A obra de ficção mais antiga do mundo!!!

14 11 2013

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Estandarte de UR, 2600 a.C.  [DETALHE]

Concha, calcário, lápis-lázuli e betume

Cemitério Real,Tumba Real, provavelmente do rei Ur-Pabilsag, Iraque.

Museu Britânico,Londres.

Você sabia que a história de ficção mais antiga que conhecemos  vem da Mesopotâmia? Pois os Sumérios, que ocupavam o vale entre os rios Tigre e Eufrates, uma região de solo muito fértil que hoje faz parte do estado do Iraque, foram os primeiros a desenvolver a escrita – escrita cuneiforme – por isso mesmo são os autores da primeira história de ficção, que se conhece.  A versão mais antiga que temos dessa obra é de 18 séculos antes da Era Comum [século XVIII a. C.]. Essa obra em versos, chama-se em português A epopéia de Gilgamesh, e conta a história de Gilgamesh e companheiro de aventuras Enkidu. Quando Enkidu morre, Gilgamesh se vê questionando a morte e sai à procura da vida eterna. Acredita-se que essa obra seja o resultado da compilação de diversos poemas e lendas tradicionais do povo sumério, contadas de uma forma poética. É aqui que aparece a primeira referência, anterior à da Bíblia, do Dilúvio Universal.

Há diversas traduções dessa obra para o português e também algumas versões para o público infantil.

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Gravuras de Redouté: herança de Josefina de Beauharnais

12 11 2013

Josephine bonaparte, firmin massot, ostJosephine de Beauharnais, 1812

Firmin Massot (França, 1766-1849)

óleo sobre tela, 32 x 28 cm

Coleção Particular

Josefina de Beauharnais teve só dez anos para deixar uma bela herança cultural para as gerações futuras.  Durante os seis anos em que foi Imperatriz da França adquiriu, renovou e cuidou do Castelo de Malmaison, no meio de um imenso parque em Paris.  Lá plantou uma grande variedade de plantas exóticas, que o marido mandava dos lugares que conquistava. Josefina continuou residindo em Malmaison e cuidando dos jardins, mesmo depois do divórcio.  Conseguiu manter o parque com todas as plantas exóticas até sua morte quatro anos mais tarde.  De todas as plantas que cultivava a ex-esposa de Napoleão Bonaparte preferia as rosas. E não só se dedicava a cultivá-las como a desenvolver novos exemplares.

Redoute_-_Rosa_gallica_flore_giganteo_brighter-1000pxRosa Gallica flore giganteo

Redoute - Rose TricoloreRosa Tricolore

Redoute --  Rosa BengaleRosa Bengale Thé Hyménée

Em 1798 Josefina de Beauharnais se tornou patrocinadora do pintor Pierre-Joseph Redouté, que havia sido pintor da corte de Maria Antonieta.  Redouté era não só um excelente aquarelista mas também um botânico.  Foram sua competência e arte as qualidades que o levaram a sobreviver o período de turbulência na França durante a Revolução Francesa e também ao Reino do Terror, para então, ser reconhecido também pela imperatriz Josefina.

Rosa_sulfurea_1000pxRosa Sulfurea

Rosa_Damascena_Celsiana_1000pxRosa Damascena Celsiana

Redoute_-_Rosa_gallica_purpuro-violacea_magnaRosa gallica purpuro violacea magna

Redouté, nascido na Bélgica, havia aprendido a arte da pintura em casa:  seu pai e avô haviam sido pintores também.  Uma vez em Paris, começou a trabalhar com o irmão na decoração de interiores, mas a carreira como ilustrador botânico acabou o seduzindo quando, em 1786, foi orientado pelo botânico Charles Louis L’Héritier de Brutelle e René Desfontaines, encantados com suas aquarelas, a se dedicar a este ramo emergente que combinava a arte com a ciência.

