Natal é caridade, quadrinha.

8 12 2009

Chegada de Papai Noel.

Capa da Revista Toda Família, Suécia, 1917.

Natal é meditação,
é o tempo da Humanidade
entender que salvação
tem um nome: CARIDADE!

(José Ouverney)





O presépio — poema de Natal de Joaquim Serra

5 12 2009

O presépio

                                                  Joaquim Serra

——

Na palhoça iluminada,

Que fica junto da ermida,

Des que a missa foi cantada

Se congrega a multidão;

Toldo de mirta florida,

Flores de mágico aroma

Ornam o presépio, que toma

Na sala grande extensão.

—-

Quão lindo está!  Não lhe falta

Nem o astro milagroso

Que de repente brilhou;

Nem o galo, que o repouso

Deixara por noite alta

E que inspirado cantou!

——-

Tudo o que a lenda memora

E consagra a tradição,

Vê-se ali, grosseiro embora,

Despido de perfeição.

——

Céu de estrelinhas douradas,

Estrelas de papelão;

Brancas nuvens fabricadas

Da plumagem do algodão!

Anjos soltos pelos ares,

Peixes saindo dos mares,

Feras chegando do além.

Marcha tudo, e vêm na frente

Os Reis Magos do Oriente

Em demanda de Belém.

——-

É esta a lapa; o Menino

Nas palhas está deitado,

Com um sorriso de alegria

Todo doçura e amor!

——

Contempla o quadro divino

São José ajoelhado,

E a Santíssima Maria

De Jericó meiga flor!

——

Trajando risonhas cores

Com muitos laços de fitas,

Rapazes, moças bonitas

Formam grupos de pastores.

———-

Que curiosos bailados,

Com maracás e pandeiros!

E o ruído dos cajados

Desses risonhos romeiros!

——–

Essa quadrilha dançante,

Cantando versos festivos,

Aos pés do celeste infante

Vai depor seus donativos:

———

Frutas, doces, sazonadas,

Ramilhetes de açucenas,

Cera, peles delicadas,

Pombinhos de brancas penas.

—–

São as joias que os pastores

Dão ao Deus onipotente!

E o povo aplaude os cantores

E o espetáculo inocente.

———

Eis o presepe singelo

Da devoção popular;

Oratório alegre e belo

Sagrado risonho altar!

——

——

Em: Poesia Brasileira para a Infância, de Cassiano Nunes e Mário da Silva Brito,  São Paulo, Saraiva: 1969.

—–

——

Joaquim Serra

——

—–

Joaquim Maria Serra Sobrinho ( MA 1838 — RJ 1888) jornalista, professor, político e teatrólogo.  Pseudônimos: Amigo Ausente, Ignotus, Max Sedlitz, Pietro de Castellamare, Tragaldabas.  Foi um intelectual muito ativo na segunda metade do século XIX.  Abolicionista, trabalhou lado a lado com Joaquim Nabuco, Quintino Bocaiuva e José do Patrocínio para o fim da escrevidão. 

Obras:

A capangada, sem data, séc. XIX

A pomba sem fel, sem data, séc. XIX

As Cousas da moda, sem data, séc. XIX

Epicedio à morte de Manuel Odorico Mendes, sem data, séc. XIX

O jogo das libras, sem data, séc. XIX

O remorso vivo, sem data, séc. XIX

Quem tem boca vai a Roma

Rei morto, rei posto

Biografia do ator brasileiro Germano Francisco de Oliveira, 1862

A coalisão, 1862

Julieta e Cecília, contos, 1863

Mosaico, poesia traduzida, 1865

O salto de Leucade, 1866

A casca da caneleira, romance de autoria coletiva, cabendo a J.S. a coordenação, 1866

Um coração de mulher, poema-romance, 1867

Versos de Pietro de Castellamare, 1868

Semanário maranhense, 1867

Quadros, poesias, 1873

Almanaque Humorístico Ilustrado, 1876

Diário oficial do império do Brasil, 1878

O abolicionista, 1880

Sessenta anos de jornalismo, a imprensa no Maranhão, 1820-80, por Ignotus, 1883

O coroado, 1887

Poesias e poemas, 1888

Os melros brancos, 1890





Papa-livros: Viva chama, de Tracy Chevalier

23 11 2009

Goya,osonodarazaoproduzmonstrosO sono da razão produz monstros, 1799  da série:  Os caprichos

