Minha arma … Rosa Montero em “A História do rei transparente”

15 08 2017

 

 

RAMON CASAS (Espanha, 1866-1932)Entre capítulos, 1890-, ost, 41x 32, Museu Nacional d_art de Catalunya.Entre capítulos, 1890

Ramon Casas (Espanha, 1866-1932)

óleo sobre tela, 41 x 32 cm

Museu Nacional de Catalunha

 

 

“… A pena treme entre meus dedos a cada vez que o aríete investe contra a porta. Um sólido portão de metal e madeira que não tardará a despedaçar-se. Pesados e suados homens de ferro se amontoam na entrada. Vêm à nossa procura. As Boas Mulheres rezam. Eu escrevo. É a minha maior vitória, minha conquista, o dom do qual me sinto mais orgulhosa; e as palavras, embora estejam sendo devoradas pelo grande silêncio, hoje constituem minha única arma.”

 

 

Em: História do rei transparente, Rosa Montero, Rio de Janeiro, Ediouro:2005, página 9





Sobre livros: Erri de Luca

10 07 2017

 

 

Matisse,still-life-with-books-and-candle-1890Natureza morta com livros, 1890

Henri Matisse (França, 1869 – 1954)

óleo sobre tela, 45 x 38 cm

Coleção Particular

 

 

“E para ele encompridar mais um pouco me pergunta o que tenho no bolso. Um livro, digo. Qual? Um usado, leio livros em final de exercício. Por quê? Digo-lhe outra vez. A mão dele vai ao bolso do meu casaco, mas não tira, sopesa.

Leio os usados porque as páginas muito folheadas e engorduradas dos dedos pesam mais nos olhos, porque cada cópia de livro pode pertencer a muitas vidas e os livros deviam ficar desvigiados nos lugares públicos e deslocar-se junto com os passantes que os levam consigo por um pouco e deveriam morrer como eles, consumidos por doenças, infectados, afogados ponte abaixo junto com os suicidas, enfiados num aquecedor no inverno, rasgados pelas crianças para fazer barquinhos, em suma deveriam morrer em qualquer lugar a não ser de tédio e de propriedade privada, condenados a uma prateleira pela vida toda.”

 

Em: Três cavalos, Erri de Luca, São Paulo, Barlendis & Vertecchia: 2006, tradução de Renata Lúcia Bottini, página 25.

 





Resenha: “Três Cavalos” de Erri de Luca

20 06 2017

 

 

The Woodcutter by Camille Pissarro (oil on canvas, 35x45-3-4 CourtO lenhador, 1879

Camille Pissarro (França, 1830 – 1903)

óleo sobre tela, 89 x 116 cm

The Robert Homes a Court Collection, Perth, GB

 

 

Nunca tinha ouvido falar de Erri de Luca até receber de Nanci Sampaio, uma amiga conhecedora dos meus gostos, esse livrinho chamado Três Cavalos.  Levei algum tempo até abrir suas páginas.  Dizem os budistas que as coisas acontecem na hora certa.  Então aconteceu agora esse amor pela obra do escritor italiano, cuja lista de publicações é longa e abrangente: o autor é jornalista, romancista e poeta.

 

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Sua prosa é seca e precisa. Concisa.  Mas de imagens vívidas e maneira de ver as coisas simultaneamente poética e inesperada.  Eu me encontrei relendo muitas passagens, marcando no texto, dois, três parágrafos pela beleza ou pela surpresa.  E como um poema, este é um livro pequenino que passa uma poderosa história em dois tempos, presente no sul da Itália e passado na Argentina.  Há também o paralelo entre dois amores, o de então e o do momento.  Duas mulheres perturbadoras que conquistam o coração quase inocente de um homem  que agora, aos cinquenta anos, leva a vida de jardineiro.

 

Erri_De_LucaErri de Luca

 

Ainda que este seja um romance com descrições da perseguição política na Argentina, o tema serve  de pano de fundo.  Maior que ele é o amor, força que impulsiona atos impensáveis. Também fala de amizade e da honra entre amigos.  A honra entre o narrador e seu amigo africano Selim, um trabalhador temporário que vai e volta da África e tem o dom da divinação. São 108 páginas concisas, repletas de poesia e determinação.  E emoção. Emoção contida como cabe a um europeu.  Mas lá está para nos puxar página após página ao seu surpreendente final.  Uma obra poderosa, marcante.  De grande impacto. Excelente leitura.