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Rosa noisettiana

Redoute - rosa-lumila-pierre-joseph-redouteRosa lumila

Rosa_alba_Regalis_1000pxRosa alba regalis

Foi durante o patrocínio da imperatriz Josefina que Redouté pintou algumas  das mais belas aquarelas de plantas e flores exóticas.  E depois da morte de sua patrocinadora, Redouté publicou diversos livros de gravuras baseados em suas aquarelas.  A precisão dos detalhes que retratava na pintura, a delicadeza e quase transparência das pétalas desenhadas com cuidado, o colorido muitas vezes em degradé na mesma pétala, tudo contribuiu para que suas gravuras fossem apreciadas até os dias de hoje. Elas são também preciosos documentos de algumas plantas que hoje se tornaram raras.  Redouté morreu em 1840.  Juntos Josefina de Beauharnais e Redouté deixaram uma grande contribuição para as gerações futuras.  Ela, por ter-se dedicado ao desenvolvimento e plantio de plantas exóticas. Ele por tê-las documentado com suas aquarelas e distribuído seu conhecimento com suas gravuras. Hoje Malmaison é a sede do Senado francês e seus jardins são uma pequena percentagem daqueles tratados por Josefina.

Pierre-Joseph_Redouté_-_Rosa_Bifera_Macrocarpa_-_WGA19030Rosa bífera macrocarpa

Redoute_-_Rosa_gallica_pontiana-1000pxRosa gallica pontiana

Rosa_indica_fragrans_1000px RedoutéRosa indica fragrans

Redoute_-_Rosa_centifolia_foliacea-1000pxRosa centifolia foliace





Curiosidade do dia a dia

7 11 2013

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Estela funerária de Thrasea e Euandria, 375-350 aC

Mármore

Museu da Antiguidade [Antikensammlung], Berlim

Quando você vê um amigo na rua e dá aquele aperto de mão gostoso, você está repetindo um gesto muito antigo, de mais de 2500 anos. O aperto de mão já era praticado pelo menos desde o século V aC. Provavelmente surgiu como um gesto de paz onde se mostrava que a mão não trazia nenhuma arma.





Os hábitos de antigamente

29 10 2013

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Menino com ganso, século II da EC [Era Comum]

Mármore, cópia romana de bronze grego do sec III AEC.

Turquia

Há poucos dias postei uma poesia da Baronesa de Mamanguape, senhora conhecida pelos saraus de música e poesia no Rio de Janeiro do final do século XIX.  Aproveitei para divulgar  sua biografia numa pequeníssima nota vinda do Dicionário crítico de escritoras brasileiras 1711-2001.  [Nelly Novaes Coelho, São Paulo, Editora Escrituras: 2002.]  Mas me surpreendi ao ver que a Sra. Baronesa havia se casado aos 13 anos.  Hoje consideramos 13 anos uma idade de formação e não olhamos com bons olhos a família que permite o casamento de uma criança…  Só porque o hábito de casar a jovem menina na época de sua maturidade física é antigo, não quer dizer que está certo. É para isso que evoluímos e que descobrimos o melhor momento, tanto físico quanto emocional, para um casamento. E vemos como quase barbárie culturas que,  ainda hoje,  permitem e aprovam esse comportamento, justificado para que o marido tenha certeza da inexperiência sexual da menina em questão.

Como um dos meus passatempos é ler sobre a civilização romana, lembrei-me que na Roma antiga também se casava meninas aos 13 ou 14 anos, quando nem bem tinham deixado os brinquedos de lado. Sim, as crianças romanas, como as de hoje, brincavam bastante.  As meninas tinham bonecas, muitas delas até com membros articulados. Apesar de Roma ter sido uma grande civilização da qual herdamos muitos dos nossos valores, das nossas casas, dos nossos hábitos de higiene, das nossas cidades, não gostaríamos, tenho certeza, de repetir as experiências de uma jovem romana, digamos do século I da Era Comum. Era uma vida muito difícil.  A mulher, e consequentemente a mãe, era menos importante que o pai. Este por sua vez tinha o poder de vida ou morte sobre qualquer membro da família. Quando um bebê nascia era colocado aos pés do pai.  Se este pegasse o bebê no colo, o bebê tinha a permissão implícita de viver. Mas se fosse ignorado pelo pai, não teria a sorte de continuar vivendo.

