Quadrinha do tropeiro

2 04 2013

henry chamberlain, tropeiros no rj

Tropeiros no Rio de Janeiro

Henry Chamberlain (Inglaterra 1796-1844)

Gravura  em Views and costumes of the city and neighbourhood of Rio de Janeiro, 1822

O tropeiro viajante
que em nossa terra surgiu,
foi marco muito importante
no progresso do Brasil.

(Alda Lopes Rezende)





Tesouro do século XVI encontrado em velho sapato na Holanda

25 02 2013

Tesouro, willy pogany, Tisza Tales

Tesouro, ilustração de Willy Pogany para os Contos de Tisza.

Deve ter sido o medo da perseguição católica que levou o dono de um pequeno tesouro em moedas de prata a enterrá-las dentro de um sapato, na época da Revolta Holandesa, ou como alguns chamam, na época da Guerra dos Oitenta Anos.   Entre 1568 e 1648 o território que é hoje ocupado pela Holanda e parte da Bélgica e que pertencia à Espanha, lutou por sua independência. Os calvinistas que habitavam em grande número o território dos Países Baixos queriam poder manter sua independência religiosa, garantida até então, e temiam que os reis de Espanha viessem a exigir afiliação total ao catolicismo. Esse espírito de revolta foi muito ajudado pelos altos impostos e desemprego generalizado que maltratavam a população. Foram oitenta anos de batalhas e lutas que acabaram com a assinatura do Tratado de Westfália em 1648 e com a unificação e independência da Holanda.

moedasprataholandaefe1Foto agência EFE.

Isso justificaria a causa de se esconder uma coleção – uma pequena fortuna – de 477 moedas dentro de um sapato enterrado no solo. Pouco se sabe sobre essas moedas ou sobre seu dono.  Sabe-se, no entanto que essas economias, foram enterradas depois de 1592, porque essa é a data da mais recente moeda no grupo.  O tesouro conta com grande variedade de moedas de prata: a mais antiga é de 1472 enquanto qu e a mais recente foi cunhada em 1592.

moedasprataholandaefe3Foto agência EFE

Os arqueólogos holandeses encontraram as 477 moedas de prata enterradas na prefeitura de Roterdã, segunda maior cidade do país.  Perguntado sobre o achado, o prefeito da cidade, Ahmed Aboutaleb, se mostrou surpreso com a descoberta e disse que “nunca antes um grupo de arqueólogos tinha descoberto um sapato recheado de dinheiro“. Ainda não foi divulgado o valor atual das moedas encontradas, estima-se em alguns milhares de Euros.

Fonte: Terra





O urubu-rei, texto de Padre Nicolao Badariotti

25 02 2013

Joacilei Lemos Cardoso urubu rei

Urubu rei, s/d

Joacilei Gomes Cardoso (Brasil, 1960)

óleo sobre linho, 140 X 100 cm.

Joacilei Gomes Cardoso

O urubu-rei

Padre Nicolao Badariotti *

Estava um dia um bando de urubus se banqueteando no nojento festim; de repente um deles dá um guincho rouco e todos se afastam e dispõem em círculo numa atitude de respeito. O ar vibra, silvando ao impulso de asas possantes, estremecem as folhas e um  magnífico urubu-rei pousa majestosamente sobre um galho seco; dá um olhar imperioso sobre aquela turba vil e, lançando-se pesadamente ao chão, acode ao banquete, desdenhando todo aquele círculo de rivais invejosos e impotentes…  Era um lindo animal, maior que um peru, escuro na parte superior do corpo e branco debaixo das asas e do peito. A cabeça coberta somente de uma penugem ostentava sete cores; o bico robusto, os olhos largos e expressivos sem a ferocidade de seus congêneres, o pescoço aveludado e adornado dum colar de alvas penas, fazem do urubu-rei um animal soberbo e de nenhum modo merecedor do nome vulgar tão humilhante para ele.

 

[Exemplo de descrição de animais]

Em: Flor do Lácio,[antologia]  Cleófano Lopes de Oliveira, São Paulo, Saraiva: 1964; 7ª edição. (Explicação de textos e Guia de Composição Literária para uso dos cursos normais e secundário), página 93.

