Reflexões infinitas, “Livro” de José Luís Peixoto

14 04 2014

29_Drawing Hands by Escher

Mãos desenhando, 1948

M. C. Escher (Holanda, 1898-1972)

Litografia, 28 x 33 cm

Não sei como a prosa de José Luís Peixoto soa aos ouvidos portugueses, aos meus, brasileiros, soa rica, dinâmica, orgânica. Deslumbra a expansão dos significados de palavras comuns, conhecidas. Antes mesmo de nos envolvermos com a trama, a língua portuguesa seduz. Com José Luis Peixoto embarcamos numa prazerosa e aventureira narrativa construída por vocábulos, que por engenhosa inflexão, nos fazem ver por ângulos incomuns as mesmas cenas que em qualquer outro escritor passariam desapercebidas. Precisávamos disso na nossa língua torná-la mais jocosa, folgazã. Mais ágil.

A trama é trabalhada de modo tão criativo quanto a língua. A impressão que tenho é que José Luís Peixoto brinca conosco, diverte-se com o impacto que terá sobre o leitor e se entretém ao considerar o rumo da narrativa.  Inventivo, ele nos faz sorrir quando nos deparamos com suas reviravoltas;  e ao divertir-se ele amplia os limites do que consideramos romance.  A trama inicial situada em um vilarejo do  Alentejo na década de sessenta, encontra eco na França, meio livro adiante, onde os mesmos protagonistas se encontram, fugidos da economia caótica do período Salazarista.  Fogem do país, mas não fogem de si.  Emigram levando com eles os sonhos, os amores e até mesmo a pequenice do lugar de onde procedem. A reinvenção de cada um é um processo difícil e conturbado.  Penoso para todos. E inicialmente até parece que deixaram para trás os grilhões da terra natal.  Mas quando percebemos, estamos presos aos destinos deles e nos vemos de volta ao início como  numa gravura do mundo paralelo de M.C. Escher. Nas gravuras do artista holandês, voltamos aos temas iniciais achando que chegamos a algum lugar novo só para descobrirmos que nos encontramos aparentemente fazendo o caminho anterior, são escadas que descem mas também sobem; cachoeiras cujas águas desaguam em suas fontes ou  mãos que se desenham. O romance, que traz o título sui generis e inegavelmente astuto, se transforma numa fita de Möbius, que mexe com o desenrolar natural da voz narrativa, oscilando entre o universo conhecido e outro paralelo.

Índice

Este livro podia acabar aqui. Sempre gostei de enredos circulares. É a forma que os escritores, pessoas do tamanho das outras, tem para sugerir eternidade. Se acaba conforme começa é porque não acaba nunca…” José Luís Peixoto nos diz claramente a que veio ao final da primeira parte: quer escrever uma história que não acabe nunca. E consegue.  Como um mágico de cartola, tira, sabe-se lá de onde, a ideia de fazer a história se arrevesar uma vez mais, mas de maneira mais completa. Não se trata mais de um espelhar de comportamentos, de um retrato de infinitas estruturas sociais que comprimem os indivíduos e os faz robôs de seus próprios preconceitos. Nem tampouco das idas e vindas dos personagens ou da narrativa que nos leva a diversos recomeços.  Agora, quando entramos na segunda parte, temos que trocar de marcha, refletir ainda uma vez sobre o texto. Porque descobrimos que ali há mistério. Faz-se necessário reconsiderar uma questão importante: quem narra esse romance?  E chegando a uma conclusão, como bons leitores que somos da narrativa linear, temos que voltar ao início e considerar as ramificações daquilo que descobrimos. Eureka!  Eternidade à vista! Fizemos a volta completa, mas com uma virada, aquela virada da fita de Möbius, aquele giro que faz do inicio o fim com um truque. Não se trata da forma circular, mas da elíptica com uma torção. Nasce um texto hermético.