Francisco Goya (Espanha, 1746-1828)

Já tive a oportunidade, aqui neste blog, de usar a palavra zeitgeist .  Esta é uma palavra alemã [pronunciada: ‘zaitgaist’] que engloba o conceito de um espírito de época. Originalmente ligada a um movimento do romantismo alemão, com o tempo esta palavra tornou-se a maneira taquigráfica para historiadores explicarem certos fenômenos, atitudes, preocupações que parecem surgir simultaneamente em diversos lugares e culturas diferentes mas que não teriam sido relacionados, apesar dos muitos pontos em comum que apresentam.  Foi justamente este conceito de zeitgeist que primeiro veio à minha mente ao ler Viva Chama [não gosto desta tradução do título inglês: Burning Bright, porque perde a ênfase em português], o mais recente livro de Tracy Chevalier traduzido no Brasil. (Rio de Janeiro, Record: 2009).

Não sou, nem nunca fui, uma especialista do século XVIII, mas conheço o suficiente para me lembrar que uma grande preocupação intelectual do final deste século e  início do século XIX baseava-se nos contrastes, nos opostos.  Intelectuais consideravam seriamente aspectos entre a razão e o sonho;  consideravam os limites do racionalismo em oposição às infinitas possibilidades do inconsciente.  Um dos maiores símbolos para a época, que parece representar fielmente as considerações mencionadas foi a série de oitenta gravuras do pintor espanhol Francisco Goya, chamada de  Los Caprichos, publicada em 1799.  E dentre estas gravuras, uma em particular: O sono da razão produz monstros, se tornou emblemática das preocupações desse fim de século.

william-blake-pieta-1795-londra-tate-gallery

Pietà, 1795

William Blake ( Inglaterra, 1757-1828)

Tate Gallery,  Londres

William Blake (1757-1828), poeta e pintor inglês, contemporâneo de Goya e também um dos personagens do livro de Tracy Chevalier foi um dos intelectuais da época,  mais  preocupados com a dualidade dos elementos.  Blake, que parece no romance um personagem de pano de fundo, tem, no entanto, suas idéias cristalizadas no tecido do romance.  Assim, questões que poderiam ser reduzidas e polarizadas, como razão x sonho; bom x mau; crença x materialismo, encontram no romance a linha de união que as une; a linha de união que preocupava Blake e que ele, através da autora explica:

 — Sim, minhas crianças.  A tensão entre os opostos é o que nos faz ser como somos.  Não somos apenas  uma coisa, mas o oposto dela também, misturando, se chocando e faiscando  dentro de nós.  Não apenas luz, mas escuridão.  Não só paz, mas guerra.  Não só inocência, mas conhecimento.  – Ele descansou o olhar um instante na margarida que Maisie ainda segurava.  – É uma lição que precisamos aprender: ver o mundo todo numa flor… [p. 230].

—-

william_blake_by_thomas_phillips

William Blake, 1807

Thomas Phillips ( Inglaterra, 1770-1845)

National Portrait Gallery, Londres.

 

 

Tracy Chevalier, astutamente, digere para o leitor a grande temática de opostos se complementando, e o faz em tantos níveis através do romance, que este se torna, para quem o percebe, quase um quebra-cabeças do gênero: quantos quadrados podemos ver neste desenho?  Onde a figura apresentada não só é feita de quadrados como emoldurada por eles.    A trama é difusa e simples, aparentemente centrada nas peripécias de três personagens nos primeiros anos da adolescência.  Uma família sai de um vilarejo na Inglaterra, mudando-se para Londres, a convite do dono de um circo.  O pai, marceneiro, especialista cadeiras, vai para a capital do país ser carpinteiro do circo. Com ele além da mulher vão os filhos: Maisie, uma menina recatada e seu irmão mais velho Jem.   Logo, logo as crianças ficam amigas de Maggie, uma menina de idade próxima à de Jem, filha de vizinhos.  Os três têm muitas aventuras citadinas.  Maggie se aproxima deles feliz por poder mostrar aos “caipiras do interior” sua habilidade e esperteza adquiridas no dia a dia da metrópole.   Um casal — William Blake e sua esposa — que mora no mesmo grupo de casas, é olhado com curiosidade e desconfiança pelos vizinhos.  Assim se torna um elemento de fascinação para os três aventureiros que seguem o casal daqui para acolá e acabam travando uma amizade com o poeta-pintor e sua esposa.