————–

*Padre Nicolao Badariotti foi um religioso italiano que descreveu viagem ao Mato Grosso em 1898, sua viagem foi publicada  como Exploração no norte de Mato Grosso, região do Alto Paraguay e Planalto dos Parecis. São Paulo: Escola Typ. Salesiana, 1898.





Juntos,depois do divórcio e da morte que os separaram: os retratos de Henrique VIII e Catarina de Aragão

2 02 2013

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Retrato de Catarina de Aragão, primeira esposa de Henrique VIII, óleo sobre madeira, artista desconhecido Lambeth Castle.

A tradição dizia que o retrato a óleo [acima] em uma das salas particulares do Palácio de Lambeth mostrava a sexta esposa de Henrique VIII, Catarina Parr (1512-1548).  Mas especialistas da National Portrait Gallery  de Londres, que foram ao palácio, residência oficial do Bispo de Canterbury, com a intenção de estudar o retrato de William Warham (1450-1532), arcebispo de Canterbury no século XVI, parte de um projeto titulado: Fazendo Arte na Inglaterra Tudor, ficaram interessados no retrato da dama, parte da decoração da sala íntima da residência, desde o século XIX.  Examinaram o Retrato de Catherine Parr  e notaram algumas discrepâncias, colocando em dúvida a atribuição.  Alguns detalhes não se encaixavam:  a moldura do quadro era obviamente de data anterior ao casamento de Catarina Parr.  As roupas da rainha consorte também pareciam ser antiquadas, para o período supostamente retratado e por fim, a pessoa retratada tinha uma semelhança enorme com a primeira esposa de Henrique VIII, Catarina de Aragão (1485-1536).  Os especialistas pediram, então,  ao  atual arcebispo de Canterbury e aos Comissários da Igreja, o empréstimo do quadro para  submetê-lo a uma análise técnica mais aprofundada. O bispo permitiu, começando assim o projeto da nova atribuição de um antigo quadro.

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Retrato de Henrique VIII, óleo sobre madeira, c. 1520, artista desconhecido, National Portrait Gallery, Londres.

Os testes logo mostraram que os especialistas tinham razão em querer examinar o quadro com cuidado. Submetido a raios-X e luz infra-vermelha o painel – é um óleo sobre painel de madeira – mostrou surpresas.  A equipe descobriu que, se removida, a pintura de fundo mostraria o fundo original, uma pintura de um painel [um pano de fundo] de seda adamascada verde, semelhante ao de um retrato de Henrique VIII, pintado em 1520, e parte da coleção da National Portrait Gallery em Londres.   O exame de raio-X do adorno de cabeça de Catarina Parr  mostrou que ele fora alterado, que originalmente havia um véu, ítem semelhante aos usados na época de Catarina de Aragão.  Além disso suas feições haviam sido modificadas.  As evidências ajudaram à conclusão de que era de fato um retrato de Catarina de Aragão, que se tornou a primeira esposa de Henrique VIII, depois que seu irmão mais velho Artur, que ela havia esposado em 1501, morreu.

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Catarina de Aragão em outro retrato na National Portrait Gallery em Londres.

Além das análises feitas na pintura em si, Charlotte Bolland, curadora da National Portrait Gallery de Londres, lembrou que  até mesmo a moldura do quadro ajudou a refazer a identificação da pessoa retratada.  “Ficou imediatamente aparente que se tratava de uma moldura bem mais antiga, produzida de uma maneira relativamente rara, típica do início do século XVI, um tipo de moldura que havia ficado fora de moda”.   Alguns detalhes do acabamento decorativo da moldura sobreviveram, entre a pintura posterior e a folha de ouro.  Isso foi de grande valia para a equipe de especialistas do museu porque molduras com acabamentos da época Tudor são extremamente raras.  A moldura combina detalhes pintados em ouro com faixas coloridas em azul e vermelho, que eram pintadas com pigmentos de azurite e vermillion.  Como uma grande parte do acabamento original foi recuperado, a equipe de reatauração da National Portrait Gallery conseguiu reconstruir as áreas perdidas ou prejudicadas.  A restauração do contraste de cores usados na moldura dessa obra ajuda na compreensão dos valores estéticos da época.  Outro aspecto considerado foi o vestuário: o que aparece,  já não era usado na época de Catarina Parr, que nasceu em 1512, três anos depois do casamento de Catarina de Aragão com Henrique VIII.  Além disso havia as características faciais em maior harmonia com Catarina de Aragão do que com Catarina Parr.