Às mulheres cabia a organização do lar, as refeições eram feitas por elas ou a seu encargo se a família tivesse meios financeiros de manter um escravo. Elas também eram responsáveis pela educação das crianças.  Muitos casamentos aconteciam quando as meninas faziam 14 anos e eram arranjados pela família de acordo com o melhor  ajuste financeiro ou político para os pais. O amar, o gostar, a escolha da jovem, nada disso era levado em consideração.  E ainda,  os homens podiam se divorciar de uma mulher se esta não lhes desse pelo menos um filho homem. Muitas mulheres morriam jovens também (às vezes antes dos 30 anos) muitas vezes porque dar a luz a um bebê poderia ser uma atividade perigosa, nem sempre havia meios de se assistir a um parto com complicações e morriam mãe e bebê.  Doenças também eram mais comuns do que hoje. 

Não acho que não trocaríamos a vida de hoje pela de ontem.  Ainda bem que aprendemos com as lições do passado.  Essa é uma boa razão para estudarmos a história.





Banidos: uma dívida a reparar com a nossa história

24 10 2013

Moshe Maimon (1860–1924), Marranos, 1893Marranos, 1893

Moshe Maimon (Rússia, 1860-1924)

Abro espaço nas minhas estantes e estou feliz por arranjar uma casa “do bem” para o livro de Geraldo Pieroni, “Banidos: a inquisição e a lista dos cristãos-novos condenados a viver no Brasil”.  Não é um romance. Conta com um ótimo ensaio de apresentação do autor, historiador e com uma pesquisa impressionante revelando uma lista detalhada das pessoas que sofreram durante a Inquisição em Portugal e foram condenadas a viver no Brasil.

Uma grande ironia: a primeira vez que ouvi falar de Inquisição no Brasil foi em uma visita ao Peru, no Museu da Inquisição em Lima.  Foi lá que soube que nós também tínhamos nos dedicado à prática, não só no século XVI, mas nos seguintes até o início do século XIX.  Por que eu não me lembrava de ter estudado essa questão na escola, muito antes de entrar para a faculdade?  Daí por diante, me interessei, quase como um passatempo, pelo assunto de judeus e cristãos judeizantes no Brasil.

banidos

Foi assim que cheguei ao livro acima. Comprei-o na época da publicação, em 2003.  Depois, mudando de residência,  quando me desfiz de uma boa parte dos livros que acumulara, não consegui me desligar de Banidos.  É simples, a lista das pessoas condenadas e banidas é extensa.  E a cada leitura de uns poucos nomes, imagino as vidas que esses condenados levaram depois de chegados ao Brasil.  Sou  tomada de grande respeito por essas vítimas. A imaginação rola e o coração se comprime percebendo a inutilidade de tanto sacrifício. Exemplos:

Nome: Brites Gomes

Inquisição e número do processo: Coimbra — 422

Naturalidade: Vila Real (arcebispado Braga)

Idade: 28

Filiação: Diogo Gomes e Maria Lopes

Moradia: Vila Real

Estado civil: Solteira

Profissão: o pai era mercador

Crime/Acusação: judaísmo

Prisão: 21-04-1642

Sentença: confisco dos bens, cárcere e hábito penitencial perpétuo sem remissão, degredo de cinco anos no Brasil, penas espirituais.

Auto-da-fé: 15-11-1643

                                                                             [p.149]

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Nome: Luísa Fernandes

Inquisição e número do processo: Coimbra — 6.066

Naturalidade: Trancoso (bispado Miranda)

Idade: 70

Filiação: Luís Fernandes e Isabel Fernandes

Moradia: Trancoso

Estado civil: viúva de João Rodrigues

Profissão: o pai era sapateiro, e o marido, oficial de chocalhos.

