Chegada de Papai Noel.
Capa da Revista Toda Família, Suécia, 1917.
—
Natal é meditação,
é o tempo da Humanidade
entender que salvação
tem um nome: CARIDADE!
(José Ouverney)
Chegada de Papai Noel.
Capa da Revista Toda Família, Suécia, 1917.
—
Natal é meditação,
é o tempo da Humanidade
entender que salvação
tem um nome: CARIDADE!
(José Ouverney)
Joaquim Serra
——
Na palhoça iluminada,
Que fica junto da ermida,
Des que a missa foi cantada
Se congrega a multidão;
Toldo de mirta florida,
Flores de mágico aroma
Ornam o presépio, que toma
Na sala grande extensão.
—-
Quão lindo está! Não lhe falta
Nem o astro milagroso
Que de repente brilhou;
Nem o galo, que o repouso
Deixara por noite alta
E que inspirado cantou!
——-
Tudo o que a lenda memora
E consagra a tradição,
Vê-se ali, grosseiro embora,
Despido de perfeição.
——
Céu de estrelinhas douradas,
Estrelas de papelão;
Brancas nuvens fabricadas
Da plumagem do algodão!
Anjos soltos pelos ares,
Peixes saindo dos mares,
Feras chegando do além.
Marcha tudo, e vêm na frente
Os Reis Magos do Oriente
Em demanda de Belém.
——-
É esta a lapa; o Menino
Nas palhas está deitado,
Com um sorriso de alegria
Todo doçura e amor!
——
Contempla o quadro divino
São José ajoelhado,
E a Santíssima Maria
De Jericó meiga flor!
——
Trajando risonhas cores
Com muitos laços de fitas,
Rapazes, moças bonitas
Formam grupos de pastores.
———-
Que curiosos bailados,
Com maracás e pandeiros!
E o ruído dos cajados
Desses risonhos romeiros!
——–
Essa quadrilha dançante,
Cantando versos festivos,
Aos pés do celeste infante
Vai depor seus donativos:
———
Frutas, doces, sazonadas,
Ramilhetes de açucenas,
Cera, peles delicadas,
Pombinhos de brancas penas.
—–
São as joias que os pastores
Dão ao Deus onipotente!
E o povo aplaude os cantores
E o espetáculo inocente.
———
Eis o presepe singelo
Da devoção popular;
Oratório alegre e belo
Sagrado risonho altar!
——
——
Em: Poesia Brasileira para a Infância, de Cassiano Nunes e Mário da Silva Brito, São Paulo, Saraiva: 1969.
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Joaquim Serra
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Joaquim Maria Serra Sobrinho ( MA 1838 — RJ 1888) jornalista, professor, político e teatrólogo. Pseudônimos: Amigo Ausente, Ignotus, Max Sedlitz, Pietro de Castellamare, Tragaldabas. Foi um intelectual muito ativo na segunda metade do século XIX. Abolicionista, trabalhou lado a lado com Joaquim Nabuco, Quintino Bocaiuva e José do Patrocínio para o fim da escrevidão.