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Retrato de Catherine Parr, sexta esposa de Henrique VIII.

Numa ironia do destino, hoje os retratos de Henrique VIII e Catarina de Aragão estão expostos lado a lado na National Portrait Gallery em Londres.  Para quem se lembra, esse casamento acabou em divórcio,  servindo de marco para a separação da família real inglesa da igreja católica. “Henrique VIII e Catarina de Aragão foram casados por 24 anos e durante esse período seus retratos teriam sido mostrados em conjunto, como rei e rainha da Inglaterra”, observou Charlotte Boland.

A princesa espanhola Catarina de Aragão foi a primeira esposa de Henrique VIII.  Ela havia sido anteriormente casada, aos 15 anos de idade,  com Artur o irmão mais novo de Henrique VIII. Mas Artur morreu seis meses depois do casamento. Ela ficou viúva aos 16 anos.  Henrique VIII, então herdeiro do trono, casou-se com Catarina de Aragão, que foi coroada rainha da Inglaterra em uma cerimônia de coroação conjunta com seu marido.

Pouco depois de seu casamento Catarina ficou grávida, mas deu à luz uma filha natimorta em janeiro de 1510. A gravidez subseqüente resultou no nascimento do Infante D. Henrique em 1511 e houve grande festa, mas ele morreu  depois de 52 dias de nascimento. Catarina de Aragão depois teve um aborto espontâneo, seguido por um outro filho de vida curta,  mas em fevereiro de 1516, deu à luz uma filha saudável, Maria.  E a criança sobreviveu.

Henrique VIII ainda amava a sua esposa, mas ficou frustrado com a falta de um herdeiro masculino e tomou várias amantes, entre eles Maria Bolena, irmã de Ana Bolena.  Ana se recusou a se tornar amante de Henrique VIII, mas ele foi insistente e  ela sucumbiu. A preocupação de Henrique VIII com um filho só aumentou.

453px-Mary_I_by_Master_JohnMaria I de Inglaterra, por Mestre John, óleo sobre painel de carvalho, 1544, National Portrait Gallery, Londres.

Esta preocupação tornou-se ainda maior quando ele leu em Levítico que se um homem se casasse com a mulher de seu irmão, o casal permaneceria sem filhos. Apesar de ter uma filha, Henry ainda se sentia “sem filhos” por não ter um filho homem.  Henrique VIII então pediu ao papa para que anulasse seu casamento. Quando  Catarina – uma católica devota – soube disso, ela mesma também apelou para o Papa, defendendo sua posição, contra o divórcio. Ela argumentou que, como ela e Artur nunca haviam consumado o casamento, eles não eram marido e mulher de fato.

Essa briga continuou por seis anos e as coisas chegaram a um ponto em 1533, quando Ana Bolena engravidou e Henry decidiu que a única maneira de se casar com ela seria rejeitar o poder do Papa na Inglaterra. E conseguiu que Thomas Cranmer,  arcebispo de Canterbury, anulasse o casamento.

769px-Catherine_Aragon_Henri_VIII_by_Henry_Nelson_ONeilCatarina de Aragão implora a Henrique VIII contra o divórcio, s/d

[pintura do século XIX]

Henry Nelson O’Neil (Rússia, 1817- Inglaterra, 1880)

óleo sobre tela, 42 x 65 cm

Museu e Galeria de Arte de Birmingham, Inglaterra

Catarina teve que renunciar seu título de Rainha e ser conhecida como a Viúva Princesa de Gales, o que rejeitou para o resto de sua vida.

Catarina e sua filha Mary foram separadas e ela foi forçada a deixar a corte real, vivendo em casas senhoriais úmidas e castelos com apenas uma meia dúzia de servos. Dizia-se que sofreu problemas de saúde por esse motivo, mas nunca se queixou, e passou grande parte de seu tempo rezando. A filha de Catarina e Henry tornou-se rainha Maria I de Inglaterra em 1553 e era conhecida por sua brutal perseguição aos protestantes – ganhando o apelido de “Bloody Mary” [Maria Sangrenta].

