Emiliano Di Cavalcanti ( Brasil, 1897-1976)
óleo sobre tela, 35 x 28 cm
Emiliano Di Cavalcanti ( Brasil, 1897-1976)
óleo sobre tela, 35 x 28 cm
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Rosario Mangá.
Meu grupo de leituras da internet abriu uma discussão sobre a obra do autor Yasunari Kawabata, ganhador do Nobel em 1968. Neste grupo discutimos autores. Todas as obras. Cada um menciona aquela obra que conhece. E a conversa rola, através das semanas. Eu havia lido dois livros de Kawabata, Mil Tsurus, em 2009 e Kioto não me lembro quando. Havia gostado, mas não havia lido a obra que parece encantar a um número enorme de críticos: A Casa das Belas Adormecidas. Por isso mesmo pouco participei da discussão. Ainda mais, que descobri que as Belas Adormecidas haviam inspirado Gabriel Garcia Marquez ao escrever Memórias de Minhas Putas Tristes, outro livro que nunca li. Senti-me portanto mais ou menos na obrigação de considerar a leitura dessa obra de Kawabata.
Contrária à opinião da maioria dos leitores, não gostei de A Casa das Belas Adormecidas. De fato, cheguei a me forçar a ler essa até a última página, tal foi o meu repúdio ao romance — que nada mais é do que um conto! Concordo com muitos que a linguagem, mesmo em tradução, é sensível. Concordo também que o personagem principal, um senhor de 67 anos, que tem a oportunidade de divagar sobre a vida passada, relembra-a de maneira quase poética. Mas isso não foi suficiente para me agradar.
O problema com a obra: ter que aceitar a mulher tratada como coisa, em um nível de sofisticação muito além do imaginável. A mulher objeto ainda mais desumanamente abusada: jovens de carne e osso que têm o papel de bonecas de borracha, existindo unicamente para dar prazer a homens velhos, impotentes. O abuso – são drogadas a tal ponto que dormem pesadamente a noite toda e não sabem o que acontece com seus corpos drogados – é de um requinte malicioso que me impediu de julgar serenamente o texto. Talvez à época de sua publicação, 1961, esse aspecto da trama não fosse tão censurável quanto hoje. Mas hoje é impossível que esse, ou um ato semelhante, possa ser tratado de maneira tão banal, que seja aceito sem uma rigorosa e visceral rejeição. Como não há um personagem que se oponha a esse abuso, e como as meninas não sabem o que lhes acontece e portanto não podem fugir, nem reclamar, o leitor se vê psicologicamente alinhado ao homem que desfrutará desse abuso, o leitor se vê como cúmplice de uma ação que despreza.
Yasunari Kawabata
Reconheço que Yasunari Kawabata tinha em primeiro lugar a intenção de dissertar sobre masculinidade, sobre a impotência como consequência da velhice, sobre a frustração e a humilhação sofridas por aqueles que vivem muito além dos anos de fertilidade, dos anos de proezas sexuais. Mas hoje, esses assuntos provavelmente seriam abordados de maneira diferente. Não é uma questão de ser politicamente correto. É que a moral mudou nos últimos cinquenta anos. É isso.
Almoço ao ar livre, Steven Dohanos.
Amigo, na sua idade,
não conte a idade a ninguém,
mas conte a felicidade
pelos amigos que tem.
(Edmilson Ferreira Macedo)
[O desesperado]
Gustave Courbet (França, 1819-1877)
óleo sobre tela, 45 x 55 cm
Coleção Particular
Outubro de 732, Batalha de Poitiers, 1837
Charles de Steuben (Alemanha, 1788-1856)
óleo sobre tela, 542 x 465 cm
Palácio de Versalhes, França
Há livros que se lê pelo prazer da prosa, da trama, do suspense. Submissão de Michel Houellebecq não é nenhum desses. É um livro que força uma reflexão sobre o momento atual da Europa, da França, especificamente. É uma fantasia tão plausível, tão próxima da realidade, que o leitor se vê forçado a considerar possibilidades improváveis como quase certas, e o impensável torna-se realidade. É chocante. O romance, passado por volta de 2022, ou seja meros 7 anos no futuro, de maneira racional, considera a possibilidade da eleição de um governo muçulmano na França.
Talvez o que seja mais desconcertante nessa narrativa é a lógica. Por exemplo, quando Houellebecq menciona as forças armadas francesas necessitando de milhares de novos recrutas a cada ano e simultaneamente considera que a população tradicional francesa cada vez tem menos filhos, enquanto a muçulmana tem muitos, a lógica nos leva a admitir que em futuro próximo as forças armadas francesas serão em sua maioria muçulmanas. Esse é um aspecto da realidade francesa que nunca havia cruzado os meus pensamentos.
Isso é complexo? Estranho? Desagradável? É. Por que? Porque teocracias como as defendidas pelos regimes islâmicos estão diametralmente opostas à herança cultural do oeste. Temos que considerar se é esse é o futuro que se quer ter. É essa a guinada que queremos dar no nosso presente? O que ganhamos com ela? Como mulher criada no ocidente, com valores de autoconfiança, de respeito próprio, com dedicação a uma profissão, que vota, dirige, se veste como quer, que se acha no direito de escolher o parceiro de vida, não acredito que venha a me adaptar às limitações de qualquer uma das variações das teocracias islâmicas. E não estou exagerando. Basta lermos relatos que aparecem diariamente nos jornais, livros como Infiel de Ayaan Hirsi Ali, entre outros para saber que o conflito cultural seria ou será gigantesco.
Michel Houellebecq
Submissão não é uma obra para ser julgada pelos seus méritos literários. Em geral, romances que defendem uma causa têm a tendência a serem enjoados, porque explicações são necessárias e rapidamente diálogos se tornam solilóquios didáticos. Ainda que Houellebecq flerte com esse pecado, sua habilidade em fazer paralelos entre o escritor Huysmans e a própria vida do professor universitário que narra o romance esvazia um tanto o dogmatismo inerente desse tipo de criação. Mas há passagens bastante aborrecidas, principalmente para leitores não familiarizados com a obra do escritor, ensaísta, crítico de arte francês Joris-Karl Huysmans.
Apesar dessa reserva recomendo a leitura como uma obra que ajuda a compreender parte do dilema europeu deste século. Que haverá um embate entre essas crenças e filosofias de vida parece inevitável. Resta saber quando.
Antônio Rafael Pinto Bandeira (Brasil, 1863-1896)
óleo sobre tela, 55 x 63 cm
Museu Afro Brasil, São Paulo