O Rei mandou me chamar — poesia infantil, folclore brasileiro, anônima

18 02 2011
Rei de Ouros, Baralho Espanhol.

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O  Rei mandou me chamar

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                                 Anônimo

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O Rei mandou me chamar,

pra casar com sua filha.

Só de dote ele me dava,

Europa, França e Bahia.

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Me lembrei do meu ranchinho,

da roça, do meu feijão.

O Rei mandou me chamar.

Ó seu Rei, não quero não.

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Folclore brasileiro, canto negro do Recôncavo Baiano.

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Vejam o vídeo  do  Iº Encontro de Coros Camargo Guarnieri – Coral Juvenil EMMSP – Teatro Municipal de São Paulo Maestrina: Mara Campos.

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Questão de pontuação — poema de João Cabral de Melo Neto

8 02 2011

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Questão de pontuação

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                                                       João Cabral de Melo Neto

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Todo mundo aceita que ao homem

cabe pontuar a própria vida:

que viva em ponto de exclamação

(dizem tem alma dionisíaca);

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viva em ponto de interrogação

(foi filosofia, ora é poesia);

viva equilibrando-se entre vírgulas

e sem pontuação (na política):

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o homem só não aceita do homem

que use a só pontuação fatal:

que use, na frase que ele vive

o inevitável ponto final.

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Em: Agrestes, João Cabral de Melo Neto, Riio de Janeiro,  Nova Fronteira: 1985

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João Cabral de Melo Neto – (PE 1920 – RJ 1999) poeta e diplomata. Membro da Academia Brasileira de Letras.

Obras:

Pedra do Sono, 1942

Os Três Mal-Amados, 1943

O Engenheiro, 1945

Psicologia da Composição com a Fábula de Anfion e Antiode, 1947

O Cão sem Plumas, 1950

O Rio ou Relação da Viagem que Faz o Capibaribe de Sua Nascente à Cidade do Recife, 1954

Dois Parlamentos, 1960

Quaderna, 1960

A Educação pela Pedra, 1966

Morte e Vida Severina, 1966

Museu de Tudo, 1975

A Escola das Facas, 1980

Auto do Frade, 1984

Agrestes, 1985

Crime na Calle Relator, 1987

Primeiros Poemas, 1990

Sevilha Andando, 1990

Tecendo a Manha, 1999





Os dois irmãos, poesia infantil de Maria Alberta Menéres

4 02 2011

Meninos jogando bilboquê,  sd

Belmiro de Almeida ( Brasil, 1858-1935)

óleo sobre tela, 40x30cm

Museu de Arte de São Paulo

 Os dois irmãos

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Maria  Alberta Manéres

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Eu conheço dois meninos

que em tudo são diferentes.

Se um diz: “Dói-me o nariz!”

o outro diz: “Ai, meus dentes!”

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Se um quer brincar em casa,

o outro foge para o monte;

e se este a casa regressa,

já o outro foi para a fonte.

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É difícil conviver

com tanta contradição.

Quando um diz: “Oh, que calor! “,

Que frio!” – diz o irmão.

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Mas quando a noitinha chega

com suas doces passadas,

pedem à mãe que lhes conte

histórias de Bruxas e Fadas.

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E quando o sono esvoaça

por sobre o dia acabado,

dizem “Boa noite, mãe!”

e adormecem lado a lado.

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Maria Alberta Rovisco Garcia Menéres de Melo e Castro (Portugal, 1930)  nasceu na cidade de Vila Nova de Gaia.  É professora, jornalista e escritora.  Sua obra inclui poesia, contos,  hisstórias em quadrinhos,  teatro, novelas, e adaptação de clássicos da literatura.