—-

Lembrando as esposas de Henrique VIII:

Catarina de Aragão (Espanha, 1485-1536)

Ana Bolena ( Inglaterra, 1501-1536)

Jane Seymour ( Inglaterra, 1508-1537)

Ana de Cleves ( Alemanha, 1515-1557)

Catarina Howard (Inglaterra, c. 1518–1524 –  1542)

Catarina Parr ( Inglaterra, 1512-1548)

Esta postagem é em comemoração à exposição dos quadros de Henrique VIII e Catarina de Aragão, juntos, a partir do dia 23 de janeiro de 2013, na National Portrait Gallery em Londres.

Fontes: National Portrait Gallery. The Daily Mail





Curso de História da Arte Moderna em 10 encontros

19 01 2013

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Mulher com chapéu [Mme Matisse], 1905

Henri Matisse (França, 1869-1954)

óleo sobre tela, 79 x 60 cm

Coleção Particular

 

Curso de Arte Moderna em 10 encontros
Cem anos: do impressionismo à decada de 1970

Historiadora da Arte: Ladyce West

Todas as segundas-feiras das 17:00 às 19:00 horas

Início: 4 de março de 2013 [duração 10 semanas]

Local: Auditório Helena Lodi, VOZ PLENA
Rua Djalma Ulrich 154, 5º andar, esq. N. Sra. de Copacabana, Copacabana, Rio de Janeiro
Informações e inscrições: ladyce@terra.com.br

Vagas limitadas





O cemitério do Caju, texto de Pedro Nava

13 01 2013

DSC00822Cemitério de São João Batista, Rio de Janeiro.

Não sei se existe uma história dos cemitérios do Rio de Janeiro. Quase todos foram abertos depois das hecatombes da febre amarela, a partir de dezembro de 1849. O do Caju é anterior. É o mais antigo da cidade. Foi instalado em 1839 por José Clemente Pereira, numa gleba comprada à José Goulart, para enterrar os indigentes e escravos até então sepultados nos terrenos de Santa Luzia, onde se  ia erguer o atual hospital da Santa Casa da Misericórdia do Rio de Janeiro. Foi chamado Campo-Santo do Caju. Seu primeiro defunto foi inumado em 1840. Em 1851, o nome foi mudado para o de Cemitério de São Francisco Xavier. Entretanto, não só persiste a antiga denominação como ela entrou nas frases feitas. Assim, quando se diz – um dia,  Pedro, irás para o Caju – quer dizer – um dia, Pedro, ai! de ti, também morrerás e serás enterrado. Naquele ano o campo-santo é ampliado e juntaram-se as terras de José Goulart, as da antiga Fazenda do Murundu, de Baltasar Pinto dos Reis.  Em 1858, desmembra-se o terreno que vai ser o cemitério da venerável Ordem Terceira da Penitência e em 1859 o que vai ser o cemitério da venerável Ordem Terceira do Carmo. Essa vasta área corresponde, mais ou menos, ao que é hoje limitada pela Avenida Brasil, pelas Ruas Carlos Seidl, Indústria e Monsenhor Manuel Gomes e nela estão os quatro cemitérios, fábricas, depósitos e favelas; as ruas novas dos fundos das necrópoles; e o Hospital São Sebastião. O aterros, em frente, fizeram desaparecer os cais da Limpeza Pública, o dos madeireiros e a ponta de terra onde desembarcavam os macabeus de Jurujuba – perante a grada de honra das palmeiras cruzando suas folhas como espadas verdes no silêncio do funeral anônimo. O mar foi para longe e os pobres mortos deixaram de ser devorados pelos necrófagos talássicos, os siris e os guaiamuns. Passaram a ser pasto dos de terra, os tatus e as baratas. Aí!  ser entregue às baratas…