Todos os personagens com grandes ou pequenas participações na trama apresentam duas facetas:  boa e má, inocente e experiente, seriedade e jocosidade.  Anne Kellaway, a senhora sisuda do interior é imediatamente fascinada pelo mundo do circo, onde ela pode se deixar levar por momentos oníricos que não admitia em sua própria vida.  O sério casal Blake é entrevisto nas suas relações sexuais ao ar livre.    Jem, o nosso adolescente do interior luta contra a fascinação e o repúdio por sua amiga Maggie.  Até mesmo as duas meninas, que parecem um o reverso da outra, têm em comum o mesmo nome, Margaret, para o qual cada uma usa um apelido diferente: Maisie e Maggie.  

William Blake é retratado como uma pessoa afável que desperta bastante curiosidade não só por sua impressora, uma máquina que pode ser vista em sua casa, da rua, como também pelos seus desenhos, por suas conversas, por suas poesias e por suas preferências políticas a favor daqueles que no continente apóiam a Revolução Francesa.  E mesmo como um intelectual londrino, William Blake não se esquiva de participar de pequenas discussões sobre uma visão do todo, que inclua seus opostos, com qualquer pessoa que pareça se interessar pelo assunto.   Um exemplo, logo no início do romance, de um diálogo que se desenrola entre ele e o dono do circo Phillip Astley.

Philip Astley

 

 

— O senhor cria, não é? – continuou Phillip Astley – Desenha as coisas reais, mas seus desenhos, suas gravuras não são a coisa em si, pois não?  São fantasias.  Creio que.  apesar das diferenças… – olhou de lado para o paletó preto e simples do Sr. Blake comparado ao vermelho que ele usava, com seus botões de metal brilhando, lustrados diariamente pelas sobrinhas  — somos do mesmo ramo, senhor: nós dois vendemos ilusão. O senhor com seu pincel, tinta e buril, enquanto eu… – Phillip Astley fez um gesto para as pessoas em volta — …todas as noites crio um mundo com artistas no picadeiro.  Tiro o público de seus cuidados e preocupações e dou-lhe fantasia para ele achar que está em outro lugar.  Mas para ser real às vezes temos que ser reais.  ….

 — ………………………………………………………………………………………….  —-

— Não desenho pessoas reais – interrompeu o Sr. Blake, que ouvia com grande interesse e falou. Então, num tom mais normal, sem raiva.  – Mas entendo o senhor.  Porém vejo de outra forma.  O senhor faz diferença entre realidade e ilusão.  Julga que são opostos, não?

— Claro – respondeu Phillip Astley.

— Para mim, são uma coisa só.  ….   [p. 115-116]

E assim, como numa sala de espelhos, a idéia de opostos unidos num todo, é esmiuçada e explicada, multiplicada infinitamente em diferentes níveis através do romance.  Quando vemos, temos em nossas mãos a verdadeira união de “opostos”,  William Blake que parecia apenas um personagem lateral, quase pano de fundo,  tem suas idéias explicitadas de tal forma que é indiretamente o real e único retratado na narrativa.  

Vista da Ponte de Westminster em Londres na segunda metade do século XVIII.

 

É a habilidade narrativa de Tracy Chevalier que leva este romance à leitura rápida, quase compulsiva da trama.  Como leitores anteriores já haviam comentado –  as citações na capa mostram – a riqueza de detalhes desta Londres do final do século XVIII é impressionante.  A autora parece sempre confiante nas descrições em que os cinco sentidos acabam sendo envolvidos: da paisagem do Tamisa de um lado ao outro da ponte de Westminster, aos cheiros dos becos locais, à delicadeza do tato na manufatura de um botão, ao perpétuo gosto de mostarda para os trabalhadores da fábrica, ao assovio de uma canção.  Neste livro todos os nossos sentidos são acordados para o mundo de 200 anos atrás.   E melhor ainda, nós nos lembramos de que esse mundo anterior, poderia ser particularmente cruel e imundo, de vida difícil, esgotante, para a maioria das pessoas.  