JLP © Helena CanhotoJosé Luís Peixoto — Foto: Helena Canhoto

 

José Luís Peixoto arrisca, aposta, se aventura e se expõe nesse romance. Vai à procura da Pedra Filosofal e encontra vestígios de que ela existe. A caminho, ele enfeita e adorna a língua materna, diverte-se vadiando pela narrativa, como se estivesse mesmo a interpretar um escritor. A emigração portuguesa ilegal  para a França não é nada mais do que ponto de partida para uma corajosa investigação sobre os limites da narrativa. Joga verde e colhe maduro. Pratica e treina uma nova forma diante dos nossos olhos.  Ou será que os títulos dos capítulos estão lá por acaso?  Ou talvez as palavras circundadas por elipses, que remontam de novo à primeira parte do livro, foram invencionices da moda?  José Luís Peixoto se arremessa numa nova forma, atira no incerto e ganha o certo; dispara imagens gráficas e de linguagem.  E finalmente lança o leitor na montanha russa de uma narrativa sem fim.  Não há dúvidas de que ele é inovador, inventivo.  Nem de que ele sente os limites da forma e da língua como camisas de força. Para chegar lá ele brinca, graceja e se diverte. Leva-nos junto. E o resultado é muito produtivo, um trabalho realisticamente inovador.





Daqui a cem anos, que livros publicados no século XXI ainda serão lidos?

11 04 2014

Laerte AgnelliLaerte AgnelliLaerte Agnelli, (Brasil, 1937).

O jornal inglês The Guardian fez esta pergunta a seus leitores: “daqui a cem anos que livros publicados no século XXI ainda serão lidos?”  Para nos ajudar nessas especulações próprias para o fim de semana, John Crace, que assina a matéria, nos lembra que entre a virada do século XX e o início da Primeira Guerra Mundial, em 1914, os seguintes livros foram publicados que ainda são lidos nos dias de hoje:”L Frank Baum escreveu The Wonderful Wizard of Oz, [O mágico de Oz]; Colette escreveu Claudine em Paris; Joseph Conrad escreveu Heart of Darkness [O coração das trevas], Baronesa Orczy escreveu  The Scarlet Pimpernel, [O pimpirnela escarlate]; EM Forster  escreveu Howards End, Thomas Mann escreveu Death in Venice [Morte em Veneza] e Marcel Proust escreveu Swann’s Way [No caminho de Swann]: todos esses livros se tornaram clássicos e são lidos até hoje”.

A minha pergunta é a mesma que o jornal inglês faz.  Que livros que você leu — publicados — nesses 14 anos do século XXI, você acredita que estarão ainda sendo lidos no ano de 2114?

Dos que li acredito que ainda sejam lidos em 2114.

Equador, de Miguel Sousa Tavares

Traduzindo Hannah, de Ronaldo Wrobel

E vocês?

Mais dois:

Seu rosto amanhã, Javier Marías  — contribuição da leitora, Nanci Sampaio, como vemos nos comentários.

2666, Roberto Bolaño — contribuição do leitor Alexandre Kovacs

 

—-

PS: Adicionei outros quando me lembrar de outros.





A boa literatura de além-mar

18 03 2014

OLYMPUS DIGITAL CAMERALeitora e flores, 2004

Márcio Melo (Brasil, contemporâneo)

acrílica sobre tela, 76 x 61 cm

www.marciomelo.com

Nos dias de hoje tenho mais prazer com a literatura lusitana do que com a produzida no Brasil.  São raros os escritores brasileiros cuja ficção me dá prazer. Acontece com a literatura, o que acontece com o cinema, estamos em pontos opostos sobre a percepção do que é qualidade. A produção nacional não me seduz. Nos dois casos me parece que escritores e diretores falam para seus colegas, escrevem e filmam obras para que seus colegas leiam ou assistam e não para um público, como eu (e são muitos de nós nesse barco) sedento por uma boa história, contada de maneira criativa mas sem didatismo político para que aceitemos goela abaixo essa ou aquela nova moda. A história bem contada, bem narrada, que aquece a alma do leitor existe nas exceções brasileiras, e as resenhas nesse blog mostram os nomes de autores brasileiros que aprecio.  Por aqui, no entanto, estamos fortemente dominados pela teoria de que a arte resolve problemas sociológicos. Não é o caso e nunca foi.  Literatura ou cinema com agenda política é  coisa adolescente e entediante. Com o passar dos anos se perde, é encafifada com teias de aranha, esquecida nas prateleiras inalcançáveis das bibliotecas até ser tema de alguma dissertação para um estudante de doutorado.

