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Caixa, guarda-joias, com guerreiros e dançarinos, séc. XI
Período Bizantino, provavelmente feita em Constantinopla
osso, cobre com banho de prata, 20 x 29 x 19 cm
Museu Metropolitan, Nova York
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Caixa, guarda-joias, com guerreiros e dançarinos, séc. XI
Período Bizantino, provavelmente feita em Constantinopla
osso, cobre com banho de prata, 20 x 29 x 19 cm
Museu Metropolitan, Nova York
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Foto: Cahn Auktionen AGColar com pendente de cabeça de carneiro, século V, aEC.
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Colar com pendente de carneiro composto por contas em forma de pinhões e abobrinhas dependurados alternadamente. Em ouro. A cabeça do carneiro fica no centro. Foi a leilão em 2013 na Suíça.
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São Luís rumo à Tunísia, em sua segunda cruzada, depois de 1332, antes de 1350.
Mahiet, Mestre do Missal de Cambrai
Cambrai, Bibliothèque municipale ms. no. 224
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Há pessoas que nos influenciam apesar de nunca as termos visto ou encontrado. Devo muito a Jacques Le Goff, o grande historiador que faleceu dia 1º aos noventa anos, em seu país de origem, França. Não, ele não sabia da minha existência. Nunca trocamos uma palavra em carta, email, telefone. Ao que eu saiba não temos amigos em comum. Mas seus livros fizeram parte da minha vida, uma grande parte da minha vida.
Não fui uma criança prodígio. Não descobri em tenra idade aquela habilidade que outros dissessem, “vá estudar história da arte … Você tem sensibilidade nata para o assunto“. Pelo contrário, cheguei aqui por caminhos tortos, becos sem saída, pela constante reinvenção e redirecionamento dos meus objetivos. Quem hoje examinasse os meus boletins dos anos de adolescência descobriria que minhas notas em história não eram boas. Ninguém poderia imaginar que este seria o caminho a ser traçado no futuro. Não. O oposto parecia apontar no horizonte. Pensei seriamente em fazer medicina, isso depois de pensar em ser astrônoma e engenheira naval. O curso de letras que foi a entrada para as ciências humanas, não havia sido minha primeira escolha. E a história da arte aconteceu de surpresa, caminho conduzido em parte por uma excelente professora de literatura, na Universidade Federal Fluminense, que ao ensinar Balzac trouxe para a sala de aula imagens de quadros franceses da época. Ideias trocadas, informações sobre pintores e descobri que havia a tal história da arte. Que influência bons professores exercem sobre seus alunos!
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Inicial iluminada, Boécio ensinando a seus alunos, 1325
Manuscrito: Consolação da filosofia, Itália (?)
MS Hunter 374 (V.1.11), Glasgow University Library
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Há mais de uma maneira de se ensinar. Minha paixão pela história só se acendeu, através de dois grandes historiadores cujos livros, lidos paulatinamente, parágrafo a parágrafo, incendiaram minha imaginação e me acompanharam desde então a qualquer hora, em qualquer momento: Arnold J. Toynbee e Jacques Le Goff. Toynbee já havia morrido quando fui apresentada ao seu trabalho. Um bom escritor vive para sempre através de seus leitores, e sua prosa era de fácil entendimento. Apaixonante sua visão da imensa continuidade da história, para não falar de sua erudição. Jacques Le Goff foi o outro historiador que marcou a minha formação principalmente aquela formação pós-universitária, quando temos a liberdade de ir atrás dos pequenos detalhes que nos deixam curiosos, sem a preocupação de preencher um currículo ou uma determinada etapa da vida. Jacques Le Goff foi aquele historiador de quem eu esperava as novas publicações com ansiedade. Foi ele quem fez a história europeia pós-império romano viva para mim. Concentrando-se no homem comum ele coloriu o mundo pré-renascentista de tal maneira e com tanta precisão que podemos nele ver as raízes de muito das nossas vidas diárias hoje. Não sou medievalista. Minha porção de especialização formal é a era moderna europeia: 1860-1945. Pelo menos foi assim que deixei os bancos universitários. Mas a cada nova contribuição de Le Goff e de todos aqueles que ele formou mais me virei para a Europa medieval, esses grandes e sedutores séculos. Séculos que parecem cantos de sereia nos levando a profundezas enigmáticas. Mesmerizantes. É portanto com muito pesar que recebo a noticia de que não poderemos mais contar com suas brilhantes publicações. Registro então o vazio que sinto pelo que não virá, e o agradecimento pela riqueza do que ele nos deu.