Se você gosta de um romance com clareza histórica e uma conexão literária, não deixe de ler Viva Chama.  Vale a pena.

******

PS:  A Bertrand do Brasil poderia ter sido um pouco mais cuidadosa na editoração do livro.   Há muitos pequenos errinhos, incluindo a troca de personagens, que distraem a leitura.  Uma falta que não se espera de uma das editoras de um grande conglomerado editorial.  Pena.  Muita pena, que a pressa do lucro haja desvalorizado o texto.

 

Tracy Chevalier





Poesia infantil de Afonso Schmidt: Alegria de menina que gosta de leite de cabra

12 11 2009

# 16 Cheng Minsheng  Pastorinha de CabrasPastorinha de cabras

Cheng Minsheng ( QinDu, China, 1943)

Aquarela, tinta, sobre papel.

25 cm x 25 cm

Coleção particular.

Alegria de menina que gosta de leite de cabra

                                                  Afonso Schmidt

Quando acorda a corruíra do pessegueiro,

eu acordo também;

é a hora dourada em que passa o cabreiro

com suas cabrinhas tão bonitinhas…

São cerca de quarenta mas, contando bem,

talvez não passem de trinta…

A pintada, aquela que vai correndo na frente

e que não tem medo de gente

é a que leva o guizo alegre que tilinta.

As outras vão correndo atrás,

vão pulando,

vão chifrando,

vão berrando

                    bé, bé, bé…

Eu pego no copo e vou para o portão

chamar o cabreiro:

— Seu cabreiro, me tire este copo de leite,

mas quero daquela cabrinha malhada

que leva na boca uma folha dourada.

E o cabreiro chama a cabrinha:

                    bit, bit, bit…

Põe-se a tirar o leite:

puxa que puxa,

espicha que espicha,

escorrupicha…

Mamãe , que me espia sob o pé de brincos-de-princesa,

me fala:

— Menina que gosta de leite de cabra vira cabrita!

(mas isso é bobagem, ninguém acredita).

Depois o cabreiro e suas cabrinhas vão

pelas ruas do bairro, encharcadas de sol.

Em: Poesia Brasileira para a Infância,  Cassiano Nunes e Maria da Silva Brito,  São Paulo, Saraiva:1968.

 afonso schmidt

Afonso Schmidt (Cubatão, SP 1890 – SP, SP 1964) poeta, romancista, contista, biógrafo, jornalista.  Como jornalista trabalhou para  A Voz do Povo, em 1920, no Rio de Janeiro.  Para Folha da Noite,  Diário de Santos e A Tribuna, em Santos. Em São Paulo trabalhou na Folha da Noite e O Estado de S.Paulo.  Neste último trabalhou de 1924 até 1963.  Recebeu o prêmio da  revista O Cruzeiro em 1950 pelo romance Menino Felipe.   A União Brasileira de Escritores lhe premiou com o Juca Pato – Intelectual do Ano em 1963.  Foi sócio fundador do Sindicato dos Jornalistas do Estado de S. Paulo, membro da Academia Paulista de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo.

Obras: 