Entramos no cemitério como quem penetra as imensidades. Não as urbanas, como as perspectivas dos três poderes, na Brasília; as dos Campo Eísios em Paris; do Zocalo, no México; da praça de São Pedro, e da Via da Conciliação em Roma.  Mais do que isto.  Mais que as próprias imensidades do pampa, do deserto, da estepe.  Eram as imensidades sem fundo do tempo fugitivo e eterno, do espaço verificável e infinito. Transpondo seu pórtico de pedra eu tive a percepção invasora (e para sempre entranhada e durável) de um impacto silencioso e formidando. Alguma coisa se passou ali, se passou em mim, invisível, como que incometida e destituída de flagrante ação. Um súbito vazio, rarefação do elemento essencial a que eu bati guelras de ansioso peixe. Na imensa ausência eu só captava os círculos concêntricos da palavra oásis, da palavra oásis, da palavra oásis, se desprendendo da sineta que repicava para o defunto que chegava e para o enterro com que fomos de cambulhada. A entrada principal do campo-santo era uma larga avenida que a cobiça da Santa Casa foi estreitanto de tanto vender os palmos de terra onde capelas ricas e modernas cobrem a vista dos túmulos dos primeiros tempos.  Logo à esquerda os do Visconde e do Barão do Rio Branco. O deste, apenas um cubo de alvenaria caiada a espera que a Nação construa o monumento do construtor de suas fronteiras. Logo depois a moça abraçada a uma coluna (cujo mármore se derrete como um torrão de açúcar, da sepultura de Águeda Francisca Durão. O belo monumento de letras apagadas de José Clemente Pereira. À direita, o de José d’Araújo Coelho com sua pirâmide e  sua cabeça de esqueleto. O da que foi Ana Maria Ribeiro de Araújo Sousa com a armaria da Morte: em campo de nada a caveira triunfante sobre tíbias postas em aspa. As de Luísa Rosa Avendano Pereira e do médico Roberto Jorge Haddock Lobo. No fim das duas quadras iniciais o Cruzeiro de granito, todo dourado do tempo e azinhavrado dos musgos, abre seus braços de árvore de pedra, de moinho de pedra – sobre o infinito luminoso do seu despencado em cima da baixada carioca e da baixada fluminense.  Nos degraus destes cruzeiros de cemitérios é que senta o Grão-Porco na meia noite das sextas-feiras de novilúnio. Senta e espera os destemidos que entram para solicitar ouro, poder e amor. Quem chega ao Porco e pede, já ganhou porque tem preenchida a condição — que é atravessar até ali sem desviar a cabeça, sem olhar para os lados, por mais que os defuntos saídos do chão da terra chamem com psius pelo nome, xinguem, vaem, cutuquem e puxem pela roupa.   Ai!  de quem olha para os lados, hesita, treme e para. Cai logo morto e cai fedendo de podre e de borrado.  Já quando ele vence, logo os cadáveres voltam para as covas que se fecham e estralejando as lajes e um vento largo e rude varre o cheiro da carniça, limpa a face da lua nova. O Porco imundo vira num príncipe prateado e todo airoso. Abraça o postulante e os dois saem juntos (porque o Vinícius, lá fora gritou que já é sábado!) – saem juntos, para nunca mais se separarem. Nem nós de cá desta vida, nem nós de lá de depois da morte….

Em Balão Cativo: memórias/ vol2, Pedro Nava, Rio de Janeiro, José Olympio:  1973, pp: 40-42





Leitura no front

6 01 2013

5917-Books-SoldiersFotografia da Biblioteca Nacional da Escócia, ilustrando o artigo mencionado.

Ando fascinada com as pesquisas sobre os hábitos de leitura do passado: é aí que a historiadora em mim se revela.  Como todos sabem dedico boa parte do meu tempo na leitura de diários, notas, memórias, preferencialmente de pessoas comuns de tempos passados.  A pesquisa sobe os hábitos das pessoas de gerações passadas recebeu grande impulso nos últimos 50 anos culminando recentemente, para o leitor não especialista, na coleção História da Vida Privada.

A descoberta dos hábitos e costumes do passado nos ajuda a entender a seleção natural através dos séculos que definem muitos dos paradigmas da sociedade  atual.  Nossa maneira de ser, de considerar o que é importante para o grupo social, vem sendo filtrado pelas gerações que nos precederam.  Foram essas pessoas que desconhecemos, nossos antepassados remotos, que escolheram o que deveria ser considerado importante, essencial, em termos sociais, relogiosos, políticos.  Com suas escolhas elas deixaram o lastro cultural no qual a nossa visão de nós mesmos se baseia.

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Fotografia: soldados da Nova Zelândia com uma cópia do New Zealand at the front, 1917.  Alexander Turnbull Library.

