O novo e velho mundos de Miguel Sousa Tavares

14 09 2008

Às vezes é necessário uma imagem para me ajudar a pensar sobre um assunto.  Há dois meses li o maravilhoso livro do autor português Miguel Sousa Tavares lançado no Brasil no primeiro semestre deste ano, pela Cia das Letras que leva o nome de Rio das Flores.  E já há algum tempo que queria escrever umas notas a respeito do livro mas não achava o foco.  Até que me deparei, na internet, com este trabalho em sépia de um autor que infelizmente desconheço representando dois meninos.  Imediatamente me lembrei dos irmãos Diogo e Pedro. 

 

Por casualidade, recentemente li outros livros cujos personagens centrais são pares de dois irmãos: A montanha e o rio, de Da Chen (Nova Fronteira) e Dois irmãos, de Milton Hatoum  (Cia das Letras), mas a imagem não me lembrou de nenhum deles exceto dos irmãos de Rio das Flores. 

 

Rio das Flores não desaponta.  É um livro tão bom quanto Equador. Para aqueles que temiam, como eu, ler o segundo livro de Miguel Sousa Tavares, receando que o resultado do novo romance não pudesse se comparar ao do primeiro, sosseguem.  Você vai gostar de Rio das Flores.  O bom escritor continua; sua mágica maneira de narrar persiste; e as referências históricas que tanto me haviam encantado em Equador, continuam tão boas quanto confiáveis.  

 

Em Rio das Flores acredito que Miguel Sousa Tavares tenha mostrado a grande divisão, a grande separação, no século XX, entre dois mundos lusófonos —  Portugal e Brasil.  Mas acredito também que o paralelismo entre Diogo e Pedro, caracteriza muito bem as forças que levam às grandes diferenças entre o Velho e o Novo Mundos.   Ambos os irmãos amam apaixonadamente a terra em que nasceram.  Mas enquanto Pedro não suporta deixá-la, Diogo enfastiado com a docilidade daqueles que aceitam o governo de Salazar, vai embora de Portugal e constrói uma nova, diferente, audaciosa vida no Brasil.  

 

Miguel Sousa Tavares

Miguel Sousa Tavares

 

Na primeira semana de setembro, quando ainda tive alguns momentos para reler certas passagens de Rio das Flores, fiquei convencida de que a visão de Miguel Sousa Tavares, como a interpreto, está correta.  Só mesmo na primeira metade do século XX, ao completarmos cem anos da nossa independência de Portugal, é que nós no Brasil, pudemos forjar uma identidade completamente brasileira.  Uma identidade baseada nas características daqueles que vieram viver em nosso seio, dos imigrantes de sociedades  em outros mundos, que não tinham espaço para sua população, que não tinham responsabilidade sobre aquela população e que estavam decerto à beira da falência cultural como as duas Grandes Guerras do século passado vieram a provar.  

 

Só mesmo no século XX, na primeira metade do século, nós brasileiros, viemos a aceitar todas as características do Novo Mundo,  jogando fora, pela janela, valores que nos haviam sido impingidos por uma cultura dominante.  Aceitamos, finalmente, os valores forjados pelos imigrantes que aqui chegaram, dispostos a jogar fora as regras e os valores das sociedades de onde vieram, para construir algo de novo, de sólido, alguma coisa melhor do que havia  nos países que deixaram.  

 

A leitura de Rio das Flores leva qualquer brasileiro a refletir sobre a história do país e do mundo na primeira metade do século passado.  A visão é mais complexa do que eu esperava, muito mais rica e também muito mais esperançosa.  

 





Escasseiam armas para os soldados paulistas. Revolução 1932

12 09 2008

 Os defensores da cosntituição.

 Os defensores da constituição.

 

10 de setembro de 1932

 

 

Voou sobre a cidade um avião da ditadura.  Mas não bombardeou.   Voaram depois aviões paulistas.

 

 

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Equipe da Cruz Vermelha, Itapira.

Equipe da Cruz Vermelha, Itapira.

 

11 de setembro de 1932

 

Dia calmo, sem grandes boatos.  Apenas grande número se nota de soldados que descansam.  Parece que há entre as tropas paulistas falta de armas e munições, agora em numero maior.  É difícil ver-se um fuzil metralhadora, e, mesmo os fuzis mauser, arma ordinária no exército, escasseiam.   Incrementam-se os batalhões de bombardas, lança-chamas e lança-minas.  Há grande quantidade de munições, no que se diz, para essas armas.

 

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Tropas Federais Gaúchas.

Tropas Federais Gaúchas.

 

 

 

Transcrição do Diário de Gessner Pompílio Pompêo de Barros (MT 1896 – RJ 1960), Itapetininga, SP, página 143-144 em referência à Revolução Constitucionalista de 1932.