Deve ser por isso que a literatura produzida nas duas últimas décadas, em outras versões da minha língua materna, me atrai tanto.  Não falo só de Portugal, mas dos países de língua portuguesa do continente africano.  Com eles não me sinto lendo tratados sociológicos sobre personagens que trilham a periferia da sociedade. O encantamento que tenho com Miguel Sousa Tavares, Dulce Maria Cardoso, Ondjaki, Saramago, Agualusa, Felipa Melo, Gonçalo M. Tavares, Germano Almeida, Mia Couto entre outros raramente encontra eco dentro de mim pelo que é produzido deste lado do Atlântico.

Hoje isso acontece ainda uma vez mais. Hoje, estou cantando, enrolando a língua no prazer de pronunciar as palavras que conheço, mas que me vêm com conotações diferenciadas, com usos criativos.  Estou degustando a prosa de José Luís Peixoto.  O que me agrada? A linguagem entre o coloquial e o clássico; a maneira econômica e pausada de narrar; a inversão de imagens que surpreende a narrativa [como no texto abaixo quando diz:  “Os barulhos faziam-lhe perguntas…”] Uma escrita quase poética, com elipses que deixam espaço para a nossa imaginação.  O livro chama-se Livro.

“(1960)

O comboio era incompreendido pelo Galopim.

Encostado à janela, de boca aberta via os campos a passarem e sentia o barulho do comboio no encosto, no rabo sentado, nos pés dentro dos sapatos. As nuvens afastavam-se mais devagar do que as árvores, que passavam a zunir.  Olha um rapaz lá além a guardar meia dúzia de ovelhas. Galopim apontava para a janela, mas os outros rapazes da sua idade pouco ligavam. Usava um fato cinzento que lhe tinha sido oferecido por uma viúva. É uma boa vantagem terem o mesmo tamanho, disse a viúva. Mas não tinham. O Galopim era encorpado, mas o falecido, velho grande, era mais encorpado ainda. As calças presas por um cinto, faziam foles na zona da cintura. As mangas do casaco chegavam-lhe quase às pontas dos dedos. A viúva também disse que era uma boa vantagem calçarem o mesmo número, mas também não calçavam. Os sapatos iam seguros por palmilhas de cartão, ásperas.

A cidade, os olhos de Galopim rebolavam-se pela cidade. Os barulhos faziam-lhe perguntas a que não sabia responder. As casas levantavam-se diante dele.  Os pombos acalmavam-no em voos sobre praças e avenidas. Ao longo dos passeios, evitando e ultrapassando pessoas desconhecidas, o Galopim seguia os outros rapazes de sua idade.  E entraram numa porta aberta, subiram por umas escadas estreitas, degraus de madeira gasta, que cheiravam a musgo seco e que escureciam.

O Galopim continuou a segurar a maleta quase vazia. Estava ligeiramente despenteado. Tentou escutar com muita atenção aquilo que foi dito pelo rapaz da sua idade, muito sério, e pela mulher do peito para cima, que estava sentada atrás de um balcão.

Somos oito.

Mas havia um gato, peludo, que passava pelas pernas dos outros rapazes da sua idade, pelas suas, e que, com um pulo, chegou a subir para cima do balcão. O Galopim deixou de escutar a conversa para seguir os movimentos do bicho. A mulher não se interessou quando estendeu a chave ao rapaz com quem tinha estado a falar. No fundo de um corredor, atrás de uma porta, estava o quarto: meia dúzia de beliches de ferro, um canto do teto desmoronado, nuvens negras de umidade nas paredes, uma mesa pequena e velha. Os rapazes da idade do Galopim estavam alegres. No dia seguinte, iam às sortes. Aos olhos deles, a cidade parecia azeite de fritar. Era quase de noite.”

Mais tarde o capítulo seguinte começa encantador:

“(1964)

As paredes estavam mais resignadas que os pombos.

Era uma hora prateada. O fim da tarde atravessava o tempo e entrava pela porta aberta do quintal. O fim da tarde atravessava o vento. Ouvia-se o restolhar das folhas das árvores, ao longe, mas ouvia-se também as asas dos pombos a riscarem o ar, gemidos cortados, mas ouvia-se também o lume a arder, as chamas a fazerem estalar o madeiro, mas ouvia-se também a água”.