Obras

Ficção

O Poeta Faz-se aos 10 Anos, 1973

A canção do vento, 1975

Hoje há Palhaços , 1977

Primeira Aventura no País do João, 1977

À Beira do Lago dos Encantos, 1995

Intervalo, 1952

Cântico de Barro, 1954

A Palavra Imperceptível, 1955

Oração de Páscoa, 1958

Água – Memória, 1960

Os poemas Escolhidos, s/d

A Pegada do Yeti, 1962

Poemas Escolhidos, 1962

Os Mosquitos de Suburna, 1967

Conversas em Versos , 1968

O poema O disse ao poema, 1974

O Robot Sensível, 1978

Antologia da Novíssima Poesia Portuguesa, 1982

Semana sim,semana não,semana pumbas,1998

Clarinete

Figuras Figuronas, 1969

A Pedra Azul da Imaginação, 1975

A Chave Verde ou os Meus Irmãos, 1977

Semana Sim, Semana Sim, 1979

O Que É Que aconteceu na Terra dos Procópios, 1980

Um Peixe no Ar, 1980

O Trintão Centenário, 1984

Dez Dedos Dez Segredos, 1985

À Beira do Lago dos Encantos, 1988

Quem faz hoje anos, 1988)

Colecção “1001 Detectives– 15 volumes (em colaboração com Natércia Rocha e Carlos Correia), entre 1987/92

Sigam a Borboleta, 1996

100 Histórias de Todos os Tempos, 2003

Passinhos de Mariana, Edições Asa, 2004

“Camões, o Super Herói da Língua Portuguesa” 2010

Outra vez não!





O galo, poesia infantil de Francisca Júlia

9 01 2011

Galo, ilustração de Artus Scheiner (1863-1938)

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O galo 

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                                                                                                                                          Francisca Júlia

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Passo lento, olhar profundo,

Valente, brioso e grave,

O galo é a mais linda ave

Dentre todas que há no mundo.

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Um pé adiante, outro atrás,

Bico aberto, o galo canta;

Tem a glória na garganta

E nas esporas que traz.

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O galo é sempre o primeiro

A anunciar a s auroras.

Repara bem: tem esporas

E é por isso cavaleiro.

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Coroa tem e de lei,

Coroa em forma de crista

Que ganhou numa conquista:

Por isso julga-se rei.

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Pendentes até o peito,

Vermelhas, grandes e belas,

Tem barbas que são barbelas

Que lhe dão muito respeito.

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Com que delicado amor

Ele defende e acarinha

Ora o pinto, ora a galinha

Com seu gesto protetor!

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De cabeça levantada,

Altivo sobre o poleiro,

Ele é o rei do galinheiro

E o cantor da madrugada.

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Vivem todos sob a lei

E ordens que o galo decreta:

Soldado, músico e poeta,

Pastor, cavaleiro e rei!

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Francisca Júlia da Silva Munster (SP 1871 – SP 1920)  Poetisa brasileira.  Começou a  colaborar na imprensa paulistana e carioca aos 20 anos. Na revista  A Semana, alcança rápido prestígio literário.  Casou-se em 1909, recolhendo-se à vida particular e praticamente abandonando a atividade literária.

Obras:

1895 – Mármores

1899 – Livro da Infância

1903 – Esfinges

1908 – A Feitiçaria Sob o Ponto de Vista Científico (discurso)

1912 – Alma Infantil (com Júlio César da Silva)

1921 – Esfinges – 2º ed. (ampliada)





A dança do tangará, poesia infantil de Álvaro Moreyra

4 01 2011

A dança do tangará

Álvaro Moreyra

Naquela noite danada

em que a formiga rogou

a praga contra a cigarra:

— Cantava, não é?  Cantou?

Pois, então, agora dance! –

naquela noite danada

aconteceu que de um galho,

vizinho do bangalô

onde a formiga morava,

um passarinho escutou

essas palavras malvadas.

Mas, malvadas não achou.

Ao contrário da cigarra,

o passarinho gostou.

Gostou tanto, que em seguida,

dançou, dançou, dançou.

Nunca mais quis outra vida.

Dançou sozinho, primeiro.

Depois, com par.  Afinal,

bateu na testa e acabou

formando uma companhia

de bailado brasileiro,

bem nosso, bem nacional.