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Chansonnier de Jean de Montchenu, década de 1470
Também conhecido como Chansonnier Cordiforme (em formato de coração)
[Paris, Biblioteca Nacional, Ms. Rothchild, 2973]
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Há mais ou menos um mês, através de uma aluna, descobri alguns manuscritos em forma de coração. Foram novidade para mim, mas diga-se não sou medievalista. Tudo indica que não são muitos. Dentre eles, talvez o mais divulgado seja o Chansonnier de Jean de Montchenu (Cancioneiro de Jean de Montchenu) que recebeu recentemente uma edição maravilhosa em fac-símile. Esse manuscrito foi encomendado na França, em Savoy [Saboia] entre 1460 e 1477. Encomenda feita por Jean, cânone de Montchenu — daí sua designação — que mais tarde, em 1477, se tornou Bispo de Agen e Bispo de Vivier (1478-1497). O cancioneiro é composto por 43 músicas. Entre elas há obras de Guillaume Dufay (Du Fay, Du Fayt) nascido em 5 de agosto, acredita-se que de 1397 e falecido a 27 de novembro de 1474.
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Dufay, retratado aqui à esquerda e Gilles de Binchois à direita no manuscrito em Martin le Franc, “Champion des Dames”, Arras 1451.–
Dufay foi um dos compositores dos Países Baixos mais conhecidos na época do Renascimento, figura central na Escola da Borgonha, onde desempenhou o papel mais famoso e influente na Europa em meados do século XV. Sua música foi copiada, distribuída e cantada em todos os lugares que a polifonia tinha criado raízes. Quase todos os compositores das gerações seguintes absorveram alguns elementos do seu estilo. A ampla distribuição de sua música é ainda mais impressionante, considerando que morreu décadas antes a disponibilidade de impressão de música. Ou seja, suas músicas tinham que ser copiadas à mão.
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Chansonnier de Jean de Montchenu, década de 1470
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Há também algumas cantigas de Gilles de Binche, contemporâneo de Dufay, nascido por volta do ano 1400, tendo falecido em 1460 e que foi também um compositor muito influente. Suas músicas apareceram em cópias décadas após sua morte, e muitas vezes foram usados como fontes para a composição de Missas por compositores posteriores. Sua música é simples e clara. Empregado pelo Duque de Borgonha, Binchois (como era também chamado) escreveu todo tipo de música: as canções seculares de amor além das músicas sacras que atenderam as expectativas e satisfizeram o gosto de seu patrão. Outros compositores como Ockeghem , Busnoys também têm composições incluídas nesse manuscrito único.
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Chansonnier de Jean de Montchenu, década de 1470
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O livro fechado tem a forma de um coração, aberto parece uma borboleta formada por dois corações. Os românticos veem nisso dois corações amantes. As canções são em francês e italiano e escritas para diferentes vozes. Quando a palavra coração aparece no texto ela é representada por um imagem de um coração delicado.
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Página do Manuscrito de Montchenu, em que a palavra coeur [coração] aparece substituída pela imagem de um coração.–
Duas ilustrações de página inteira aparecem no códice. Na primeira, um Cupido atira flechas contra uma jovem, enquanto ao seu lado Fortuna gira sua roda. No outro, dois amantes se aproximam um do outro com amor. em todo o manuscrito, os pentagramas, música e poemas de amor são cercados por bordas de animais, pássaros, cães, gatos e todos os tipos de flores e plantas em ouro abundante e desenhos delicados. A encadernação é em veludo cor vermelho, como apropriado à forma.
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Detalhe da página do manuscrito de Montchenu ilustrada na primeira fotografia desta postagem.James de Rothschild recebeu este manuscrito junto a uma enorme coleção de seu pai Henri de Rothschild, e doou-o para a Biblioteca Nacional da França.
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Detalhe de uma das bordas do manuscrito de Montchenu.–
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Casa de Smither Perrin, à Rua São Clemente, 1860
Assinatura: A. P.