Obras:
A capangada, sem data, séc. XIX
A pomba sem fel, sem data, séc. XIX
As Cousas da moda, sem data, séc. XIX
Epicedio à morte de Manuel Odorico Mendes, sem data, séc. XIX
O jogo das libras, sem data, séc. XIX
O remorso vivo, sem data, séc. XIX
Quem tem boca vai a Roma
Rei morto, rei posto
Biografia do ator brasileiro Germano Francisco de Oliveira, 1862
A coalisão, 1862
Julieta e Cecília, contos, 1863
Mosaico, poesia traduzida, 1865
O salto de Leucade, 1866
A casca da caneleira, romance de autoria coletiva, cabendo a J.S. a coordenação, 1866
Um coração de mulher, poema-romance, 1867
Versos de Pietro de Castellamare, 1868
Semanário maranhense, 1867
Quadros, poesias, 1873
Almanaque Humorístico Ilustrado, 1876
Diário oficial do império do Brasil, 1878
O abolicionista, 1880
Sessenta anos de jornalismo, a imprensa no Maranhão, 1820-80, por Ignotus, 1883
O coroado, 1887
Poesias e poemas, 1888
Os melros brancos, 1890
O sono da razão produz monstros, 1799 da série: Os caprichos
Francisco Goya (Espanha, 1746-1828)
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Já tive a oportunidade, aqui neste blog, de usar a palavra zeitgeist . Esta é uma palavra alemã [pronunciada: ‘zaitgaist’] que engloba o conceito de um espírito de época. Originalmente ligada a um movimento do romantismo alemão, com o tempo esta palavra tornou-se a maneira taquigráfica para historiadores explicarem certos fenômenos, atitudes, preocupações que parecem surgir simultaneamente em diversos lugares e culturas diferentes mas que não teriam sido relacionados, apesar dos muitos pontos em comum que apresentam. Foi justamente este conceito de zeitgeist que primeiro veio à minha mente ao ler Viva Chama [não gosto desta tradução do título inglês: Burning Bright, porque perde a ênfase em português], o mais recente livro de Tracy Chevalier traduzido no Brasil. (Rio de Janeiro, Record: 2009).
Não sou, nem nunca fui, uma especialista do século XVIII, mas conheço o suficiente para me lembrar que uma grande preocupação intelectual do final deste século e início do século XIX baseava-se nos contrastes, nos opostos. Intelectuais consideravam seriamente aspectos entre a razão e o sonho; consideravam os limites do racionalismo em oposição às infinitas possibilidades do inconsciente. Um dos maiores símbolos para a época, que parece representar fielmente as considerações mencionadas foi a série de oitenta gravuras do pintor espanhol Francisco Goya, chamada de Los Caprichos, publicada em 1799. E dentre estas gravuras, uma em particular: O sono da razão produz monstros, se tornou emblemática das preocupações desse fim de século.
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Pietà, 1795
William Blake ( Inglaterra, 1757-1828)
Tate Gallery, Londres
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William Blake (1757-1828), poeta e pintor inglês, contemporâneo de Goya e também um dos personagens do livro de Tracy Chevalier foi um dos intelectuais da época, mais preocupados com a dualidade dos elementos. Blake, que parece no romance um personagem de pano de fundo, tem, no entanto, suas idéias cristalizadas no tecido do romance. Assim, questões que poderiam ser reduzidas e polarizadas, como razão x sonho; bom x mau; crença x materialismo, encontram no romance a linha de união que as une; a linha de união que preocupava Blake e que ele, através da autora explica:
— Sim, minhas crianças. A tensão entre os opostos é o que nos faz ser como somos. Não somos apenas uma coisa, mas o oposto dela também, misturando, se chocando e faiscando dentro de nós. Não apenas luz, mas escuridão. Não só paz, mas guerra. Não só inocência, mas conhecimento. – Ele descansou o olhar um instante na margarida que Maisie ainda segurava. – É uma lição que precisamos aprender: ver o mundo todo numa flor… [p. 230].
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William Blake, 1807
Thomas Phillips ( Inglaterra, 1770-1845)
National Portrait Gallery, Londres.
Tracy Chevalier, astutamente, digere para o leitor a grande temática de opostos se complementando, e o faz em tantos níveis através do romance, que este se torna, para quem o percebe, quase um quebra-cabeças do gênero: quantos quadrados podemos ver neste desenho? Onde a figura apresentada não só é feita de quadrados como emoldurada por eles. A trama é difusa e simples, aparentemente centrada nas peripécias de três personagens nos primeiros anos da adolescência. Uma família sai de um vilarejo na Inglaterra, mudando-se para Londres, a convite do dono de um circo. O pai, marceneiro, especialista cadeiras, vai para a capital do país ser carpinteiro do circo. Com ele além da mulher vão os filhos: Maisie, uma menina recatada e seu irmão mais velho Jem. Logo, logo as crianças ficam amigas de Maggie, uma menina de idade próxima à de Jem, filha de vizinhos. Os três têm muitas aventuras citadinas. Maggie se aproxima deles feliz por poder mostrar aos “caipiras do interior” sua habilidade e esperteza adquiridas no dia a dia da metrópole. Um casal — William Blake e sua esposa — que mora no mesmo grupo de casas, é olhado com curiosidade e desconfiança pelos vizinhos. Assim se torna um elemento de fascinação para os três aventureiros que seguem o casal daqui para acolá e acabam travando uma amizade com o poeta-pintor e sua esposa.