A Árvore das lágrimas – 1942  

A Datilógrafa    

A Marcha -1941  

A Nova conflagração -1931  

A Primeira viagem – 1947  

A Revolução brasileira – 1930  

A Sombra de Júlio Frank – 1936  

A Vida de Paulo Eiró – 1940  

Ao relento -1922  

As Levianas    

Aventuras de Indalécio    

Bom tempo -1956  

Brutalidade  – 1922  

Carantonhas – 1952  

Carne para canhão – 1934  

Colônia Cecília – 1942  

Curiango – 1935  

Evangelho dos livres -1919  

Garoa – 1931  

Janelas abertas – 1911  

Lembrança    

Lírios roxos – 1904  

Lua nova    

Lusitânia – 1918  

Menino Felipe -1950  

Miniaturas – 1905  

Mirita e o ladrão – 1960  

Mistérios de São Paulo – 1955  

Mocidade – 1921  

O Assalto – 1945  

O Canudo – 1963  

O Desconhecido    

O Dragão e as virgens – 1926  

O Enigma de João Ramalho – 1963  

O Passarinho verde    

O Que era proibido dizer – 1932  

O Reino do céu – 1942  

O Tesouro de Cananéia – 1942  

Os Boêmios    

Os Impunes – 1923  

Os Impunes – 1924  

Os Melhores contos de Afonso Schmidt – 1946  

Pirapora -1934  

Poesia – 1945  

Poesias -1933  

Retrato de Valentina – 1948   

Saltimbancos – 1950  

São Paulo dos meus amores -1954  

Somos todos irmãos – 1949  

Tempos das águas – 1962  

Zamir    

Zanzalás – 1938





Valsa da Vassoura, Dilan Camargo, poesia infantil

31 10 2009

bruxa com gato

Valsa da vassoura

Dilan Camargo

Senhora Dona Vassoura

Elegante Dama Loura

ao vê-la assim tão linda

minha tristeza se finda.

 

Vamos dançar uma valsa?

Pra poder acompanhá-la

este jovem se descalça

com medo de pisá-la.

 

Deixe enlaçar, dançarina

a sua cintura fina.

Deixe tomar, bem sensíveis

os seus braços invisíveis.

 

Ao soar a melodia

surpresa todos verão:

rodopia, rodopia

um belo par no salão.

 

Em: Poesia fora da estante, coord. Vera Aguiar, Simone Assumpção e Sissa Jacoby, Porto Alegre, Editora Projeto:2007

Dilan Deibal D’ Ornellas Camargo — ( Itaqui, RS, 1948) advogado, professor, escritor, poeta, teatrólogo e letrista.

Obra:

Em mãos, poesia, 1976

Na mesma Voz,  poesia, 1981

Sopro nos Poros,  poesia, 1985

O Embrulho do Getúlio, poesia infantil, 1989

Rebanho de Pedras, poesia, 1990

O Vampiro Argemiro, poesia

Eu pessoa, pessoa eu, poesia, 1997

Poesia e Cidade, poesia, 1997

Bamboletras, poesia, 1998

O tempo começa no coração, poesia, 1999

A Fala de Adão, poesia, 2000

Antologia do Sul – Poetas Contemporâneos do RS, poesia, 2001

A Galera Tagarela, poesia, 2003
 
Coletânea da Poesia Gaúcha do RS, poesia, 2005
 
Balaio de Idéias, poesia,  2007
 
BrinCRiar, poesia infantil, 2007
 
A Casa da Suplicação, teatro
 
A Oitava Praga, teatro




Imagem de leitura — Miháy Bodó

28 10 2009

mihaybodo9Biblioteca, s/d

Miháy Bodó ( Hungria/Espanha 1957)

óleo sobre tela

 

Miháy Bodó ( Hungria, 1957 – radicado na Catalunha) estudou na Faculdade de Belas Artes de Barcelona sob a direção de Bruno Fonseca. Licenciado em Filosofía e em Engenharia Civil ambos em Budapest.  Estudou também escultura na Faculdade de Belas Artes de Barcelona.





Papa-livros: A costa do mosquito, Paul Theroux

28 10 2009

Henri Rousseau, Floresta Tropical com macacos, 1910, Tate Gallery, LondresFloresta Tropical com macacos, 1910

Henri Rousseau ( França, 1844-1910)

óleo sobre tela

National Gallery, Washington DC

Há uma semana tento escrever sobre o livro A costa do mosquito de Paul Theroux, (Rio de Janeiro, Alfaguara: 2009), romance eleito para discussão no mês de outubro no grupo de leitura Papa-livros.  A razão da minha dificuldade está na tensão que sinto entre dois opostos: um excelente romance, com uma narrativa extraordinária, de um lado e do outro lado, personagens totalmente detestáveis com exceção do narrador, um menino se aproximando da adolescência, pelo qual sinto total indiferença.  Esta combinação tem me deixado paralisada. 

