudo, era a Mentira. Como a Verdade era austera e fria, seu pai, como todos os governantes que vieram depois, não gostava de ouvi-la. A Mentira, não. A Mentira era alegre e vivaz, e, dessa maneira, todos gostavam dela. A política do reino dos árabes, como a de todos os governos do mundo que surgiram mais tarde, passou a ser obra sua, trama ideada pelo seu cérebro e tecida pelas suas mãos.

Entre os governadores mais ricos das províncias vizinhas do mar, um havia, chamado Ahmad, o qual possuía uma filha, Amina, moça de grande e estranha formosura. Informado da sua beleza e da sua fortuna, Mahmud, chefe dos guardas do rei Hassan, mandou-lhe, por uma escrava, o seu juramento de amor.  Ao mesmo tempo, enviava-lhe o mesmo juramento o príncipe Mansur, senhor do s oásis de Al-Kanfa. O príncipe era, no palácio real, amigo da Verdade. Mahmud, amigo da Mentira. E foi Mahmud quem venceu no coração da princesa Amina, porque em negócios de amor a Mentira é mais experiente que a verdade.

Por esse tempo, o reino dos árabes, dirigido pela sabedoria de Hassan, que sempre recorria à habilidade da filha mais velha, estendia-se já, por toda a península, compreendendo montanhas e vales, praias e desertos. Redigidas pelas Mentira os tratados de aliança ou de paz acabavam sempre, por anexar aos seus domínios os domínios dos seus vizinhos. E foi então, quando o grande monarca pensou na maneira de pensar aos sucessores a notícia de seus próprios feitos, e a história de formação do seu povo. A velhice extrema anunciava-lhe de modo preciso, que a morte não vinha longe. E o rei Hassan chamou dois vizires que sabiam escrever a língua árabe, e disse-lhes:

— Quero que narreis em papiro, para conhecimento dos homens do futuro, como nasceu a nação árabe, e como surgiu no deserto, a primeira cidade. Estou sem forças para vos narrar todos os fatos. Minhas duas filhas, se acham, porém, ao corrente de tudo, e vos contarão todos os sucessos que constituem a história do meu reino.

— Por qual das duas nos devemos guiar, senhor? – indagaram os dois primeiros historiadores. – Pela Mentira ou pela Verdade?

— Escolhei,  vós mesmos,  – respondeu o rei Hassan.

E morreu.

Habituada a ver-se preterida pela irmã, a Verdade resolveu conquistar o lugar, como informante dos historiadores. Para isso, vestiu o mais soberbo e vistoso manto que havia no palácio, pintou os olhos como os da Mentira, e foi para o salão em que devia ser procurada pelos vizires.  Por sua vez, a Mentira, certa de que homens tão severos procurariam, de preferência, para informações tão graves, aquela das irmãs que lhes parecesse mais discreta e modesta, escolheu os trajes mais recatados, que a irmã abandonara, e foi colocar-se ao seu lado. Os vizires chegaram, entre reverências, trocaram algumas palavras em voz baixa. E encaminhavam-se para aquela das duas irmãs que se achava mais discretamente vestida, pedindo-lhe que lhes ditasse a história do povo árabe. Essa era a Mentira.

Data desse tempo, o costume que têm os historiadores, de, ao escrever a história dos povos, se servirem da Mentira como se fosse a Verdade.

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Em: À sombra das tamareiras (contos orientais), Humberto de Campos, São Paulo,  W. M. Jackson Inc. : 1941, publicação original de 1934.

Humberto de Campos (Brasil, 1886-1934) poeta, jornalista, escritor e político. Membro da Academia Brasileira de Letras.