Mãe — poema de Martins Fontes

9 05 2013

mãe e filha primaveraCartão postal início do século XX.

Mãe

Martins Fontes

Beijo-te a mão, que sobre mim se espalma

Para me abençoar e proteger.

Teu puro amor o coração me acalma;

Provo a doçura do teu bem querer.

Porque a mão te beijei, a minha palma

Olho, analiso linha a linha, a ver

Se em mim descubro um traço de tu’alma

Se existe em mim a graça do teu ser.

E o M, gravado sobre a mão aberta,

Pela tua clareza, me desperta

Um grato enlevo, que jamais senti:

Quer dizer — Mãe — este M tão  perfeito,

E com certeza, em minha mão foi feito

Para, quando eu for bom, pensar em ti.

Em: 232 Poetas Paulistas:antologia,  ed. e col. Pedro de Alcântara Worms, São Paulo, Conquista: 1968, p. 131.





Os dez maiores pensadores do mundo? Você concorda?

26 04 2013

The_Thinker__1876-1877, Pierre AUguste Renoir, ost

Jovem sentada ou A reflexão, 1876-77

Pierre-Auguste Renoir (França, 1841-1919)

óleo sobre tela, 66 x 55 cm

Barber Institute of Fine Arts, Birmingham,

Inglaterra

A revista Prospect acabou de contabilizar sua enquete – feita a cada cinco anos – para eleger os maiores pensadores do momento. A lista traz nomeações de todos os caminhos, de diversas partes do mundo. Há um único brasileiro entre os 65 selecionados.  Para minha surpresa, esse foi Roberto Mangabeira Unger, classificado em 40º lugar.

Considerando-se que a maior parte dos leitores da Propect são fluentes em inglês,  usuários assíduos da internet e tem uma educação bem acima da média, acho que a lista é muito mais eclética do que eu teria imaginado se houvesse ponderado a respeito.  Teria  uma enorme predominância de americanos.  E no entanto, apesar de  estarem fortemente presentes – são 22 de 65 – um terço portanto não chegam à maioria e são  seguidos pela Inglaterra, país que aparece com 10 eleitos.

 Foram 10.000 eleitores  de mais de 100 países.  Interessante: em literatura há poucos mencionados, mas a grande potência nesse ramo é a Inglaterra.  Arundhaty Roy dentre os escritores é a melhor colocada, nativa da Índia, ganhou o Booker Prize, com  um dos mais interessantes romances do final do século passado: O Deus das pequenas coisas. Um dos meus favoritos de todos os tempos.  Ela é a primeira mulher a aparecer, colocada em nº 15 na lista.  Mas aparece aqui  por seu trabalho como ativista, já que o romance mencionado acima foi seu primeiro e único romance.   Outros escritores listados são David Grossman – que só conheço por seus trabalhos para adolescentes – lembro-me de ter lido Alguém para correr comigo;  Hilary Mantel, que conheço de seu trabalho anterior a  Wolf Hall sobre a Inglaterra de Thomas Cromwell, aclamado pela excelência em romance histórico e Zadie Smith, também inglesa cujos livros Dentes brancos e Sobre a beleza, foram excepcionalmente marcantes na minha lista de favoritos da década passada.  Não conheço o trabalho de Andrew Solomon.

Será que você conhece algum deles?

1. Richard Dawkins (UK), biólogo

2. Ashraf Ghani (Afeganistão) economista

3. Steven Pinker (Canada)psicólogo e linguista

4. Ali Allawi (Iraque)economista

5. Paul Krugman (EUA)economista e jornalista

6. Slavoj Žižek (Eslovênia) filósofo

7. Amartya Sen (Índia)economista

8. Peter Higgs (UK) físico teórico

9. Mohamed ElBaradei (Egito)diplomata

10.Daniel Kahneman (Israel)teórico da finança comportamental

736px-Almeida_Júnior_-_Moça_com_Livro

Moça com livro, 1879

José Ferraz de Almeida Júnior (Brasil, 1850-1899)