Artistas disciplinados.

Formam roda nos caminhos

e repetem sempre igual,

na cadência que a embalança,

ida e volta, volta e ida,

a dança do tangará,

mais alegre do que a dança

que agente dança na vida

que se chama esperança,

ida e volta, volta e ida…

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Em: Poesia brasileira para a infância de Cassiano Nunes e Mário da Silva brito, Coleção Henriqueta, São Paulo, Saraiva: 1968

Álvaro Maria da Soledade Pinto da Fonseca Velhinho Rodrigues Moreyra da Silva (Porto Alegre, 1888 – Rio de Janeiro, 1964) Poeta, cronista, jornalista, teatrólogo, radialista . Completou o curso de ciências e letras (1907). Em 1908, iniciou-se no jornalismo.  No Rio de Janeiro (1910), entregou-se ao jornalismo na redação da revista “Fon-Fon”. Diplomou-se em direito (1912). Fundou, junto com Eugênia Moreira, o “Teatro de Brinquedo”. Eleito em 1959 para a ABL, ocupou a cadeira 21, sucedendo a Olegário Mariano.

Obras:

Degenerada, poesia, 1909

Casa desmoronada, poesia, 1909

Elegia da bruma, poesia, 1910

Legenda da luz e da vida, poesia, 1911

Um sorriso para tudo, prosa, 1915

Lenda das rosas, poesia, 1916

O outro lado da vida, prosa, 1921

A cidade mulher, prosa, 1923

Cocaína, prosa, 1924

A boneca vestida de Arlequim, prosa, 1927

Circo, poesia, 1929

Adão e Eva e outros membros da família, teatro, 1929

Caixinha dos três segredos, poesia, 1933

O Brasil continua, prosa, 1933

Tempo perdido, prosa, 1936

Teatro espanhol na Renascenç, prosa, 1946

As amargas, não…, prosa, 1954

O dia nos olhos, prosa, 1955

Havia uma oliveira no jardim, prosa, 1958

Veja o vídeo do tangará no seu ritual acasalador:

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Tangará dançador- Chiroxiphia caudata





As estrelas no céu, versos de Jorge de Lima

24 12 2010

Visita dos Reis Magos ao Menino Jesus, 1965

Djanira da Motta e Silva ( Brasil, 1914-1979)

Guache sobre cartão, 14 x 39 cm

Coleção Particular

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As noites!  Que noites de imenso luar!

Podeis contemplar a Ursa Maior,

A Lira, a Órion, a luz de Altair,

Estrelas cadentes correndo no espaço,

A Estrela dos Magos parada no ar.

Que noites, meninas, de imenso luar!

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Jorge de Lima

Em: Obra completa, Rio de Janeiro, Aguillar: 1958

A liberdade poética é necessária e seu uso torna muitos textos inesquecíveis!   Este é o caso dos versos acima, que acredito muitos de nós, educados no tempo em que se decorava versos na escola, podemos relembrar com carinho.   A imaginação do poeta só aumenta o encanto de uma noite já encantada, como é a noite de Natal.  Ela nos ajuda a imaginar o inimaginável, a admitir o milagroso, o inexplicável.  Apesar de cientificamente esta visão de Jorge de Lima não ser precisa, a sedução de seus versos reflete o nosso encantamento interior com a Noite de Natal.  

Como bem ressaltou Malba Tahan [ A Estrela dos Reis Magos, São Paulo, Saraiva: 1964] ” O saudoso e genial poeta Jorge de Lima, levado pelos arroubos da imaginação colocou a Estrela dos Magos, em certa época do ano, a cintilar imóvel no céu. Parece inútil acrescentar que os versos de Jorge de Lima vão ao arrepio de todos os preceitos ditados pela Astronomia e contrariam aa sábias conclusões dos Evangelhos.”  E complementa numa nota de rodápé:  ” Coloca Jorge de Lima no céu três constelações: A Ursa Maior, a Lira, Órion e a estrela Altair, de primeira grandeza, Alfa da Águia.  O céu luminoso, pontilhado de nebulosas, é cortado e recortado pelos traços luminosos das estrelas cadentes.  E, no meio disso tudo, parada a cintilar, a Estrela dos Reis Magos. O quadro descrito pelo poeta é maravilhoso”.