O enredo é bastante simples: um homem, um inventor, quase genial, insatisfeito com a moderna sociedade americana, empacota suas coisas e família mudando-se para a América Central, onde pretende instalar numa região remota os rudimentos de uma sociedade perfeita.  É a história de um psicopata, um “survivalist”, egocêntrico, que submete os 4 filhos e sua esposa a um grande sofrimento, na esperança sem base realística de que poderá “re-inventar” o mundo, a sociedade, a maneira de viver.  Seu relacionamento amoroso, com filhos e mulher, se queda no parâmetro da insensibilidade.  Sempre com desculpas para qualquer fracasso, tende a colocar a culpa em outros ou na sociedade que o cerca.  Nunca sente arrependimento ou remorso e leva sua prole a sofrer, física e mentalmente, às vezes quase que se divertindo com seu sofrimento, mostrando continuamente um comportamento anti-social, em prol de um benefício que só ele parece perceber.

É difícil decidir qual dos personagens é mais detestável nessa trama:  Se Allie Fox, cativo de sua condição mental, aparentemente são, mesmo que suas ações revelem o contrário; ou se “Mãe”, sua cara-metade, que aceita o comportamento esdrúxulo  do marido, facilitando sua performance, mesmo que esta se realize em detrimento da educação, do desenvolvimento, da segurança e da saúde de sua prole.

O resultado do romance é esmagador, enfurecedor,  revoltante.  Reconheço que houve momentos em que tive que colocar o livro de lado, tal minha agonia quanto ao comportamento dos dois adultos desta perigosa família.  Se consegui terminar o livro foi por exclusiva admiração ao autor, à sua habilidade com a escrita e em respeito ao seu trabalho anterior.

A Costa De Mosquito

Paul Theroux sempre me encantou com sua facilidade descritiva e aqui continua a mostrar uma narrativa cheia de imagens ricas e inovadoras.  Continua sensacional.  Vejamos por exemplo este parágrafo no início do livro, quando Charles decide sair de casa para ver onde estaria seu pai, no campo, à noite:

Nossa casa era rodeada de campos lavrados.  Arvoredos cresciam nas extremidades de cada um, para quebrar o vento. O milho e o tabaco já começavam a brotar e embora fosse mais fácil caminhar entre os sulcos, mantive-me na trilha, com os braços à frente do rosto, para me proteger dos galhos.  Pior que eles, as teias de aranha atravessavam o caminho e se prendiam em meus cílios.  Os bosques eram cheios de charcos, e o som dominante na noite era a algazarra das rãs arborícolas – pequenas, escorregadias e lustrosas como iscas de peixe.   As árvores, azuis e negras, lembravam enormes bruxas… [p. 20]

Ou, esta passagem, bem mais no fim do livro:

Jerônimo parecia ter sido bombardeada.  Era principalmente pó, um bolsão de cinzas ardentes.  As árvores ao redor tinham se transformado em estacas.  Como o fogo se espalhara, a clareira se tornara maior, semelhante a uma cratera.   Os encanamentos do Menino Gordo haviam desmoronado – e estavam embranquecidos como ossos.  As bombas tinham caído.  Nenhuma casa ou abrigo ficara de pé.  As plantações estavam carbonizadas. Alguns caules restantes estavam empolados como carne queimada.  O milharal estava arrasado.  As abóboras e os tomates haviam explodido e minavam suco – tinham sido cozidos até apodrecer.  Algumas frutas se pareciam com bolsas esfarrapadas.

Mas as ruínas e as cinzas não eram nada comparadas ao silêncio.  Estávamos acostumados aos gorjeios e aos grasnidos dos pássaros, e com o ciciar retumbante das cigarras.  Não havia som, nem movimento.  Toda a vida existente em Jerônimo fora consumida pelo fogo.  Os pássaros que víamos estavam mortos, carbonizados, encolhidos, depenados, com asas minúsculas e cabecinhas ridículas, não mais do que bolotas.  Peixes viscosos boiavam na superfície do tanque.  Ao sol da tarde, tudo estava morto, silencioso e malcheiroso.  Algumas pilhas de escombros ainda fumegavam. [p. 321]

