Fruteira com mangas rosas e bananas, 1992
Ivan Marquetti (Brasil, 1941-2004)
óleo sobre tela, 50 x 65 cm
Fruteira com mangas rosas e bananas, 1992
Ivan Marquetti (Brasil, 1941-2004)
óleo sobre tela, 50 x 65 cm
Edifícios em Buarcos, Portugal
Claire Nelson-Esch (África do Sul, contemporânea)
Lápis, bico de pena, aquarela sobre papel, 13, 5 x 21 cm
©Claire Nelson-Esch.
Esta foi a minha apresentação ao escritor português Nuno Camarneiro, ganhador do Prêmio Leya de 2012, com esse livro. Tenho mantido contato próximo com autores lusitanos publicados aqui no Brasil. Acho que a literatura publicada além-mar anda muito interessante e não me canso de experimentar novos escritores. Por isso mesmo, mergulhei em Debaixo de algum céu com muita expectativa. Talvez mais expectativas do que deveria.
A ideia central de Nuno Camarneiro é muito interessante e rica em possibilidades: seguir a vida, por uma semana, de um grupo de pessoas que têm em comum habitarem o mesmo edifício de apartamentos. Rico em possibilidades, em caracterização de personagens de diversos caminhos, o tema é fascinante. A limitação de tempo e de lugar, onde muitos personagens exibem suas características não é estranho à literatura nem ao cinema. De Anjo Exterminador de Buñuel ao edifício de apartamentos, personagem do romance A beleza do Ouriço, de Muriel Barbery, exemplos abundam. Todos trabalhos de sucesso. Sucesso esperado por essa coletânea de histórias de Nuno Camarneiro, quase um conjunto de contos, não fosse a ocasional interação entre os personagens residentes do prédio.
Nuno Camarneiro preenche seu texto com uma série de frases de efeito, que certamente encontrarão lugar nos livros e sites de citações, frases inspiradas. No entanto a narrativa é fria. Controlada demais, quase sem interação de personagens, diálogos. Nem mesmo entre membros de uma família no mesmo apartamento há diálogos. Só ocasionalmente. Todos os personagens são taciturnos, reservados e sigilosos. Não há um que seja mais expansivo, não há um que quebre estrondosamente as regras. E, no entanto, apesar de vidas cerradas e quietas, nenhum deles se dá a indulgência de um hábito secreto, transgressor, uma mania, um comportamento fora do eixo, em sua intimidade, características que fazem qualquer personagem tridimensional. Resultado: todos são figuras de papelão. A presença do narrador se impõe em demasia tirando qualquer leveza do texto, qualquer mobilidade dos personagens. Tudo é visto e contado com a mesma voz em monótona narrativa, sem humor, sem ironia, demasiadamente contida e estereotipada. Por isso mesmo os capítulos são legendados para que se saiba quem narra aquele trecho.
Nuno Camarneiro
A narrativa, mesmo assim, é ritmada e bem feita. Cheguei ao fim do livro com facilidade, sempre esperando que algo acontecesse de proporções adequadas às minhas horas de dedicação à leitura. O desfecho foi um tanto anticlimático. A rigorosa mão do autor pode ser sentida forjando acontecimentos que nem sempre parecem ser a consequência natural dos personagens. Vamos ver o que mais Nuno Camarneiro poderá trazer ao público, no futuro. Tenho a impressão de que o autor precisa se soltar. Com esse pulso de ferro, seus personagens não têm chance de crescer e nos surpreender e quem sabe surpreender até ao próprio autor?
(assumido como auto-retrato)
Pieter Bruegel, o velho (Flandres, 1526-1530 (?) — 1569)
desenho a bico de pena, tinta sépia
Albertina, Viena
Retrato de Gertrude Russell, 1915
Frank Weston Benson (EUA,1862-1951)
óleo sobre tela, 137 x 103 cm
Em: Debaixo de algum céu, Nuno Camarneiro, Rio de Janeiro, Leya: 2013, p.61
Cartão de Natal, década de 1950.
Conceição era uma pobre mas interessante menina, cujos pais haviam morrido. Era tão pobre, que não tinha nem um quarto, nem cama para se deitar; não possuía senão os vestidos que tinha sobre o corpo e um pequeno pedaço de pão que uma alma caridosa lhe havia dado; era, porém, boa e piedosa.
Como se achava abandonada de todo o mundo, pôs-se em viagem, confiando-se à guarda do bom Deus.
No caminho encontrou um pobre homem, que lhe disse:
— Ai de mim! Tenho muita fome! Dai-me um pouco de comer.
A menina deu-lhe o pai, dizendo:
— Deus te auxilie. — e continuou a caminhar.
Depois encontrou um menino que chorava, dizendo:
— Tenho frio, dai-me alguma coisa para cobrir-me.
Ela tirou o gorro e deu-lho.
Mais tarde ainda viu outro que estava trânsido de frio por falta de uma camisola, e deu-lhe a sua. Finalmente, um último pediu-lhe a saia, que ela deu também.
Caindo a noite, chegou a um bosque pedindo-lhe a camisa outro menino. A piedosa menina pensou:
— É noite escura, ninguém me verá. Posso bem dar-lhe a minha camisa. E deu-lha.
Assim nada mais possuía no mundo. Mas no mesmo instante as estrelas do céu puseram-se a cair e no chão elas se transformaram em belas moedas reluzentes. E embora ela tivesse tirado a camisa, tinha uma completamente nova, do mais fino tecido. Ela apanhou o dinheiro e ficou rica para o resto de sua vida.
Em: Histórias do Arco da Velha — Livro para crianças, de Viriato Padilha, Rio de Janeiro, Quaresma: 1947,pp: 91-92.
Ilustração anônima.
Ferreira Gullar
Dizem que gato não pensa
mas é difícil de crer.
Já que ele também não fala
como é que se vai saber?
A verdade é que o Gatinho,
quando mija na almofada,
vai depressa se esconder:
sabe que fez coisa errada.
E se a comida está quente,
ele, antes de comer,
muito calculadamente,
toca com a pata pra ver.
Só quando a temperatura
da comida está normal,
vem ele e come afinal.
E você pode explicar
como é que ele sabia
que ela ia esfriar?
Rua do centro histórico de Salvador, BA, 1968
Carlos Bastos (Brasil, 1925-2004)
óleo sobre tela, 46 x 65 cm
Antônio Parreiras (Brasil, 1860-1937)
óleo sobre tela, 28 x 31 cm
Museu Antônio Parreiras, Niterói, RJ
Ana Mello