Ou o início da segunda parte deste capítulo:

“O Mondego tinha excelentes margens para vomitar.”

Em: Livro, José Luís Peixoto, São Paulo, Cia das Letras: 2012, pp: 71-72; 75, 76.

A narrativa surpreende não só pelo conteúdo mas pela maneira como é mostrado.  Ainda não acabei de ler o livro, mas já antecipo uma leitura que terá me satisfeito quando chegar ao final.





Minuto de sabedoria — Manuel Alegre

25 02 2014

V.G.Vlasov (1927, Odessa - 2000, ibid.) Girl with a book. 1966 Pastel on cardboard. Postcard printed in the USSR, Ukrainian SSR, publishing MistetstvoJovem com livro, 1966

V. G. Vlasov (Ucrânia, 1927-2000)

pastel sobre papelão

“Não há flecha que não contenha o arco da infância”.

GetResource

 Manuel Alegre





Na ribeira deste rio, poema de Fernando Pessoa

9 08 2013

Archimedes Dutra,Pescador na beira do rio,1932,ost, 27 x 35 cmPescador na beira do rio, 1932

Archimedes Dutra (Brasil, 1908-1983)

óleo sobre madeira, 27 x 35 cm

Poema

Fernando Pessoa

Na ribeira deste rio

ou na ribeira daquele

passam meus dias a fio.

Nada me impede, me impele,

me dá calor ou dá frio.

Vou vendo o que o rio faz

quando o rio não faz nada.

Vejo os rastros que ele traz,

numa sequência arrastada,

do que ficou para trás.

Vou vendo e vou meditando,

nem bem no rio que passa

mas só no que estou pensando,

porque o bem dele é que faça

eu não ver que vai passando.

Vou na ribeira do rio

que está aqui ou ali,

e do seu curso me fio,

porque, se o vi ou não vi,

ele passa e eu confio.

Em: Antologia poética para a infância e a juventude, Henriqueta Lisboa, Rio de Janeiro, Instituto Nacional do Livro: 1961, p. 150-151.





Quadrinha da fala da música

24 03 2013

serenata na rede

Ilustração de Harrison Fisher.

Da música a melodia
diz, pela alma falando,
mais do que a boca diria
muitas horas conversando.

(António Aleixo)





O corvo e a raposa, poema e fábula, Bocage

24 02 2013

1289703457Ilustração de John Rae.

O corvo e a raposa

Bocage

——————-(tradução de La Fontaine)

 –

É fama que estava o corvo

Sobre uma árvore pousado

E que no sôfrego bico

Tinha um queijo atravessado.

Pelo faro, àquele sítio

Veio a raposa matreira,

A qual, pouco mais ou menos,

Lhe falou desta maneira:

– Bons dias, meu lindo corvo;

És glória desta espessura;

És outra fênix, se acaso

Tens a voz como a figura.

A tais palavras, o corvo,

Com louca, estranha afouteza,

Por mostrar que é bom solista

Abre o bico e solta a presa.

Lança-lhe a mestra o gadanho

E diz: – Meu amigo, aprende

Como vive o lisonjeiro

À custa de quem o atende.

Esta lição vale um queijo;

Tem destas para teu uso.

Rosna então consigo o corvo

Envergonhado e confuso:

– Velhaca, deixou-me em branco;

Fui tolo em fiar-me dela;

Mas este logro me livra

De cair noutra esparrela.





Chuva, poesia infantil de Luísa Ducla Soares

13 02 2013

chuva e gato preto B. Midderigh Bokhorst,

Ilustração alemã, sem autoria, década de 1930.

Chuva

Luísa Ducla Soares

Cai a chuva, ploc, ploc
corre a chuva ploc, ploc
como um cavalo a galope.

Enche a rua, plás, plás
esconde a lua, plás, plás
e leva as folhas atrás.

Risca os vidros, truz, truz
molha os gatos, truz, truz

e até apaga a luz.

Parte as flores, plim, plim
maça a gente plim, plim
parece não ter mais fim.