 

Jorge Mateus de Lima (União dos Palmares, AL, 23 de abril de 1893 — Rio de Janeiro, 15 de novembro de 1953) foi político, médico, poeta, romancista, biógrafo, ensaísta, tradutor e pintor brasileiro.

Obras:

Poesia:

XIV Alexandrinos (1914)

O Mundo do Menino Impossível (1925)

Poemas (1927)

Novos Poemas (1929)

O acendedor de lampiões (1932)

Tempo e Eternidade (1935)

A Túnica Inconsútil (1938)

Anunciação e encontro de Mira-Celi (1943)

Poemas Negros (1947)

Livro de Sonetos (1949)

Obra Poética (1950)

Invenção de Orfeu (1952)

Romance:

O anjo (1934)

Calunga (1935)

A mulher obscura (1939)

Guerra dentro do beco (1950)





Natal de ontem e de hoje, poema de Bastos Tigre

13 12 2010

 

Natividade, 1947

Fúlvio Penacchi (Brasil 1905-1992)

óleo sobre cartão 19 x 23 cm

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Natal de ontem e de hoje

                                       Bastos Tigre

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Natal!  Vocábulo sonoro,

Com ressonâncias de cristal!

Amo o Natal; amo e adoro

O doce nome de “Natal”.

Ouvi-lo é ter no ouvido, ecoando

A voz dos sinos, no arraial,

Alegremente repicando

A excelsitude do Natal!

Missa do galo.  Espouca e brilha

O foguetório, a salva real…

Fulge o painel.  Que maravilha!

Jesus nasceu: — Natal!  Natal!

Ding-din!  Ding-don!  — repicam os sinos!

Vozes elevam-se em coral,

Desafinando ingênuos hinos

Em honra a Cristo e ao seu Natal.

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Dança, presépios, pastorinhas

No pastoril de João de tal —

E, entre vizinhos e vizinhas,

Os namoricos de Natal.

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Castanhas, nozes, rabanadas,

Do velho tom tradicional,

De fino açúcar polvilhadas

Tendo a doçura do Natal.

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E da família o quadro lindo

Da vasta mesa patriarcal

E a avó velhinha, repartindo

O imenso bolo de Natal.

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Mudou o Natal.  Que há que não mude

Neste vaivém universal?

Foi-se a simpleza ingênua e rude

Das idas festas de Natal.

Hoje, entre as luzes da cidade

Cosmopolita e colossal

A luz da Light a noite invade

E nem se vê vir o Natal.

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Há o reveillon, francês em nome,

Yankee no fundo comercial;

Faga-se quanto se consome

A preços próprios do Natal.

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Em vez da viola e da sanfona,

Em tom menor, sentimental,

Uma “ortofônica” ortofona

Um feroz fox infernal.

Há nos hotéis e clubs chics 

Festas de um tom convencional

Sem foguetório e sem repiques —

Que nem são festas de Natal!

Corre champagne, em vez do verde,

Do carrascão de Portugal.

(Sem o verdasco o que há de ser de

Ti, ó consoada de Natal).

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E até há gaitas, serpentinas,

Como se fora um carnaval!

Vocês, rapazes e meninas,

Não têm idéia do Natal!

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Chego a pensar que o próprio Cristo,

O de Belém, o do curral,

Lá do alto, olhando para isto,

Não reconhece o seu Natal.

E,  então, fechando a azul esfera,

Se esconde além do último “astral”

E, por castigo, delibera

Não nascer mais pelo Natal.

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Em: Antologia poética de Bastos Tigre, vol 2, Rio de Janeiro, Francisco Alves: 1982.





