Patrimônio Cultural da Humanidade: Tipasa, Argélia

16 09 2014

 

 

tipasa_algeria

 

 

Argélia

 

Tipasa

 

Tipasa é um dos mais extraordinários complexos arqueológicos do Norte da África, talvez o mais importante para o estudo dos contatos das civilizações ao longo do Mediterrâneo tendo sido colonizada desde o século VI aEC ao século VI da nossa era. Localizada a 70 km a oeste de Argel, foi um posto de comércio de Cartago, e mais tarde foi um porto de prestígio do Império Romano, a partir do século III da nossa era. Nem mesmo a invasão dos Vândalos em 430 acabou com a prosperidade do local, só depois da reconquista da cidade pelos Bizantinos, em 531 que a cidade entrou em declínio até o final do século seguinte.





Arsène Lupin nos Salões cariocas na primeira metade do século XX

8 09 2014

 

1930Cartaz para a opereta em 3 atos, Arsène Lupin, o banqueiro, 1930.

 

Os primeiros anos da minha adolescência, dos 12 aos 14,  foram preenchidos por muitas leituras detetivescas.  Era a leitura mais leve que eu encontrava na biblioteca municipal do meu bairro.  Mesmo não tendo livros muito novos, recém-saídos da editoras, essa biblioteca me ajudou a preencher muitos fins de semana pós praia, muitos dias de férias quer no Rio de Janeiro ou na Serra.  Assim li todos os livros que pude dos mais famosos detetives de Sherlock Holmes, a Hercule Poirot, a Charlie Chan e sem dúvida Arsène Lupin Todos, cada qual a seu modo, foram personagens queridos.  Qual não é a minha surpresa ao ler A vida literária no Brasil, 1900 e descobrir que, por aqui,  Arsène Lupin foi muito popular logo no início do século.  A passagem abaixo, sobre os Salões no Rio de Janeiro de então, dá uma ideia.

 

“Mais mundanos que literários seriam os salões de Sampaio Araújo, na rua Voluntários da Pátria, e o do casal Azeredo, na praia de Botafogo. Não raro via-se ali Caruso ao lado de um poeta estreante; um cronista conversando com figurões da política ou milionários banqueiros, gente da alta finança. Na seção “Cinematógrafo”, de Joe, na Gazeta de Notícias, aparece constantemente o nome de madame Gomensoro, que possuía igualmente um salão, onde procurava oferecer novidades e surpresas aos convivas. Era, às vezes, uma orquestra típica; outras um artista original que ela ia descobrir para dar a nota de sensação da noitada. E muitos escritores consentiam, prazerosamente, em repetir ali as conferências que haviam pronunciado por um vasto auditório a 2$500 (dois mil e quinhentos réis) a cabeça.

Que se conversava, de preferência, em tais ambientes? Antes de tudo, as novidades parisienses, depois o último romance de Anatole France, o fracasso do Chantecler, de Rostand, a peça mais recente de Bataille, etc.

As temporadas francesas tinham grande repercussão nos salões. E quando André Brulé apareceu pela primeira vez no palco do Municipal, encarnando com a mesma desenvoltura o herói de L’enfant de l’amour e o papel de Arsène Lupin, o gentilhomme cambrioleur, conquistou de chofre a simpatia e o culto do alto mundanismo carioca. Nos salões discutia-se o talhe de suas famosas casacas, a elegância insuperável de seus gestos e a dicção macia com que procurava cinzelar as palavras. Lá esteve Brulé, uma noite, no palacete da sra. Santos Lobo, a ouvir a leitura de Roberto Gomes, Berenice, feita pelo próprio autor, na versão francesa.”

 

Em: A vida literária no Brasil 1900, Brito Broca, Rio de Janeiro, José Olympio:2005, 5ª edição, pp: 61-62

 

NOTA: A pedidos de leitores, procurei colocar todos os links sobre escritores, personagens e locais, para facilitar a expansão do conhecimento e dar peso à leitura. Mas é extremamente trabalhoso, para cada nome colocar o link necessário. Vou tentar continuar a prática, mas confesso que meu tempo é escasso. A pesquisa na internet é rápida. Se o leitor estiver realmente interessado, um breve digitar deve trazer a informação necessária.  Entendo que a GRANDE  maioria dos meus leitores — professores — está no interior do Brasil e muitos não têm o acesso fácil e rápido à internet de que desfruto. Mas nem sempre poderei prover estes links.  Minhas desculpas.





7 de setembro, Dia da Independência!