Em: A Gata Tareca e Outros Poemas Levados da Breca, Luísa Ducla Soares, Teorema: 1990





A máquina de fazer espanhóis: música aos meus ouvidos

7 01 2013

Brown_Ellen, lendo a Ilha do Tesouro

Lendo a Ilha do Tesouro, 2010

Ellen Brown (EUA, contemporânea)

óleo sobre tela,  56 x 71 cm

www.ellencbrown.com

Dois preconceitos acabaram por retardar a minha leitura de A máquina de fazer espanhóis de Valter Hugo Mãe. O primeiro preconceito tem a ver com a falta de letras maiúsculas, uma complicação textual que continuo a achar desnecessária e um tanto marqueteira.  Depois de ver uma entrevista com o autor, na época em que ele veio à FLIP, fiquei convencida de que era isso mesmo que se passava, e deixei o livro de lado. [Folgo em saber que Valter Hugo Mãe já deixou de lado este pequeno e esdrúxulo requisito para suas obras].   O outro preconceito é mais sutil e não menos importante: não me afino muito com leituras cujas narrativas pendem para fluxo de consciência.  Sim, sim, sei que grandes obras da literatura moderna usam desse artífice para narrar, mas é uma questão de escolha pessoal minha, de afinidade.

Dito isso, venho reconhecer que A máquina de fazer espanhóis, que ganhou o prêmio José Saramago, em 2007, é um dos textos mais criativos com que me deparei nos últimos anos.  Ostensivamente o assunto que provoca as ponderações — sobre a vida, o país, a história, o Benfica, futebol, maneira de viver e de morrer e todos os demais questionamentos do dia a dia da vida de qualquer cabeça pensante —  é trazido para a arena de debate interno, do pensamento analítico, por um senhor de oitenta e tantos anos que acaba de ser internado  num asilo para idosos. São poucos os livros que conheço que abordam o assunto da velhice, da memória, da decrepitude, com tanta energia, simpatia e realismo.  Bernice Rubens, autora de um excelente romance sobre o tema — The Waiting Game–  com o qual ganhou o Booker Prize em 1993, tem em comum com Valter Hugo Mãe o fino senso de humor.  Já Leite Derramado, de Chico Buarque , que ganhou o prêmio Jabuti de 2010, que se desenvolve a partir de um tema semelhante, não consegue, a meu ver, narrativa tão sensível e emotiva quanto Valter Hugo Mãe atinge nos seus momentos mais poéticos.

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A máquina de fazer espanhóis se impõe então no universo literário lusófono como uma bela homenagem aos nossos anciãos, onde a tão conhecida melancolia portuguesa é combinada de forma sutil e inesperada com uma boa dose de humor e de realismo. Valter Hugo Mãe  alerta que nem todos os velhos são iguais. E mostra como todos são tratados como se fossem iguais, como crianças.  Nosso mundo vê os velhos como tendo um pouco de poetas, de loucos, de fantasiosos, de irresponsáveis.  A sociedade, a família, os profissionais de assistência social, enfermeiros, todos os tratam como se a caduquice fosse generalizada e talvez até contagiante.  Com essa narrativa somos requisitados a pensar nos velhos que conhecemos: pais, mães, avós, tios.  E temos que admitir que também nos comportamos de maneira análoga. Quantas vezes não nos pegamos em conversa jogada fora, na hora do cafezinho, dizendo que fulano que passou dos 80 ainda está bem, ainda pega ônibus, ainda toma conta de suas contas bancárias, ainda vota.  Como se o normal fosse o contrário; como se a decrepitude se estabelecesse inevitavelmente em todos, a partir de uma certa data.

Surpreendente é a forma poética de apresentar as diferenças entre uns e outros no asilo.  Às vezes é a ternura  que embala certas situações:  “a dona glória do linho parecia um ser delicado, toda candura e menina. tinha uma pouca experiência do amor e não aguentava a timidez de estar a ser cortejada por um garboso doutor em arte antiga. a dona glória do linho tinha estado no quarto do anísio dos olhos de luz e apequenara-se entre as estátuas importantes e bem pintadas que ele guardava. achava ela que estava dentro de um pedaço de museu, assim preciosa e maior do que o tempo de uma vida, porque era um pedaço de coisas que tinham de ficar para sempre como património de toda gente, mais preciosas do que toda gente.”