 

 

 

 

 

 

Trincheira com tropas da ditadura, em Itapira.

Trincheira com tropas da ditadura, em Itapira.





Tropas parecem reanimadas! Revolução de 1932

10 09 2008
Luta travada em Cunha

Luta travada em Cunha

 

8 de setembro de 1932

 

Nada de extraordinário se registrou hoje.

 

 

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Avante São Paulo!

Avante São Paulo!

 

9 de setembro de 1932

 

Nota-se que as tropas se reanimam.  Consta que as forças ditatoriais não vêm mais atacar as paulistas que se acham postadas no rio das Almas (aquém de C. Bonito0 e em Ligiana (aquém de Buri).

 

 

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Hora do Rancho!

Hora do Rancho!

 

 

Transcrição do Diário de Gessner Pompílio Pompêo de Barros (MT 1896 – RJ 1960), Itapetininga, SP, página 143 em referência à Revolução Constitucionalista de 1932.

 

 

Certificado de Ex-combatente

Certificado de Ex-combatente





Grande esperança na revolta do Rio Grande, Revolução de 1932

8 09 2008

 

 

A herança dp heroismo, Fernã Dias Paes Leme, Tiradentes e o voluntário de 1932.
Cartaz: A herança do heroísmo, Fernão Dias Paes Leme, Tiradentes e o voluntário de 1932.

 

7 de setembro de 1932

 

 

A revolução paulista entra hoje no seu 60° dia.  Parada às dez horas da manhã.  Formatura de cerca de quase dois mil homens na cidade.  Reina animação entre os habitantes e nutre-se esperança de vitória, com o auxílio da revolução do Rio Grande.  Se não são boatos as notícias que os jornais publicam, há já vários municípios do Rio Grande rebelados contra o interventor federal daquele estado, rebelião essa chefiada pelos Srs. Borges de Medeiros e Raul Pila.

 

 

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Transcrição do Diário de Gessner Pompílio Pompêo de Barros (MT 1896 – RJ 1960), Itapetininga, SP, página 142 em referência à Revolução Constitucionalista de 1932.

 

 

Apresentação de armas dos voluntários na capital.

Apresentação de armas do exército voluntário na capital.

 





A Pátria. Não há 7 de setembro, sem este poema!

7 09 2008

Bandeira do Brasil, criação fotográfica de Culiculicz.

Retirado de:

http://flickr.com/photos/62759970@N00/167812480/

 

 

A PÁTRIA

Ama, com fé e orgulho, a terra em que nasceste!

Criança! não verás nenhum país como este!

Olha que céu! que mar! que rios! que floresta!

A Natureza, aqui, perpetuamente em festa,

É um seio de mãe a transbordar carinhos.

Vê que vida há no chão! vê que vida há nos ninhos,

Que se balançam no ar, entre os ramos inquietos!

Vê que luz, que calor, que multidão de insetos!

Vê que grande extensão de matas, onde impera

Fecunda e luminosa, a eterna primavera!

Boa terra! jamais negou a quem trabalha

O pão que mata a fome, o teto que agasalha…

Quem com seu suor a fecunda e umedece,

Vê pago o sue esforço, e é feliz, e enriquece!

Criança! não verás país nenhum como este:

Imita na grandeza a terra em que nasceste!

Olavo Bilac

Do livro:  Poesias Infantis, Olavo Bilac, Rio de Janeiro, Livraria Francisco Alves: 1949, 17a edição.

 

 





Um dos mais belos hinos… para comemorar o 7 de setembro

7 09 2008

MENINO COM BANDEIRA, 1980s

Marysia Portinari (Brasil, 1937)

Óleo sobre tela

Coleção particular

 

FIBRA DE HERÓI (Bandeira do Brasil)

Letra: Teófilo de Barros Filho
Música: Guerra Peixe
 
Se a Pátria querida
For envolvida pelo perigo,
Na paz ou na guerra
Defende a terra contra o inimigo.
Com ânimo forte,
Se for preciso, enfrenta a morte!
Afronta se lava
Com fibra de herói de gente brava.
 Bandeira do Brasil,
Ninguém te manchará;
Teu povo varonil
Isso não consentirá.
Bandeira idolatrada,
Altiva a tremular
Onde a liberdade
É mais uma estrela a brilhar.
 

 

 

 

 

 

NOTA DA PEREGRINA:

Na escola municipal em que fiz os meus primeiros anos escolares, cantávamos um hino, antes de começar as aulas, duas vezes por semana.  Em geral cantávamos o Hino Nacional para ficarmos “afiados” quando viesse a visita de alguma pessoa importante à escola, principalmente porque esta escola levava o nome de um país do Novo Mundo, e vez por outra, havia um adido cultural que vinha lá do consulado para nos prestigiar com sua presença.  [Pensando bem, acredito que isto se devesse ao esforço da diretora da escola].