Crime/Acusação: judaísmo (¼ cristã nova)

Prisão: 21-02-1667

Sentença: confisco dos bens, cárcere e hábito penitencial perpétuo, degredo de três anos no Brasil

Auto-da-fé: 26-05-1669

                                                                                    [p.141]

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Emanuel_de_Witte_-_Interieur_van_de_Portugese_synagoge_te_AmsterdamInterior da sinagoga portuguesa em Amsterdã, c.1680

Emanuel de Witte (1617-1692)

óleo sobre tela, 110 x 99 cm

Rijksmuseum, Amsterdã

Pergunto-me qual o futuro que uma jovem de 28 anos, solteira, teria depois de passar mais de um ano na cadeia [veja as datas da prisão e do auto-da-fé] e desembarcar no Brasil, após uma viagem de navio que muitas vezes deixava seus passageiros doentes?  Que faria Brites Gomes  aqui depois de ser entregue como um pacote valioso às autoridades locais? Dinheiro não tinha, seus bens já haviam sido confiscados.  Entregue a quem?  Bonita? Pior ainda… e fica aquela sensação de dor por alguém que não conheci, mas que sei imaginar.  E não é belo, nem justo, o que se desenrola na minha imaginação.

A mesma pergunta faço sobre Luisa Fernandes de 70 anos.  70 anos!  No século XVII era muito mais difícil chegar-se a essa idade. Hoje temos mais recursos.  Que mal poderia esta mulher fazer no futuro que já não houvesse feito na sua vida inteira em Portugal?  Terá chegado ao Brasil viva?  Teria se transformado em pedinte?  Teria morrido de fome? O que uma mulher aos 70 anos poderia fazer para ganhar o seu sustento?  Sim, sei que a história está cheia de injustiças como essas, mas a maioria das vezes elas não têm nome, sobrenome, profissão, estado civil, cidade de nascimento, de moradia, nem nome dos pais.  Aqui, por esses detalhes, passamos a entender um indivíduo em três dimensões. É fácil, então, tomar suas dores, imaginar os seus sorrisos, as mãos, os calos do trabalho árduo, o cheiro das comidas que preparavam.

É por causa dessa imaginação que me tornei ciumenta do livro.  Como se as vidas ali citadas, poucas em relação ao número de aportados ao Brasil nos séculos de colônia, me dissessem “não me esqueça…  faço parte da sua história”.

Dutch Portuguese Sephardim in their sukkah. By French engraver Bernard Picart (1723)Sefardins, judeus portugueses na Holanda em uma sukkah.  Gravura de Bernard Picart, 1723.

Mas os perseguidos pela Inquisição não eram só aqueles habitantes de Portugal que acabavam em alguns casos degredados para o Brasil.  Aqui também a Inquisição perseguiu habitantes da colônia por práticas judeizantes, mandando-os para Angola.  E muitas vezes família inteiras se viram prejudicadas, despedaçadas.

“O encarceramento de um único membro da família era suficiente para destruir todo o clã, como foi o caso dos Lucenas e Paredes, famílias tradicionais de cristãos-novos, proprietários de engenhos de açúcar no Rio de Janeiro. Em Lisboa, no auto-da-fé do dia 27 de março de 1727, foram condenadas oito pessoas, entre as quais vários Lucenas/Paredes: Sebastião de Lucena, 19 anos, solteiro; Maria da Silva, Diogo da Silva e Esperança de Azevedo, todos filhos de Bento Lucena. Os quatro filhos de Manuel de Paredes, também ele senhor-de-engenho de Jacarepaguá, distrito  do Rio de Janeiro, foram condenados nesse mesmo dia; Manuel, 23 anos; Ignês, 24 anos; Maria, 27 anos; Luís, 28 anos. Todos foram condenados a cinco anos de degredo em Angola”. [pp. 95-96]

Como explica Geraldo Pieroni este é um assunto incômodo tanto para portugueses quanto para brasileiros.  Mas a história é feita desses momentos e conhecê-los certamente nos ajuda a não repetir tamanha idiotice.  Precisamos de muito maior divulgação desses fatos que acontecem por mais de 300 anos da nossa história.

Sim, achei uma boa residência para o livro que agora irá iluminar e fertilizar outras e quem sabe mais atuantes imaginações do que a  minha.