O fascinante estudo do que líamos no passado está em pleno andamento como mostrou Jennifer Howard, no artigo Secret Reading Lives, já mencionado no blog anteriormente. A lista de publicações e de referâncias sobre os hábitos de leitura de outros tempos, aumenta a cada dia e a Reading Experience Database — RED, mostra como a internet, na Inglaterra, um país que sempre teve interesse pela sua própria história, pode auxiliar no levantamento das riquezas do passado.  O RED é uma fonte de material de primeira mão, de cartas, diários, livros de poesias favoritas, selecionadas por pessoas comuns, um hábito bastante popular durante o século XIX.  O RED, poderia muito bem dar exemplo e incentivar iniciativas semelhantes, em países como o Brasil que tanto necessita de pesquisadores e de novas visões sobre uma história tão mal contada, empobrecida por mais de 500 anos, de descaso.

Um dos exemplos curiosos ilustrando o artigo na revista The Chronicle of Higher Education é a descoberta de que a leitura feita na linha de batalha, por soldados engajados na 1ª Guerra Mundial, diferente do que se preconizava, não era leitura de panfletos propagandísticos ou políticos, mas que a leitura mais procurada era a de jornais de suas cidades natais, prosaicas lembranças, escapistas, de uma vida mais mansa, romântica, idealizada.  São detalhes como esses que podem nos oferecer uma ideia do que se passava no início do século XX;  como a guerra foi conduzida e por quem; mas muito mais que isso: o comportamento de seres humanos em períodos de grande estresse.  Pesquisa enriquecedora que levanta um espelho para o nosso comportamento emocional e para a herança deixada por esses que viveram cinco, seis gerações antes da nossa.  Fascinante.





O simples Natal no interior do Brasil, em 1925 — trechos selecionados

17 12 2012

Cartão Postal da virada do século XX [1890-1910], sem autoria.

O Natal  era uma festa mais simples do que se tornou, principalmente quando é celebrado num período de instabilidade política.  Retiro do Diário de Cecília de Assis Brasil: período de 1916 a 1928 [LP&M:1983] duas pequenas passagens que nos mostram o Natal em 1925, no interior do Rio Grande do Sul.

Sexta-feira, 24 de dezembro — Voltei ontem da Estância Nova. Fui substituir a Mamãe que se afastara para visitar Dona Mafalda. Passei  o dia na cozinha. Além do almoço, fiz bolos, biscoitos, arroz de leite e pudim de ovos. Fiquei contente de ter encontrado aqui, na volta, o seu Lauro, que nos trazia boas notícias da gente do velho Neto. […]

Sábado, 25 de dezembro, dia de Natal — Papai chegou cedo pelo noturno de Montevidéu. […] Papai trouxe-nos inúmeros presentes. Os meus foram régios: uma sela inglesa, de couro de porco, com barrigueira, e uma Corona 4, último modelo, novinha, lustrosa, em troca de minha velha máquina que o Sr. Firpo conseguiu vender em Buenos Aires, por 50 pesos. A nova custou 80. Antes do almoço entreguei meus modestos presentes de Natal, a cada membro da família: um tapete de trapos para a Mamãe, um crochê para a Maninha e lenços de linho para as outras. Ao Papai dei um carretel de linha de sapateiro para ele costurar os mata-moscas. O dia foi bonito e movimentado, mas passamos todo tempo pensando nos que estão ausentes, jogando a vida e a mocidade, para assegurar a liberdade da nossa terra e a nossa tranquilidade no futuro. […]”

Para elucidar:  Estes diários foram escritos durante um período de grande instabilidade no Rio Grande do Sul, que culmina na chamada Coluna Prestes. Aqui retirei só os trechos que descrevem o Natal nas estâncias, durantes este período.

Em: Diário de Cecília de Assis Brasil, período de 1916-1928, Porto Alegre, LP&M: 1983





Bicicletas e independência — um trunfo para as mulheres

18 11 2012


A casa das bicicletas no Bois de Boulougne, 1897-1900

Jean-Georges Béraud (França,1849-1936)

óleo sobre tela

Musée de l’ïle-de-France – Sceaux

Quando usamos as bicicletas raramente pensamos no papel importante que elas tiveram para a emancipação feminina. Fui lembrada desse fenômeno quando li, alguns dias atrás, o artigo na publicação da Universidade da Virginia,  sobre estudos americanos: Xroads . Não se sabe ao certo a data da invenção da bicicleta; foi consequência natural de diversos experimentos com quadriciclos e triciclos que apareceram no início do século XIX.  Só na última década do século, a bicicleta se tornou popular e de uma maneira inesperada alavancou o movimento pelos direitos da mulher.