Minha familiaridade com Paul Theroux é baseada tanto nos livros de  ficção quanto nos seus livros de viagem.  Na ficção, lembro-me com muito gosto de Saint Jack, The consul’s file e Hotel Honolulu, livros que li quando morava fora do Brasil.  A costa do mosquito, no entanto, está na lista daqueles não lidos no original, apesar de ter sido um romance transformado em filme em 1986, dirigido por Peter Weir.  É difícil imaginar Harrison Ford, um galã de primeira linha, fazer o personagem principal desta saga familiar, porque Allie Fox, o papel que desempenha no filme, é um dos homens mais detestáveis da literatura americana!  Mais difícil ainda, é imaginar a fantástica atriz inglesa Helen Mirren, que parece ter sempre papéis de mulheres fortes, vestir-se na pele de “Mãe” – personagem casada com Allie Fox e talvez ainda mais desprezível que seu marido pela silenciosa  aderência aos planos do marido, por ser a facilitadora de um tipo de abuso sofrido pela ela mesma e por seus filhos, sem nunca se revoltar.

allie-fox-harrison-ford--630-75

Cena do filme A Costa do Mosquito, com Harrison Ford.

Com freqüência, durante a leitura de A costa do mosquito, lembrei-me de um outro livro que li há um pouco mais de um ano, também americano, chamado O castelo de vidro, de Jeannette Walls — uma leitura escolhida pelo grupo Papa-livros em março de 2008.  Este, baseado na verdadeira história da autora.   As circunstâncias de uma família disfuncional, com pais irresponsáveis, beirando a loucura, também são descritas nessa autobiografia.  Lá também temos um pai com comportamento anormal e uma mãe facilitadora.  Em ambos leva muito tempo para os filhos perceberem a situação de extrema dependência em que se encontram e fazerem o que é necessário para se salvarem.    Em ambos os livros, quer na ficção, quer na autobiografia, seus narradores,  — uma criança em cada uma das famílias – mostram grande fascinação por seus pais, fascinação mesclada por medo indistinto.   São crianças aterrorizadas pelos adultos dos quais dependem, e que não conseguem refrear seu amor e dedicação aos pais, como se só eles pudessem entender o gênio que se esconde por trás da loucura.    Há momentos em que Charles, em A costa do mosquito, filho mais velho, parece estar a ponto de descobrir a loucura de seu pai, mas tudo não passa de um vislumbre e se despedaça em segundos. 

Charles não chega a se lembrar, como nós leitores o fazemos,  nem mesmo de uma história contada, só para ele,  pelo Sr. Polski.  Uma história que preconiza o futuro de Charles.  Nela, um rapaz que sofreu na infância pelas manias do pai, morde-lhe fora uma orelha como parte de seu último desejo à beira da morte.  Esta história, contada como a dvertência ao menino pelo futuro nefasto que poderia ter, só encontra raízes no leitor, que naquela hora [p.69] sabe como a história de Charles se solucionará.  Mas o menino  leva muito tempo para que a imensidão do abuso a que foi submetido venha a trazer a revolta e fruir os resultados que o liberarão.  Vejamos um exemplo da estranha mistura de loucura e fascinação que Allie Fox exerce, pela descrição de Charles sobre o comportamento de seu pai:

 A prova disso é que estávamos em uma pipanto de quatro metros, seguindo rapidamente em direção à costa.  Não passava de uma canoa de fundo chato, mas tínhamos sombra, assentos e fumaça para espantar mosquitos. O Pai tinha convertido aquilo em alguma coisa veloz e confortável. Falava de forma desenfreada, mas sua loquacidade era criativa.  Durante todo o percurso rio abaixo, não parou de falar.  Estivera preocupado.  Ontem, havia chorado; hoje vociferava contra sua experiência e sobre o fim do mundo.  Parecia faminto.  Estava muito agitado e, agora, mais previsível do que nunca.  Mas não havia no mundo ninguém mais engenhoso. [p. 335]

paul theroux

Paul Theroux

Com os vaivens das minhas opiniões sobre este romance, só o recomendaria a quem estivesse interessado em um estudo da personalidade psicopata.  Se o seu objetivo, no entanto, é conhecer o excelente escritor Paul Theroux, recomendo que se entregue de corpo e alma à leitura de algum outro de seus títulos.