Aquarela, guache sobre papel, 36 x 55 cm
Museu Imperial, Petrópolis
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Eduard Hildebrandt (Alemanha, 1817-1868)
aquarela e lápis sobre papel 36 x 25
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Gastão Cruls
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A cada passo, sempre que escrevemos sobre acontecimentos ocorridos no centro urbano, o nome da Rua do Ouvidor pinga-nos da pena. Na verdade, vem de longe o prestígio que essa rua assumiu na vida da cidade e não foi sem razão que ocorreu a Koseritz dizer que o Rio de Janeiro era o Brasil e a Rua do Ouvidor, o Rio de Janeiro.
Todavia, bem poucas artérias terão tido origens tão modestas. A princípio, simples Desvio do Mar, ângulo que fazia a rua Direita, foi por muito tempo apenas uma trilha por onde desciam os carros de bois vindos das freguesias de fora. De 1590 a 1600, chamou-se rua de Aleixo Manuel, um barbeiro português, que também se desdobrava em cirurgião. Assim mesmo, tal designação só pegava o percurso que se fazia da rua Direita à rua da Vala (Uruguaiana). O pequeno trecho que a continuava na parte de baixo, até a praia, era a rua da Cruz, da Santa Cruz ou da Vera Cruz, devido à capela aí inaugurada em 1628, no lugar em que existira um forte e onde está hoje a Igreja Santa Cruz dos Militares. Posteriormente, a partir de 1750, quando nele se inaugurou a Igreja da Lapa dos Mercadores, esse mesmo trecho também foi conhecido por Beco dos Mercadores, Beco da Capela e Beco da Carne Seca.
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Vista da Igreja de Santa Cruz dos Militares, RJ, s/d
Richard Bate (Inglaterra, 1775 — 1856)
aquarela
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Não tardou, também, que o nome de Aleixo Manuel caísse em esquecimento. É que naquele trato assim designado foi residir um sacerdote, e a rua passou a ser do Padre Homem da Costa. Houve tempo, porém, a partir de 1659, em que a distância entre Quitanda e Ourives foi sucessivamente rua do Gadelha, rua da Quitanda do Pedro da Costa e rua do Barbalho. Concomitantemente, à esquina com a rua Direita cabia denominação especial: Canto de Tomé Dias. Quanto à parte final, que de Uruguaiana vai ao Largo de S. Francisco, só logrou ser batizada depois que, em 1742, foi lançada nesse mesmo largo a pedra fundamental da Igreja da Sé. Era a rua da Sé Nova. E precisamos chegar ao último quartel do século XVIII para que toda a rua, desde o mar até aquele Largo, depois de ter passado por uma toponímia tão variada e fragmentada, se fixasse finalmente no nome que conserva ainda hoje, malgrado uma tentativa frustrada, em 1897, com que se procurou homenagear o Coronel Moreira César, tombado em Canudos. Foi rua do Ouvidor e ficou rua do Ouvidor porque em 1780 nela veio morar o ouvidor Francisco Berquó da Silveira.
Não tornaremos ao comércio de modas e de luxo que poucos anos após a trasladação da corte portuguesa para o Rio e subsequente imigração dos primeiros colonos franceses, pôs logo essa rua em situação de relevância entre as suas vizinhas e dela enxotou, de uma vez para todas, as últimas quitandas que lhe afeiavam o aspecto. Esse comércio de fausto e de elegância, já não só de modas mas dos melhores artigos de todos os gêneros, sempre muito bem valorizados nas suas vitrinas, levou Machado de Assis a chamá-la, muitos anos mais tarde, a “via dolorosa dos maridos pobres”.
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Renato Salles (Brasil, )
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Mas não foi só por esse lado que a rua do Ouvidor se distinguiu. Hotéis, confeitarias, cafés também a preferiram e isso muito lhe aumentou a frequência, tornando-a o ponto obrigatória da melhor sociedade carioca. Vários jornais escolheram-na para a sede das suas redações, a começar pelo velho Jornal do Comércio, o Diário do Rio de Janeiro, órgão dos conservadores, A Reforma, de Silveira da Mota, O País, fundado em 1884, e tendo à frente Rui, Quintino e Joaquim Serra, a Gazeta de Notícias, de Ferreira de Araújo, a Cidade do Rio, de José do Patrocínio, O Combate, de Pardal Mallet, Luís Murat e Manuel da Rocha, O Globo, também de Quintino, o Diário de Notícias, de Rui e Antônio de Azeredo, A Notícia, de Alcindo Guanabara e Glicério, O Século, de Medeiros e Albuquerque, e muitos outros, que fastidioso fora enumerar.