7 09 2014

 

 

Aldemir Martins,Independência (óleo sobre tela, 122x103 cm)Independência, s.d.

Aldemir Martins (Brasil, 1922-2006)

óleo sobre tela, 122 x 103cm

 

7 de setembro, Independência do Brasil!





Em três dimensões: Epígonus de Pérgamo (?)

5 09 2014

 

 

O gaulês morrendoO gálata à morte ou O gálata morrendo, século I ou II EC

Atribuída a Epígonus de Pérgamo (ativo no séc. III aEC)

Cópia romana de escultura grega,

Mármore

Superintendência Capitolina

Museus Capitolinos, Roma

 

Esta escultura comemora a vitória de Átalo I, governante e mais tarde rei de Pérgamo, sobre os gálatas que haviam invadido a Ásia Menor por volta de 230 aEC.

 





O papel das mulheres no século XII

2 09 2014

 

 

CodexManesse-1305-40-ManinBasket -- a medieval illumination from the Codex Manness, c. 1304- c 1340Mulher elevando o namorado na cesta até seus aposentos, Codex Manness, c. 1304- c 1340

 

 

Na sala de aula é comum vermos a imaginação das jovens se incendiar quando imagens de belas senhoras ou senhoritas, vestidas como princesas são projetadas na tela para esclarecimento de pontos históricos em um programa de iluminuras medievais.  Realmente há ocasiões em que as roupas parecem maravilhosas, e as festas na cortes coloridas, não se desbotam mesmo passados mais de cinco, seis, sete, séculos.  No entanto a cabeça de quem vive no século XXI tem dificuldade de entender tudo o que era esperado de uma mulher… além é claro de tudo que lhe era proibido na idade média.   Para entender esse período precisamos ler muito. A pesquisa sobre o comportamento social das “pessoas invisíveis” durante a idade média só foi levada a sério na segunda metade do século XX.  Pessoas invisíveis são todas aquelas que não lideraram um território geográfico, que não foram nobreza nem clero de importância, que não foram pensadores.  São as pessoas comuns, mercadores, comerciantes, trabalhadores, homens e mulheres.  Essas últimas só mesmo as mais importantes tiveram ocasião de serem lembradas. Assim, a pesquisa sobre o comportamento desses invisíveis requer muito lida em documentos de difícil acesso  e de difícil leitura.  Mas historiadores europeus, principalmente franceses, deram um grande empurrão nesses conhecimentos.  Hoje sabemos muito mais da textura social na idade média.  O parágrafo que segue é ilustrativo do que era esperado do comportamento de uma mulher na corte, desde a adolescência até viuvez.

 

“No século XII, padres e guerreiros esperavam da dama que, depois de ter sido filha dócil, esposa clemente, mãe fecunda, ela fornecesse em sua velhice, pelo fervor de sua piedade e pelo rigor de suas renúncias, algum bafio de santidade à casa que a acolhera. Era o dom último que ela oferecia a esse homem que a deflorara bem jovem, que se abrandara em seus braços, cuja piedade se reavivara com a sua e que depositara numerosas vezes em seu seio o germe dos rapazes que mais tarde, na viuvez, o apoiaram e que ela ajudaria com seus conselhos a conduzirem-se melhor. Dominada, por certo. Entretanto, que se tranquilizavam clamando bem alto sua superioridade nativa, que a julgavam contudo capaz de curar os corpos, de salvar as almas, e que se entregavam nas mãos das mulheres para que seus despojos carnais depois de seu ultimo suspiro fossem convenientemente preparados e sua memória fielmente conservada pelos século dos séculos”. 

 

Em: As damas do século XII, Georges Duby, São Paulo, Companhia das Letras: 2013, p. 248.





Esmerado: brazeiro para perfumes, século XII

26 08 2014

 

 

Perfume brazier, 12th century, San Marco, Venice; © Procuratoria della Basilica di San Marco, Venezia

Brazeiro para perfumes, século XII

Possivelmente de Constantinopla

Igreja de San Marco, Veneza

© Procuratoria della Basilica di San Marco, Venezia





Ormuz, o início da viagem de Marco Polo

23 08 2014

 

 

 

Marco Polo at the gates of Hormuz City(maybe) Livres des Merveilles, Snark, Bibliotheque NationaleMarco Polo às portas da Cidade de Ormuz [há dúvidas sobre essa identificação].Livres des Merveilles, Snark, Bibliothèque Nationale, Paris

 