Brinquedos, poesia infantil de Afonso Schmidt

7 12 2010

 

Joyeux Noel, cartão de Natal francês da virada do século XX.

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Brinquedos

                                 Afonso Schmidt

São Nicolau de barbas brancas,

de alto capuz beneditino,

nas costas levava um grande saco

e vai seguindo o seu destino.

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É muito tarde.  Nas janelas,

há sapatinhos ao sereno:

a cada espera corresponde

o sonho leve de um pequeno.

Súbito, estaca na calçada;

uma janela está vazia

e, pelas frinchas de uma porta,

chegam rumores de alegria.

O Santo pára; está amuado,

acha que o mundo é muito mau

e estas crianças já não querem

esperar por São Nicolau.

Mas, logo fica curioso,

quer descobrir porque naquela

casa não há um sapatinho

no canto escuro da janela.

Vai espiar pelo buraco

da fechadura…  – Pobrezinhos,

são os meninos do trapeiro,

nunca tiveram sapatinhos…

E vê, que à falta de bonecas,

eles divertem o casal,

enquanto o avô fuma num canto,

São Nicolau, mas de avental…

Todos estão muito contentes

o Santo ri de olhos molhados

e vai seguindo à luz branquinha

do plenilúnio nos telhados.

 Pisa de leve sobre as folhas,

diz a sorrir palavras mansas:

“Essas crianças são os brinquedos

 e esses papais são as crianças…”

Em: Poesia brasileira para a infância, Cassiano Nunes e Mário da Silva Brito, São Paulo, Saraiva: 1968.

VOCABULÁRIO

Beneditino – é o nome que se dá aos frades da Ordem de São Bento.  Na poesia a palavra é usada como adjetivo de capuz.

Plenilúnio — a lua cheia.

 

Afonso Schmidt (Cubatão, SP 1890 – SP, SP 1964) poeta, romancista, contista, biógrafo, jornalista.  Como jornalista trabalhou para  A Voz do Povo, em 1920, no Rio de Janeiro.  Para Folha da Noite,  Diário de Santos e A Tribuna, em Santos. Em São Paulo trabalhou na Folha da Noite e O Estado de S.Paulo.  Neste último trabalhou de 1924 até 1963.  Recebeu o prêmio da  revista O Cruzeiro em 1950 pelo romance Menino Felipe.   A União Brasileira de Escritores lhe premiou com o Juca Pato – Intelectual do Ano em 1963.  Foi sócio fundador do Sindicato dos Jornalistas do Estado de S. Paulo, membro da Academia Paulista de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo.

Obras: 

Lírios roxos, 1904

Miniaturas, 1905

Janelas Abertas (poesia), 1911

Lusitânia (ato em verso), 1916

Evangelho dos Livres (panfleto), 1920

Mocidade, 1921

Brutalidade (contos), 1922

Ao relento, 1922

Janelas Abertas (versos) – Edição Aumentada (Menção Honrosa da Academia Brasileira de Letras, 1923

Os Impunes (novelas), 1923

As Levianas (peça em três atos), 1925

O Dragão e as Virgens (romance, 1927

Cânticos Revolucionários (panfletos), 1930

A nova conflagração, 1931

Garoa, 1931

Os Negros (crônicas), 1932

Garoa (poesia), 1932

Poesias, 1934

Carne para Canhão (peça em três atos), 1934

Pirapora (contos), 1934

Curiango (contos), 1935

Zanzalás (uma novela de tempos futuros), 1936

A Vida de Paulo Eiró (biografia), 1940

A Marcha (Romance da Abolição), 1941

O Tesouro de Cananéia (contos), 1941

No Reino do Céu (novela), 1942

A Sombra de Júlio Frank (biografia),1942

A árvore das lágrimas, 1942

Colônia Cecília (Uma aventura anarquista na América), 1942

O Assalto (Romance do ouro e do sal), 1945

Poesias (edição definitiva), 1945.

