Borboleta multicor
tu me lembras, ao passar,
um bilhetinho de amor
dobrado em dois, a voar…
(J. G. de Araújo Jorge)
Borboleta multicor
tu me lembras, ao passar,
um bilhetinho de amor
dobrado em dois, a voar…
(J. G. de Araújo Jorge)
Águia em vôo
Aquarela chinesa
A postagem de um poema de Vicente Guimarães neste blogue, João Bolinha virou gente, lembrou à leitora Vânia um poema que ela precisou decorar para a escola, chamava-se A morte da águia. E ela me pediu que se eu o conhecesse que lhe mandasse esse poema, pois não se lembrava de todas as estrofes.
De fato, o poema que conheço com este título é um antigo e belíssimo poema, bastante longo, de Luís Guimarães. E aqui está para nós todos nos deliciarmos.
A morte da águia
Luís Guimarães
A bordo vinha uma águia. Era um presente
Que um potentado, — um certo rei do Oriente,
Mandava a outro: — um mimo soberano.
Era uma águia real. Entre a sombria
Grade da jaula o seu olhar luzia,
Profundo e triste como o olhar humano.
Aos balanços do barco ela curvava
Ao níveo colo a fronte que cismava…
E enquanto as ondas túrbidas gemiam,
Ao som do vento – em fúnebres lamentos
Ela pensava nos longínquos ventos
Que do Himalaia os píncaros varriam.
Fora uma infame e traiçoeira bala,
Que, do régio fuzil negra vassala,
Invisível – uma asa lhe partira:
Cheia de luz, tranqüila, majestosa,
Dobrando a fronde branca e poderosa,
Aos pés de um rei a águia real caíra.
Os bonzos vis, proféticos doutores,
Sondando-lhe a ferida e as cruas dores,
Que um venenoso bálsamo tentava
Apaziguar em vão, — diziam rindo:
“Não há no mundo exemplar mais lindo:
Vale um império!” – E a águia agonizava.
Um dia, enfim, o animal valente
Resistindo aos martírios, — largamente
Respirou a amplidão. A asa possante
Abrir tentou de novo. Aberta estava
A jaula colossal que o esperava:
Forçoso era partir. Desde este instante,
A águia sombria e muda e pensativa,
Solene mártir, vítima cativa,
Terror dos vis e símbolo dos bravos,
Pediu a morte a Deus, — pediu-a ansiosa
Longe, porém, da corte vergonhosa
Desse covarde e baixo rei de escravos.
Pediu a morte a Deus, o cataclismo,
As convulsões elétricas do abismo,
As batalhas finais! Morrer num grito
Vibrante, imenso, heróico, soberano,
E fremente rolar no azul do Oceano,
Como um titã caído do infinito.
Morrer livre, cercada de vitórias,
Com suas asas – pavilhão de glórias –
Inundadas da luz que o Sol espalha:
Ter o fundo do mar por catacumba,
As orações do vento que retumba,
E as cambraias da espuma por mortalha.
Entanto, melancólica, tristonha,
Como um gigante mórbido que sonha,
Fitava, às vezes, o revolto oceano,
Com esse olhar nublado e delirante,
Com que saudava a César triunfante
O moribundo gladiador romano.
O comandante – urso do mar bondoso —
Disse um dia ao escravo rancoroso,
Ao carcereiro estúpido e inclemente:
“Leve-a ao convés. Verá que esse desmaio
Basta para apagá-lo um brando raio
Do largo Sol no rúbido oriente.”
Subiu então a jaula ao tombadilho:
Do nato dia ao purpurino brilho
Salpicava de luz o céu nevado…
E a águia elevando a pálpebra dormente
Abriu as asas ao clarão nascente
Como as hastes de leque iluminado.
O mar gemia, lôbrego e espumante,
Açoitando o navio; — além – distante,
Nas vaporosas bordas do horizonte,
As matutinas névoas que ondulavam,
Em suas várias curvas figuravam
Os largos flancos triunfais de um monte.
“Abre-lhe a porta da prisão,” ( ridente
O comandante disse ) “Esta corrente
Para conter-lhe o vôo é mais que forte!
Voar! pobre infeliz! causa piedade!
Dê-lhe um momento de ar e liberdade!
Único meio de a salvar da morte.”
Quando a porta se abriu, — como uma tromba,
Como o invencível furacão que arromba
Da tempestade as negras barricadas,
A águia lançou por terra o escravo pasmo,
E desprendendo um grito de sarcasmo,
Moveu as longas asas espalmadas.
Pairou sobre o navio — imensa e bela –
Como uma branca, uma isolada vela
A demandar um livre e novo mundo;
Crescia o Sol nas nuvens refulgentes,
E como um turbilhão de águias frementes,
Zunia o vento na amplidão, – profundo.