 

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem qualquer incentivo para a promoção de livros.





O humor de Mark Twain

3 04 2017

 

 

DohanosIlustração de Stevan Dohanos, para The Saturday Evening Post, Janeiro, 1946.

 

 

Um dia, durante uma série de palestras  do gênero comédia em pé, através do país, Mark Twain entrou numa barbearia para fazer a barba.  Twain contou, então, ao barbeiro que era sua primeira visita à cidade.

“Você escolheu uma boa hora para vir,” disse o barbeiro.

“Sim?” respondeu Twain

“Mark Twain dará uma palestra hoje à noite. Imagino que você vá querer vê-lo?”

“Acho que sim…”

“Já comprou sua entrada?”

“Não, ainda não,”

“Bem, já está esgotada. Só terá lugar em pé.”

“É a minha sina,” disse Twain com um suspiro.  “Sempre fico em pé quando aquele cara visita a cidade!”





A chamada do escritor, José Eduardo Agualusa

22 02 2017

 

 

 

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Estudante, 1969

Gevork Kotiantz (Rússia, 1906-1996)

óleo sobre tela, 100 x 100 cm

 

 

“Imagino que, pesquisando, seja possível encontrar, para cada romancista, o episódio fundador da sua escrita: o distante relâmpago, a pequena humilhação, um primeiro amor impossível, a mãe controladora, um crime íntimo, a morte do pai.

Todos nós gostaríamos de saber de que selva fabulosa saíram os tigres de Jorge Luís Borges; de que ruínas barrocas ou jardins perfumados emergiram as baratas de Júlio Cortázar ou as belas ninfetas e mariposas (serão a mesma coisa?) de Vladimir Nabokov. Não creio que o segredo da criação se esgote nesse conhecimento, e nem me parece que tal fosse desejável. Talvez tenha até o efeito contrário, levando-nos a reler os livros que mais amamos e que mais nos marcaram, e a encontrar nessa releitura novos e mais profundos mistérios.”

 

 

Em: “Um relâmpago que atravessa vidas”, José Eduardo Agualusa, O Globo, 20/02/2017, 2º caderno, página 2.

 

 

 





Desejo difícil, mas não impossível

13 02 2017

 

 

 

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Piquenique no vento

Anthea Craigmyle (GB, 1933- 2016)

óleo sobre placa, 18 x 23 cm

 

 

Com atraso de quase dois anos, retomo projeto de leitura começado há algum tempo: ler o que foi listado pela BBC como as 12 melhores obras na literatura britânica neste século. Listas como essa me fascinam. Sei que são tendenciosas.  Mas sou fã dos autores britânicos, então, as listas em que eles são estrelas se tornam mais ou menos um guia para a minha leitura.

Aqui estão:

01 — A fantástica vida breve de Oscar Wao, Junot Diaz (2007) — Abandonei, não gostei.

02 — O mundo conhecido, Edward P. Jones (2003) — comprado

03 — Wolf Hall, Hilary Mantel (2009) — comprado no Kindle, sem leitura

04 — Gilead, Marylinne Robinson (2004)

05 — As correções, Jonathan Franzen (2001)

06 — As incríveis aventuras de Kavalier e Clay, Michael Chabon (2000)

07 — A visita cruel do tempo, Jennifer Egan (2010)

08 — A longa caminhada de Billy Lynn, Ben Fountain (2012)

09 — Reparação, Ian McEwan (2001) — LIDO em inglês — gostei muito

10 — Meio sol amarelo, Chimmanda Ngozi Adchie (2006) — LIDO — gostei muito, muito

11 — Dentes brancos, Zadie Smith (2000) – Comprado, na prateleira

12 — Middlesex,. Jeffrey Eugenides (2002) — LIDO em inglês

 

Em compensação, já li muitos dos colocados logo abaixo, entre eles:

13. Chimamanda Ngozi Adichie, Americanah, LIDO, gostei
14. WG Sebald, Austerlitz
15. Elena Ferrante, My Brilliant Friend, LIDO, mais ou menos
16. Alan Hollinghurst, The Line of Beauty  LIDO, gostei muito, muito
17. Cormac McCarthy, The Road
18. Zadie Smith, NW
19. Roberto Bolaño, 2666
20. Shirley Hazzard, The Great Fire

 

E você?  Leu algum deles?