Há dois anos leio de vez em quando uma passagem do livro Marco Polo: de Veneza a Xanadu, Laurence Bergreen.  Isso depois de já ter lido o livro inteiro.  Na primeira leitura fui marcando as cidades pelas quais passava Marco Polo. [Quem lá na companhia americana 3M inventou as Post-it notes ™, na minha opinião tem entrada garantida no céu…  Que delícia poder marcar um livro todo sem desfigurá-lo!] Bem, fui marcando cada passo da viagem de Marco Polo, para procurar na internet o que se sabe desses locais e se existem construções da época [século XIII].  Sei que isso pode parecer coisa de quem não tem o que fazer, e provavelmente é.  Mas para quem gosta de história isso é uma fonte incrível de entretenimento, muito mais atraente do que grande parte dos programas de televisão, do que muito romance na lista dos mais vendidos.  Com um pouquinho de informação, com o Google Maps, e fotos, com acesso a bibliotecas inteiras na rede, a imaginação se solta e com tempo e tenacidade preencho muitos dos espaços que desapareceram apagados pelas pegadas de invasões, guerras, pestes, e todo tipo de calamidade que já nos atingiu e continuará atingindo. Há muito pouca informação segura ainda sobre esses locais, principalmente em regiões como a Pérsia (maior parte do Irã hoje) que se encontra em grande turbulência faz muito tempo.  Sítios arqueológicos nem sempre permaneceram abertos através dos diversos confrontos bélicos e corremos o risco de perder muito do que ainda poderia ser resgatado. Mesmo assim essa viagem eletrônica pelo mundo de Marco Polo tem sido fascinante.

 

640px-Braun_Hormus_UBHDOrmus” (Braun e Hogenberg. “Civitates Orbis Terrarum“, 1572)

 

Ormuz é um dos locais — visitado por Marco Polo no início de sua viagem — que encontra numerosas referências na rede.  Tem mais: muitas dessas referências são em português.  Isso porque os portugueses estiveram por lá em 1507, dominaram a cidade, e tentaram construir o Forte de Nossa Senhora da Vitória, mas foram surpreendidos pela deserção de três capitães.  Os portugueses tentavam colocar o cabresto no comércio internacional que obrigatoriamente passava por essa ilha na entrada do Golfo Pérsico. Mas  inicialmente não foram bem sucedidos.  Só em 1515, Afonso de Albuquerque, já governador da Índia, estabeleceu a suserania de Ormuz submetida ao governo da Índia.  A Ormuz que atraía os portugueses não era mais aquela visitada por Marco Polo, pois os portugueses estiveram por lá trezentos anos depois da viagem do mercador italiano, mas desde o período medieval que o local era de grande importância para o comércio de produtos exóticos vindos do Oriente.

[À parte: toda vez que leio sobre as explorações portuguesas na Era dos Descobrimentos sinto profunda admiração pelos homens que se atreveram a explorar o desconhecido. Na Era  dos Descobrimentos, a população de toda a Europa é estimada em 60 milhões e a população total de Portugal entre 1400 e 1500 é estimada em um milhão de pessoas.  Um país tão pequenino, com uma população ínfima [1/60 de toda a Europa] que se jogava em frágeis embarcações, sair pelo mundo, conquistando, brigando, construindo, lutando, guerreando, tendo o atrevimento de desbancar governos locais, já estabelecidos, tem algo de mágico, do mitológico, do conhecido enredo do arquétipo do “pequeno contra o gigante”, que me comove.  Os obstáculos eram enormes, as dificuldades aterrorizantes, as doenças intermitentes, o desconhecido era abismal e assim mesmo, espada em punho, foram aos muitos cantos do mundo. É muito impressionante.] Para ter uma ideia dos perigos enfrentados em Ormuz, pelo viajante no século XIII,  fica aqui abaixo uma citação do livro de Laurence Bergreen, com citações diretas da descrição original de Marco Polo.

 

MARCO_POLO_DE_VENEZA_A_XANADU_1250679902P

 

Para o grupo de viajantes, a visão de tanta água após passarem meses no deserto os fez recordar Veneza e o Mar Adriático, porém, observando-a melhor, Ormuz não era exatamente a joia que tinham  avistado de longe. Em primeiro lugar, “se um mercador aqui morre, o rei confisca todos os seus bens”.  O clima também trazia riscos aos viajantes desprevenidos. O vento do deserto circundante podia ser “tão sufocantemente quente que seria mortal se, tão logo percebessem sua chegada, os homens não mergulhassem na água até o pescoço para escapar do calor”.