óleo sobre tela

Museu de Arte de São Paulo

11. Steven Weinberg,  (EUA), físico
12. Jared Diamond, (EUA) biólogo,antropólogo
13. Oliver Sacks, (UK) psicólogo
14. Ai Weiwei, (China)  artista plástico
15. Arundhati Roy, (Índia) escritora e ativista
16. Nate Silver, (EUA) estatístico
17. Asgar Farhadi, (Irã) cineasta
18. Ha-Joon Chang,(Coréia)  economista
19. Martha Nussbaum,(EUA), filósofa
20. Elon Musk, (África do Sul) empresário
21. Michael Sandel,(EUA) filósofo
22. Niall Ferguson,(UK) historiador
23. Hans Rosling, (Suécia) médico-estatístico
24. Anne Applebaum,(EUA), jornalista
25. Craig Venter, (EUA) biólogo
26. Shinya Yamanaka, (Japão)médico-biólogo
27. Jonathan Haidt, (EUA) psicólogo
28. George Soros, (EUA) filantropo
29. Francis Fukuyama, (EUA) cientista político
30. James Robinson e Daron Acemoglu, (EUA) cientista político e economista
31. Mario Draghi,(Itália) economista
32. Ramachandra Guha,(Índia) historiador
33. Hilary Mantel, (UK) escritora
34. Sebastian Thrun, (Alemanha) ciências informáticas
35. Zadie Smith, (UK) escritora
36. Hernando de Soto, (Peru) economista
37. Raghuram Rajan, (Índia) economista
38. James Hansen, (EUA) cientista do clima
39. Christine Lagarde,(França) economista
40. Roberto Unger,(Brasil) filósofo-economista
41. Moisés Naím,(Venezuela) cientista político
42. David Grossman, (Israel) escritor
43. Andrew Solomon, (UK) escritor
44. Esther Duflo,(França) economista
45. Eric Schmidt,(EUA)empresário
46. Wang Hui, (China) cientista político
47. Fernando Savater, (Espanha) filósofo
48. Alexei Navalny,(Rússia)advogado e ativista
49. Katherine Boo, (EUA) jornalista
50. Anne-Marie Slaughter (EUA), cientista político
51. Paul Collier,(UK) esconomista

Amberg, Wilhelm (1822-1899)

Jovem ao largo do regato, [Contemplação], antes de 1886

Wilhelm Anberg (Alemanha, 1822-1899)

óleo sobre tela, 82 x 61 cm

Museu de Arte da Filadélfia, EUA

52. Margaret Chan, (China) médica
53. Sheryl Sandberg,(EUA) empresária
54. Chen Guangcheng,(China) ativista
55. Robert Shiller,(EUA) economista
56.  Ivan Krastev,(Bulgária) cientista política
56. Nicholas Stern,(UK) economist
58. Theda Skocpol, (EUA)socióloga
59. Carmen Reinhart,(Cuba) economista
59. Ngozi Okonjo-Iweala,(Nigéria) economista
61. Jeremy Grantham, (UK)estrategista de investimentos
62. Thomas Piketty e Emmanuel Saez, (EUA)economista
63. Jessica Tuchman Mathews, (EUA) cientista política
64. Robert Silvers, (EUA) editor
65. Jean Pisani-Ferry, (França) economista





Quadrinha do sonhar

18 01 2013

sonhando acordado

É feliz quem tem o dom
de sonhar a vida inteira.
Se não acha o mundo bom
faz um à sua maneira.

(Dimas Lopes de Almeida)





FELIZ ANO NOVO, cartões postais com data!

1 01 2013

1 de janeiro, 1 menina e ano velho, relógio

1 de janeiro, 3 quatro meninas

1 de janeiro, 4 com coelhinhos

1 de janeiro, 5 com gatinho

1 de janeiro, 6 com abundancia –

1 de janeiro, 7 menina com azevinho

1 de janeiro, 8 com tambor e boneca

1 de janeiro, 9 com rosas

1 de janeiro, 10, com porquinhos e cogumelo

1 de janeiro, bebe

1 de janeiro, flores azuis

1 de janeiro, menino com gatinho

1 de janeiro, menina com laço de fita

Ano Novo menina cartão postal, ano novo

DATA -- CARRO 141ab

ano novo, 1º de janeiro, postal de Margret Boriss

CALENDÁRIO ANO NOVO, 1921, PÁSSAROS, 1º DE JANEIRO





Quadrinha do coração

9 12 2012

amor, casal, georges-barbier

Oui, 1921,  ilustração Georges Barbier (França 1882-1932).