Surpreendente também é a crítica quando presenciamos a irreverência de quem não tem mais nada a perder: “ser religioso é desenvolver uma mariquice no espírito. um medo pelo que não se vê, como ter medo do escuro porque o bicho-papão pode estar à espreita para nos puxar os cabelos. esperar por deus é como esperar pelo peter pan e querer que traga a fada sininho com a sua minisaia erótica tão desadequada à ingenuidade das crianças.

valter hugo mãeValter Hugo Mãe

O jogo entre a lucidez e a fantasia permite que Valter Hugo Mãe se embrenhe por referências políticas, pelos problemas do Portugal moderno, membro da Comunidade Europeia, sem que seu livro se torne um cansativo tratado sócio político.  Pelo contrário, ele ilustra e relata fatos sem radicalismos nem pieguices  doutrinárias.  Seus velhinhos de asilo são ricos de características ímpares que num pulo da imaginação podem se tornar elementos para uma leitura mais alegórica do momento sócio-econômico pelo qual o país passa.  Mas em toda a narrativa o que mais me emocionou foi a língua.  Foi o português, o brincar com as palavras, foram os sons das palavras, a maneira de escrever como se fala, como ouvimos, como a gente da rua se expressa, cheia de poesia embutida nas sílabas cantadas.  Este sim foi, acima de tudo, o meu maior prazer nessa leitura.  Prazer que me fez parar e repetir parágrafos, marcar trechos, ler em voz alta. Mesmo com meu sotaque brasileiro o português cantou com Valter Hugo Mãe. Sim, com ele, a língua canta.





Quatro novos livros no vestibular da FUVEST e UNICAMP

7 01 2013

lendo 77Ilustração, Maurício de Sousa.

As novidades para o vestibular do final do ano de 2013 são quatro novos livros. Essa lista é das leituras obrigatórias para o vestibular.  Vejamos:

Novo:

Viagens na minha terra, de Almeida Garrett.  Este livro entra no lugar de  Auto da Barca do Inferno de Gil Vicente, que era pedido no ano passado.

Til, de José de Alencar, entra na lista substituindo Iracema do mesmo autor, na lista anterior.

Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis toma o lugar de Dom Casmurro, do mesmo autor, que fazia parte da lista passada.

Sentimento do mundo, de Carlos Drummond de Andrade será agora o livro de poesias.  Anteriormente a leitura requerida era Antologia Poética de Vinicius de Moraes.

Continuam na lista:

Memórias de um sargento de milícias de Manuel Antônio de Almeida

O cortiço de Aluísio Azevedo

A cidade e as serras de Eça de Queirós

Vidas secas de Graciliano Ramos

Capitães de areia de Jorge Amado

Gostei das mudanças. Elas trazem maior textura e as obras escolhidas me parecem ter mais diálogo entre si. Perigando ser criticada, gosto mais de Brás Cubas do que de Dom Casmurro.  É uma questão de gosto pessoal.  Ver José de Alencar além do indianismo também acho muito interessante, porque expande o horizonte desse mestre da literatura brasileira. Frequentemente suas obras regionalistas e urbanas são deixadas de lado, mesmo que produzam retratos importantes da sociedade da época. Drummond é um poeta intelectualmente mais complexo, junto com Bandeira — difícil dizer qual é melhor — um dos grandes expoentes da nossa poesia.  Essa troca enriquece as variáveis nas provas do vestibular.  As mudanças parecem apontar para a leitura em contexto histórico-social. Importante será ver o trabalho de Garrett em relação ao Portugal da época.  Cada vez mais olha-se para a literatura fora do cosmos exclusivamente literário, para dar ênfase ao momento histórico da publicação. Drummond certamente está inserido com o livro de poemas de maior relevância política do poeta.  E também será interessante ver as comparações entre os livros da lista. Sabemos por exemplo que Garrett exerceu influência em Machado.  Será apropriado ao ler esses livros manter em mente uma comparação entre os autores.  É começar a ler agora mesmo!  Não há tempo a perder!  Boa sorte a todos.