Enquanto estiveram em Ormuz, Marco ficou horrorizado ao saber que o vento mortal apanhara de surpresa  pelo menos 6 mil soldados (5 mil a pé, o restante a cavalo) no deserto e sufocara “todos eles, de sorte que ninguém sobreviveu para levar a notícia ao senhor”. Com o tempo, os “homens de Ormuz”, souberam da morte em massa e decidiram enterrar os corpos para evitar infecções, mas “quando os suspenderam pelos braços para levá-los às covas, eles [os cadáveres] estavam tão ressecados pelo calor que os braços caíram do tronco, de forma que eles [os homens] tiveram que fazer as covas ao lado dos cadáveres e empurrá-los.”

 

Em: Marco Polo: de Veneza a Xanadu, Laurence Bergreen, tradução Cristina Cavalcanti, Rio de Janeiro, Objetiva: 2009, pp 68-69.

 





Em três dimensões: Donatello

19 08 2014

GattamelataEstátua equestre de Gattamelata, 1453

[Condottiero Erasmo da Narni]

Donatello (Florença, c. 1386 – 1466)

Bronze

Piazza del Santo, Pádua

 

 





A chegada da família real, texto de Paulo Setúbal

18 08 2014

 

 

Família real (chegada)2A chegada da família real a Salvador, 1952

Cândido Portinari (Brasil, 1903-1962)

Óleo sobre tela

Pinacoteca da Associação Comercial da Bahia.

 

“O bergantim real, alcatifado de coxins de veludo, com o seu belo toldo de damasco franjado, atracou debaixo do mais quente ribombo de festa. O povo espremia-se no cais. Milhares de espectadores, com avidez mordente, o coração aos saltos, contemplavam, fascinados, a embarcação garrida. Tudo queria “ver o rei”. O Conde dos Arcos, que então governava o Brasil, correu a abrir a portinhola: e do bergantim, muito ataviada de garridices, desceu lustrosamente a família real. Era D. João VI em grande gala. Era D. Carlota Joaquina, com seu fuzilante diadema de predarias. D. Pedro, o herdeiro do trono, principezinho de nove anos, muito vivo, os cabelos crespos e negros, saltou acompanhado de Frei Antônio de Arrábida, o preceptor. Seguia-o o irmão mais moço, o infante D. Miguel, todo de veludo, calças compridas, o gorro apresilhado por um fúlgido broche de pedras. As princesas vinham enfeitadas com primor. Muito lindas. Vestiam sedas dum azul pálido, enevoadas de arminho, com grandes diamantes nas orelhas e altos trepa-moleques nos cabelos. Viera, também, galhardo e belo, um moço arrogante, muito simpático, olhos romanticamente verdes: era o Senhor D. Pedro Carlos de Bourbon e Bragança, infante da Espanha, sobrinho dos regentes.

No cais, fora armado um altar. D. João e D. Carlota, seguidos pelo príncipe e pelos infantes, ajoelharam-se diante dele. O chantre da Sé tomou da água benta e aspergiu ritualmente os reais hóspedes. Tomou do turíbulo de prata e incensou-os  por três vezes. D. João, com fervorosa compungência, caiu então por terra: beijou o Santo Lenho. A corte, prosternando-se, acompanhou-o no beijo tradicional. Depois, ao longo do cais, formou-se um séquito de honra. Lá ia a bandeira, lá ia a cruz, lá iam os nobres, lá ia o clero, lá ia a gente da terra. No meio das alas, carregado pelo Senado da Câmara, franjado de ouro, rutilando ao sol, um imenso pálio de seda: e, debaixo dele, com os seus atavios carnavalescamente vistosos, a deslumbrar a colônia, toda a família real.”

 

Em: As maluquices do Imperador, Paulo Setúbal, São Paulo, Clube do Livro: 1947, pp: 14-15.





Patrimônio Cultural da Humanidade: Colônia del Sacramento

14 08 2014

 

 

In Uruguay - Colonia del Sacramento

 

Uruguai:

Bairro histórico da cidade de  Colônia do Sacramento

 

Colônia del Sacramento foi fundada por portugueses em 1680, que aproveitaram a posição estratégica do local para montar um ponto de defesa na margem norte do Rio da Prata, de frente para Buenos Aires. Este é o único exemplo de planejamento urbano que não segue as regras espanholas de ruas paralelas e cruzadas, impostas pelas “Leis das Índias”. Ao invés disso a cidade tem ruas que seguem a topografia do terreno, ainda que dependente de sua função militar. Os prédios modestos em dimensão e aparência mostram a fusão de tradições portuguesas e espanholas nos métodos de construção.