Ela lutou, ansiosa! Atra agonia
Sufocava-a. O escravo lhe estendia
Os miseráveis e covardes braços;
Nu o oceano ao longe cintilava
E a rainha do ar, em vão, buscava
Onde pousar os grandes membros lassos.
Sobre o barco pairou ainda, — e alçando,
Alçando mais os vôos, e afogando
Na luz do Sol a fronte alvinitente,
Ébria de espaço, ébria de liberdade,
Como um astro que cai da imensidade,
Afundou-se nas ondas de repente.
—
Luís Caetano Pereira Guimarães Júnior (RJ 1847 – Lisboa 1898), advogado, jornalista, ministro, diplomata, poeta, romancista, teatrólogo. Estudou no Colégio Calógeras em Petrópolis e cursou as faculdades de Direito de São Paulo e do Recife. Colaborador dos periódicos A reforma, A república, O correio paulistano, Imprensa Acadêmica de São Paulo, Gazeta de Notícias. Membro da Academia Brasileira de Letras, membro da Academia de Belas Artes do Chile, membro da Academia do Quiriti em Roma, membro da Arcádia Romana, membro da Sociedade de Geografia Italiana, oficial da Ordem da Rosa, oficial da Ordem de Cristo e da Ordem de São Tiago, cavaleiro da Ordem Romana do Sepulcro e da Ordem de São Gregório Magno.
Obra:
A Alma do outro mundo, 1913
A Carlos Gomes, 1870
A entrada no céu, 1882
A família Agulha, 1870
A morte, 1882
André Vidal, séc. XIX
As Jóias indiscretas, séc. XIX
As Quedas fatais, séc. XIX
Ave Estela, 1865
Contos sem pretensão, 1872
Corimbos, 1866
Ernesto Couto, 1872
Filigranas, 1872
Lírica, 1880
Lírio Branco, 1862
Mater dolorosa, 1880
Monte Alverne, séc. XIX
Noturnos, 1872
O Caminho mais curto, séc. XIX
Os Amores que passam, séc. XIX
Pedro Américo, 1871
Um Pequeno demônio, séc. XIX
Uma Cena contemporânea, 1862
Valentina, séc. XIX
“Muito riso, pouco sizo”,
diz-nos o velho ditado.
Mas eu digo que um sorriso
sempre dá bom resultado…
(Luciana Long)
Ilustração, Maurício de Sousa, adaptada.
O Corpo Humano
Walter Nieble de Freitas
Toda criança estudiosa,
Que deseja passar de ano,
Deve saber que em três partes
Se divide o corpo humano.
São: cabeça, tronco e membros
— É bem fácil a lição —
Vejamos parte por parte,
Preste, pois, muita atenção.
Na memória, guarde bem,
É importante, não se esqueça!
Somente de crânio e face
Se constitui a cabeça.
Ilustração, Maurício de Sousa, modificada.
No crânio, ficam o cérebro
E outros órgãos protegidos;
Estão na face o nariz,
A boca, os olhos e ouvidos.
O tronco está dividido
— Veja as Ciências Naturais —
Em tórax e abdome,
Duas partes, nada mais.
Localizam-se no tórax
— Não vá fazer confusão —
Dois órgãos muito importantes:
Os pulmões e o coração.
Fazem parte do abdome:
Estômago, pâncreas e rins
E também os intestinos
Com outros órgãos afins.
Em dois planos diferentes
Os membros estão situados:
Superiores e inferiores
São eles asssim chamados.
São dos membros superiores
— Aprenda bem a lição —
O ombro, o braço, o antebraço
E também a nossa mão.
Vejamos os inferiores
— Você quer saber, não é? —
São estas as suas partes:
Quadril, coxa, perna e pé.
O nosso corpo precisa
Banho com água e sabão,
Bastante exercício, ar puro
E boa alimentação.
Mas, ao lado de tudo isto,
Não descuide da instrução,
Porque assim você terá
Mente sã em corpo são.
Em: Barquinhos de papel: poesias infantis, Walter Nieble de Freitas, São Paulo, SP, Editora Difusora Cultural:1961.
Macaquinhos, MW Editora e Ilustrações.
A vida — coisa engraçada —
é um contraste permanente:
nós rimos da macacada,
que ri imitando a gente.
(Remy Prates Pinheiro)
Ilustração, Maurício de Sousa.
Professorinha
Dimas Costa
Chinoca, meiga, trigueira,
Descendente das missões,
Exigente nas lições,
Reclama e briga por tudo.
Mas eu fico sempre mudo
Ao ver aquela carita,
Quando repreende e grita,
Numa expressão sedutora.
Essa é a professora
Do colégio onde estudo.
Que me importa com estudo
De história ou geografia,
Se eu gosto é da anatomia
Dessa prenda encantadora.