Coração, ave sem penas,

às penas do amor sujeito,

não sei se vives ou penas

na gaiola do meu peito.

(Athayr Cagnin)





Natal brasileiro, texto de Júlia Lopes de Almeida

6 12 2012

B2-N-5306-W13Y-KG

Neste esfacelar de usos e tradições, poucas pessoas encontram ainda encanto em seguir costumes de avós que se foram há muito tempo, e de quem as caveiras, lá no fundo das covas, já não guardam nem resquícios de pele!

A nossa vida agitada precisa de um esforço para relembrar os divertimentos antigos, e não é senão por condescendência que muita gente faz horas para ir à missa do galo ou que deixa o espetáculo pela ceia caseira, obrigada a certos pratos que o desuso tornou para muitos paladares simplesmente abomináveis.

Noites quentes, maravilhosas noites de verão, banhadas de luar, impregnadas do aroma da magnólia e do jasmim-manga, convidando por certo muito mais aos passeios pelos arredores da cidade, ouvindo cigarras e violas de serenatas, do que a fecharmo-nos em uma sala, em frente a um prato de canja fumegante, entre os globos de gás a toda a luz e uma toalha branca onde a louçaria brilhe com o seu luzimento de esmalte.

Estas festas são doces às mamães, porque chamam para o seu redil as ovelhas soltas por diversos pontos da cidade. Nestes dias, como que se ouvem badaladas de sinos de ouro que, a cada repique, dizem assim:

— Vinde para casa! Vinde para casa! É aqui que vos amam! E as ovelhas param, escutam, torcem caminho e voltam para o aprisco de onde tinham partido.

A amante que espere, pensam os rapazes; que se estorça de raiva vendo-se preferida. É preciso também contentar a mamãe, que sorri acudindo a tudo e a todos com a mesma paciência de há trinta anos, quando os filhos eram pequenos e não sabiam de nada na vida que igualasse à sua companhia!

“Boa mamãe! dizem-lhe eles agora, perdoai os nossos desvarios de rapazes! Nós cá estamos no teu regaço, olhando para o teu rosto, beijando as nossas irmãs.”

E a mamãe vai e vem, com os lábios risonhos e os olhos brilhantes. E o sino de ouro da casa, cujas badaladas se ouvem ao longe, mal ela o sabe! É o seu coração angustiado, pisado de sofrimentos, de dúvidas, de saudades, mas que todo se enflora ainda de esperanças, porque é de mãe!

Festas familiares sois peregrinamente bondosas e dementes para os velhos!

Sim, é por condescendência que muita gente deixa a noitada ao relento pela ceia caseira, em que se comem coisas suculentas, se ouvem valsas marteladas ao piano, ou se conversam assuntos repisados.

Na roça é que estas festas do Natal e do Ano-Bom têm uma cor mais brasileira. Aqui na cidade fazemo-las seguindo os costumes portugueses. O frio do Natal europeu impele as famílias para o interior das suas casas, para o calor dos fogões e das ceias fumegantes. O nosso Natal é tão diverso! Em vez da neve temos o sol; em vez da ventania áspera, que obriga as pobres criaturas a irem para a igreja envoltas em capotes, salpicadas de lama e de chuva, temos noites estreladas, cheirosas, em que moças e rapazes vão à meia-noite ouvir a missa do galo, com trajes alegres, sem recear bronquites, podendo folgar pelos caminhos à luz das estrelas palpitantes e coloridas. Na roça é assim. A criançada come ao ar livre pinhões cozidos e faz a algazarra que apraz. As moças dançam no terreiro com os namorados, e os velhos, sentados sob o alpendre, contam anedotas, rememoram visitas a presépios antigos, até que o sino os chame e eles partam todos, aos magotes, para a capela tão sua conhecida, tão sua amada!

Se fosse possível deveríamos inventar festas adequadas ao nosso clima, estabelecê-las, fixá-las, torná-las nossas.