Quadrinha da borboleta

27 10 2009

borboleta e menino

 

Borboleta multicor

tu me lembras, ao passar,

um bilhetinho de amor

dobrado em dois, a voar…

 

(J. G. de Araújo Jorge) 





Em homenagem às sardinhas…

25 10 2009

adolphe montecelli  French, 1824 - 1886, Still Life with sardines and sea urchins, 1880-2, oil on wood panel,81,28 x 94,61cm, Dallas Art Museum, TxNatureza morta com sardinhas e ouriços do mar, 1880-1882

Adolphe Montecelli (França 1824-1886)

óleo sobre madeira,  81 x 95 cm

Museu de Arte de Dallas, EUA

 

 

Estou lendo A morte do gourmet, primeiro livro publicado de Muriel Barbery, a escritora francesa que ficou famosa pela publicação do livro A elegância do ouriço, já aqui resenhado.   Depois de ler a passagem sobre sardinhas, lembrei-me também dessa deliciosa refeição que são as sardinhas grelhadas, tão comuns tanto no Brasil como em Portugal e tive que sair à procura de uma refeição que incluísse pelo menos peixe.  Segue:

 

As sardinhas grelhadas impregnavam de seu perfume oceânico e cendrado todo o quarteirão.  Uma fumaça espessa e cinza escapava das tuias que cercavam o jardim.  Os homens das casas vizinhas iam dar uma mãozinha ao vovô.  Sobre imensas grelhas,  os peixinhos prateados já estalavam ao vento do meio-dia.  Ríamos, falávamos, abríamos garrafas de vinho branco seco bem gelado, os homens sentavam enfim e as mulheres saíam da cozinha com pilhas de pratos imaculados.  Habilmente, minha avó pegava um corpinho rechonchudo,farejando seu perfume, e o jogava no prato, em companhia de alguns outros.  Com seus bons olhos idiotas ela me olhava, gentil, e dizia: “Tome, ei, pequeno, a primeira é sua!  Virgem, como ele gosta disso, puxa!”.   E todo mundo caía na risada, batia nas minhas costas enquanto o prodigioso pitéu aterrissava diante de mim.  Eu não ouvia mais nada.  Com os olhos saltados, encarava o objeto de meu desejo; a pele cinza empolada, sulcada por longos lastros pretos, já não aderia aos flancos que cobria.  Minha faca fazia uma incisão nas costas do bicho e dividia com cuidado a carne esbranquiçada, cozida no ponto, que se separava em lâminas bem firmes, sem um toque de resistência.

 

Em: A morte do gourmet, Muriel Barbery,  São Paulo, Cia das Letras: 2009, p. 34-5.  Tradução de Rosa Freire D’ Aguiar.





Imagem de leitura — Ignat Bednarik

4 10 2009

Ignat Bednarik (Rumênia) 1882-1963 Hombre joven leyendo-Jovem rapaz lendo, s/d.

Ignat Bednarik (Romênia, 1882-1963)

aquarela sobre papel

 

Ignat Bednarik nasceu em Orsova, na Romênia em 1882.  Em 1894, aos 12 anos ganhou seu primeiro prêmio de pintura enquanto estudava na escola secundária em Turnu Severin.   Em 1898 entrou para a Escola de Belas Artes em Bucarest.  Em 1901, vai para Viena estudando quase que por conta própria os mestres das artes nos museus, frequentando esporadicamente a Academia de Belas Artes de Viena.  Vai depois para Sofia, Bulgária, onde passa dois anos se formando artisticamente até que em 1908 retorna a Bucareste e então começa uma vida extremamente atuante nas artes plásticas do país.   Combate junto a outros artistas, através de caracterizações gráficas e envolvimento total, as forças alemãs nas duas guerras mundiais, do século XX.  Em 1938 fica cego.  Faz uma operação na vista em 1947 que restaura parcialmente sua visão.  Mas volta à cegueira em 1961.    Trablahou praticamente em todos os gêneros de pintura: retrato, paisagem, natureza-morta, pintura de gênero.  E também foi bastante versátil no uso de tecnicas de pintura: óleo, aquarela, desenho a nanquim, pastel.