Eu que sou índio de fora
Meio matuto, por certo,
Vou decorando o alfabeto
Com muita dificuldade,
Porque só aprendo, é verdade,
Nas lições que ela me dá,
Que coisa mais linda não há
Do que os olhos da professora.
Esses dias me surpreendeu,
Quando mui séria ensinava,
Que apaixonado eu a olhava
Sem escutar a sua fala.
E, por assim eu mirá-la
Acho que bem entendeu,
Pois de pronto enrubesceu
E tomando-me a lição,
Diz que por falta de atenção,
Me pôs pra fora da aula.
Professora, professora,
Deixa de manha, mimosa!
Chinoca quando é dengosa
Ressalta mais o primor.
Desculpa, mas minha flor
Entende a minha paixão:
Deixa pra lá essa lição
E vem comigo, querida,
Viver as coisas da vida
Num recreio só de amor…
Se tu quiseres mesmo
Unir-te em laços eternos,
Bota fora os cadernos
E vem seguir os meus passos.
Se larguemo pelos espaços
A procura de um cantinho,
Onde ergueremos um ninho
Debaixo do céu aberto,
E eu morro analfabeto
Só pra viver nos teus braços!
Dimas Noguez Costa, (Bagé, RS, 1926 ), pseudônimo: Chiru Divertido. Poeta, cronista, radialista.
Obras:
Carta a mãe natureza, 1979
Céu e campo, 1954
Céu, pampa e pago, 1968
Entardecer na querência, 1989
Pampa bravo, 1958
Pelos caminhos do pago, 1963
Poesia gauchesca para moças e crianças, 1983
Poesia gauchesca para prendas e peões, 2003
Três poemas de destaque, 1963
Ilustração, Hergé.
A serenata de um galo
vai, de quebrada em quebrada,
e de intervalo a intervalo,
acordando a madrugada!
(Sebastião Paiva)
CASAMENTO
Luísa Ducla Soares
Casei um cigarro
com uma cigarra,
fizeram os dois
tremenda algazarra
porque o cigarro
não sabe cantar
e a cigarra
detesta fumar.
Não digam que errei
(mania antipática!)
só cumpri a lei
que manda a gramática.
Em: Poemas da Mentira e da Verdade, Livros Horizonte, 1999.
—
Luísa Ducla Soares (Lisboa, 1939) escritora, tradutora, consultora literária e jornalista. Mais recentemente sua produção é dedicada ao público infanto-juvenil. Formada em Filologia Germânica.
Obras:
Contrato (Poesia), 1970
A História da Papoila, prosa (Infanto-juvenil), 1972 ; 1977
Maria Papoila, prosa (Infanto-juvenil), 1973 ; 1977
O Dr. Lauro e o Dinossauro, prosa (Infanto-juvenil), 1973 ; 1988
Urso e a Formiga, prosa (Infanto-juvenil), 1973 ; 2002
O Soldado João, prosa (Infanto-juvenil), 1973 ; 2002
O Ratinho Marinheiro (Poesia para a infância), 1973 ; 2001
O Gato e o Rato, prosa (Infanto-juvenil), 1973 ; 1977
Oito Histórias Infantis, prosa (Infanto-juvenil), 1975
O Meio Galo e Outras Histórias, prosa (Infanto-juvenil), 1976 ; 2001
AEIOU, História das Cinco Vogais, (prosa) (Infanto-juvenil), 1980 ; 1999
O Rapaz Magro, a Rapariga Gorda, prosa (Infanto-juvenil), 1980 ; 1984
Histórias de Bichos, prosa (Infanto-juvenil), 1981
O Menino e a Nuvem, prosa (Infanto-juvenil), 1981
Três Histórias do Futuro, prosa (Infanto-juvenil), 1982
O Dragão, prosa (Infanto-juvenil), 1982 ; 2002
O Rapaz do Nariz Comprido, prosa (Infanto-juvenil), 1982 ; 1984
O Sultão Solimão e o Criado Maldonado (Poesia para a infância), 1982
Poemas da Mentira… e da Verdade (Poesia para a infância), 1983 ; 1999
O Homem das Barbas, prosa (Infanto-juvenil), 1984
O Senhor Forte, prosa (Infanto-juvenil), 1984
A Princesa da Chuva, prosa (Infanto-juvenil), 1984
O Homem alto, a Mulher baixinha, prosa (Infanto-juvenil), 1984
De Que São Feitos os Sonhos: A Antologia Diferente, prosa (Infanto-juvenil), 1985 ; 1994
O Senhor Pouca Sorte, prosa (Infanto-juvenil), 1985
A Menina Boa, prosa (Infanto-juvenil), 1985