Curiosidade sobre a China

15 10 2013

chines L--Kristoff-Petite-pluie-au-palais-des-r-ves-47289Um chuvisco no palácio dos sonhos, ilustração de L. Kristoff.

A palavra China, que descreve o país do Extremo Oriente, provavelmente deriva do nome de uma dinastia, a dinastia Qin, cuja pronúncia seria “chin”.  O primeiro imperador dessa dinastia foi  Qin Shi Huang (260-210 a.C.).  Foi durante esta dinastia que a China foi unificada pela primeira vez em 221 a.C. e foi aí que começou o período imperial chinês que durou até o ano 1912 da nossa era; ou 2100 anos.





Curiosidade sobre as crianças da antiga Grécia

8 10 2013

Boy-playing-yo-yo.-Tondo-of-an-Attic-red-figure-kylix-ca.-440-BC.Menino jogando io-io, 400 a. C.

Cílice de Figura Vermelha, Ática

Museu Altes, Berlim

As crianças da Grécia antiga brincavam com muitos brinquedos que conhecemos até hoje: chocalhos, pequenos animais de cerâmica, cavalinhos sobre rodas puxados por um barbante, bonecas e io-ios como vemos no vaso acima.





Quem tem “Medo de voar” com Erica Jong no dias de hoje?

6 10 2013

CRI_151186Aniversário, 1915

Marc Chagall (Rússia, 1887– França1985)

óleo sobre papelão , 81 x 100 cm

MOMA, Nova York

Foi com assombro que me lembrei hoje do livro de Erica Jong Fear of Flying [Medo de Voar — nos dias de hoje publicado no Brasil em formato bolso]. NPR [National Public Radio] nos Estados Unidos comemorou os quarenta anos da publicação desse livro que se tornou, quase imediatamente após sua publicação, um marco no movimento pela igualdade de direitos das mulheres.  Minha leitura desse romance, onde a heroína se dá ao direito de querer e gostar de ter uma vida sexual ativa, foi um tempinho depois da publicação. Eu estava na faculdade, nos Estados Unidos, quando o li e mesmo assim foi um livro de grande impacto.  Não era, nem pretendia ser, uma obra  de grande valor literário.  Mas foi marcante. Na época, eu morava em Baltimore e viajava todos os dias, ida e volta, de trem para College Park,  mais ou menos uma hora de viagem entre as cidades, para estudar na Universidade de Maryland.  Lembro-me de ler este livro nessas longas viagens de trem; e de que, encabulada com o realismo das cenas retratadas, encapei o volume com papel de presente, para não alardear o que eu lia.  A mente era pudica, mesmo que eu já fosse casada.  Na época eu era membro da NOW (National Organization for Women], totalmente engajada,  defendendo, o que considerava ser uma das maiores injustiças no mundo, um dos direitos femininos mais básicos, ainda não completamente satisfeito: a igualdade de salários entre os que fazem o mesmo trabalho.  Nunca voltei a ler Medo de voar.  Já sugeri sua leitura a algumas amigas. Tenho certeza de que se o relesse hoje perderia sua mágica, porque para tudo há o momento certo e revisitar o passado em geral desaponta.  Mas não podia deixar de marcar essa passagem assim como a própria NPR não pode deixar de fazê-lo.  É o retrato de uma época, de uma preocupação.  Um momento da história cultural.





Girassóis de Van Gogh redescobertos

19 09 2013

Van Gogh: Six Sunflowers, 1888, oil on canvas.

Girassóis, 1888

Vincent van Gogh (Holanda,1853-1890)

Sabia-se que Van Gogh havia originalmente pintado algumas telas diferentes com girassóis.  Isso, no verão, em agosto de 1888.  Seu objetivo era decorar o quarto de Gauguin. Mas dois desses quadros desapareceram. Um desapareceu na Segunda Guerra Mundial, no Japão.  E o outro?  Onde estaria?  A questão se torna ainda  mais interessante quando se leva em consideração a grande popularidade que têm os girassóis de  Van Gogh nos museus de Munique  e  de Londres. Eles estão entre os favoritos do público em geral. Há outras cópias de girassóis feitas pelo próprio van Gogh em outros museus. Mas o que acontecera com aquele outro? Onde estaria?