 

 

 

 





Resenha: “Kitchen” de Banana Yoshimoto

31 01 2017

 

 

alex_gross_3ice-cream-cone-despair-alex-grossSorvete de casquinha ou Desespero

Alex Gross (EUA, 1968)

 

 

Kitchen é o livro que apresentou ao ocidente, em meados da década passada, a escritora Banana Yoshimoto, revelação da moderna literatura japonesa.  Muito sucesso desde então abraçou a autora. O livro foi também minha apresentação ao trabalho dela e assim como outros leitores mundo afora irei ler suas outras obras. Com linguagem clara e delicada Yoshimoto apresenta os difíceis temas da perda, luto e renascimento emocional.

São duas histórias: uma novela (longo conto) e um conto.  Ambos tratam  com empatia as perdas por morte sofridas pelos personagens principais, jovens que se encontram sozinhos no mundo, sem familiares ou sem as pessoas que amam.  Todos acabam encontrando carinho e conforto através fontes inesperadas.  Suas vidas, que começam viradas pelo avesso sem perspectiva de melhores dias, parecendo perdidas em meio a tristeza e sofrimento aos poucos se liberam da decepção e visualizam um horizonte mais feliz, repleto de possibilidades.

 

 

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O estilo da autora é caprichoso.  Ela trata seus personagens, às vezes extravagantes, excêntricos e ocasionalmente exuberantes, com tanta delicadeza e aceitação que a própria estranheza não salta aos olhos.  Ao contrário, é comovente.  A narrativa leve, com jeito despretensioso, permite que sutilezas sejam ressaltadas, e que a vulnerabilidade de cada personagem apareça sem excessos ou melindres.

Banana Yoshimoto me lembra os interiores de casas japonesas onde o minimalismo é eloqüente; o gracioso tem peso e a almejada serenidade encontra expressão.  Não há excessos ainda que seus jovens personagens possam ser impulsivos,  às vezes precipitados.

 

 

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Banana Yoshimoto

 

 

Este é um livro sutil que trata de tópico difícil de maneira clara, delicada, agradável e sóbria.  Excelente leitura para qualquer idade. Vai para a minha lista de leituras para adolescente mais velhos, ou jovens adultos. Não é a toa que é um favorito da Geração X.

 

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem qualquer incentivo para a promoção de livros.

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Resenha: “A terra inteira e o céu infinito de Ruth Ozeki

16 01 2017

 

b9876b10d38dd5ed69d799c92718cd75Autoria desconhecida.

Os dois elementos mencionados no título brasileiro do livro de Ruth Ozeki A Terra Inteira e o Céu Infinito formam um todo, uma unidade, um ser-tempo, pleno, indivisível. E foi justamente com o sentido de plenitude, de preenchimento emocional que acabei de ler um dos mais ricos livros de ficção (o quanto é ficção é debatível) dos últimos anos.  Ao fechar a última página, ao ler os apêndices, me dei conta de querer reler o livro, assim que for possível, pela certeza de que mesmo na releitura ainda não terei digerido tudo o que foi abordado nessas quatrocentas e tantas páginas.

Esta é uma obra complexa demais para caber nos poucos parágrafos de uma resenha. Extremamente atual, de fácil leitura, o livro de Ruth Ozeki nos leva a considerar assuntos sérios que ponteiam o horizonte cotidiano de todos nós e que raramente paramos para considerar em maior detalhe. Temos através dessa história de duas mulheres: uma jovem adolescente e uma mulher madura, que se encontram através do tempo, noções de zen-budismo, física quântica, meio ambiente, tsunami, lixo oceânico, bullying, doença mental, suicídio, Segunda Guerra Mundial,  relativismo da história, escolhas éticas e morais e um tanto de fantasia.  Tudo isso numa obra que consegue manter unidade integral, única, aberta, consistente e estética.