O Retrato de Valentina (novela), 1947

A Primeira Viagem (viagem), 1947

Menino Felipe (romance), 1950

Saltimbancos (romance), 1950

Aventuras de Indalécio (romance), 1951

Os Boêmios (contos), 1952

Dedo nos Lábios (novelas), 1953

O Gigante Invisível (divulgação), 1953

Carantonhas (novela juvenil), s/d

São Paulo dos Meus Amores (crônicas), 1954

A Marcha (romance da Abolição,  história em quadrinhos), 1955

Mistérios de São Paulo (reminiscência), 1955

Bom Tempo (memórias), 1956

A Datilógrafa (romance), 1958

A Locomotiva (romance), 1960

Mirita e o Ladrão (romance), 1960

O Retrato de Valentina (novela), 1961

O Canudo, 1963

O enigma de João Ramalho, 1963

O passarinho verde, s/d

Zamir, s/d





Os violões no Natal, poesia de Sabino de Campos

6 12 2010

Músicos, cartão de Natal, da Rússia, sem data.

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Os violões no Natal

Sabino de Campos

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Os violões, no Natal, são mais sonoros:

Enchem nossa existência de infinito,

De perfumes sinfônicos e coros

Doces, pungentes como um luar no Egito.

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Nas suas cordas, pássaros canoros

Gorjeam terno cântico bonito…

Não há no mundo trevas nem meteoros,

Tudo parece angélico e bendito…

Natal.  A natureza reverdece

Entre lírios e rosas e esplendores,

Tem o mundo a doçura de uma prece…

E os violões do Natal, cordas de luz,

Parecem dedilhados, entre flores,

pelos dedos divinos de Jesus…

                     João Pessoa — Paraíba

Em: Sabino de Campos, Natureza: versos, Rio de Janeiro, Pongetti: 1960

 

Sabino de Campos, Retrato a bico de pena, por Seth, 1947.

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Sabino de Campos (Amargosa, BA, 1893– ? ),  poeta, romancista e contista.

Obras:

 

Jardim do silêncio, 1919, (poesia)

Sinfonia bárbara, 1932,  (poesia)

Catimbó: um romance nordestino, 1945 (romance e novela)

Os amigos de Jesus, 1955 (romance e novela)

Lucas, o demônio negro, 1956 – romance biográfico de Lucas da Feira (romance e novela)

Natureza: versos,  1960 (poesia)

Cantigas que o vento leva, 1964, (poesia)

Contos da terra verde, 1966 (contos)

Fui à fonte beber água, 1968 (poesia)

A voz dos tempos, memórias, 1971

Cantanto pelos caminhos, 1975

Autor, junto de Manoel Tranqüilo Bastos, do hino da cidade de Cachoeira, BA





Cartão de Natal, poema de Stella Leonardos

1 12 2010
Cartão de Natal italiano. Sem data.

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Cartão de Natal

                                                  Stella Leonardos

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O velho gordo e rosado

Que veste sempre encarnado,

Esse bom Noel barbudo

Que reserva para as crianças

As mancheias de esperanças

De um grande saco bojudo;

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E traz na sola das botas

Neve das terras remotas

Onde há frio no Natal;

E pinheirais pela neve;

E renas de passo leve

Vivendo no pinheiral;

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Quem disse que era estrangeiro?

Ele hoje é bem brasileiro

Malgrado o traje hibernal.

Se veste de lã e de arminho

É que o calor e o carinho

Que deve haver no Natal!

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Em: Stella Leonardos, Pedaço de Madrugada, Rio de Janeiro, Livraria São José: 1956 

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Stella Leonardos da Silva Lima Cabassa (Rio de Janeiro RJ, 1923). Poeta, tradutora, romancista, com mais de 70 obras publicadas, em poesia, prosa, ensaios, teatro, romances e literatura infantil.  Considerada membro expoente da 3ª geração de poetas modernistas.  Um dos maiores nomes da poesia contemporânea no Brasil.