Anúncio francês, 1900.

A popularidade levou não só homens, mas muitas mulheres às aventuras do ciclismo, que dava uma grande liberdade de movimento. Era a  habilidade das mulheres de se movimentarem por si mesmas, para novos lugares, novos espaços, sem a necessidade de acompanhantes.  Essa autonomia assertiva trouxe como consequência um desequilíbrio nos papéis sociais.  Até então, homens e mulheres tinham papeis circunscritos, rígidos. Mas as barreiras impostas a elas estavam caindo e os homens passaram a fortalecer o estereótipo de portadores de bravura e força.  Como o ciclismo aparecia no horizonte como uma atividade física era natural que fosse adotado pelos homens como parte da constelação de esportes das quais faziam parte o futebol, baseball (nos Estados Unidos) e o críquete na Inglaterra, todos dominados pelo sexo masculino.

Cartão postal anunciando novas bicicletas, Boston, EUA.

“Máquina da liberdade” [freedom machine] foi como Susan B. Anthony, a feminista americana que lutou pelos direitos da mulher, denominou a bicicleta. E dela é também , uma conhecida citação: a bicicleta, “fez mais pela emancipação da mulher do que qualquer outra coisa no mundo”.  Inicialmente adotada pelas elites, logo os modelos de bicicletas apresentaram mais conforto, sendo adotadas pela classe média em geral na América do Norte e na Europa, em meados da década de 1890.  Já na primeira década do século XX a bicicleta havia conquistado seu lugar como meio de transporte e também como forma de recreação. Clubes de ciclismo apareceram em todas as grandes cidades.

Mas antes dessa popularidade, não foram poucos os gritos de imoralidade, quando uma mulher andava de bicicleta. O que mais causava revolta nos homens era a adquirida habilidade de movimento para sexo feminino.  Ajudadas pela produção em massa desse meio de transporte, que cada vez mais se mostrava seguro e prático as mulheres e a classe trabalhadora, ela não se privaram da liberdade adquirida e transformaram a bicicleta no símbolo da Nova Mulher.  Essa Nova Mulher se desvencilhou  das roupas restritivas de movimentos, do espartilho e das saias até o tornozelo, substituindo-as por calças. Bem comportadas, largas nos quadris, apertadas no joelho ou do joelho para baixo, mas calças; chamadas de roupas para ciclismo.  Mesmo assim não foi fácil para mulheres andarem de bicicleta vestidas desta forma.  Muitas foram ridicularizadas, multadas, até mesmo tratadas como mulheres vulgares, sem escrúpulos, como lembra muito bem o artigo.

Cartão postal, c. 1895.

Apesar disso, as mulheres modernas, essas Novas Mulheres, não se deixaram vencer e enfrentaram os preconceitos.  Elas viam o poder que as duas rodas lhes davam e previam um futuro mais equilibrado.  Sabiam que eram vistas como um desafio aos preceitos da época que tratavam as mulheres como seres inferiores.  Não foram poucos os homens que proclamaram que as bicicletas eram uma ameaça à ordem social e à estrutura familiar porque permitiam às mulheres viajar para mais longe do que estavam acostumadas, sem serem vigiadas por seus maridos, irmãos, pais, pelos homens que conheciam os perigos a que elas se expunham. Além, é claro, de permitir que uma jovem pudesse estar na companhia de companhia masculina sem alguém que a acompanhasse.

Em seguida, a lista do que fazer e não fazer na bicicletas.  Texto de 1895 do New York World foi sindicalizado e a foto abaixo mostra o texto no jornal de Chicago.  A lista e o artigo em que me baseio saíram no Brainpickings.  Traduzi um grande número das regras mas houve umas três delas que têm expressões de época não encontradas nos meus dicionários.  Divirtam-se.

——–

Não se amedronte.

Não desmaie na rua.

Não use um chapéu de homem.

Não use ligas apertadas.

Não se esqueça da bolsa de ferramentas.

