Ilustração, Lívia, 1980
Quando revi, monte a monte,
os campos de minha terra,
parece que a alma da fonte
cantava no altar da serra.
(José Lucas de Barros)
É Deus que à noite dispersa
o bando dos pirilampos,
taquigrafando a conversa
que há entre as flores, nos campos.
(Balthazar de Godoy Moreira)
Lindolfo Gomes
Era um dia um velho chamado Zusa, que trabalhava pelo ofício de carapina. A sua oficina era um brinco, sempre muito asseada, a ferramenta muito limpa, tudo nos seus lugares.
Mas a mania do velho era batizar cada ferramenta com um nome apropriado. O martelo chamava-se toc-toc, o formão, rompe-ferro, o serrote, vaivém.
Quando um carapina do lugar precisava de uma, corria logo à oficina do Zusa, a pedir-lhe de empréstimo.
Mas, tantas lhe fizeram, demorando a entrega ou ficando com as ferramentas algumas vezes, que o velho resolveu parar com os empréstimos.
Certo dia foi à oficina um menino, de mando dopai, e disse:
— Papai manda-lhe muitas lembranças e também pedir-lhe emprestado o vaivém.
Mestre Zusa pôs as cangalhas no nariz e respondeu:
— Menino, volta e diz a teu pai que se vaivém fosse e viesse, vaivém ia, mas como vaivém vai e não vem, vaivém não vai.
Em: Contos Populares Brasileiros, São Paulo, Melhoramentos: 1965, p. 36
São, com os ventos passantes,
plantadas como sementes.
Lembranças são diamantes,
eternas em nossas mentes!
(Rita Bernardete Sampaio Velosa)
Outono, folhas rolando,
amarelas pelo chão,
lembram minh’alma chorando
os sonhos que ao longe vão.
(Georgina M. Xavier)
Flora Figueiredo
Encosta teu sentido
nesse pedaço de céu descolorido
e nota:
esmoreceu o voo da gaivota,
o arrulho do pombo arrefeceu.
Desbotou-se o azul,
sujou-se o branco
e o sol rolou pelo barranco
no último troar do vento sul.
Calou-se o clarim do anjo
e sua lira
pois até mesmo a passarada se retira
por não te ver amante ao meu lado.
E nesse vão de vida devassado
eu me confundo:
vou procurar teu beijo perfumado
num clarão de lua derrubado
além da dobra final do fim do mundo.
Em: Florescência, Flora Figueiredo, Rio de Janeiro, Nova Fronteira: 1987, p.64
Leitora no jardim, final da década de 1960
Cesare Peruzzi (Itália, 1894-1995)
óleo sobre tela, 33 x42 cm
Januário dos Santos Sabino
Quando o sol já no poente
Perde o brilho, a cor desmaia
E louca vaga gemente
Se desenrola na praia;
Quando alegre o coleirinho,
No galho da pitangueira,
Trina à beira do seu ninho
Doce canção feiticeira;
Quando a flor n’haste pendida,
Mais grato perfume exala,
E a natureza sentida
Como que, cantando fala:
Eu sinto, minha alma então
Divagar na imensidade
Dos cismares da paixão,
Levada pela saudade;
Lembra-me o tempo encantado,
Que eu a teu lado passei…
Ah!… com então enlevado,
No teu amor me inspirei!
Minha vida que então era,
Arruinado jardim,
Transformou-se em primavera,
Teve rosas e jasmim;
E as ondas procelosas,
Do mar de minha existência,
Se acalmaram bonançosas,
Ao teu sorrir de inocência;
Mas agora, — ave sem ninho,
A doudejar no deserto,
Cego em busca do caminho,
Com passo tardio e incerto;
Lembrando esse momento,
De tão venturosa idade,
Só encontro um sentimento,
Uma palavra – saudade!
Revista O Cysne, ano I, nª 1, 1864
Januário dos Santos Sabino (Brasil, 1836?- 1900)
Citando a fada, 2015
Emma Ersek (Romênia, 1979)
Sophia de Mello Breyner
Quando o meu corpo apodrecer e eu for morta
Continuará o jardim, o céu e o mar,
E como hoje igualmente hão-de bailar
As quatro estações à minha porta.
Outros em Abril passarão no pomar
Em que eu tantas vezes passei,
Haverá longos poentes sobre o mar,
Outros amarão as coisas que eu amei.
Será o mesmo brilho, a mesma festa,
Será o mesmo jardim à minha porta,
E os cabelos doirados da floresta,
Como se eu não estivesse morta.
Somente agora é que vejo
que tens razão, meu amor…
Quem paga beijo com beijo
tem sempre saldo a favor.
(Narciso Nery)