Todos os personagens com grandes ou pequenas participações na trama apresentam duas facetas: boa e má, inocente e experiente, seriedade e jocosidade. Anne Kellaway, a senhora sisuda do interior é imediatamente fascinada pelo mundo do circo, onde ela pode se deixar levar por momentos oníricos que não admitia em sua própria vida. O sério casal Blake é entrevisto nas suas relações sexuais ao ar livre. Jem, o nosso adolescente do interior luta contra a fascinação e o repúdio por sua amiga Maggie. Até mesmo as duas meninas, que parecem um o reverso da outra, têm em comum o mesmo nome, Margaret, para o qual cada uma usa um apelido diferente: Maisie e Maggie.
William Blake é retratado como uma pessoa afável que desperta bastante curiosidade não só por sua impressora, uma máquina que pode ser vista em sua casa, da rua, como também pelos seus desenhos, por suas conversas, por suas poesias e por suas preferências políticas a favor daqueles que no continente apóiam a Revolução Francesa. E mesmo como um intelectual londrino, William Blake não se esquiva de participar de pequenas discussões sobre uma visão do todo, que inclua seus opostos, com qualquer pessoa que pareça se interessar pelo assunto. Um exemplo, logo no início do romance, de um diálogo que se desenrola entre ele e o dono do circo Phillip Astley.
Philip Astley
— O senhor cria, não é? – continuou Phillip Astley – Desenha as coisas reais, mas seus desenhos, suas gravuras não são a coisa em si, pois não? São fantasias. Creio que. apesar das diferenças… – olhou de lado para o paletó preto e simples do Sr. Blake comparado ao vermelho que ele usava, com seus botões de metal brilhando, lustrados diariamente pelas sobrinhas — somos do mesmo ramo, senhor: nós dois vendemos ilusão. O senhor com seu pincel, tinta e buril, enquanto eu… – Phillip Astley fez um gesto para as pessoas em volta — …todas as noites crio um mundo com artistas no picadeiro. Tiro o público de seus cuidados e preocupações e dou-lhe fantasia para ele achar que está em outro lugar. Mas para ser real às vezes temos que ser reais. ….
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— Não desenho pessoas reais – interrompeu o Sr. Blake, que ouvia com grande interesse e falou. Então, num tom mais normal, sem raiva. – Mas entendo o senhor. Porém vejo de outra forma. O senhor faz diferença entre realidade e ilusão. Julga que são opostos, não?
— Claro – respondeu Phillip Astley.
— Para mim, são uma coisa só. …. [p. 115-116]
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E assim, como numa sala de espelhos, a idéia de opostos unidos num todo, é esmiuçada e explicada, multiplicada infinitamente em diferentes níveis através do romance. Quando vemos, temos em nossas mãos a verdadeira união de “opostos”, William Blake que parecia apenas um personagem lateral, quase pano de fundo, tem suas idéias explicitadas de tal forma que é indiretamente o real e único retratado na narrativa.
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Vista da Ponte de Westminster em Londres na segunda metade do século XVIII.
É a habilidade narrativa de Tracy Chevalier que leva este romance à leitura rápida, quase compulsiva da trama. Como leitores anteriores já haviam comentado – as citações na capa mostram – a riqueza de detalhes desta Londres do final do século XVIII é impressionante. A autora parece sempre confiante nas descrições em que os cinco sentidos acabam sendo envolvidos: da paisagem do Tamisa de um lado ao outro da ponte de Westminster, aos cheiros dos becos locais, à delicadeza do tato na manufatura de um botão, ao perpétuo gosto de mostarda para os trabalhadores da fábrica, ao assovio de uma canção. Neste livro todos os nossos sentidos são acordados para o mundo de 200 anos atrás. E melhor ainda, nós nos lembramos de que esse mundo anterior, poderia ser particularmente cruel e imundo, de vida difícil, esgotante, para a maioria das pessoas.