A Menina Branca, o Rapaz Preto, prosa (Infanto-juvenil), 1985
6 Histórias de Encantar, prosa (Infanto-juvenil), 1985 ; 2003
A Vassoura Mágica, prosa (Infanto-juvenil), 1986 ; 2001
O Fantasma, prosa (Infanto-juvenil), 1987
A Menina Verde, prosa (Infanto-juvenil), 1987
Versos de Animais (Antologia de Literatura Tradicional), 1988
Destrava Línguas (Antologia de Literatura Tradicional), 1988 ; 1997
Crime no Expresso do Tempo, prosa (Infanto-juvenil), 1988 ; 1999
Lenga-Lengas (Antologia de Literatura Tradicional), 1988 ; 1997
O Disco Voador, prosa (Infanto-juvenil), 1989 ; 1990
Adivinha, Adivinha: 150 adivinhas populares (Antologia de Literatura Tradicional), 1991 ; 2001
É Preciso Crescer, ( infanto- juvenil (1992
A Nau Catrineta, prosa (Infanto-juvenil), 1992
À Roda dos Livros: Literatura Infantil e Juvenil (Divulgação), 1993
Diário de Sofia & Cia aos Quinze Anos(Infanto-juvenil), 1994 ; 2001
Os Ovos Misteriosos, prosa (Infanto-juvenil), 1994 ; 2002
O Rapaz e o Robô, prosa (Infanto-juvenil), 1995 ; 2002
S. O. S.: Animais em Perigo!…, prosa (Infanto-juvenil), 1996
O Casamento da Gata, poesia (Infanto-juvenil), 1997 ; 2001
Vamos descobrir as bibliotecas (Divulgação), 1998
Vou Ali e Já Volto, prosa (Infanto-juvenil), 1999
Arca de Noé, poesia (Infanto-juvenil), 1999
A Gata Tareca e Outros Poemas Levados da Breca (Poesia para a infância), 1999 ; 2000
ABC, poesia (Infanto-juvenil), 1999 ; 2001
25 (Poesia para a infância), 1999
Seis Contos de Eça de Queirós (Contos), 2000 ; 2002
Com Eça de Queirós nos Olivais no ano 2000 (Divulgação), 2000
Com Eça de Queirós à roda do Chiado (Divulgação), 2000
Mãe, Querida Mãe! Como é a Tua?, prosa (Infanto-juvenil), 2000 ; 2003
Lisboa de José Rodrigues Miguéis (Divulgação), 2001
Roteiro de José Rodrigues Miguéis: do Castelo ao Camões (Divulgação), 2001
A flauta, prosa (Infanto-juvenil), 2001
Uns óculos para a Rita, prosa (Infanto-juvenil), 2001
Todos no Sofá, poesia (Infanto-juvenil), 2001
1, 2, 3, poesia (Infanto-juvenil), 2001 ; 2003
Alhos e Bugalhos (Divulgação), 2001
Meu bichinho, meu amor, prosa (Infanto-juvenil), 2002
Cores, prosa (Infanto-juvenil), 2002
Gente Gira, prosa (Infanto-juvenil), 2002
Tudo ao Contrário!, prosa (Infanto-juvenil), 2002
Viagens de Gulliver, adaptação livre (Teatro para a infância), 2002
O Rapaz que vivia na Televisão, prosa (Infanto-juvenil), 2002
Contrários, poesia (Infanto-juvenil), 2003
Quem está aí?, prosa (Infanto-juvenil), 2003
A Cavalo no Tempo, poesia (Infanto-juvenil), 2003
Pai, Querido Pai! Como é o Teu?, prosa (Infanto-juvenil), 2003
A Carochinha e o João Ratão, poesia (Infanto-juvenil), 2003
Se os Bichos se vestissem como Gente, prosa (Infanto-juvenil), 2004
A festa de anos, prosa (Infanto-juvenil), 2004
Contos para rir, prosa (Infanto-juvenil), 2004
Abecedário maluco, poesia (Infanto-juvenil), 2004
Histórias de dedos, prosa (Infanto-juvenil), 2005
A Cidade dos Cães e outras histórias, prosa ( Infanto- juvenil ), 2005
Há sempre uma estrela no Natal, contos ( Infanto-juvenil ) Civilização,2006
Doutor Lauro e o dinossauro, prosa (Infanto-Juvenil), 2.ª ed, Livros Horizonte, 2007
Mais lengalengas (recolhas ),Livros Horizonte,2007
Desejos de Natal (Infanto-juvenil ), Civilização,2007
A fada palavrinha e o gigante das bibliotecas
Para conservar os dentes,
Sempre em boas condições,
Não se esqueça de escová-los
Logo após as refeições.
(Walter Nieble de Freitas)
Bailando pelo vergel,
a declarar seus amores,
tendo as ramas por dossel,
o colibri beija as flores.
(Heráclito de Oliveira Menezes)