Tudo isso, excelente comércio, redação de jornais, escritórios de médicos, engenheiros e advogados, fez com que a estreita via pública, de manhã à noite, se enchesse de gente. Aliás, por ser assim estreita, e também longa, era um verdadeiro corredor, sempre sombreado, e onde, mesmo nos dias mais quentes, havia sempre algum ar a respirar. Por outro lado, desde 1867, ela gozou do privilégio, não concedido a nenhuma outra, de só ser trafegada por veículos e cavaleiros até as 9 horas da manhã. Daí por diante, era mesmo do povo, do pedestre, que nela podia andar à vontade, desatento, e desembaraçado. Andar, e também parar, para ver o que se apresentava nos mostruários, ou dar dois dedos de prosa com algum amigo ou conhecido, encontrados eventualmente. Daí, devido aquelas condições, os grupos que se formavam em plena rua, mesmo ao maior empino do sol. Estava-se ali como num salão. Havia senhoras que só se avistavam quando vinham ao cabeleireiro ou iam experimentar um par de sapatos no Fonseca. Outras que iam juntas ao Wallenstein e, depois, à Notre Dame, ou ao Grão Turco, e acabavam tomando sorvete na Deroche, no Castelões ou no Cailteau. Moças que vinham ao dentista e catavam os namorados pela porta das lojas ou dos cafés.
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Gustavo Dall’Ara (Itália, 1865 — Brasil, 1923)
óleo sobre tela, 117 x 98 cm
Museu Nacional de Belas Artes, RJ
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Já disse alguém que dois ingleses quando se encontram formam um clube. Entre nós, dois brasileiros, quando se juntavam, iam para um café. Falamos no passado, porque os cafés-expressos vão acabando com o hábito da gostosa conversa fiada que se fazia à volta das mesas do Café de Londres, do Java, do Café do Rio ou do Brito, e do Cascata. O Café de Londres era dos mais procurados e nele trocavam ideia Fagundes Varela, Luís Guimarães Júnior, Adelino Fontoura e Lopes Trovão. Conforme os gostos e as profissões, outros grupos eram certos nesse ou naquele ponto. À porta do joalheiro Farani, fornecedor da alta aristocracia rural, dos Breves, dos Roxo, dos Vargem-Alegre, discutiam políticos, entre os quais Abrantes, Paulino e Cotegipe eram dos mais assíduos. Já a Tipografia Leuzinger atraía os intelectuais estrangeiros, os Taunay, Debret, Grandjean e outros apenas de passagem, como o príncipe Maximiliano, Saint-Hilaire, Agassiz, Rochet. Quanto aos literatos, como era natural, pouco a pouco foram-se encaminhando para a Garnier, onde mais tarde, saindo do Ministério e antes de tomar o bonde para Laranjeiras, assinaria ponto Machado de Assis, cercado de José Veríssimo, Graça Aranha, Alberto de Oliveira, Bilac… Quase defronte ficava o Laemmert, menos visitado, mas que , em 1902, teve a honra de lançar Os Sertões, de Euclides da Cunha.
Ceatas depois do teatro, e nem sempre em boa companhia, sobretudo para os que saíam do Alcazar ou do Teatro Lírico Fluminense, que ficavam próximos, realizavam-se no Carceller que, já ao tempo de Pedro I, tinha entre os seus habituados a figura do Chalaça, Francisco Gomes da Silva, o indispensável onze-letras do Primeiro Imperador.
Uma estatística de 1862 informa que na rua do Ouvidor existiam 265 estabelecimentos comerciais, assim distribuídos de acordo com a nacionalidade dos seus donos: 91 franceses, 68 portugueses, 35 brasileiros, 4 suíços, 2 norte-americanos, 2 italianos, 1 alemão, 1 inglês e 1 espanhol.
Mas a rua do Ouvidor foi também rua residencial. Aí moraram José Clemente Pereira, Luís José de Carvalho e Melo, depois Visconde de Cachoeira, Gonçalves Ledo. No sobrado em que, ocupando a loja, desde 1870, está estabelecida a Casa América e China, no início do século morava um português, Francisco Saturnino da Veiga, com um colégio onde deve ter aprendido as primeiras letras seu filho Evaristo Ferreira da Veiga. Nesse mesmo sobradão, quando no seu andar térreo ficava a Confeitaria Carceller, nas dependências superiores moravam as irmãs Paracatu, mineiras que se recomendavam pelos seus deliciosos doces secos e em calda e pelas suas inigualáveis desmamadas.