O livro de Martin Bailey, um dos grandes conhecedores da obra de van Gogh, autor de  The Sunflowers are mine, que acaba de ser publicado, explica o destino de cada um desses quadros e descobre o proprietário, o colecionador particular, que tem em seu poder o quadro “perdido” de van Gogh.  Já encomendei o meu volume.  Querendo mais informações veja o artigo no jornal The Guardian, do dia 4 de setembro.





O início da 2ª Guerra por Marques Rebelo

13 09 2013

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[1940]

30 de agosto

Os ataques aéreos contra a Inglaterra, que haviam se reintensificado em grande escala, após aliviante atenuamento, cessaram subitamente. Há dois dias que as sirenes londrinas não lançam seu estertor, há dois dias que o sono pode ser usufruído pela heróica população. Que poderá haver sob esta trégua? É exaustão ou armadilha? Mas os ingleses, como bons buldogues, é que perseveram na contracarga e Berlim foi bombardeada pesadamente durante três horas. Pela primeira vez – diz o rádio-jornal – a capital germana sentiu em toda a sua plenitude os horrores da guerra moderna.

31 de agosto

Esta guerra não é um assunto como a de 1914. E o jogo do nosso destino – o mundo tornou-se uma coisa só, coisa que precisa ser liberada e expurgada. Enchendo-nos de receio ou de esperança, de fervor ou desespero, pelo jornal, pelo rádio, pelo cinema, acompanhamos a sua marcha com a alma em riste. Se como na outra decoramos, rápidos, a sua nomenclatura e a sua terminologia, ganham elas nesta um significado transcendental, e é com a meticulosidade duma observação clínica que traçamos cada dia, cada hora, cada minuto, em permanente sofrimento e incerteza, o gráfico do seu desenrolar, pois que o seu desenlace nos atingirá de forma decisiva. É como se observássemos a evolução da nossa própria enfermidade. Anotamos os acessos e as astenias, os focos de resistência ou de depauperamento, discutimos cada sintoma, cada erupção, cada infrutífero medicamento. Armamos idealmente os planos duma eficaz terapêutica. Que importa o que tenha sido a Inglaterra se hoje encarna para nós o anticorpo que poderá nos salvar da infecção?

1º de setembro

Hoje completamos um ano de guerra, aniversário que ninguém ousará comemorar com bolo de velinhas. Os alemães mantém quase todo o continente europeu nas suas unhas, dominam toda costa que vai do cabo Norte ao golfo de Biscaia, além do qual se encontra a companheira das castanholas e zarzuelas, envolta na sua mantilha milico-clerical e renovando, como guerra de nervos, a campanha em prol de um ataque a Gibraltar. Hitler fez em dez anos o que Filipe de Espanha, e mais tarde Napoleão, não conseguiram realizar após largos anos de campanhas bélicas e diplomáticas. Já é alguma coisa – e de assustador!

No Mediterrâneo e na África, a Itália pode atacar os trigais do Egito e os terrenos petrolíferos do litoral da Palestina. Portugal não é só um Jardim da Europa à beira-mar plantado, é um eficiente consulado nazista também. No Extremo Oriente, o Japão pode ameaçar  Hong-Kong e Singapura, ou as colônias francesas e holandesas. Cá na América do Sul, a Argentina vende a sua carne para quem puder pagar,mas tende simpaticamente ao Eixo.

Amigos, o panorama é negro, mas a Inglaterra esperneia e os Estados Unidos estão de olho, certa será sua participação na luta se as coisas se agravarem, conquanto seja necessário primeiramente vencer as correntes isolacionistas que os republicanos tanto defendem, mais comerciantes do que cegos.

E aqui, seu moço?”

Em: A mudança, Marques Rebelo, 2º volume de O Espelho Partido, São Paulo, Martins: 1962, pp, 313-314.