De todos os hinos que cantávamos este era DE LONGE o preferido de todos.  Era o hino mais popular entre nós.  Hoje, quando penso nesta escola, agradeço à boa diretora que tivemos que exigia tanto esforço nosso e de seus professores.  D. Mercedes, muito obrigada!





7 de setembro — Dia da Independência do Brasil

7 09 2008

 

O Grito do Ipiranga, 1888

 

Pedro Américo (Brasil  1843- 1905)

 

óleo sobre tela,  7, 60 m x 4, 15 m

 

Salão Nobre

 

Museu Paulista, Universidade de São Paulo

 





À espera dos acontecimentos no Rio Grande, Rev. 1932

6 09 2008

Agitações politicas no Rio Grande do Sul.
Agitações políticas no Rio Grande do Sul.

 

6 de setembro de 1932

 

 

A cidade esteve calma.  Nota-se porem que todos anseiam pela revolução do Rio Grande.  As vistas de todos se voltam para lá, na esperança de um auxílio indireto do povo gaúcho, o qual, conforme notícias de jornais, está se revoltando, a lado de São Paulo.  

 

 

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Transcrição do Diário de Gessner Pompílio Pompêo de Barros (MT 1896 – RJ 1960), Itapetininga, SP, página 142 em referência à Revolução Constitucionalista de 1932.

 

As crianças se agitam em toda parte do estado.

As crianças se agitam em toda parte do estado.





MINHA TERRA, poesia para 3a série, Semana da Pátria

5 09 2008

 

Índio brasileiro.

Índio brasileiro.

 

MINHA TERRA

 

 

D. Aquino Correia

 

 

Minha terra é Pindorama

de palmares sempre em flor:

quem os viu e não os ama,

não tem alma nem amor.

 

Santa Cruz é minha terra,

terra santa cá do sul:

seu pendão a cruz encerra,

tem a cruz no céu azul.

 

Deus num último batismo

meu país Brasil chamou;

se me abrasa o patriotismo,

brasileiro então eu sou.

 

Eis os nomes que assinalam

minha terra sempre em flor:

são três nomes que me falam

de beleza, fé e amor.

 

Pindorama!  és meu encanto!

Santa Cruz!  és minha fé!

O’ Brasil!  Eu te amo tanto,

que por ti morrera até.

 

 

VOCABULÁRIO:

 

Pindorama – terra das palmeiras, nome dado ao Brasil pelos índios.

 

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D. Francisco Aquino Correia ( Cuiabá, MT 1885 – São Paulo – 1956)  arcebispo de Cuiabá.

 

 

Do livro:

 

Vamos estudar?: 3a série primária, Theobaldo Miranda Santos, Rio de Janeiro,  Agir: 1961. 12a edição. [Edição especial para os Estados de Goiás e Mato Grosso].

 

 





“Precisamos vencer!” — Revolução de 1932

5 09 2008
Principais operações aéreas governistas contra a baixada santista em 32

Principais operações aéreas governistas contra a baixada santista em 32

 

5 de setembro de 1932

 

Nos dias anteriores nada houve  de extraordinário.  Começam a alastrar-se notícias da revolução no Rio Grande.  Essas notícias, propaladas talvez com exageros, vieram encorajar as forças paulistas que já se iam esmorecendo e se desesperançando da vitória.

 

É notável um traço psicológico no soldado paulista nato: ele não crê, agora, piamente na vitória das armas, mas, julga que, apesar da derrota provável, deve continuar a revolução ainda que essa revolução seja uma perene perturbação da ordem!    O orgulho paulista é que está mantendo elevado, o moral das nossas tropas.  E esse orgulho é tanto que o paulista, talvez, depois de sua derrota no campo de luta, não se sinta vencido e pretenda hostilizar perenemente os representantes da ditadura que por ventura venham para assumir postos de direção em São Paulo.  

 

Não deve existir na História exemplo de maior disposição para a guerra.

 

Admirável:  o soldado paulista sabe que tem maior n°, mas sabe também que o adversário tem melhores armas e maior munição;  entretanto, o soldado paulista vai para a trincheira só com uma frase nos lábios: precisamos vencer!

 

 

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Nota paulistade 5000 réis.

Nota paulistade 5000 réis.

 

Nota paulista de 10.000 réis.

Nota paulista de 10.000 réis.

 

 

Nota paulista de 20.000 réis.

Nota paulista de 20.000 réis.

 

Transcrição do Diário de Gessner Pompílio Pompêo de Barros (MT 1896 – RJ 1960), Itapetininga, SP, página 140,-141 em referência à Revolução Constitucionalista de 1932.

 

Voluntário Paulista na Revolução Constitucionalista

Voluntário Paulista na Revolução Constitucionalista