Se você gosta de um romance com clareza histórica e uma conexão literária, não deixe de ler Viva Chama. Vale a pena.
******
PS: A Bertrand do Brasil poderia ter sido um pouco mais cuidadosa na editoração do livro. Há muitos pequenos errinhos, incluindo a troca de personagens, que distraem a leitura. Uma falta que não se espera de uma das editoras de um grande conglomerado editorial. Pena. Muita pena, que a pressa do lucro haja desvalorizado o texto.
Tracy Chevalier
Cheng Minsheng ( QinDu, China, 1943)
Aquarela, tinta, sobre papel.
25 cm x 25 cm
Coleção particular.
Alegria de menina que gosta de leite de cabra
Afonso Schmidt
Quando acorda a corruíra do pessegueiro,
eu acordo também;
é a hora dourada em que passa o cabreiro
com suas cabrinhas tão bonitinhas…
São cerca de quarenta mas, contando bem,
talvez não passem de trinta…
A pintada, aquela que vai correndo na frente
e que não tem medo de gente
é a que leva o guizo alegre que tilinta.
As outras vão correndo atrás,
vão pulando,
vão chifrando,
vão berrando
bé, bé, bé…
Eu pego no copo e vou para o portão
chamar o cabreiro:
— Seu cabreiro, me tire este copo de leite,
mas quero daquela cabrinha malhada
que leva na boca uma folha dourada.
E o cabreiro chama a cabrinha:
bit, bit, bit…
Põe-se a tirar o leite:
puxa que puxa,
espicha que espicha,
escorrupicha…
Mamãe , que me espia sob o pé de brincos-de-princesa,
me fala:
— Menina que gosta de leite de cabra vira cabrita!
(mas isso é bobagem, ninguém acredita).
Depois o cabreiro e suas cabrinhas vão
pelas ruas do bairro, encharcadas de sol.
Em: Poesia Brasileira para a Infância, Cassiano Nunes e Maria da Silva Brito, São Paulo, Saraiva:1968.
Afonso Schmidt (Cubatão, SP 1890 – SP, SP 1964) poeta, romancista, contista, biógrafo, jornalista. Como jornalista trabalhou para A Voz do Povo, em 1920, no Rio de Janeiro. Para Folha da Noite, Diário de Santos e A Tribuna, em Santos. Em São Paulo trabalhou na Folha da Noite e O Estado de S.Paulo. Neste último trabalhou de 1924 até 1963. Recebeu o prêmio da revista O Cruzeiro em 1950 pelo romance Menino Felipe. A União Brasileira de Escritores lhe premiou com o Juca Pato – Intelectual do Ano em 1963. Foi sócio fundador do Sindicato dos Jornalistas do Estado de S. Paulo, membro da Academia Paulista de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo.
Obras:
A Árvore das lágrimas – 1942
A Datilógrafa
A Marcha -1941
A Nova conflagração -1931
A Primeira viagem – 1947
A Revolução brasileira – 1930
A Sombra de Júlio Frank – 1936
A Vida de Paulo Eiró – 1940
Ao relento -1922
As Levianas
Aventuras de Indalécio
Bom tempo -1956
Brutalidade – 1922
Carantonhas – 1952
Carne para canhão – 1934
Colônia Cecília – 1942
Curiango – 1935
Evangelho dos livres -1919
Garoa – 1931
Janelas abertas – 1911
Lembrança
Lírios roxos – 1904
Lua nova
Lusitânia – 1918
Menino Felipe -1950
Miniaturas – 1905
Mirita e o ladrão – 1960
Mistérios de São Paulo – 1955
Mocidade – 1921
O Assalto – 1945
O Canudo – 1963
O Desconhecido
O Dragão e as virgens – 1926
O Enigma de João Ramalho – 1963
O Passarinho verde
O Que era proibido dizer – 1932
O Reino do céu – 1942
O Tesouro de Cananéia – 1942
Os Boêmios
Os Impunes – 1923
Os Impunes – 1924
Os Melhores contos de Afonso Schmidt – 1946
Pirapora -1934
Poesia – 1945
Poesias -1933
Retrato de Valentina – 1948
Saltimbancos – 1950
São Paulo dos meus amores -1954
Somos todos irmãos – 1949
Tempos das águas – 1962
Zamir
Zanzalás – 1938
Dilan Camargo
Senhora Dona Vassoura
Elegante Dama Loura
ao vê-la assim tão linda
minha tristeza se finda.