Os costumes europeus não podem, em absoluto, ser reproduzidos aqui. Há no Brasil climas mais frios do que em alguns países da Europa; no alto Paraná o gelo quebra os galhos das árvores e o aldeão tirita lavrando terra. Mas de que vale isso, se as estações são trocadas e o nosso Natal desabrocha em pleno verão! O nosso Natal! Bem que ele precisa de outro emblema. O velho de longas barbas brancas, nariz cor de morango maduro, capote espesso lanzudo e gorro de peles, é filho das terras nevadas, cortadas pelos uivos do vento, tão cruel para os pobres. O nosso Natal é moço, é risonho, é caritativo; abriga os sem vintém, e as criancinhas nuas não o temem, porque ele afaga-as o seu bafo cheiroso e veste-as com a sua luz quente e doirada!

Em: Livro das Donas e Donzelas, Julia Lopes de Almeida, Rio de Janeiro, Francisco Alves: 1906  — EM DOMÍNIO PÚBLICO





As voltas que a vida dá

9 11 2012

Publicado no jornal O GLOBO, 9 de novembro de 2012.

Por que o ensino de história é tão  enjoado para a maioria das crianças e dos adolescentes?  Foi para mim.  Minhas melhores matérias no Colégio Pedro II foram línguas, biologia, química e física.  Cheguei a pensar em fazer medicina.  Mas alguma coisa, inconsciente ainda, me levou a abandonar essa ideia, cursar um ano de vestibular para aprender latim e entrar para a faculdade de letras.

Só mais tarde, quando descobri a história da arte e saí do Brasil para me formar exclusivamente em história da arte, vim a gostar de história. Hoje leio livros de história, secos e documentados, com páginas e páginas de notas de rodapé com um prazer indescritível, como se fossem romances, ainda que meu treino como historiadora da arte, como é feito fora do Brasil, não tenha sido em História, mas sim em Arte.

Gostei muito dos gregos e romanos quando tinha uns doze ou treze anos.  Até então grande parte do meu conhecimento de história tinha suas raízes em Monteiro Lobato, do volume História do Mundo para Crianças, que fazia parte da coleção de Monteiro Lobato, que meus pais haviam nos dado, a mim e a meus irmãos. Mas depois dessas duas fases a história me perdeu.  Naquela época punha-se muito esforço em datas e muito pouco em documentação.   Fiquei impressionada, quando já quase entrando para a faculdade, fui apresentada ao texto completo da Carta de Caminha.  Por que não a conhecera antes?

Só muitos anos depois, descobri que documentos primários como a Carta de Caminha seriam uma das minhas grandes paixões. E assim quase perdi a oportunidade de me dedicar ao conhecimento do passado que se tornou parte das minhas profissões e que me deu tanto prazer.  Quantos mais historiadores perdemos no caminho por não sabermos como atrair a atenção de nossos alunos?

Espero que hoje com as possibilidades multimídia isso tenha se resolvido para melhor.  Sim, tenho esperanças, porque o aluno que não é atraído por um texto pode ser por um filme, ou uma música ou uma pintura.  Espero, porque acredito na antiga profecia de Edmund Burke, filósofo e político irlandês:  “Quem não conhece a sua história tem por destino repeti-la“.  Tenho esperanças de que este augúrio não nos aflija!





Palavras para lembrar — Abraham Lincoln

5 11 2012

Lendo na murada da praia, 2009

Judi A. Gorski (EUA, contemporânea)

acrílica sobre tela

http://judigorski.blogspot.com

” A capacidade e o gosto pela leitura dão acesso a tudo que já tenha sido descoberto por outros”.

Abraham Lincoln





Trate bem do lugar onde mora: Vote limpo!

7 10 2012





O labirinto em Serena, de Ian McEwan

4 10 2012

Relatividade, 1953

M. C. Escher (Holanda, 1898-1972)

Litografia

Inicialmente pensei que a imagem mais apropriada para ilustrar o livro Serena de Ian McEwan fosse uma das paisagens de Estaque do pintor francês e fundador do cubismo, Georges Braque, tal como Viaduto de Estaque ilustrado abaixo.   Nesta tela vemos uma paisagem com algumas casas rodeadas de vegetação e um viaduto romano ao fundo.  Nós compreendemos a cena, e ainda a vemos mais completa, porque somos instruídos — através da criativa maneira de pintar desenvolvida pelos cubistas, inspirados por Cézanne —  sobre as demais facetas da paisagem que revela diversos elementos vistos por diferentes ângulos, que não estariam dentro das nossas possibilidades entrever.  Com o  uso de múltiplas perspectivas Georges Braque neste caso permite que  conheçamos “o outro lado da lua”, ou seja: os dois lados de um telhado que nossa visão não permitiria perceber, ou a fachada de uma casa,  que ele levanta  ligeiramente,  por cima das casas na frente, para que vejamos a série de janelas paralelas corridas.  Essa visão compreensiva, giroscópica,  do tema, dos objetos ou pessoas retratadas, explorada pelos cubistas constitui em grande parte a maneira narrativa de Ian McEwan.