Não se deixe levar sem tração é perigoso.

Não se vanglorie de longas viagens.

Não critique as “pernas” dos outros

Não use meias que chamem atenção.

Não recuse assistência quando subindo uma colina.

Não use roupas que não caibam bem em você.

Não use joias enquanto estiver na bicicleta.

Não entre em corridas.

Não use botas com cadarço.

Não imagine que todos estão a observando.

Não vá à igreja vestindo roupas de ciclismo.

Não use o chapéu de festa ao ar livre com suas calças.

Não conteste o fato de que bondes têm preferência.

Não coma goma de mascar.  Exercite suas mandíbulas em casa.

Não use luvas brancas de couro.  Seda é o costume.

Não pergunte, “O que você acha das minhas calças?”

Não use gíria de bicicleta, deixe isso para os rapazes.

Não saia à noite sem a companhia masculina.

Não saia sem agulha, linha e dedal.

Não tente combinar todos os itens de sua vestimenta.

Não deixe seus cabelo louro aparecer nas costas.

Não permita que o lindo cachorrinho a acompanhe.

Não acenda um fósforo no assento de suas calças.

Não converse sobre as calças com os homens que conhece.

Não apareça em public até que você saiba andar bem de bicicleta.

Não se canse, deixe que o ciclismo seja uma recreação e não um trabalho.

Não ignore as leis do trânsito porque você é uma mulher.

Não tente usar as roupas de seu irmão para saber como elas vestem.

Não grite se você der de cara com uma vaca. Se ela a vir primeiro, ela saira do caminho.

Não use tudo que é moderno porque você pode dirigir uma bicicleta.

Não imite a atitude de seu irmão se ele balança a bicicleta paralela ao chão.

Não tente um passeio longo se você não está confiante de que pode fazê-lo com facilidade.

Não dê a aparência de que você está procurando um recorde ou quebrar um recorde. Isso é competição.

Para mais informações visite o portal do Brainpickings, link acima.





As voltas que a vida dá

9 11 2012

Publicado no jornal O GLOBO, 9 de novembro de 2012.

Por que o ensino de história é tão  enjoado para a maioria das crianças e dos adolescentes?  Foi para mim.  Minhas melhores matérias no Colégio Pedro II foram línguas, biologia, química e física.  Cheguei a pensar em fazer medicina.  Mas alguma coisa, inconsciente ainda, me levou a abandonar essa ideia, cursar um ano de vestibular para aprender latim e entrar para a faculdade de letras.

Só mais tarde, quando descobri a história da arte e saí do Brasil para me formar exclusivamente em história da arte, vim a gostar de história. Hoje leio livros de história, secos e documentados, com páginas e páginas de notas de rodapé com um prazer indescritível, como se fossem romances, ainda que meu treino como historiadora da arte, como é feito fora do Brasil, não tenha sido em História, mas sim em Arte.

Gostei muito dos gregos e romanos quando tinha uns doze ou treze anos.  Até então grande parte do meu conhecimento de história tinha suas raízes em Monteiro Lobato, do volume História do Mundo para Crianças, que fazia parte da coleção de Monteiro Lobato, que meus pais haviam nos dado, a mim e a meus irmãos. Mas depois dessas duas fases a história me perdeu.  Naquela época punha-se muito esforço em datas e muito pouco em documentação.   Fiquei impressionada, quando já quase entrando para a faculdade, fui apresentada ao texto completo da Carta de Caminha.  Por que não a conhecera antes?

Só muitos anos depois, descobri que documentos primários como a Carta de Caminha seriam uma das minhas grandes paixões. E assim quase perdi a oportunidade de me dedicar ao conhecimento do passado que se tornou parte das minhas profissões e que me deu tanto prazer.  Quantos mais historiadores perdemos no caminho por não sabermos como atrair a atenção de nossos alunos?

Espero que hoje com as possibilidades multimídia isso tenha se resolvido para melhor.  Sim, tenho esperanças, porque o aluno que não é atraído por um texto pode ser por um filme, ou uma música ou uma pintura.  Espero, porque acredito na antiga profecia de Edmund Burke, filósofo e político irlandês:  “Quem não conhece a sua história tem por destino repeti-la“.  Tenho esperanças de que este augúrio não nos aflija!