Vamos dançar uma valsa?
Pra poder acompanhá-la
este jovem se descalça
com medo de pisá-la.
Deixe enlaçar, dançarina
a sua cintura fina.
Deixe tomar, bem sensíveis
os seus braços invisíveis.
Ao soar a melodia
surpresa todos verão:
rodopia, rodopia
um belo par no salão.
Em: Poesia fora da estante, coord. Vera Aguiar, Simone Assumpção e Sissa Jacoby, Porto Alegre, Editora Projeto:2007
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Dilan Deibal D’ Ornellas Camargo — ( Itaqui, RS, 1948) advogado, professor, escritor, poeta, teatrólogo e letrista.
Obra:
Em mãos, poesia, 1976
Na mesma Voz, poesia, 1981
Sopro nos Poros, poesia, 1985
O Embrulho do Getúlio, poesia infantil, 1989
Rebanho de Pedras, poesia, 1990
O Vampiro Argemiro, poesia
Eu pessoa, pessoa eu, poesia, 1997
Poesia e Cidade, poesia, 1997
Bamboletras, poesia, 1998
O tempo começa no coração, poesia, 1999
A Fala de Adão, poesia, 2000
Antologia do Sul – Poetas Contemporâneos do RS, poesia, 2001
Miháy Bodó ( Hungria/Espanha 1957)
óleo sobre tela
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Miháy Bodó ( Hungria, 1957 – radicado na Catalunha) estudou na Faculdade de Belas Artes de Barcelona sob a direção de Bruno Fonseca. Licenciado em Filosofía e em Engenharia Civil ambos em Budapest. Estudou também escultura na Faculdade de Belas Artes de Barcelona.
Floresta Tropical com macacos, 1910
Henri Rousseau ( França, 1844-1910)
óleo sobre tela
National Gallery, Washington DC
Há uma semana tento escrever sobre o livro A costa do mosquito de Paul Theroux, (Rio de Janeiro, Alfaguara: 2009), romance eleito para discussão no mês de outubro no grupo de leitura Papa-livros. A razão da minha dificuldade está na tensão que sinto entre dois opostos: um excelente romance, com uma narrativa extraordinária, de um lado e do outro lado, personagens totalmente detestáveis com exceção do narrador, um menino se aproximando da adolescência, pelo qual sinto total indiferença. Esta combinação tem me deixado paralisada.
O enredo é bastante simples: um homem, um inventor, quase genial, insatisfeito com a moderna sociedade americana, empacota suas coisas e família mudando-se para a América Central, onde pretende instalar numa região remota os rudimentos de uma sociedade perfeita. É a história de um psicopata, um “survivalist”, egocêntrico, que submete os 4 filhos e sua esposa a um grande sofrimento, na esperança sem base realística de que poderá “re-inventar” o mundo, a sociedade, a maneira de viver. Seu relacionamento amoroso, com filhos e mulher, se queda no parâmetro da insensibilidade. Sempre com desculpas para qualquer fracasso, tende a colocar a culpa em outros ou na sociedade que o cerca. Nunca sente arrependimento ou remorso e leva sua prole a sofrer, física e mentalmente, às vezes quase que se divertindo com seu sofrimento, mostrando continuamente um comportamento anti-social, em prol de um benefício que só ele parece perceber.
É difícil decidir qual dos personagens é mais detestável nessa trama: Se Allie Fox, cativo de sua condição mental, aparentemente são, mesmo que suas ações revelem o contrário; ou se “Mãe”, sua cara-metade, que aceita o comportamento esdrúxulo do marido, facilitando sua performance, mesmo que esta se realize em detrimento da educação, do desenvolvimento, da segurança e da saúde de sua prole.