Viaduto de Estaque, 1908

Georges Braque (França, 1882-1963)

óleo sobre tela, 72 x 59 cm

Museu de Arte Moderna, Centro Pompidou, Paris

Mas à medida que o texto avançou e certamente depois que cheguei ao fim do romance,  a visão cubista, ainda que interessante,  não me satisfez.  Porque é um texto que se renova, que se reencontra e que recomeça.  É um labirinto com alguns becos, algumas passagens em múltiplos níveis, com algumas realidades paralelas, como se estivéssemos num jogo digital e uma vez ou outra achássemos a porta que nos leva direto até o próximo nível, sem termos que lutar com o dragão ou algum inimigo inesperado.  Esta é uma história que vai e volta e se aprofunda em diversos níveis sem que saibamos por que estamos sendo levados por aquele caminho e de repente, parecemos voltar ao ponto inicial como em um rondó musical ou em uma fita de Möebius.  E foi pensando nela que acabei selecionando uma das muitas gravuras de M. C. Escher para dar o tom visual do que acontece com o leitor de Serena.  Escolhi a gravura Relatividade, uma litografia cuja primeira tiragem foi feita em 1953, porque esse artista holandês é quem, nas artes plásticas, de meu conhecimento, melhor exemplifica a minha experiência ao terminar esse texto.

É a habilidade narrativa de McEwan que permite que se chegue ao final da trama capaz de entender os diversos níveis em que ela se desenvolve. E ser surpreendido.  Totalmente surpreendido.  Este é um romance, um thriller, que aparenta tratar de espionagem na década de 60 do século passado. Espionagem envolvendo o fabuloso serviço inglês MI5 já bastante caracterizado na literatura, no cinema e em programas televisivos pela sua invencibilidade.   Não há nenhum James Bond, mesmo em se tratando de Londres, cidade onde Serena,  que acabou de terminar o curso superior numa excelente universidade inglesa, arranja seu primeiro emprego.  A jovem é a nossa porta de entrada para esta aventura literária que insiste em parecer simples e direta.  Até que, em certo momento, temos a sensação de que talvez não estejamos lendo coma atenção necessária.  No meu caso foi lá pela página 140, quando parei e voltei ao início.  Mas tive relatos de outros leitores, talvez mais sensíveis, mais perceptíveis, que o fizeram umas 50 páginas antes.  De qualquer modo, o leitor sente que  há algo no ar mas não sabe onde, nem o quê, nem o porquê. E assim se desenrola a narrativa.

Ian McEwan

Mais do que um thriller, Serena é um livro sobre ficção.  Sobre diversos níveis de ficção. Sobre a ficção que encontramos no dia a dia, na fabricação de quem somos, no contar e recontar de nossos movimentos de nossas ações.  Temos a ficção de espiões e a ficção de quem escreve ficção.  Este é um   romance baseado no ato de simular, na habilidade do fingimento.  Ian McEwan explora aqui  a tênua linha que define realidade.  Este romance é uma ode à imaginação.  À nossa habilidade, à capacidade humana de iludir e de aceitar ser iludida.  A narrativa é um quebra-cabeça, um Cubo de Rubik com faces de espelhos, onde tudo se encaixa, a qualquer momento em qualquer hora,  porque tudo, absolutamente tudo não passa de ficção.  Uma narrativa brilhante.

Minha objeção está na personagem que achei o menos crível dos elementos.  Mas como acreditar em um personagem que nos ajuda a construir o ficcional?  Como julgar aquele que nos faz crer e que nos ajuda a descrer. Este é o impasse a que chegamos.  E a mensagem é simples: não creia, não acredite.  Tudo não passa de ficção.  Nem mesmo eu, nem você que me lê, nem Serena.