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Com essa variedade temática espera-se uma espécie de colcha de retalhos.  Mas isso não acontece.  Ruth Ozeki controla muito bem o texto e seu ritmo.  Ainda que não produza uma obra de suspense, eu me vi virando página após página, magnetizada pelo desenrolar da quase não-trama. Que feito!

A história é contada por duas vozes distintas: Ruth, uma mulher madura que vive numa ilha no Canadá e encontra um diário de uma jovem japonesa jogado ao mar. Resolve lê-lo. E nós lemos junto. Assim conhecemos Naoko a jovem japonesa que viveu nos EUA e voltou com sua família para o Japão onde sofreu todo tipo de preconceito e bullying. Não era suficientemente japonesa. Aos poucos sabemos dos problemas familiares, de seu pai, de seu tio avô e conhecemos sua bisavó, um dos personagens mais interessantes do livro que nos dá lições e lições de vida.

Mesmo que repleto de situações difíceis descritas em detalhe, ou talvez justamente porque são descritas em detalhe, consegui seguir em frente testemunha dos sofrimentos dos personagens, seguir seus passos, entender suas maneiras de pensar, quer pessoais quer culturais, e sair ao final estimulada, esperançada.

ozeki_ruthRuth Ozeki

Esta obra de ficção é repleta de informações factuais que se transformam diante dos nossos olhos em verdadeiras meditações. Dentre elas, quase imperceptível, está aquela do leitor criando sua obra na leitura do livro, como Proust, que tem um papel importante e interessante no livro, já havia notado [“todo leitor é leitor de si mesmo”].  Como acontece com Ruth ao ler o diário de Naoko. Há, de fato, tantas camadas de leitura entremeadas e possíveis que ao final do livro o desejo de reler é quase obrigatório. Com fortes personagens o leitor é levado pela mão a considerar postulados filosóficos diversos inclusive aqueles sobre o conceito de tempo, assim como considerações éticas em horas difíceis. Tudo isso num contexto contemporâneo que a pessoa comum não só entende mas sobre a qual é frequentemente convidada a opinar.

Há tempos não me encanto com uma obra de tal maneira.  Foi a primeira leitura de 2017 do meu grupo de leitura e todos os leitores se encantaram.  Recomendo com entusiasmo.

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Escrita à mão x escrita impressa, por Ruth Ozeki

15 01 2017

 

brushwriting2Uma alta cortesã, 1794-5

[da série Cinco Tons de Tinta na área norte (Hokkoku goshiki Zumi)]

Utamaro Kitagawa (Japão, 1754-1806)

xilogravura policromada, tinta e cor sobre papel

Metropolitan Museum of Art, Nova York

 

 

“Letras impressas são previsíveis e impessoais, transmitindo informações numa transação maquinal com os olhos do leitor.
Letras de mão, em contrapartida, resistem aos olhos, revelam seus significados aos poucos e são pessoais como a pele.”

 

 

Em: A terra inteira e o céu infinito, Ruth Ozeki, Rio de Janeiro, Casa da Palavra:2014,tradução de Daniela P. B. Dias e Débora Landsberg,  página 18.

 

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Natal Africano, poesia de João Cabral do Nascimento

20 12 2016

 

 

adoracao-dos-reis-vasco-fernandes-francisco-henriques-1501-1506Adoração dos reis, 1506

Vasco Fernandes (Portugal, 1475-1542) e Francisco Henriques (Flandres/Portugal, ? – 1518)

óleo sobre madeira, 131 x 81 cm

Museu Grão Vasco

 

 

 

Natal Africano

 

João Cabral do Nascimento

 

 

 

Não há pinheiros nem há neve,

Nada do que é convencional,

Nada daquilo que se escreve

Ou que se diz… Mas é Natal.

 

Que ar abafado! A chuva banha

A terra, morna e vertical.

Plantas da flora mais estranha,

Aves da fauna tropical.

 

Nem luz, nem cores, nem lembranças

Da hora única e imortal.

Somente o riso das crianças

Que em toda a parte é sempre igual.

 

Não há pastores nem ovelhas,

Nada do que é tradicional.

As orações, porém, são velhas

E a noite é Noite de Natal.

 

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