O resultado do romance é esmagador, enfurecedor, revoltante. Reconheço que houve momentos em que tive que colocar o livro de lado, tal minha agonia quanto ao comportamento dos dois adultos desta perigosa família. Se consegui terminar o livro foi por exclusiva admiração ao autor, à sua habilidade com a escrita e em respeito ao seu trabalho anterior.
Paul Theroux sempre me encantou com sua facilidade descritiva e aqui continua a mostrar uma narrativa cheia de imagens ricas e inovadoras. Continua sensacional. Vejamos por exemplo este parágrafo no início do livro, quando Charles decide sair de casa para ver onde estaria seu pai, no campo, à noite:
Nossa casa era rodeada de campos lavrados. Arvoredos cresciam nas extremidades de cada um, para quebrar o vento. O milho e o tabaco já começavam a brotar e embora fosse mais fácil caminhar entre os sulcos, mantive-me na trilha, com os braços à frente do rosto, para me proteger dos galhos. Pior que eles, as teias de aranha atravessavam o caminho e se prendiam em meus cílios. Os bosques eram cheios de charcos, e o som dominante na noite era a algazarra das rãs arborícolas – pequenas, escorregadias e lustrosas como iscas de peixe. As árvores, azuis e negras, lembravam enormes bruxas… [p. 20]
Ou, esta passagem, bem mais no fim do livro:
Jerônimo parecia ter sido bombardeada. Era principalmente pó, um bolsão de cinzas ardentes. As árvores ao redor tinham se transformado em estacas. Como o fogo se espalhara, a clareira se tornara maior, semelhante a uma cratera. Os encanamentos do Menino Gordo haviam desmoronado – e estavam embranquecidos como ossos. As bombas tinham caído. Nenhuma casa ou abrigo ficara de pé. As plantações estavam carbonizadas. Alguns caules restantes estavam empolados como carne queimada. O milharal estava arrasado. As abóboras e os tomates haviam explodido e minavam suco – tinham sido cozidos até apodrecer. Algumas frutas se pareciam com bolsas esfarrapadas.
Mas as ruínas e as cinzas não eram nada comparadas ao silêncio. Estávamos acostumados aos gorjeios e aos grasnidos dos pássaros, e com o ciciar retumbante das cigarras. Não havia som, nem movimento. Toda a vida existente em Jerônimo fora consumida pelo fogo. Os pássaros que víamos estavam mortos, carbonizados, encolhidos, depenados, com asas minúsculas e cabecinhas ridículas, não mais do que bolotas. Peixes viscosos boiavam na superfície do tanque. Ao sol da tarde, tudo estava morto, silencioso e malcheiroso. Algumas pilhas de escombros ainda fumegavam. [p. 321]
Minha familiaridade com Paul Theroux é baseada tanto nos livros de ficção quanto nos seus livros de viagem. Na ficção, lembro-me com muito gosto de Saint Jack, The consul’s file e Hotel Honolulu, livros que li quando morava fora do Brasil. A costa do mosquito, no entanto, está na lista daqueles não lidos no original, apesar de ter sido um romance transformado em filme em 1986, dirigido por Peter Weir. É difícil imaginar Harrison Ford, um galã de primeira linha, fazer o personagem principal desta saga familiar, porque Allie Fox, o papel que desempenha no filme, é um dos homens mais detestáveis da literatura americana! Mais difícil ainda, é imaginar a fantástica atriz inglesa Helen Mirren, que parece ter sempre papéis de mulheres fortes, vestir-se na pele de “Mãe” – personagem casada com Allie Fox e talvez ainda mais desprezível que seu marido pela silenciosa aderência aos planos do marido, por ser a facilitadora de um tipo de abuso sofrido pela ela mesma e por seus filhos, sem nunca se revoltar.
Cena do filme A Costa do Mosquito, com Harrison Ford.