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Vista do Rio de Janeiro, parte antiga, 1952
Sylvio Pinto (Brasil, 1918-1997)
óleo sobre tela, 38 x 30cm
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Não houve também acontecimento público de relevância em que a rua do Ouvidor não tomasse parte ativa, fosse festa ou revolta. Por ela passavam as procissões e as sociedades carnavalescas. Vibrou, em 1870, apinhada de gente, ao desfile da brigada do Coronel Francisco Pinheiro Guimarães, tornando dos campos do Paraguai. Formigou, de ponta a ponta, em apoteose a Osório, o herói do Tuiuti e Avaí, quando em 1877, vinha tomar posse de sua cadeira no Senado.
Mas teve também os seus dias de desalento e indignação, de diz-que-diz, ansioso e boataria alarmante, de motim e chinfrineira. A “Noite das Garrafadas”, a questão Christie, o “Imposto do Vintém”, certos malogros em Canudos, a revolta de Custódio…
Nela,na redação dos jornais, quer pelas suas colunas, quer nos discursos que se faziam das suas sacadas, antes de todos por Patrocínio, na Cidade do Rio, foi que se robusteceu, em grande parte, a campanha abolicionista. Nela, ainda nesses mesmos jornais, ou nas conversas de rua ou de café, encontrou bom eco a campanha republicana.
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Em: Aparência do Rio de Janeiro (Notícia histórica e descritiva da cidade), Gastão Cruls, Rio de Janeiro, José Olympio: 1949, 2º volume, pp 420-425. Prefácio de Gilberto Freyre, Desenhos de Luís Jardim.
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Jovem em lago congelado, Noruega, 1920
Axel Hjalmar Ender (Noruega, 1853-1920)
óleo sobre tela
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Enquanto escrevo esta postagem, acontece em Sochi o jogo final de hóquei entre Suécia e Canadá, momento em que as Olimpíadas de Inverno, realizadas este ano na Rússia, chegam ao fim. Tenho acompanhado, quando posso, as competições nas diversas categorias dos esportes de inverno. Ignorava a existência de muitas delas e tratei, dentro do possível, de compreender as regras dessas modalidades.
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Patinando no Central Park, 1865
Johann Mongels Culverhouse (Holanda, 1825- EUA, 1895)
óleo sobre tela
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À medida que diversos esportes se apresentavam na tela, percebi que as Olimpíadas de Inverno refletem mais do que esportes. Elas refletem a história de como, nós, humanos, conseguimos sobreviver em condições extremas, rodeados por uma natureza inóspita. Muitos dos esportes têm relacionamento direto à nossa sobrevivência. O Biatlo de inverno, por exemplo, remete à mobilidade na neve e à caça, duas atividades requeridas para a sobrevivência nas regiões geladas do planeta.
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Paisagem de inverno e alçapão, 1565
Pieter Bruegel (Holanda, 1526-1569)
óleo sobre madeira, 38 x 56 cm
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Enquanto os Jogos Olímpicos de verão estão ligados, em grande parte, ao treinamento de guerra da antiga Grécia, os de inverno estão mais próximos das atividades necessárias para a sobrevivência bem sucedida de inverno. Não conseguimos ignorar os extremos por que nossos antepassados passaram. Os esportes de inverno são descendentes diretos do que era necessário para uma sobrevivência dependente da incerteza, do augúrio diário do clima extremo. Enquanto observamos esquiadores descerem e subirem montanhas no cross-country, com sol ou com neve, a temperaturas desconfortáveis, para o corpo humano. Com eles podemos imaginar como nossos antepassados tiveram que conquistar terrenos cobertos de gelo e neve para obter o que era essencial até a chegada da primavera.
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Homem Samoiano [tribo da Sibéria] em roupas tradicionais, usando pele, carregando um rifle e um arco, sobre patins de gelo.
Escola alemã, século XVIII
Desenho a tintas sépia e preta, grafite, aquarela, 31 x 23 cm
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As Olimpíadas de Inverno, vistas dessa maneira, são um tributo à criatividade humana pela sobrevivência. São uma maneira, hoje festiva, de reverenciarmos aqueles que nos precederam e que fizeram a nossa existência, aqui, em 2014, possível.