Com freqüência, durante a leitura de A costa do mosquito, lembrei-me de um outro livro que li há um pouco mais de um ano, também americano, chamado O castelo de vidro, de Jeannette Walls — uma leitura escolhida pelo grupo Papa-livros em março de 2008. Este, baseado na verdadeira história da autora. As circunstâncias de uma família disfuncional, com pais irresponsáveis, beirando a loucura, também são descritas nessa autobiografia. Lá também temos um pai com comportamento anormal e uma mãe facilitadora. Em ambos leva muito tempo para os filhos perceberem a situação de extrema dependência em que se encontram e fazerem o que é necessário para se salvarem. Em ambos os livros, quer na ficção, quer na autobiografia, seus narradores, — uma criança em cada uma das famílias – mostram grande fascinação por seus pais, fascinação mesclada por medo indistinto. São crianças aterrorizadas pelos adultos dos quais dependem, e que não conseguem refrear seu amor e dedicação aos pais, como se só eles pudessem entender o gênio que se esconde por trás da loucura. Há momentos em que Charles, em A costa do mosquito, filho mais velho, parece estar a ponto de descobrir a loucura de seu pai, mas tudo não passa de um vislumbre e se despedaça em segundos.
Charles não chega a se lembrar, como nós leitores o fazemos, nem mesmo de uma história contada, só para ele, pelo Sr. Polski. Uma história que preconiza o futuro de Charles. Nela, um rapaz que sofreu na infância pelas manias do pai, morde-lhe fora uma orelha como parte de seu último desejo à beira da morte. Esta história, contada como a dvertência ao menino pelo futuro nefasto que poderia ter, só encontra raízes no leitor, que naquela hora [p.69] sabe como a história de Charles se solucionará. Mas o menino leva muito tempo para que a imensidão do abuso a que foi submetido venha a trazer a revolta e fruir os resultados que o liberarão. Vejamos um exemplo da estranha mistura de loucura e fascinação que Allie Fox exerce, pela descrição de Charles sobre o comportamento de seu pai:
A prova disso é que estávamos em uma pipanto de quatro metros, seguindo rapidamente em direção à costa. Não passava de uma canoa de fundo chato, mas tínhamos sombra, assentos e fumaça para espantar mosquitos. O Pai tinha convertido aquilo em alguma coisa veloz e confortável. Falava de forma desenfreada, mas sua loquacidade era criativa. Durante todo o percurso rio abaixo, não parou de falar. Estivera preocupado. Ontem, havia chorado; hoje vociferava contra sua experiência e sobre o fim do mundo. Parecia faminto. Estava muito agitado e, agora, mais previsível do que nunca. Mas não havia no mundo ninguém mais engenhoso. [p. 335]
Paul Theroux
Com os vaivens das minhas opiniões sobre este romance, só o recomendaria a quem estivesse interessado em um estudo da personalidade psicopata. Se o seu objetivo, no entanto, é conhecer o excelente escritor Paul Theroux, recomendo que se entregue de corpo e alma à leitura de algum outro de seus títulos.
Borboleta multicor
tu me lembras, ao passar,
um bilhetinho de amor
dobrado em dois, a voar…
(J. G. de Araújo Jorge)
Ignat Bednarik (Romênia, 1882-1963)
aquarela sobre papel
—
Ignat Bednarik nasceu em Orsova, na Romênia em 1882. Em 1894, aos 12 anos ganhou seu primeiro prêmio de pintura enquanto estudava na escola secundária em Turnu Severin. Em 1898 entrou para a Escola de Belas Artes em Bucarest. Em 1901, vai para Viena estudando quase que por conta própria os mestres das artes nos museus, frequentando esporadicamente a Academia de Belas Artes de Viena. Vai depois para Sofia, Bulgária, onde passa dois anos se formando artisticamente até que em 1908 retorna a Bucareste e então começa uma vida extremamente atuante nas artes plásticas do país. Combate junto a outros artistas, através de caracterizações gráficas e envolvimento total, as forças alemãs nas duas guerras mundiais, do século XX. Em 1938 fica cego. Faz uma operação na vista em 1947 que restaura parcialmente sua visão. Mas volta à cegueira em 1961. Trablahou praticamente em todos os gêneros de pintura: retrato, paisagem, natureza-morta, pintura de gênero. E também foi bastante versátil no uso de tecnicas de pintura: óleo, aquarela, desenho a nanquim, pastel.